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É o que desejo a todos os parcos leitores deste blog. Que neste ano, meus colegas jornalistas combatam o preconceito interior de achar que o leitor é um cretino. Que os leitores da imprensa em geral também se façam ser mais ouvidos exigindo que não sejam tratados como incapazes. Que os títulos não sejam óbvios. Que os textos não sejam arrastados pela pretensão idiota de querer achar que conseguirão superar a obtusidade de alguns leitores. Que esses leitores obtusos façam coisas mais úteis do que enviar cartas e e-mails de monte para as redações. Que os meios que tratam o leitor como ser racional ganhem espaço.
No ambiente jornalístico em geral, desejo que as redações sejam mais agradáveis para trabalhar. Que aquelas que são infernos na terra deixem de existir ou se repaginem. Que o jornalista se recuse a trabalhar nelas. Que a competência profissional seja o critério para contratação, e não a panelinha ou outras coisas mais escusas ainda. Que a mídia partidarizada se assuma como tal, em vez de ficar posando de imparcial. Que jornalistas não sejam perseguidos por suas opiniões. Que jornalistas não sejam perseguidos por seus colegas de profissão por causa de suas opiniões. Que os salários sejam mais dignos. Que o jornalista pare de se achar algo assemelhado a escritor, filósofo ou poeta e passe a se reconhecer como um profissional de ofício regulamentado, enterrando de vez seus devaneios auto-alienantes.
Aos leitores, muita paz. Que consigam realizar seus sonhos. Que as mulheres mostrem para as publicações que lêem que não são fúteis ninfomaníacas como querem supor. Que os leitores de meios especializados mostrem que, sim, se importam com o detalhamento da informação e que só estão consumindo coisa ruim porque é a que insistem em lhes oferecer. Enfim, são meus desejos.
Esta postagem talvez fale mais alto para quem for jornalista ou estudante e, mais ainda, viva o cotidiano das redações.
Já pararam para pensar que o oleitorismo é uma das piores formas de preconceito que existe? Pior porque perversa, ao generalizar o conjunto do qual cada um de nós faz parte e criar uma figura que nenhum de nós é ou será. É também o mais democrático dos preconceitos, atingindo as pessoas independente de cor de pele, sexo, crença ou outras qualidades alvos de discriminação. Eu sou “o leitor”, você é “o leitor”, meus colegas de profissão são “o leitor”. E no caso dos jornalistas é ainda pior, pois quando dizem que o leitor não entende ou não se interessa por determinada coisa, acabam dizendo que eles também não se interessam por ela ou, pior ainda, dizendo subliminarmente que eles próprios, jornalistas, não se interessam por aquela coisa.
É forma de censura velada. Imaginem se você quisesse porque quisesse ver naquilo que lê uma matéria sobre um assunto que muito se interessa, por gostar daquele meio e da maneira como aborda um assunto. Você chega até a mandar uma mensagem para a redação falando do assunto. Porém, é muito provável que olhem para ela com desprezo e sequer abordem na reunião de pauta. Por quê? Porque, como sabemos o leitor não se interessa pelo assunto. Mas peraí, você não é o leitor? Então como ousou ter interesse? E por que quis romper isso? A punição não é pau-de-arara, nem choques nas partes íntimas ou empalamento. É a continuação dos textos que te tratam como criancinha, dos títulos óbvios e das fórmulas mais que batidas.
E pode acreditar que sofrimento não gera revolta, mas apatia. Sim, meu caro, para qualquer um aqui, jornalista ou leitor. Ao jornalista, quando se cansa de bater de frente e começa a ficar quietinho, uma vez que precisa manter o emprego e a sanidade mental fora do trabalho. Afinal, nessa lógica, não vale a pena ficar batendo de frente quando o assunto é levar comida para casa. Também não valerá a pena ficar discutindo com o colega obtuso na parte de cima da cadeia hierárquica, pois ele continuará obtuso e, se não o for, é muito provável que seja subordinado a um obtuso. E que poder tem esse alguém quando não é dono do meio e muito menos tem possibilidade de ascensão, uma vez que lhe falta obtusidade?
No caso do leitor, ele continua a adquirir informações por aquele meio sem questioná-las por saber que os outros também o tratarão de forma mais ou menos semelhante. E em certa parte, por haver dinâmica semelhante à do vício. Alguém já conversou com um fumante inveterado sobre os malefícios de seu hábito? Nem é preciso dizer que ele vai querer ou mudar de assunto ou brigar contigo. No caso do leitor, não chega a esse ponto, mas há o lance de a cabeça ser moldada por aquele meio, a ponto de ele ficar ligeiramente cego para o que há lá fora.
E vício também há nos jornalistas oleitoristas, uma vez que fecham para si que quem os lê é de um determinado jeito e qualquer coisa que significar uma mudança tem de ser punida sumariamente, isso se não significar soltar os cachorros para cima de quem a propôs. E garanto que os oleitoristas são muito, mas muito difíceis de serem convencidos do contrário. Tornaram-se algo tão orgânico dos meios que parecem viver em simbiose com eles.
Também noto uma certa ligação desse preconceito democrático com os preconceitos que atingem grupos específicos. Alberto Dines explica isso melhor do que ninguém:
A idéia de que leitoras só se interessam por superficialidades e mundanidades é terrivelmente injusta e preconceituosa, porém condenada à clandestinidade – tabu. Nenhuma jornalista ou colunista ousaria propor uma discussão sobre o assunto numa reunião de pauta. Nenhum jornal ou revista encomendaria uma sondagem a respeito. E, no entanto, quando as tiragens começam a cair a solução mais comum é apelar para a mulher e insistir na tal da “leveza”.
Sim, a apatia gerada pelas estruturas que insistem em ter uma visão de mundo gestada na redação e que o exterior só serve para que ela seja confirmada, independente se contestada na primeira esquina, chega a um ponto que se torna algo sobre o qual não se deve falar, sob pena de quem ousar fazer isso ficar marcado pelos outros. E é mancha praticamente indelével, pois poderá significar a inempregabilidade do jornalista no futuro próximo, caso queira uma determinada vaga. E como já dito antes, jornalista é um trabalhador como outro qualquer, que usa suas capacidades para conseguir uma remuneração que lhe garanta vida minimamente digna.
Diga diretamente que X é burro, idiota e cretino por ser X e ganharás um processo daqueles por preconceito. Porém, diga que o assunto Y não interessa a X porque ele enquanto leitor não quer saber dessas coisas e dirão que você é o melhor jornalista e preocupado com as demandas e necessidades de X. Porém, perguntaram mesmo para X?
Como já se falou aqui em outra ocasião, há horas em que impor ao brasileiro a maneira americana de se referir às pessoas pelo sobrenome acaba gerando problemas, como ocorre neste texto sobre a Mega-Sena:
Concurso 898 da Mega Sena: advogado é preso em SC
A polícia prendeu na sexta-feira, 14, em Santa Catarina, um advogado acusado de tentar extorquir R$ 7 milhões do empresário Altamir José da Igreja, um dos ganhadores do concurso 898 da Mega Sena, que pagou R$ 27 milhões. Segundo a Agência Estadual de Notícias do Paraná, o delegado adjunto da cidade paranaense de Toledo, Pedro Fontoura Ribeiro, gravou uma conversa com o advogado e procurou a delegacia nesta semana para denunciar o caso.
“O advogado dizia que tinha influência com autoridades e que poderia conseguir a liberação da conta”, contou Ribeiro à agência. O advogado deve ser transferido para Toledo ainda neste fim de semana. Um dia antes da prisão, a 4ª Câmara de Direito Civil do Tribunal de Justiça liberou parte do prêmio, R$ 4 milhões, para Igreja. O resto do montante continua bloqueado desde setembro deste ano por conta da alegação do marceneiro Flávio Biassi, que defende ser o verdadeiro dono do bilhete premiado.
“Liberou parte do prêmio, R$ 4 milhões, para Igreja”? Se alguém olhar apressadamente, poderá achar que foi a Igreja Católica que ganhou o prêmio. E isso geraria uma contradição daquelas na cabeça do apressado, afinal, jogo de azar é algo que não coaduna com o que está escrito na Bíblia. Não seria mais fácil ter falado “Altamir”? Ou será que o orgulho de querer impor algo alienígena a nosso país falou mais alto?
Obviamente, ninguém aqui nega a necessidade das pesquisas para saber o perfil médio de quem lê determinado meio. Porém, o que registram se não uma média? E a média obrigatoriamente significa algo que deva ser seguido a ferro e fogo? Obviamente não.
A estatística é apenas uma orientação. Ela não abrange em seus números a realidade de ninguém em especial. Portanto, sendo ninguém em especial, não há como se querer que seja alguém, e muito menos o misterioso leitor. O leitor sou eu, é você, é cada um que lê este e outros textos.
Claro que não há como se saber quem é cada um que lê, mas também não dá para se presumir que sejam, sem exceção, incapazes e que não se interessem por este ou aquele assunto. Portanto, muito limitado fica o jornalista por não ter como saber o que quem o lerá quer exatamente.
Portanto, querer achar algo pela estatística é meio que presunçoso. O leitor não quer saber desse assunto? Por quê? Quem falou isso? A estatística? Mas a estatística é tão rainha assim? Claro que não. Será mesmo que quem disse tal coisa foi alguém que acha que outro alguém não vai querer tal coisa? E por que esse alguém acha isso? Será que possui subsídios tão consistentes para essa conclusão? Estatística não é uma prova tão firme assim.
Tanto a estatística não é absoluta em suas conclusões que muitos dos maiores fracassos da história da indústria foram feitos inteiramente de acordo com o que os estudos diziam ser o quente para aquele público naquele momento. O mesmo vale para o jornalismo. É só ver quantas publicações foram para o vinagre mesmo estando de acordo com o que dizia o estudo.
E cada vez mais, vemos a internet provar isso. Coisas que jamais passariam da porta do prédio vão ganhando espaço. Disseram uma vez que o brasileiro não se interessa por times e jogos de divisões inferiores. Criaram os Jogos Perdidos, que inclusive já foi quadro do programa do Vanucci na RedeTV! e hoje tem programa fixo no canal virtual ClicTV.
A despeito das piadinhas que sempre são geradas quando falamos de nosso vizinho de fronteira, em alguns detalhes o Paraguai supera em muito o Brasil.
Um deles é o aprofundamento da mídia. E olha que falamos de um país tão pobre quanto o Brasil e talvez com gente tão ou mais maciçamente ignorante que a nossa.
Abra um caderno de esportes por lá e vai tomar um susto de ver que todas as divisões, sem exceção, têm cobertura pela imprensa de lá. E mais que isso, há tabelas e mais tabelas dos campeonatos. Ué, mas não é o leitor que não se interessa por essas coisas?
E olha que falamos de futebol, pois como sabemos, na política, as coisas são um tanto mais passionais na América que fala espanhol…
Este é um texto que escrevi no ano passado para a seção Literário, do Comunique-se, em uma época em que a hipocrisia daquele portal não era tão manifesta quanto agora. Como verão, faz exatamente um ano que isso aconteceu, mas é uma história atemporal. Divirtam-se:
8 de dezembro de 2006. Como qualquer outro dia na capital paulista, pelas 20 horas uma multidão de pessoas apinha-se no 669A – Terminal Santo Amaro/Terminal Princesa Isabel. É a volta do trabalho com direito a um tapete de luzes, pois o Natal se avizinha.
Ela passa a catraca no trecho da Brigadeiro antes de cruzar a avenida Brasil. Morena clara, esguia, olhos oblíquos e cabelo chanel, veste camisa de cetim com motivos orientais, calça corsário azul-escura ligeiramente arroxeada e calça sapatos de salto acamurçados. Em seu braço esquerdo, leva uma bolsa pequena de alça rígida e arredondada.
“Não preciso de dinheiro, pois dinheiro é papel pintado com números”, diz ela sensualmente meneando as cadeiras. Uma sensualidade nada forçada, tão natural como alguém dizer onde fica uma rua a um transeunte. E são os transeuntes sentados naquele coletivo que irão ser platéia dela.
Logo puxa conversa com um rapaz, de nome Francisco e indo ou voltando de sua aula de jornalismo. Logo ela pergunta sobre sua camisa do Radiohead e puxa conversa falando de música, sempre se mexendo freneticamente, equilibrando-se no cano daquele transporte. A moça diz que ele deveria gostar de seu nome, até por lembrar de Francisco de Assis. Diz mais além: devemos gostar de nossos nomes pois eles dizem quem somos. Pergunta meu nome e também responde ser um nome bonito e logo pergunta se sei o que significa. Emendo dizendo que vem do grego “andros”, que significa “homem”. “Você é homem, mas também é macaco”. Brinco dizendo que talvez ancestrais muuuuuito distantes tenham sido mesmo. “Mas você também é macaco e sabe por quê? Porque você tem coração e o macaco também tem coração. Quando compreendermos que os animais têm coração entenderemos melhor a nós mesmos”, emenda. “Vocês ouvem os corações? Quantos corações há aqui? Conversa ela sobre Augusto Boal, Baal e James Joyce, em praticamente um monólogo. Sobre Joyce, diz que ninguém deve lê-lo, mas sim entranhá-lo em seu corpo.
“Porque eu sou o que vocês dizem”. E o que ela é? “Se você diz que sou mulher, logo eu sou mulher”. Ela, que alega ser atriz, logo fala também que todos os livros são o livro. Fala que os problemas do mundo são devido a não falarmos com o outro. “O que vocês querem ver?”, ela pergunta, logo emendando sobre a TV. Grita que o sangue de Jesus tem poder e logo muda de canal, fazendo cena de dramalhão mexicano e reproduzindo um “boa noite” de noticiário. “Nos vemos amanhã, no mesmo horário e no mesmo canal. E quem garante que terão isso”? Logo emenda com assuntos místicos, falando de mandalas.
“Vocês têm olhos bonitos” é o que diz para todas as mulheres do coletivo. “Todos os olhos das mulheres são bonitos. Os homens olham as mulheres nos olhos sabem por quê?”. Silêncio. “Porque eles vêem nelas a si mesmos”. Logo tergiversa sobre seus sonhos. “Meu sonho é pegar um avião e ir para um lugar onde não precisarei de papel”, diz ela sempre anotando coisas em um bloquinho.
Ágil e elástica, logo usa os balaústres do ônibus para sua performance. Agacha-se e diz que não precisa se segurar nos ferros do ônibus e que está surfando sobre salto alto. Dança esticando as pernas e deslocando-se como um açor por entre galhos fechados, impressionando pela facilidade com que se esgueira pelas mais estreitas brechas daquele Mercedão que bravamente sobe em direção à Paulista.
Triiim e o monólogo é interrompido. “Peraí que preciso atender ao celular. Senti a vibração dele”. Abre a bolsa e pega o tijolinho. Troca umas palavras com uma amiga. O número 155 e o apartamento 42 deixam todos em um suspense.
A iluminação da cidade logo lhe evoca sentimentos relacionados à época. “Sabe, eu gosto do Natal, mas não esse Natal de ter de dar presentes. Gosto do Natal por causa dos amigos. E o que é amigo? Amigos são amor. Logo, fazer amizades é fazer amor. E o que é fazer amor?”. Perdoem-me, mas não lembrarei qual foi a emenda que seu raciocínio rápido fez sobre o assunto e nada tem de moralismo nisso. Mas me lembro do que logo ela emendou: “o amor é o software”, sempre com um sorriso nos lábios.
Francisco desce na altura da Escola Paulista de Medicina, sendo saudado com um “até amanhã, neste mesmo horário e lugar”. Ela continua a conversar, desta vez comigo. Aproxima-se o prédio da Gazeta. “É hora de eu descer”. “Boa noite e vejo todos vocês amanhã, neste mesmo horário e lugar”, ela diz. Pouco antes de o ônibus parar no ponto, ela conversa um pouco com uma senhora próxima à porta traseira direita. Desce próximo à esquina com a Pamplona. Sua beleza é imediatamente escondida pela sombra dos prédios. Logo o ônibus anda e a vista perde-a de foco.
Quem é, não dá para saber. Logo, ironias são ouvidas no interior do coletivo. “Tem gente que chama os outros de insanos mas não olha para a própria insanidade”, fala a garota sentada no banco imediatamente atrás da porta traseira esquerda, que irá parar no último ponto antes de entrar na Consolação. Para mim, ela foi aquela que resolveu transformar o coletivo em um camarote para vermos um monólogo que me recorda os tempos universitários. Obrigado a você que fez nossa noite extraordinária. E para você, quem ela é?
Alguns chamam o cantor Odair José de repórter musical. O motivo não é mais justo: o cara sabe dar voz em suas canções a pessoas que jamais a teriam ou a tiveram. E também desnudava uma realidade que a censura e o próprio povo insistia em esconder. Era useiro e vezeiro da linguagem de fresta, principalmente em uma época em que a censura era não só política como moral. Sim, para os milicos, não existia oficialmente aquele lance de o casal fazer “bobiça” atrás da igreja. E, claro, como bem sabemos, o ouvinte de suas canções nada sabia do que ele queria dizer com aquelas letras que não mencionavam o que ele queria dizer…
Depois de Gonçalves Dias, ele é o homenageado do blog para mostrar o que aconteceria se ele fosse jornalista na imprensa brasileira de hoje.
Olha… A primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair (aqui onde? Favor especificar aonde o declarante foi)
Eu vim em busca do amor (se ele veio para se distrair, como ele pôde ter vindo em busca do amor? O leitor não acredita em amor de balada…)
Olha..
Foi então que eu te conheci
Naquela noite fria
Em seus braços
meus problemas esqueci (abraçou? Consolou? Trepou? Favor especificar. Nosso leitor não tem como saber o que o personagem fez)
Olha…
A segunda vez que eu estive aqui (aqui onde? Caramba, é preciso responder direito ao “onde” das sete perguntas)
Já não foi pra distrair (eliminar o “distrair”, pois é repetição de palavra)
Eu senti saudade de você (“eu” é muito demonstrativo de arrogância. Pode ficar ofensivo ao leitor)
Olha…
Eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais lhe esquecer (esquecer a quem? Favor especificar, até para que o leitor saiba quem é a/o inesquecível em questão)
Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar? Da lanchonete, do frigorífico? Favor especificar)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“tirar você” e “levar você”. Favor corrigir para “tirá-lo/a” e “levá-lo/a”, isso antes de, é claro, dizer quem é o “você”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim. O leitor pode pensar as mais diversas coisas e temos de ser bem específicos)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa
O que os outros vão pensar (repetição desnecessária e que torna o texto ainda menos informativo)
Eu sei…
Que você tem medo de não dar certo (medo de que não dar certo?)
Pensa que o passado vai estar sempre perto (favor especificar que passado é esse)
E que um dia eu posso me arrepender (arrepender de quê?)
Eu quero
Que você não pense nada triste (o que é triste para uns é alegre para outros. Vamos respeitar a opinião do leitor)
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer (e os crimes passionais? Favor mudar este trecho)
Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar, porra?!)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“levar você” de novo? Você é o quê? Agora só falta dizer “mim faz”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (arrogante o senhor, hein?)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo (leva este texto para ficar contigo)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim o que penso. Fora daqui com esse troço)
Eu vou tirar você desse lugar (claro. Vai tirar da minha mesa para nunca mais eu o ver)
Realmente sou obrigado a concordar com o Luciano Martins Costa mais uma vez, como dá para ver neste artigo no Observatório. Seguem abaixo algumas frases importantes:
“Se os editores não movem seus corpinhos para fora das redações, em busca do conhecimento onde ele se manifesta, seguiremos tendo que encarar reportagens levianas, embasadas em crendices e preconceitos.”
“Limitados ao trajeto entre suas casas e as redações, os editores ficam longe dos lugares onde a inteligência se manifesta. Como se tivessem que carregar um fardo pesado nos glúteos, preferem o conforto de suas cadeiras às platéias dos eventos onde o Brasil ainda se pensa. Sempre se pode dizer que a agenda dos editores é complicada, que falta tempo até para conciliar a vida profissional com a necessidade de dar atenção à família. Mas a agenda se torna mais flexível em outras ocasiões, muito especialmente no final do ano, quando as grandes empresas promovem jantares e almoços regados a vinho de qualidade, com direito ao tradicional jabaculê na saída.
Na mesma semana em que se realizava o debate na Fiesp, muitos editores e colunistas foram vistos em alegres confraternizações com executivos de empresas anunciantes, onde tinham que suportar algumas maçantes apresentações sobre resultados financeiros e ações filantrópicas, em nome do bom relacionamento. Claro que relacionamento faz parte, mas não é tudo. Nem só de jabá viverá o jornalismo.”
E isso porque estamos falando de uma coisa importante, que são os mais de 40 milhões de processos para pouco mais de 14 mil juízes. E também as 2,6 milhões de leis que existem neste país e permitem interpretações das mais diversas. Costumo brincar com o pessoal dizendo que, dependendo de quanto um determinado advogado receber de seu cliente, ele consegue até mesmo provar que a Constituição é inconstitucional, baseado na própria Carta Magna.
Pois é, gente, quantas notícias capazes de mudar muita coisa para melhor estamos perdendo por causa dessa insistência em não querer deixar os jornalistas irem ao encontro da notícia sem um telefone criando dificuldades para vender facilidades? Apenas serei obrigado a discordar do Luciano em uma coisa: paira a espada de Dâmocles da demissão sobre o jornalista que quiser ir à rua. Aliás, é o perigo da demissão que emperra o jornalismo brasileiro, por melhor vontade que tenham os jornalistas. Sim, isso mesmo que lêem.
É algo de que se esquecem os jornalistas que consideram seu ofício algo assemelhado ao de escultores, filósofos e artistas em geral, e não uma profissão regulamentada. E é esse tipo de mentalidade que vai continuar estimulando o embutimento…
Antes de tudo, leia este texto antes de ler este. Leu? OK, podemos então começar a falar por aqui.
Como podem ver, Luciano Martins Costa desce a lenha na imprensa brasileira como um todo. Não fala nomes dos faltosos, até por saber que é fenômeno generalizado nas redações locais.
Observem um detalhe importante: o site de um movimento, que tem obrigatoriamente um viés mais tendencioso, uma vez que precisa defender uma tese, fala de um assunto com mais detalhes e profundidade do que a imprensa brasileira em geral. Sim, isso mesmo que estão lendo: se estão querendo ler algo interessante, terão de se dirigir a vieses teoricamente viciados na origem, pois estes são mais inteligentes que os supostamente isentos e que vêem os muitos lados da questão. E isso é problemático.
Assim como boa parte de nossos jornalistas têm cabecinha de linotipo e insiste em usar pirâmide invertida nos tempos da composição eletrõnica, a imprensa em si não avançou no debate dos assuntos mais corriqueiros, envolvendo ou não política.
O cara fala de coisas interessantes, como a obsolescência dos discursos direita X esquerda e do quão reféns ficam os leitores que querem debater e não conseguem aprofundar um assunto.
O cara versa sobre vários assuntos, como a caixa-preta do sistema bancário da Suíça e a ação de estado que transformou Espanha e Portugal em países de Primeiro Mundo e a não-comparação que a imprensa pratica quando o assunto é falar de ações parecidas na América do Sul. Não entrarei aqui em méritos políticos, até porque este blog fala sobre a postura da imprensa em relação às capacidades do leitor. Deixarei que os que analisam a imprensa sobre o viés político façam essa parte, pois creio que farão melhor que eu.
Analisando sob a ótica deste blog, posso falar sobre os tais textos superficiais, não só sobre assuntos do dia-a-dia, mas também na imprensa especializada. Na automotiva, quando se ouve de jornalistas que “o leitor nem sabe quais as rodas que tracionam determinado carro”, isso é ser superficial. E quem perde, se não o leitor, que não terá substratos adequados?
“Ah, mas o leitor não entende essas coisas. Imagina se eu vou pôr um professor da USP na minha matéria? O cara vai falar um monte de coisa complicada e a maioria não vai entender nada” cai na mesma esparrela. Dá para se falar do buraco na rua, sim, mas se você falar que buracos na rua são causados da base sobre a qual o asfalto é aplicado, você está aprofundando adequadamente. Se você mostra a comparação da vida média do asfalto na Europa (40 anos) com a do Brasil (10 anos) e que lá na Europa usam mais camadas de areia e brita antes de pôr o pretinho propriamente dito, você está se aprofundando no assunto. E todo mundo entende direitinho que mais camadas significam mais proteção contra intempéries. Senão, ninguém mais caprichoso daria duas ou três demãos de tinta em uma parede, pois seriam absolutamente desnecessárias.
Por isso, não duvido mesmo que o superficialismo na imprensa brasileira esteja ligado diretamente ao fato de ela não se aprofundar nos assuntos. Pare para pensar agora em quantos textos no seu jornal ou revista preferido te prendem realmente a atenção, uma vez que foram feitos de uma forma diferente e ao mesmo tempo envolvente. Quer um minuto para pensar? 60, 59, 58… Pensou agora? Agora diga-me um texto que você se lembra e que está escrito em pirâmide invertida ou efeito champanhe. É só ir no bate-pronto e pousar o dedo em qualquer página, seja física, seja de internet, pois é uma porrada deles.
E um texto bem escrito também estimula a inteligência do leitor. Ele pode até não entender em um primeiro momento, dependendo do assunto. Motivos para celeuma e falar que não se pode escrever nada por ele não entender? Não, até porque cada leitor é um, com um conjunto de fortes e fracos diferentes. Porém, se o assunto interessou ao cara por estar em um texto bem escrito, ele fará questão de ler de novo. E até reler mais outras tantas vezes no mesmo dia. Porém, o texto bem escrito o capturou. E não é uma isca industrializada que tem de ser criada de uma maneira padronizada porque é daquele jeito que uma determinada espécie de peixe vê. Estamos falando de gente. E gente gosta quando nota que se pôs um talento em cima. E é o talento em cima que também puxa gente para um determinado assunto.
Sim, o leitor entende até mesmo o que é a teoria das cordas espaciais e a matéria escura que domina o universo. E também se interessa muito sobre ela. Basta escrever de maneira que o prenda àquelas linhas em um espaço predeterminado. E durante essa prisão, você o vai informando de maneira a ele nunca mais esquecer…




