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Talvez os poucos leitores deste blog tenham notado que não fiz postagens diárias nestes últimos tempos. Parte do motivo disso é que no fim de semana eu estava em Curitiba (sou de São Paulo). Já nesta segunda metade da semana, o motivo foi que ontem perdi minha avó. Estava com 98 anos, se bem que nos últimos meses já não estava tão bem. No começo deste ano, teve uma série de infecções que a minaram. Saiu do hospital até curada, mas não estava como sempre esteve. Passou a uma cadeira de rodas, entre outras coisas.

Às vezes creio ser o único que nunca a tratou como coitada ou incapaz por causa de sua idade avançada. Sempre que a visitava, fazia piadas, tentava puxar um papo, por mais quieta que ela fosse e por mais que nos anos mais recentes quisessem fazer com que eu acreditasse que ela não era a pessoa lúcida que sempre foi.

E falo isso porque chegava lá e perguntava o que ela contava. Normalmente, ela me respondia algo como “nada, estou aqui sentada”. Chegava a conversar mais um pouco e era capaz de ela me responder um “quer o quê? Que eu pule?”. Muitos em minha família me recriminaram quando contei à minha avó que eu tinha síndrome do pânico. Diziam que eu devia evitar de falar essas coisas para ela, por causa da idade, por causa de supostos problemas de cabeça, etc. Porém, ela foi a que melhor compreendeu em minha família, apesar de sua pouca escolaridade e não-leitura de jornais e livros. Chegou e me perguntou: “é problema de nervos?”. Respondi que sim. Ela retrucou: “você está se tratando?”. Falei que sim. Ela inclusive lembrou daquele dia em que cheguei surtado à casa dela. Sim, isso mesmo, a mais velha da família não fez celeuma alguma. Sabia que minha avó não era nem nunca foi gagá. O teste era simples: soltava um “parla, bestia!”, ao que ela respondia de bate-pronto “bestia sei tu”.

Sabe, eu era uma pessoa dedicada à velhinha. Fiz questão de que ela fosse à minha formatura da faculdade e fiquei chateado quando ela não foi à minha formatura de colegial. Mas tudo bem, ela, na época com 87 anos, estava no Recife e não ia querer que ela deixasse de passar o Natal com aquela parte da família. Mais que fazer questão de que ela fosse à minha formatura de faculdade, só paguei o baile de formatura por causa dela. Sinceramente, como até sugeri à comissão de formatura, preferiria que fôssemos a Fortaleza. E também ficava chateado quando ela ficava p da vida comigo, muitas vezes não por minha causa, mas quando alguém punha tudo a perder, seja por birita, seja por arrogância natural potencializada por C2H5OH.

Fico pensando também em como vai ficar a família agora que ela se foi. Afinal, de alguma forma era quem nos reunia. No meu caso em especial, sinto-me até livre para procurar emprego em outra cidade que não São Paulo (desde que, é claro, seja uma cidade minimante civilizada, como Curitiba, e não um enclave neandertal como uns que conheci). Sim, fiz questão de não procurar empregos em outras cidades justamente por causa da minha avó. Queria visitá-la de rotina, não precisando me deslocar do ponto A ao B em distâncias de centenas ou milhares de quilômetros.

Com a morte dela, raciocino ser também hora de reavaliarmos a maneira como tratamos nossos velhos. Penso se não haveria a chance de minha avó viver mais e melhor se não a ficassem tratando com ressalvas quanto à idade. Fico aqui pensando que, se os não tão velhos como ela não ficassem com proibições, ela ainda continuasse preparando comida e até andando sozinha na rua. Proibiram-na de fazer comida porque uma vez ela esqueceu o gás aberto (mas já vi gente muito mais nova fazer isso e com mais frequência). Proibiram-na de andar sozinha na rua por causa de tombos que ela levou (esqueceram-se de que velhos em  média levam um tombo por ano e que sua ossatura sempre foi forte, jamais tendo uma fratura em quase um século). E isso, sinceramente, é pedir para que nossos velhos definhem progressivamente.

Ainda que quieta e não apreciar brincadeiras, minha avó tinha seus momentos de espirituosidade. Uma vez, perguntaram a ela sobre o fato de sua coluna estar se envergando. Ela respondeu que ia envergando, envergando, até cair no caixão.
Fico também pensando como seria se minha avó morasse em outros lugares com baixo índice de velhinhos deteriorados, como Belém do Pará e outras. Aliás, fico pensando o quanto que os velhinhos paulistanos são submetidos a deteriorações de agentes externos (seja poluição, seja lar mesmo).

E fico pensando como quero que ajam comigo quando eu for velho. Com certeza não aceitaria que ficassem cheios de cuidados para cima de mim, pois aí é pedir para ficar dependente mesmo. Alguns de vocês têm essa impressão de que quando um velho morre, é um termômetro do que se deve ou não fazer com nossos idosos?

Já parou para pensar no motivo do incrível unanimismo na imprensa brasileira? Vamos além daquela história do número de famílias que controla a mídia e em eventuais acordos de conchavos dos mais diversos.

Esse unanimismo também ocorre em outros países do mundo. E encaixa-se na história de medir a temperatura do acontecimento que estiver mobilizando a nação. E nesse caso, um meio vigia muito bem o que ocorre com o outro. Caem naquela premissa de escutar o que você desejaria e depois lhe contarem. E isso gera uma dificuldade tremenda em se remar contra a corrente. Sim, talvez a opinião pública seja muito diferente da opinião publicada, mas ir de maneira diferente pode gerar quedas de venda, mesmo que se esteja com a razão.

Veja esse fenõmeno acontecer, por exemplo, em assuntos políticos. Imediatamente uma série de meios da imprensa posiciona-se de um determinado jeito. Aqueles que estiverem contrários irão sofrer um pouco para vender, mesmo que estejam mais certos que o resto dos outros. Irão ser chamados dos mais diversos nomes também e, mais ainda, a impressão que ficará sobre eles irá se espalhar pelo tecido social, mesmo que grande parte dele sequer tenha lido o opositor.

Um exemplo simples de como isso pode acontecer, está no experimento de Solomon Asch. Ele pôs 11 pessoas que viam três linhas. Eles tinham de vê-las e dizer qual delas tinha o mesmo comprimento de uma linha-padrão. O voluntário era informado de que havia mais 10 pessoas na sala também fazendo a mesma coisa. Porém, não fora informado que eram dez atores. E esses dez emitiam sua opinião antes dele. O resultado? Ao chegar a vez do voluntário verdadeiro, este acabava votando igual aos outros 10, mesmo que errado. E isso acontecia mesmo quando eles debatiam entre si sobre qual era a linha certa. O lance foi que o pesquisador fez um sinal secreto para que todos os 10 atores na hora de votar escolhessem a resposta errada. Foram testados 50 voluntários nessa mesma situação e 3/4 deles escolhiam sempre a mesma resposta do grupo.

E isso acontece em parte pela questão de ser aceito em um grupo. Quando se está em uma minoria das minorias, constrange ser diferente. Por isso, ele acaba passando por cima daquilo que acredita ser correto. Isso de certa forma assemelha-se muito a uma barra de ferro que imantamos. A maioria dos átomos acaba por se organizar da forma mais fácil, que é ficarem todos orientados de uma mesma forma, com os pólos sul e norte em mesma posição. Ainda assim, pode haver áreas em que os pólos ficam ordenados de maneira diferente. Porém, o ímã sempre terá um pólo norte e um pólo sul, quando falamos da peça por completo.

Agora imaginem tudo isso no seguinte trajeto: redação – publicação – leitorado. Leitores tendem a confiar nos meios em que adquirem informação e imaginar que se possuem uma determinada circulação ou audiência, algum motivo deve ter. Por isso, irão demorar em mudar de fonte de informação, até por se acostumarem com elas. E, claro, por estarem acostumados, até evitam falar com a redação, por mais que discordem de certas coisas. Quem escreve mesmo é o famoso leitor mala-sem-alça, que se acha no direito de xingar, abusar e demonstrar sua burrice sem repressão alguma. Jornalistas recebem majoritariamente esse tipo de feedback e imediatamente escrevem acreditando ser aquilo o que são os leitores na realidade. Claro que haverá discordância dentro da redação, mas normalmente, quem discorda não sobe muito de cargo. Portanto, o peso do cargo mais alto acabará por forçar que se escreva presumindo que quem lê majoritariamente não teria o reflexo automático de desviar de um objeto jogado em alta velocidade contra sua cabeça. E até por questão de conforto de vida, as pessoas priorizam certas escolhas na vida. Discordar, como qualquer um sabe, estressa, isola e dificulta seu futuro. E em um mercado restrito como o jornalístico…

As notícias escritas presumindo que o leitor seja como um computador acabam ganhando as ruas. Dependendo da repercussão, elas podem ganhar as cabeças. E entre os leitores, haverá sim discordâncias, mas os discordantes em geral, também pelo mesmo motivo de conforto pessoal, irão se silenciar. E nessa, ganha-se em audiência, vendas, pageviews e o que mais houver.

O leitor que discorda em ser tratado como idiota até irá se informar em outros meios, mas, a exemplo desses meios, também correrá o risco de ser estigmatizado. Vai lá o cara falar que cansou de ser tratado como idiota, que não suporta aqueles textos óbvios e anódinos que recebe e a resposta que receberá é a de que provavelmente não se deu conta de que haveria gente de menor escolaridade e menor cultura geral que se informa no mesmo lugar que ele, sem se dar conta de que tal debate pode estar acontecendo na mesma hora e no mesmo local com gente de pouquíssima escolaridade ou cultura geral que também se cansou de ser tratada assim.

Porém, sendo disperso o universo de leitores, há uma dificuldade bem maior de ele fazer ser ouvido. Enviará um e-mail ou uma carta que, como tantas outras, será só mais uma naquela pilha. Outros tantos estarão lá, mas poderão ser confundidos com os tais leitores malas, até porque suas mensagens educadas e respeitosas nem de longe têm o impacto dos textos mal-educados e demonstrativos de burrice absoluta. Claro que também pode haver certas manipulações de má-fé dentro da redação, como pegar uma carta de mil falando contra certa matéria e uma carta de 10 falando a favor e dizer que se está sendo imparcial e dando espaço igual a ambos. Porém, isso aí também é uma forma de agir em grande escala como agiu Solomon Asch com seus 11 julgadores, apenas um deles de verdade.

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Leiam na Carta Capital desta semana a matéria “Por linhas tortas”, que fala do I Salão Nacional do Jornalista Escritor, que fala também da qualidade média da imprensa nacional hoje em dia. Entre as fontes da reportagem, está o Eric Nepomuceno, que realmente desceu legal a lenha na imprensa brasileira.

Fala-se também do espaço cada vez menor que é dado à reportagem, o unanimismo dos meios de comunicação nacionais, entre outras. E há uma frase pra lá de interessante do Eric, que passo abaixo:

“Temos, de um lado, leitores mediocrizados e de outro, jornalistas medíocres. Então, dá tudo certo. Se você acostuma o consumidor a tomar leite com soda cáustica, após algum tempo ele vai achar normal. Só que o produto é uma porcaria”

Notaram a sutileza dos adjetivos? “Leitores mediocrizados” foi o que o Eric disse. Portanto, são leitores que sofreram uma ação para se tornarem medíocres. E, pior ainda, acostumaram-se a ser tratados como tal. Portanto, os mesmos leitores que liam coisas interessantes outrora. O que mudou foi a abordagem, em que se passou a dar atenção excessiva para uma minoria de leitores iracundos que mandam mensagens mal-educadas para a redação. Os jornalistas, que quase não trabalham fora da redação, acabaram tendo por padrão esse tipo de leitor e quiseram estender tal avaliação a todo leitor, sendo que esses últimos não escrevem com tamanha freqüência. E nisso, o ciclo ficou completo.

Há também o depoimento de Ricardo Kotscho, também falando do medo que o jornalista tem de ser demitido. Tudo bem que estamos em outros tempos, mas algumas coisas assustam tanto ou mais que nos anos de chumbo. “Ninguém acredita que pode mudar nada. Então, cruza os braços. Nem na época da censura vi comportamento tão medroso nas redações”, conta. E também lembra da vez em que no trainee da Folha desceu uma lenha no próprio jornal e em seu manual, o que lhe rendeu a pergunta de uma estudante sobre eventual medo dele de ser demitido. Sim, meus caros, hoje em dia, jornalista tem medo sim. Não o medo do que está lá fora. Mas o medo do que está dentro. Lembram-se daquela história de que o pior inimigo de um jornalista é outro jornalista? Acho que não é preciso se estender.

E também a reportagem fala do boicote que a própria imprensa faz quando ela é que se torna notícia. “Muitas empresas de comunicação nos ofereceram espaço publicitário e ajudaram a divulgar a idéia, mas depois nos esqueceram na reunião de pauta”. Esqueceram ou foram esquecidos?

Como já disse aqui outras vezes, não sou contra manuais de redação, desde que feitos de maneira racional. Porém, uma coisa que qualquer manual de redação gera é o manual além do manual, em que as pessoas querem ser mais realistas que o rei.

Um exemplo disso é caso que por muitos anos assaltou O Estado de S. Paulo. Sabe-se lá porque, as pessoas passaram a escrever Nato em vez de Otan, que vem a ser a sigla para Organização do Tratado do Atlântico Norte, da qual, por sinal, Portugal faz parte como membro fundador. Diziam que era porque “o doutor Júlio Mesquita queria isso”. E muitos Natos foram para as páginas do diário paulistano.

A coisa foi seguindo assim, até o dia em que alguém perguntou ao próprio Julinho sobre isso, ao que ele respondeu que nunca falou para as pessoas escreverem Nato. Desde então, foi apenas Otan. Não duvido que até o próprio Júlio tenha se surpreendido com essa bizarrice que pipocou na redação. Claro que foi uma bizarrice que em nada afetava a notícia, mas que incrivelmente persistiu por um belo tempo. É algo como o boato, que surge sabe-se lá de onde.

E não duvido que outros jornalistas aqui tenham histórias de bizarrices assemelhadas que possam contar. E talvez essas bizarrices textuais multipliquem-se ainda mais naqueles lugares em que não há um manual formal.

Como já disse em outra ocasião, muitas vezes o jornalista cria uma imagem de leitor em sua cabeça por causa de uma meia-dúzia de manés que mandam carta de monte ou dos trolls de plantão. E é essa imagem distorcida que acaba virando regra nas redações que tratam o leitor como mentecapto.

Porém, se há uma idéia que me agrada é a de conselhos de leitores, como a Info (outrora Info Exame) faz. É algo com assento rotativo, de maneira a não criar vícios na redação. E também uma forma de manter o leitor mais próximo do jornalista.

Um conselho de leitores talvez funcionasse bem mesmo em publicações não-especializadas. Teriam de ser leitores de alguma relevância e, claro, não-idiotas. Em uma base de milhares, é fácil achá-los.

É sempre preciso levar em conta a diversidade de leitores, para que não fique aquele lance de falar propositadamente para sempre o mesmo tipinho de pessoa e querer achar que aqueles são todos seus leitores. Mesmo aqueles colhidos para o conselho não representam exatamente o todo do universo de leitores inteligentes.

Também não saberei se algo assim se aplicaria à internet, ainda mais pensando que esta qualquer um lê. Creio que, a exemplo da Info, aplique-se muito bem a publicações especializadas, pois essas muitas vezes são as que mais sofrem pressões para largarem caminhos que estavam bons, principalmente quando a tal pequena porcentagem de leitores burros que escrevem muito está na ativa. Em outros meios, também encontraria serventia, mas desde que fosse pensado muito sobre como se inseriria.

E você, o que acha?

Este foi um ocorrido relatado por Domingos Meirelles no I Salão Nacional do Jornalista Escritor. Eis que ele estava no Sul (se não me engano no RS) e pára o carro para abastecer. O frentista logo começa a conversar com ele:

Frentista: Domingos, você vai lançar um livro?

Domingos: Vou.

Frentista: É sobre o tenentismo, como o anterior?

Domingos: Sim.

Frentista: Eu li A Noite das Grandes Fogueiras e adorei. Vou pedir para o dono do posto ir ao shopping e comprar um para mim. Você dá um pulo aqui para autografar?

Domingos: Que é isso? Eu tenho exemplar desse livro aqui no carro. Já te dou um.

O mesmo Domingos Meirelles conta outro episódio ocorrido com ele, mas desta vez no hotel Eldorado, aqui em São Paulo. Eis que uma hora alguém todo maltrapilho entra em seu quarto para fazer o serviço. Obviamente, o hoje apresentador do Linha Direta se surpreende, pois no Eldorado, a regra é que os funcionários que atendem os quartos estejam impecavelmente vestidos.

Funcionário: Domingos, eu li seu livro, A Noite das Grandes Fogueiras, duas vezes.

Domingos: Comprou?

Funcionário: Não, mas li duas vezes lá na biblioteca da Vila Mariana.

E mais uma vez, lá foi Domingos presentear o cara em questão, que provavelmente ganhava salário mínimo, com um exemplar autografado. E como o próprio já disse, você encontra leitores onde menos espera. Ué, mas não seriam esses perfeitamente enquadráveis como “o leitor” e, portanto, capazes de achar que Jubiabá é sabor de sorvete (extraído livremente do MAD)?

Quem acompanhou as notícias dos meios online deve ter notado que o prêmio mundial The Best of Blogs premiou A mis 95 como o melhor blog do mundo em espanhol. Ele é feito por uma senhora nascida em 1911 e que completa 96 anos em 23 de dezembro. Maria Amelia Lopez é o nome da blogueira mais velha do mundo.

Como boa conterrânea de Cervantes que é, a vovó blogueira solta umas bem típicas de quem é de lá, como o motivo de ter ganho o blog: “meu neto, que é bem sovina, deu-me de presente este blog”. E dona Maria adorou.

E, mais ainda, ela fala de suas memórias da Guerra Civil Espanhola, conversa com internautas de todo o mundo e também comenta do mundo em geral. E um dos comentários diz respeito justamente a um jornalista:

Outro dia, vi um rapaz jovem no canal de televisão daqueles que querem explicar agora. Esse rapaz está começando a carreira e ridicularizava nada menos que a Duquesa de Alba.

Tirou umas fotografias e começou a rir dela. De como falava, de que carregava cães… tirava sarro da senhora. De alta alcunha, queira ou não, amigo. É uma aristocrata.

Tirava sarro de uma senhora de idade. Mais respeito, rapaz. Se quer ser jornalista não será nunca. Por não saber respeitar ou ter educação, não pode ser um grande jornalista.

Nem apresentador. Não se faz troça com gente de idade. Ainda mais de uma personalidade. Não achei graça alguma. Desliguei a televisão e nem quis saber como ele se chamava.

Não vejo essas coisas desagradáveis

Detalhe: a velhinha é esquerdista, fã de José Luis Zapatero e, como podem ver, exige respeito aos mais velhos. E, como podem ver também, não admite que a tratem como idiota.

É também interessante ler alguns comentários:

 Não culpe o garoto da TV, pois ele seguramente está cobrando uma ninharia e não tem culpa de nada. Apenas quer trabalhar. Quem tem culpa são os patrões que estão explorando esses jovens e por 600 euros, os obrigam a ter de engolir seus sentimentos e educação, fora fazer o que mandam.
Como jornalista das nova gerações – assim digamos, pois tenho 28 anos – realmente me dá muita vergonha ver pessoas alarearem um título e o sujar dessa maneira. Por sorte, há muitos profissionais que valem a pena.

Respeito é o ponto de partida para TUDO, absolutamente TUDO na vida.

Enormes saudações da Argentina. Teu blog me encanta e creio que já lhe disse uma vez…

Felicitações

Beijos

Bravo! Concordo completamente: “…las cosas desagradables no las veo.”

Infelizmente as massas ditam a oferta… por isso há tanta desgraça nos media!

Cumprimentos!

De fato, minha senhora, é uma barbaridade o que comete essa classe de jornalista. Só vendem agressão, deboche e falta de respeito. E isso se vê sobretudo na chamada Prensa del Corazón. Sou jornalista, mas tais práticas me desagradam tanto como a ti. Saudações guatemaltecas.

Alguma semelhança com a imprensa brasileira?

Para muitos, irá surpreender eu falar justamente sobre alguém que trabalha na Globo, emissora que para alguns de nossos leitores, é das mais oleitoristas (ou otelespectadorísticas), porém, é de lá que vem uma matéria que é simplesmente genial, do colega Marcos Uchôa.

O assunto é meio buraco-de-rua, mas a maneira como ele abordou foi daquelas que qualquer um pensaria “como não fiz isso antes?”. Porém, ele fez, e antes de todo mundo.

Já que estamos falando do Marcos Uchôa, temos de falar do texto da reportagem, excelente. Seguem os trechos:

“É nessa hora que se entende melhor a expressão ‘você não tem vergonha na cara?’. Todos temos e dói mostrá-la na praça pública dos meios de comunicação.

‘Por favor, pára!’, diz a acusada ao ser filmada.”

“Leila recebia por tal confiança R$ 650 e tudo o que você não pode comprar com esse dinheiro estava ali. Televisões, computadores , porque não comprar logo uma loja? Foi o que ela fez. E não economizou. No total foram: uma loja, três terrenos, dois carros, seis apartamentos!” (Detalhe: o câmera mostrando uma loja cheia de televisores LCD que custam mesmo os olhos da cara).

“A empregada e acusada de ter roubado da patroa bens que possibilitaram que ela acumulasse um patrimônio de R$ 300 mil. Uma das últimas coisas que ela comprou foi uma arma, um revólver calibre 32, com certeza para se proteger, afinal o Rio anda muito inseguro”

“Numa livraria pertinho do prédio onde trabalhou, ela poderia ter visto três livros com mulheres na capa, que mostram que o medo dela deveria ter sido outro. Leila foi infiel, duas caras e agora, está desonrada.” (o plano de imagem mostra os livros: “Infiel”, “Vida Dupla” e “Desonrada”)

Marcos Uchôa informou perfeitamente e, mais ainda, trouxe atenção ao texto. Em nenhum momento caiu em denuncismo, uma vez que o lance da tal empregada era perfeitamente rastreável e a polícia há muito devia estar na cola dela ao comparar o que ganhava e o que tinha. Usou de sutilezas textuais tão bem feitas que qualquer um, independente de quem fosse, saberia muito bem sobre o  que ele estava dizendo. E o Homer Simpson sentiu-se tratado como aquilo que é: gente pensante. Parabéns, colega…

Este domingo marcou o fim do I Salão Nacional do Jornalista Escritor, realizado no Memorial da América Latina. E foram duas ocasiões que vi que foram legais.

 Cheguei lá pelas 17 horas, a tempo de assistir ao debate sobre livro-reportagem, que contou com Caco Barcellos, Eliane Brum e Domingos Meirelles. Foi uma ocasião de ouro, principalmente por ouvir Eliane Brum que, do alto de sua timidez, desceu a lenha legal na apuração telefônica que tanto está sendo estimulada na imprensa brasileira. E com propriedade, pois ela simplesmente conseguiu conversar com um monte de gente que viu a Coluna Prestes passar e as conseqüências da mesma, o que inclusive gerou descidas de lenha oriundas de sociólogos, historiadores e outros que não deveriam idealizar esse evento do País, mas que tiveram de se render às evidências quando uma carta de Juarez Távora, um dos comandantes da mesma, falou tudo aquilo que Eliane confirmou com os velhinhos. A mesma Eliane também falou algo que todos nós jornalistas temos de lembrar: que aquilo que escrevemos hoje será usado pelos historiadores no futuro. Portanto, o respeito à verdade dos fatos é fundamental para não gerar uma história distorcida.

Caco Barcellos também falou coisas interessantes, como envolvendo seus livros Rota 66 e Abusado. Falou também sobre certa vertente do jornalismo de hoje em dia, que está na base da ofensa pura e simples e de se pôr acusações ao vivo, sem dar tempo para que o acusado se defenda. Vide o ocorrido recente com o padre Júlio Lancelotti.

Porém, tenho uma especial atenção por tudo aquilo que Domingos Meirelles fala. O cara tem uma incrível capacidade de estabelecer paralelos entre coisas que muitos hoje veriam como novidade, mas que são muitíssimo parecidas com ocorridos dos anos 20. Falou também do tempo em que foi jornalista de revista e das raras ocasiões que possui para escrever livros. Vale lembrar que ele é bem antenado em relação ao período dos anos 20 e 30. E também falou uma coisa que é preciso compartilhar com o pessoal e, principalmente, com os 41,63 que estão querendo uma vaga na ECA-USP: “nunca vi tanto jornalista arrogante como vejo atualmente”. Ele e o Caco, inclusive, falaram também sobre a falta de consideração e respeito que um jornalista tem para com o outro hoje. Isso me faz pensar também se justamente não é a famosa história de querer exclusivamente jornalismo televisivo que tanto atrai vestibulandos que fetichizam o ofício. Também me faz pensar sobre esse lance da falta de união da categoria. Sim, porque já cansei de ouvir que o pior inimigo de um jornalista é outro jornalista, mesmo tendo amigos jornalistas e amigos que deixaram o jornalismo.

 Por fim, houve a entrevista de Mino Carta. Se Eliane desceu a lenha em alguns aspectos da imprensa nacional, o Capital da Carta desceu foi uma floresta amazônica inteira em cima da dita cuja. E uma frase dele achei particularmente interessante, ainda mais pensando no tema do blog. Não me lembrarei dela por inteiro, mas foi algo assim: “os jornais brasileiros passaram por um projeto que visa o aumento de vendas a qualquer custo, acreditando que seus leitores são imbecis”. Falou também sobre a postura oligárquica dos donos da imprensa, de eles quererem a todo custo manter o status quo e estarem felizes de andar com carro blindado, de erguerem grades em suas casas, etc. Também respondeu às acusações de que CartaCapital seria financiada principalmente por publicidade estatal e supostamente chapa-branca. Falou também de seus dois livros autobiográficos por vias alternativas, como Castelo de Âmbar e Sombra do Silêncio.

Ainda voltando um pouco para Eliane Brum, vale lembrar que ela também disse que vê dois tipos de jornalista em uma redação: aquele que acredita que a notícia de hoje embrulhará peixe amanhã e aquele que lembra do uso que os historiadores farão dos textos jornalísticos. Ela também lembrou que, sim, o livro-reportagem pode ser uma excelente alternativa para o jornalista. Domingos Meirelles também lembrou da insegurança que sentiu quando fez seu primeiro livro-reportagem, achando que não tinha talento para fazê-lo.

Por fim, outra coisa importante que foi lembrada nessas palestras foi justamente o fato de que é muito possível de que a imprensa esteja perdendo leitores por estar com textos muito chatos. Falaram também da enorme importância que se dá à informação pura e simples e à pouca importância das nuances, essas sim que só podem ser captadas mesmo quando se está no local, em vez de ao telefone.

Talvez seja mesmo uma boa hora de pôr as barbas de molho e a imprensa se reavaliar. Afinal, por que motivo as pessoas estariam fugindo do impresso para lerem sites e blogs?

Fui neste sábado a esse encontro, que está acontecendo no Memorial da América Latina. Chego lá com o primeiro evento começado, mas ainda a tempo de ouvir Mauro Santayana falando de seus tempos de cobertura da guerra da independência do Marrocos, da entrevista com Garrincha. Falou também do sofrimento que teve na época da ditadura, mas o fato de não querer indenização do estado por causa daqueles ocorridos. E também disse uma interessante: “você tem de fazer o leitor ter prazer em ler aquilo que escreve. Tem de dar um ligeiro barato”.

Também houve o Zuenir Ventura, excelente. Um debate que gostei foi o com Eric Nepomuceno, Antônio Torres e Flávio Tavares. Gostei em especial do Eric. Ele, até por estar fora do jornalismo, desceu a lenha legal na imprensa brasileira, na falta absoluta de ousadia, etc.

Houve o reconforto de ver Ziraldo, menino maluquinho de 75 anos. Falava ele de idéias para estímulo à leitura no Brasil, mais outras tantas que veio tendo. Falou também do sucesso que ganhou escrevendo livros para as crianças. E falou uma frase interessante, do Millôr: “escreva para seu leitor mais inteligente”. Emendou com isso a história de que se uma criança não sabe algo, imediatamente pergunta aos pais ou vai pesquisar por si própria. Engraçado como as nossas tão adultas matérias não fazem o mesmo com o leitor, forçando-o a sair de sua zona de conforto. Já pararam para pensar que se uma criança se sente tratada como idiota, imediatamente se afasta de quem a trata assim? Será mesmo que os meninos que cresceram, independente ou não de lerem Ziraldo, também fizeram a mesma coisa com os meios de comunicação tradicionais?

Por fim, houve o debate sobre a revista Realidade, com Mylton Severiano, José Hamilton Ribeiro e Ignácio de Loyola Brandão. Vale lembrar que a revista fazia “new journalism” antes de essa onda estourar nos EUA e os colonizados mentais se perguntarem por que ninguém fazia algo parecido por aqui. É mais ou menos como as pessoas que se surpreenderam com os primeiros raps americanos que aqui chegaram e não deixaram que pense, que diga e que fale. Hamilton Ribeiro também falava da época do copidesque, que pegava uma matéria, esquartejava-a e deixava-a uniforme com outras, passando a impressão de que todo um jornal tinha sido escrito pela mesma pessoa. E falou também sobre os copidesques e editores da Realidade, que respeitavam o estilo de escrita de cada jornalista e, mais ainda, muitas vezes melhoravam o texto do cara…

Enfim, uma ocasião daquelas que não esquecerei tão cedo. Foi uma oxigenada daquelas nas minhas idéias. Domingo é o último dia e terá gente boa, como Caco Barcellos e Mino Carta… vale a pena ir…