
Acabo de assistir ao Roda Viva em que foi o Mano Brown, líder dos Racionais. Como até minha quase centenária avó sabe, o quarteto periférico quase não aparece na mídia, não faz questão de aparecer e, quando aparece, o faz pela Cultura. Os Racionais já apareceram no Ensaio e o Brown, quando muito, já foi entrevistado no Grandes Momentos do Esporte para falar sobre o Santos.
Pois bem, convenhamos que arrastar o Brown para a cova dos leões midiáticos é daquelas coisas mais difíceis do que achar um filho de prostituta chamado Júnior. E o que fizeram? Perguntinhas bem água-com-açúcar, que até o entrevistado se surpreendeu, lembrando que já assistiu a edições em que convidados foram mais provocados. E não faltariam coisas mais interessantes a se perguntar para o Brown. Não faltariam também motivos para pôr o entrevistado contra as cordas. Listo alguns:
1) Os tempos em que víamos o que alguns consideravam como racismo reativo por parte dos Racionais. Tudo bem que foi há mais de uma década, mas até hoje, o Maluf “estupra mas não mata” e o Gérson continua sendo visto como quem leva vantagem em tudo.
2) Falar sobre o que ele acha do ethos multiétnico e de muitas pessoas o assumirem sem problema algum suas várias ancestralidades sem quererem se ver como negro mesmo que outros queiram induzi-los a tal. Em uma das canções dos Racionais, falam sobre mulheres afrodescendentes usando o termo “mulata” como profissão, sendo que há pessoas que usam “mulato” como um termo até de auto-estima. Muitos acham que “mulato(a)” vem de “mula”, mas estudiosos espanhóis e mesmo árabes registram a origem da palavra vindo do árabe muwallad, que simplesmente significa “pessoa de ancestralidade mista”, originalmente termo usado durante os califados ibéricos para definir o filho de um árabe e uma local. Logo, em tese, um ítalo-ibérico como eu ou uma teuto-luso-árabe como minha amiga Patrícia Köhler somos mulatos, no sentido estrito do idioma de Avicena.
3) Falar sobre a surpreendente variabilidade genética de personalidades afrodescendentes famosas. Vide Neguinho da Beija-flor e seus 67% de genes caucasianos.
4) Perguntar sobre os experimentalismos em Nada como um Dia após o Outro, em que vemos ligeiros flertes com o gangsta rap, além de um rap mais fluido e cantado mais rápido (outra coisa mais típica de EUA), também uma ligeira insinuação bling (“eu quero a minha cota em dólar”, “chegar de Honda preto com bancos de couro”, “Imagina nós de Audi ou de Citroën”). Aliás, não é incomum o terceiro disco de uma banda ser experimental. Com Jamiroquai houve coisa parecida.
Pois bem, não foi o que vimos. Apenas vimos o pessoal passear sobre temas mais que manjados para o próprio Brown. Pareciam dizer “Caramuru, Caramuru” para o rapper mais importante do País. OK, antes que alguns digam que estou sendo duro com pessoas que nem jornalistas são (afinal, havia não-jornalistas na composição da banca), lembremos que quem faz o Roda Viva nos bastidores são os jornalistas. São eles que compõem a banca e escolhem os convidados. Hoje mesmo, no frila que faço no Agora São Paulo, ouvia companheiros de jornada falando que a composição da banca estava fraquinha. Sugeriram até mesmo que se convidasse o Reinaldo Azevedo. Quem já assistiu a edições do programa com o hoje colunista da Veja sabe que ele estava em uma fase áurea e ele chegou a falar uma legal para um cara que via o mulato (sentido brasileiro da palavra) apenas pelo lado africano da ancestralidade. E falo isso independente de ele ser direitista daqueles, mas sim porque estava em uma fase boa enquanto jornalista que capta um lance do entrevistado e imediatamente rebate uma bem dada que joga o cara nas cordas (o famoso “mas veja bem…”).
Não chegaria a um extremo, pois talvez o próprio Brown tenha imposto condições, mas que aquela banca merecia ser melhor composta, ah, isso merecia. Perdeu o telespectador. Não duvido que até aqueles que amam o Brown de paixão tenham saído da frente da TV, ido fazer um café, voltado e tido uma sensação parecida àquela de alguém que vê um jogo de futebol pela TV daqueles bem xoxos.





3 comments
Comments feed for this article
Quarta-feira, 26 Setembro, 2007 às 4:28 pm
Tarsis
Vo user muito sincero, não vi a entrevista.
Não acho que o Mano Brown seja interessante a ponto de valer para para ouvir o que ele tem a dizer.
Francamente a postura do RAP me incomoda, acho que essa coisas de “ai mano, sou da paz e quem não for da paz também vai levá bála…”, me incomoda.
Parece que os caras se acham os certos e estão sempre na defensiva, sempre sobressaltados. Talvez seja isso mesmo. Nada contra a periferia, o problema é também não consigo ver nada a favor.
Não é desculpa, nem justificativa, mas eu cresci na periferia da ZL de SP e não me ufano. Sempre quis sair dali. Queria que aquela periferia feia, suja e desagradável se transformasse, porque cá pra nós, é uma merda ser pobre – no Brasil – principalmente.
E se o RAP funciona como elemento educador (e transformador), acho ótimo. Mas não é só isso. E as pessoas não deviam ter a periferia como referência de grandeza, ou pelo menos não a pobreza.
Enfim…
T§
Mas chegou ao menos ouvir falar que o Mano Brown nadou de braçada sobre aqueles entrevistadores fraquinhos?
Sábado, 12 Janeiro, 2008 às 9:45 am
Pablo
Vou pegar a foto valeu?
Também achei a entrevista fraquinha, amo o brown e queria ver ele pedir penico, mas fazer o que se nós não temos jornalistas tão bons quanto rappers no racionais! hehehe
Devia perguntar pro brown o que ele acha do luxo, o que é luxo, como fazer para mudar a desigualdade, se ele tem propostas sociais, se ele participaria de alguma forma de governo por ter algum conhecimento socialmente relevante, etc…
Se quiser que tire avisa! abraço e sorte!
Sexta-Feira, 14 Novembro, 2008 às 7:49 pm
ednaldo
os so da lokos