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Hoje tive a surpresa de ver mais um comentário positivo sobre o blog e gostaria que também lessem a postagem do Pedro Serra, que foi dos primeiros a captar o espírito da coisa e, pelo visto, está tão cansado de oleitorismo quanto eu e outros. Ontem foi o dia de maior audiência do blog, com 153 visitas. Só hoje, quando escrevo esta postagem, já vi que são mais de cem visitas, o que não é pouco.
Continuo aqui torcendo para que outros jornalistas se indignem com o tratamento que nossa base de leitores vem tendo da média da imprensa brasileira. E que aqueles que não são jornalistas, mas lêem continuamente o que a mídia produz, também se mexam um pouco para que produzam textos de melhor qualidade e sem a pretensão de fornecerem a fórmula da Coca-cola para quem fixa os olhos em suas linhas.
Ontem estava conversando com um taxista e calhou de ele falar sobre a Copa de 2014. Entre as coisas que ele estava falando, é a necessidade de um número grande de vagas de estacionamento específicas para a imprensa em cada estádio. Se não me engano a Fifa exige umas 3 mil vagas em cada estádio e por aí vai. Se alguém souber mais dessas exigências, corrija-me onde for necessário.
Não é preciso dizer que irão fetichizar a construção de estádios em um país já lotado deles. E, claro, muita gente vai querer essa boquinha, teremos denúncias de corrupção e por aí vai. Porém, como o foco deste blog é a maneira como o leitor é tratado, passemos à outra parte do riscado.
Vai ser o primeiro evento de grande monta no Brasil cuja audiência mundial passará dos bilhões de habitantes (e bota bilhão nisso, se pensarmos em um aumento populacional até o ano do Mundial). É também bem possível que seja a ocasião em que teremos mais jornalistas estrangeiros por aqui.
O mesmo taxista falava comigo sobre o Brasil que saiu daquela Copa, que não foi o mesmo Brasil de antes da Copa. Claro que os anos 50 também tiveram muitas outras coisas, mas talvez aquela tenha sido uma das primeiras sementes. E isso porque foi antes mesmo do segundo mandato getulista e seis anos antes de Juscelino subir ao poder.

Mudando o foco, vai ser também oportunidade de um belíssimo intercâmbio entre jornalistas do mundo inteiro. Como jornalista que sou, a frase de que jornalista anda em grupo é mais verdadeira do que nunca. Penso se ao virem para cá jornalistas de nações cujas escolas de imprensa repudiam totalmente os nossos tão comuns “o leitor não vai entender” e “você precisa presumir que o leitor não saiba nada sobre determinado assunto” e outras sentenças já manjadas, não haverá uma centelha para acabarmos com o oleitorismo no Brasil. Afinal, por aqui, quer queiramos ou não, jornalismo esportivo é espelho para outros ramos.
Vale lembrar que chegaremos daqui a sete anos com no mínimo umas três publicações mais recentes que são versões nacionais de sucessos no exterior. Uma delas já é sucesso (a Rolling Stone) e talvez as outras triunfem sobre as nacionais que insistiram em subestimar a capacidade do leitor. Porém, isso só será pouco em relação aos 30 dias que balançarão a roseira da imprensa.
Teremos um triunfo forte contra a imprensa que subestima a capacidade do leitor?
Fico pensando aqui sobre os vários almoços e jantares juntos entre jornalistas brasileiros e estrangeiros. As várias trocas de materiais de imprensa. As baladas e por aí vai. Arrisco-me a dizer que uma forte fonte de influência será o jornalismo inglês, que tem como marcas fortes momentos de humor tipicamente inglês. Talvez o americano vá ter alguma influência, mas acho menor. O jornalismo espanhol, creio, vá dar um plá forte, pois surpreende ver que por lá há uma imprensa mais solta, ousada e que não subestima a capacidade do leitor.
Claro que há também a possibilidade de tudo continuar do jeito que está, mas paremos para lembrar que a maioria dos jornalistas que cobrirão a Copa serão estrangeiros. E muitas vezes o olhar do estrangeiro é mais certeiro que o dos locais que estão tão acostumados a verem “o leitor isso” e “o leitor aquilo”…
Antes de tudo, pedirei que leiam este texto. Prestem atenção à seguinte frase:
Um dos problemas de nós, jornalistas, é que vivemos muito no meio de jornalistas.
Sim, Gilberto Dimenstein talvez tenha tocado em uma ferida interessante: nós jornalistas estamos escrevendo textos para outros jornalistas, que crêem que quem os lerá é completamente desprovido de inteligência, 100% alienado e capaz de continuamente tentar absurdos como lamber o próprio cotovelo.
OK, ele quis na realidade falar sobre o noticiário de política, que está enfadonho e falando de coisas que ainda serão, como a sucessão presidencial em 2010. Porém, também penso aqui se o fato de vivermos muito no meio de jornalistas é um causador de “o leitor não sabe dessas coisas” e assemelhados.
É também de se perguntar a obsessão do jornalista em achar que possui em suas mãos todo o conhecimento e de que todo leitor é alienado e incapaz de pesquisar, tendo de ser obrigatoriamente informado sobre tudo. Estaríamos nós em nossas matérias gerando preguiça em quem as lê e está fora da redação? Afinal, em alguns casos só falta dizer algo como “quando o parafuso é virado para a direita, ele aperta, mas quando virado para a esquerda, ele afrouxa”. E nos perdemos nesses explicacionismos.
Há outro parágrafo desse artigo que muito me interessa:
Tenho visto jovens, muitas vezes acusados de alienados, despertarem rapidamente para o debate sobre coisas públicas quando a política se traduz em seu cotidiano, trazida de forma apropriada para sala de aula.
É de se perguntar se os tais jovens alienados na realidade estão nesse torpor pelo fato de os textos estarem bastante enfadonhos por estarem na base de “o leitor não isso”, “o leitor não aquilo”, sendo que o leitor sim isso e aquilo e que os tais idiotas na realidade são um grupo pequeno, mas barulhento que, por ser barulhento, acaba parecendo maior do que realmente é. Estamos com a história de que a leitura prazerosa só pode ser feita pelos escolhidos, leia-se aí gente de altíssima escolaridade, que mora em um bairro nobre e por aí vai. Porém, todos, independente de quem são, querem ser envolvidos por um bom texto. Esqueceram-se de falar para esse todo que eles são “o leitor” e que, portanto, não podem exigir nada além de textos que tenham a pretensão de informarem a extraterrestres que acabaram de chegar à Terra sobre como é o planeta.
Chega a ser engraçado ver que os mesmos que nossa imprensa diz não se interessarem por nada e que por isso têm de ser guiados pela mãozinha acompanharem com tanta atenção o cinema e a teledramaturgia. E por que isso? Se virmos a nova safra dos filmes brasileiros então, notaremos inclusive que eles têm um narrador em primeira pessoa que faz tudo aquilo que a imprensa diz que o leitor não entenderá, como certas ironias e deixadas no ar. E o leitor insiste em entender. E, mais ainda, insiste em abrir debates, como os sobre Tropa de Elite…
Enquanto isso, nós, jornalistas, insistimos em viver muito no meio de jornalistas. É a apuração por telefone que não nos tira da redação para ver o sol lá fora. É o recebimento de uma grande quantidade de cartas e e-mails de gente ignorante que adora escrever de monte e nessa, moldar o pensamento de que todos seriam como esses obsessivos. É o ambiente quase hermético das redações que não permite que o som entre. É o andar quase que apenas com jornalistas e nessa, apenas reciclar os vícios da profissão. E o leitor? Ah, ele é um burro mesmo e só um detalhe entre o que mandamos para a banca e o dinheiro que recebemos da venda…
Surpreendo-me de saber ao vivo de pessoas que leram o blog. Hoje foi um desses casos, em que encontrei meu ex-colega de UM, W.F Padovani. Ele chegou a comentar sobre este texto, ainda que lembrando que não era para chamá-lo de “senhor” (se ele estiver lendo, verá que já o editei). Foi uma oportunidade de rever alguém a quem respondia até maio deste ano. E legal ver que está tudo bem com ele. Saudações, meu caro!
E ele não é o único jornalista que conheço ao vivo que já leu aqui. Outros também conhecem e já houve vez de me falarem a respeito sobre coisas que seus meios praticam e que demonstram tratar o consumidor final do produto jornalístico tal qual um retardado com problemas na memória de curto prazo. Fico pensando se já não começa a haver uma incipiente (e bote incipiente nisso) reação contra o oleitorismo que aflige as redações e gera bocejos em quem lê.
Vale lembrar que em breve teremos mais versões brasileiras de revistas internacionais e, como já disse, para se ter uma franquia, é preciso no mínimo ter o mesmo nível da internacional, se não mais. E isso vai forçar as oleitorísticas a combaterem esse mal que as aflige, pois começarão a perder mercado, sendo que nas de carreira mais longa, já houve vezes em que estiveram tão boas quanto qualquer matriz de franquia nacional…
Voltando ao assunto de feedbacks, 29 de outubro foi o melhor dia da história do blog, com 107 visitas. Tudo bem que vi uns termos bem bizarros na busca, mas tá valendo.
Ser editor não é fácil. Falo isso porque já fui um. Por isso, a postagem é dedicada aos bambas da área.
Muitas vezes, eles têm de fazer o meio-de-campo entre os repórteres e um diretor de redação que é o dono do veículo de comunicação. E essa é posição das mais desconfortáveis. Porém, há formas e formas de se fazer algo.
Em meus trabalhos, já encontrei gente de tudo quanto é tipo nessa função. Vi editores que transformavam seu texto em lixo, assim como vi editores excelentes, que faziam a versão que saiu nas páginas ser melhor que aquela que você salvou na página de textos. Esses últimos acho simplesmente fantásticos, pois captam a essência daquela matéria e o jeito que o repórter escreve. E isso é difícil, ainda mais pensando que muitas vezes o editor está inserido em uma ditadura de microcosmo muito mais dura que qualquer ditadura macrocósmica que possa haver. Fora que em toda ditadura há os adesistas, os apáticos e os que a questionam.
Gosto dos editores serenos, pois não vestiram o estereótipo de jornalista. São daqueles que conversam contigo na maior das pazes e mesmo a mais dura bronca é aceita sem problemas e acaba tendo conteúdos úteis. São daqueles que quando estão em um raro momento de cavalgadura, acabamos por compreender, pois deve-se a algo que geralmente não diz respeito à profissão. Ele permite ver o humano que está por trás daquela cadeira e daqueles computadores em geral melhores que os do resto da redação.
E são esses os editores que também são mais refratários a pensamentos oleitorísticos. Sugira-lhes a pauta mais complicada do mundo, explicando o que é e eles são os primeiros a encampar a idéia. Mais ainda, apóiam a idéia, passam os contatos que têm e dão sugestões interessantes. Se recusam a pauta, dão motivos convincentes para tal. Nunca dirão que “o leitor não entende essas coisas”. Claro que podem ser envenenados por certas idéias de jornalistas que não sabem escrever e entrevistam aqueles que não sabem falar para aqueles que não sabem ler. Porém, relevamos isso. Afinal, todos aqui já tivemos momentos de contágio pela mediocridade alheia.
Porém, na histórica desunião de nossa profissão, os bons editores não possuem tanto contato entre eles e, portanto, não formam uma força suficiente para conter a presunção de idiotice do leitor. E nessa, sofre até mesmo o próprio editor, obrigado a tratar o leitor do jeito que falamos aqui, até porque em alguns casos, ele tem casa e família para sustentar. O dinheiro da escola do filho não pergunta se foi oriundo de matérias interessantes ou de “o leitor não sabe essas coisas”.

Neste sábado, tive a oportunidade de ler a última edição da Rolling Stone. E gostei do que li. O que é aquilo?
O bom deles é investir no texto. Qualquer matéria lá sairia sem maiores preocupações, mesmo que todas as fotos estivessem um lixo, pois a própria programação visual permite que se faça isso. Exemplo disso é a matéria de capa sobre o Faustão, em que a maioria das fotos é coisa velha de arquivo.
Falando sobre a entrevista de Fausto Silva, também fazia tempo que não via o cara tão afiado. Lembrou-me uma entrevista que ouvi no começo dos anos 90, se não me engano na rádio Eldorado. Deu saudades do Faustão que conhecíamos. Passa-me a impressão de ainda haver uma alma de repórter esportivo e Perdidos na Noite nesse homem quase sessentão.
Outro texto que gostei muito foi aquele sobre a Transamazônica hoje. É texto que vale a pena ler, feito por repórter que não tem vergonha de pôr o pé na lama e sabedor de que telefone só deve ser usado para contatos iniciais e para perguntas complementares e tiradas de dúvida depois, já pouco antes da publicação. Vale também ver a matéria sobre os 100 melhores discos nacionais de todos os tempos.
Em nenhum momento senti-me tratado como idiota e muito menos me lembro de verem gente ensinando o pai-nosso ao vigário. Talvez seja outra razão para seu sucesso. Semana passada, no aniversário de um amigo meu, ele ganhou de presente uma assinatura da Rolling Stone.
Bom, se bem conheço sobre versões nacionais de revistas internacionais, eles são obrigados a manter no máximo a maneira como são conduzidas no original. Portanto, a equipe daqui não pode ficar com as matérias oleitorísticas (neologismo que crio agora) que tanto vemos em publicações legitimamente nacionais. Sim, infelizmente há vezes em que é preciso pagar uns royalties para que haja mudanças na imprensa brasileira.
Voltando agora, falo mais uma vez sobre a programação visual da revista. Ela é feita propositadamente para os repórteres terem conforto ao pôr suas matérias, pois dá muito espaço para que escrevam. Como disse antes, daria para publicarem sossegadamente matérias excelentes com fotos péssimas. E a prova de que o público brasileiro lê sim o texto e não as imagens.
Fico aqui pensando se nos EUA ouviríamos coisas como “but our reader doesn’t understand this thing”, “you need to explain everything to our reader”, “put all the information in the first paragraph” entre outras livres traduções daquilo que ouvimos tanto nas reuniões de pauta daqui. Aliás, talvez os caras da RS original falassem algo como “you’re fired. Stop underestimating our readers and get your fucking ass out here” se ouvissem algo assim. E olha que o americano médio é muito mais obtuso e alienado que o brasileiro médio, apesar de a escolaridade média do americano ser maior que a do brasileiro.
Enfim, uma americanização no bom sentido de nosso jornalismo. Não se faz uma revista ser franquia mundial achando que o leitor não entende ou não tem determinada coisa ou que não vai ler sobre determinada coisa que vai ser posta lá. Torço sinceramente para que um dia tenhamos versões internacionais de revistas legitimamente brasileiras, pois vejo nas redações muita gente trabalhadora e que quer ir mais além, mas que está sendo castrada por esquemas de trabalho bem mesquinhos e superiores muito medíocres.
Terminando, preciso destacar uma frase que saiu na nota sobre Britney Spears: E o melhor, muitos jornalistas – aqueles que não sabem escrever e entrevistam quem não sabe falar para quem não sabe ler – estão tentando entender o que aconteceu até agora! Será alguma indireta em linguagem de fresta à postura de grande parte da imprensa brasileira? Uma indireta de outros caras cansados de ouvirem que “o leitor não entende essas coisas”, “nosso leitor não entende isso” e outras?
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Preste atenção nessas duas capas da Playboy com a Luma de Oliveira. Que diferença você nota? Uns dirão que a Luma envelheceu muito bem, afinal a primeira capa é de 1987 e a segunda, de 2005 e, de fato, ela passou dos 40 e continua bonita. Outros falarão que há mais de uma tipologia na da direita, que também tem menos chamadas, dentro de uma tendência da década de 2000. Outros talvez lembrem de a capa da direita ser em papel envernizado. Mas qual é a diferença mesmo?
Vamos mais aprofundadamente: reparem na jovem Luma. OK, a foto é externa e isso dá para ver pelo vento assoprando na parte direita do rosto. Mas reparem também na textura da pele. Tem exatamente o mesmo grau de brilho da maioria das mulheres com pele bem cuidada. O papel também sugere uma textura normal de pele que uma mulher de 20 e poucos anos tem.
Dando o desconto de a foto da direita ser em interna, também notem a maneira como a luz se espalha pela fotografada na da esquerda. Já na Luma madura e na época com 40 anos recém-completados, há coisas que estão estranhas, como a textura da pele, muito perfeita para ser real.

“Você se lembra da minha voz? Continua a mesma, mas o que o Glenn Feron fez…”
Quem olha também umas Playboys mais antigas notará que naquelas épocas, as mulheres que posavam nuas tinham mesmo de ser absolutamente gostosas, lindas, daquelas que causariam espécie tanto passando em frente à construção quanto badalando em uma danceteria cujo ingresso custe uma fábula.

Repararam como os arredores de olhos hoje não mais possuem as linhas e marcas tão comuns a qualquer ser humano?
Já hoje, o Photoshop está criando uma irrealidade que já dá sinais de cansaço no próprio leitor. E inclusive nas celebridades, que teoricamente deveriam estar a favor de aparecerem sempre (teoricamente) impecáveis. Algumas exigem sim que façam algumas coisas, como apagar cicatrizes ou mesmo algo muito mais além, tipo transformar alguém que na vida real é um bucho em algo tão gracioso que qualquer marmanjo aqui apresentaria orgulhoso como a nova namoradinha (pena que só no papel…).

Até a apresentadora ficou chateada por ter sido emagrecida digitalmente…
Porém, os retoques acabam por apagar também algo que as revistas dos anos 80 e começo dos 90 tinham: a sensação de naturalidade. Aquela luz desordenada, aqueles pêlos não tão simétricos, aquela textura de imagem natural estão indo embora. Em parte porque as próprias câmeras digitais já fazem uma pré-edição de imagem, ainda que disponibilizem o .RAW para quem quiser ver qual foi a imagem que de fato foi captada pela lente. Porém, o que estamos falando é algo que vai além disso: a tentativa de padronizar também aquilo que os olhos vêem. E, por isso, sempre as luzes incrivelmente perfeitas, as peles rigorosamente acetinadas e certos traços que chegam a ser impossíveis na espécie humana.
Tudo bem que uma Luma retocada em nada vai afetar a problemática da paz do mundo, mas há certas manipulações digitais de imagem que são gravíssimas, como as de fotos de guerra, assim como as de fotos em que há pessoas públicas.
Será que inventaram um novo tipo de luz que é adesiva? Afinal, a ciência há muito descobriu que ela tem massa…
E por que essa obsessão pela imagem perfeita? Será mesmo que uma imagem pesadamente retocada irá angariar mais leitores? Mais do que nas revistas masculinas, penso nas femininas, pois nessas, sente-se um jogo pesado em se dizer que a leitora quer mesmo se ver daquele jeito que a fulaninha fotografada está. E será mesmo que somos tão idiotas a ponto de não distinguirmos o real do manipulado e não fazermos questão?

Acima, a que saiu, abaixo, as que a compuseram. Não contavam com a astúcia do leitor…
Por isso, sugiro aos parcos leitores deste blog um exercício simples: irem a um sebo de revistas e folhearem duas edições de Playboy: uma dos anos 1980 e outra dos anos 2000. Vejam as diferenças e digam qual lhes pareceu deixar mais à vontade. É um exercício interessante.
Já outra coisa que fico pensando é se daqui a uns 10 anos olharemos para as fotos retocadas de hoje como olhamos para os ternos de ombreiras altas e cores escandalosamente berrantes dos anos 1980…

Por fim, o exemplo de um uso sábio de fotomontagem que há anos circula na internet e dá uma mostra da real dimensão de um iceberg…
Tenho um primo que também é jornalista. Nessa última vez em que ele veio para São Paulo, ele falou uma piada interessante sobre como achar os jornalistas: são sempre aqueles com roupa puída e um bloquinho na mão.
Sim, talvez nos destaquemos na multidão. Porém, se há algo que as pessoas pouco sabem é que a imprensa não faz a menor questão de cobrir é o cotidiano daquilo que ocorre nas próprias redações.
Hoje falarei de um assunto nevrálgico para os jornalistas em geral, que é o fato de nosso pior inimigo ser outro jornalista. Somos das categorias profissionais menos unidas que existem. Vê-se nos olhos de uns e outros que no fundo, querem mais que o colega vá se foder, mesmo que este nada tenha feito nada contra o desejante de tal honraria.
Há muita gente que os de fora consideram grandes jornalistas que nós consideramos uns grandes pulhas. Há um episódio envolvendo um desses medalhões e que tomei conhecimento neste ano. Um subordinado chegou para ele falando que não conseguiu achar fulano de tal, ficou empacado na assessoria ou na secretária que continuamente falava “um minutinho, por favor”. Chegou o tal medalhão, abriu a agenda, viu o número da tal fonte e telefonou para a mesma:
- Eu falo com Fulano de Tal? Ah tá, aqui é o Medalhão. É o seguinte: Subordinado estava querendo falar contigo e não conseguiu te achar. Tem como você falar com ele agora? Tem? Peraí que já passo para ele.
E o Subordinado falou com o Fulano de Tal e fez a matéria, que foi publicada. Porém, não foi publicado que imediatamente depois de a tal matéria ter ganho as bancas, Subordinado foi demitido por Medalhão…
Já não gostava do tal Medalhão antes de ter conhecido essa história. Agora, sou capaz de cuspir no chão em que ele pisou caso o veja andando em sentido contrário e nos cruzemos. Claro que ele não terá a menor idéia de quem sou. E mais claro ainda em minha mente é pensar no que aconteceria caso algo semelhante ocorresse em uma redação na França ou mesmo nos altamente competitivos EUA…
E infelizmente, o que mais vejo é gente praticamente falando “Caramuru, Caramuru” para esse ser vivo, achando ser o mesmo de grande credibilidade…
- Cronista esportivo dizendo que não torce para um time
- Imparcialidade, até porque o simples fato de escrever sobre um acontecimento já é um ponto de vista
- Gente querendo justificar uma merda qualquer, seja dele ou alheia, dizendo que é o exercício da liberdade de expressão
- Gente querendo evocar essa liberdade de expressão para supostamente justificar coisas feitas na má-fé
- O incrível unanimismo dos cronistas futebolísticos sobre os pontos corridos
- Outros estranhos unanimismos da imprensa em geral
- A Sociedade Interamericana de Imprensa dizer que representa os jornalistas, quando na realidade é entidade de donos de meios de comunicação em massa
- Os grandes meios falarem que defendem a pluralidade de opiniões
- Os grandes meios dizerem que seu compromisso é com o leitor
- Na incrível quantidade de fontes do sexo feminino com alguma fama e cujas profissões aparecem como “modelo”, sendo que não as vimos em passarelas ou ensaios fotográficos publicitários…
- Nas picuinhas textuais e informativas com as quais certos jornalistas encasquetam e que de maneira alguma irão alterar a qualidade informativa de um texto
- Na pele sempre reluzente da mocinha que aparece sensual na capa da revista masculina ou com cara de mulher de atitude nas femininas…
- Nas pálpebras inferiores dos fotografados, sempre sem linhas ou olheiras…
- Nas laterais dos olhos dos fotografados, que ficam sempre estranhamente gordas…
- Nos dentes invariavelmente brancos dos fotografados…
- Naquele capítulo dos manuais de redação que fala ser o compromisso do meio com a qualidade da informação
- Na real efetividade do manual de redação quando comparamos àquilo que realmente ocorre na redação. Talvez só mesmo na parte escrita…
“02, seu lugar é fazendo panfleto pra distribuir no sinal” (foto: David Prichard)
Fui neste sábado assistir ao filme Tropa de Elite. Uma coisa me chamou atenção na película: o duro treinamento a que eles são submetidos. Tenho certeza de que na vida real é ainda mais duro.
Tentarei estabelecer um paralelo com a profissão que exerço e, mais ainda, com a fetichização a que ela tem sido submetida. Não consigo enxergar razões para ela, assim como não consigo imaginar razão para a incrível relação candidato/vaga que vemos hoje.

“Você não é imprensa não. Você é moleque! Moleque!” (foto: David Prichard)
Tem muita gente achando que ser jornalista é coisa simples. Pensam que farão e acontecerão. Entram com uma idéia um tanto quanto falsa de como é a realidade da profissão. Para mim, não é surpresa ver o quanto de gente deixa o curso ou acaba fazendo outra coisa da vida.
São poucas vagas, na maioria das vezes pessimamente remuneradas e é tanto índio que muitos dos poucos caciques sentem-se à vontade para xingarem e abusarem. Quantas vezes já senti de amigos de bem uma situação parecida com a de um Neto ou Matias no meio de um batalhão majoritariamente corrupto. Ou mesmo a minha. Neste ramo, caloteiro é o que mais tem. E se não for caloteiro, há também o risco de ser aquele tipo de gente que não se satisfaz com nada e torna tua vida um inferno.

“Ei, mas você não me pagou”. Caloteiro: “faz o RPA que vou cuidar disso” (foto: David Prichard)
Muitos sonham em entrar em ter uma belíssima visibilidade, tipo uma Fátima Bernardes ou William Bonner da vida. Acham que se tornarão apresentadores de telejornal ou diretor de redação de algo gigantesco no tempo em que você termina de ler esta frase. Acham que as redações são uma grande família, mas irão se desiludir em pouco tempo. Em alguns casos, ainda na época da faculdade.

“O mercado seleciona os bons e expurga os incompetentes”
Acharão que bastam serem talentosos e terem um texto bem feito para botarem pra quebrar. Crerão piamente que o mercado seleciona os melhores e expurga os piores. Digo que isso é tão cascata que são as cataratas do Iguaçu e do Niágara juntas. Tenho amigos que são apaixonados pela profissão e competentíssimos no que fazem, mas que mandam ou mandaram um monte de currículos e não conseguem lugar nem a pau. E conheço uma porrada de medíocres que conseguem cargos sem problema algum. E olha que falei medíocre, gente que está na média e que não sairá da média.

Estes dois aqui, como podem ver, são duas pessoas competentíssimas que acreditaram na história de que se você for bom, sempre haverá um lugar para trabalhar. A foto foi tirada em 1858 e eles estão esperando em uma entrevista de emprego. Porém, sempre ouvem “um minutinho, por favor, que o dr. Fulano já vai falar com vocês…”
Vejo um monte de gente que nunca levou um “não” dos pais e que quer agir assim na profissão. São aqueles que nos chamam de mal-educados quando falamos sobre algum ocorrido qualquer os envolvendo em um tom de voz que os contraria, sem em momento algum brigar. São aqueles que dão piti em dois tempos. Como já ouvi um cara dizer, talvez saiam chamando a mamãezinha caso se deparem com algum editor mal-educado.

“Prezado editor do blog, com todo o respeito, quem fala essas coisas é porque não confia em seu taco e tem medo de algum garoto talentoso pegar seu lugar nas redações”
Para quem acha que vai mudar o mundo nesta profissão, só lamentos mesmo. Aliás, ficará tanto em uma cadeira defronte a um monitor que vai sentir falta do mundo lá fora. Vai se brutalizar ao ver tanta gente de modos eqüídeos a seu redor. Vai se assustar de ver a que ponto pode chegar até mesmo gente que era bem legal contigo em outros tempos, mas que agora te cumprimenta pela frente e apunhala pelas costas. Isso para não falar dos que você nunca viu mais gordos.

“Prezado editor do blog, o senhor é muito arrogante e mal-educado. Só porque tem uma página na internet, fica aí se achando o dono da verdade e querendo que todos pensem igual a você…”
E, claro, penso se entre esses que tentam ingressar na carreira há mesmo um real interesse pelo jornalismo, aquela coisa de vestir a camisa, informar, ser justo, escrever as matérias e poder botar a cabeça no travesseiro com tranqüilidade, colaborar para que quem lê não só seja informado, mas também tenha algo de relevante para sua vida.




