Esta postagem talvez fale mais alto para quem for jornalista ou estudante e, mais ainda, viva o cotidiano das redações.
Já pararam para pensar que o oleitorismo é uma das piores formas de preconceito que existe? Pior porque perversa, ao generalizar o conjunto do qual cada um de nós faz parte e criar uma figura que nenhum de nós é ou será. É também o mais democrático dos preconceitos, atingindo as pessoas independente de cor de pele, sexo, crença ou outras qualidades alvos de discriminação. Eu sou “o leitor”, você é “o leitor”, meus colegas de profissão são “o leitor”. E no caso dos jornalistas é ainda pior, pois quando dizem que o leitor não entende ou não se interessa por determinada coisa, acabam dizendo que eles também não se interessam por ela ou, pior ainda, dizendo subliminarmente que eles próprios, jornalistas, não se interessam por aquela coisa.
É forma de censura velada. Imaginem se você quisesse porque quisesse ver naquilo que lê uma matéria sobre um assunto que muito se interessa, por gostar daquele meio e da maneira como aborda um assunto. Você chega até a mandar uma mensagem para a redação falando do assunto. Porém, é muito provável que olhem para ela com desprezo e sequer abordem na reunião de pauta. Por quê? Porque, como sabemos o leitor não se interessa pelo assunto. Mas peraí, você não é o leitor? Então como ousou ter interesse? E por que quis romper isso? A punição não é pau-de-arara, nem choques nas partes íntimas ou empalamento. É a continuação dos textos que te tratam como criancinha, dos títulos óbvios e das fórmulas mais que batidas.
E pode acreditar que sofrimento não gera revolta, mas apatia. Sim, meu caro, para qualquer um aqui, jornalista ou leitor. Ao jornalista, quando se cansa de bater de frente e começa a ficar quietinho, uma vez que precisa manter o emprego e a sanidade mental fora do trabalho. Afinal, nessa lógica, não vale a pena ficar batendo de frente quando o assunto é levar comida para casa. Também não valerá a pena ficar discutindo com o colega obtuso na parte de cima da cadeia hierárquica, pois ele continuará obtuso e, se não o for, é muito provável que seja subordinado a um obtuso. E que poder tem esse alguém quando não é dono do meio e muito menos tem possibilidade de ascensão, uma vez que lhe falta obtusidade?
No caso do leitor, ele continua a adquirir informações por aquele meio sem questioná-las por saber que os outros também o tratarão de forma mais ou menos semelhante. E em certa parte, por haver dinâmica semelhante à do vício. Alguém já conversou com um fumante inveterado sobre os malefícios de seu hábito? Nem é preciso dizer que ele vai querer ou mudar de assunto ou brigar contigo. No caso do leitor, não chega a esse ponto, mas há o lance de a cabeça ser moldada por aquele meio, a ponto de ele ficar ligeiramente cego para o que há lá fora.
E vício também há nos jornalistas oleitoristas, uma vez que fecham para si que quem os lê é de um determinado jeito e qualquer coisa que significar uma mudança tem de ser punida sumariamente, isso se não significar soltar os cachorros para cima de quem a propôs. E garanto que os oleitoristas são muito, mas muito difíceis de serem convencidos do contrário. Tornaram-se algo tão orgânico dos meios que parecem viver em simbiose com eles.
Também noto uma certa ligação desse preconceito democrático com os preconceitos que atingem grupos específicos. Alberto Dines explica isso melhor do que ninguém:
A idéia de que leitoras só se interessam por superficialidades e mundanidades é terrivelmente injusta e preconceituosa, porém condenada à clandestinidade – tabu. Nenhuma jornalista ou colunista ousaria propor uma discussão sobre o assunto numa reunião de pauta. Nenhum jornal ou revista encomendaria uma sondagem a respeito. E, no entanto, quando as tiragens começam a cair a solução mais comum é apelar para a mulher e insistir na tal da “leveza”.
Sim, a apatia gerada pelas estruturas que insistem em ter uma visão de mundo gestada na redação e que o exterior só serve para que ela seja confirmada, independente se contestada na primeira esquina, chega a um ponto que se torna algo sobre o qual não se deve falar, sob pena de quem ousar fazer isso ficar marcado pelos outros. E é mancha praticamente indelével, pois poderá significar a inempregabilidade do jornalista no futuro próximo, caso queira uma determinada vaga. E como já dito antes, jornalista é um trabalhador como outro qualquer, que usa suas capacidades para conseguir uma remuneração que lhe garanta vida minimamente digna.
Diga diretamente que X é burro, idiota e cretino por ser X e ganharás um processo daqueles por preconceito. Porém, diga que o assunto Y não interessa a X porque ele enquanto leitor não quer saber dessas coisas e dirão que você é o melhor jornalista e preocupado com as demandas e necessidades de X. Porém, perguntaram mesmo para X?





3 comments
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Sexta-Feira, 21 Dezembro, 2007 às 1:32 pm
Larissa Tietjen
Ninguém perguntou pra mim, e pra você?
Sexta-Feira, 8 Fevereiro, 2008 às 7:02 pm
Amanda
Sabe o que é, meu rapaz?
Estamos vivendo um tempo em que jornalismo está virando publicidade.
Um exemplo: a revista Veja já liga pros seus leitores perguntando qual assunto eles desejam ler. Mas, peraí, agora o leitor é que tem que dizer o que vai ter no jornal ou são os acidentes, terremotos, guerras, catástrofes, descobertas da ciência, as notícias do dia-a-dia que vao pautar o jornal? Quer dizer que se o leitor quiser que o presidente da república nao tenha um acidente de avião, assim será o jornal, sem essa notícia??
Ora. Vamos combinar…
Sexta-Feira, 9 Maio, 2008 às 4:41 pm
marjorie
nossa, cansei de presenciar isso. certa vez, uma leitora mandou um email enorme e cordial para todos os membros da redação da revista onde trabalhava (ela fez questão de pescar todos os endereços entre as letras miúdas do expediente) e mandou elogios e sugestóes, mas também algumas correções.
ao ler o e-mail, pensei: nossa, qual o leitor que ousa se envolver assim? o mínimo que posso fazer é responder, agradecendo, sendo cordial e tal. quala reação da minha chefe? “ai, nao acredito que essa fdp mandou e-mail com correção pra todo mundo… Ela não tem noção de que depois vem a diretora de redação e fode quem? A mim! Capaz até de perder o emprego porque essa desocupada resolveu escrever pra todo mundo”.
ou seja? quem é mais bolha? a editora que não vê a consideração e a vontade do leitor de colaborar com toda a equipe que faz a revista ou a diretora de redação, que possivelmente daria uma carcada no editor em vez de perceber que a opinião do leitor tem de ser valorizada justamente porque é pra ele que se faz a revista?
o mais engraçado é que nunca v nenhuma pesquisa estatística sobre o perfil do leitor. Mas os jornalistas repetem (quase) em uníssono o que o leitor quer ou não quer ver, o que ele entende e o que não entende. E nem contato com este leitor têm. Quando têm, acham que ele é folgado…
Marjorie, essa que você me relatou é a pior de todas mesmo. Caramba, a pessoa gosta da revista que lê e, mais ainda, é educada o suficiente para mandar um e-mail interessante para todo mundo que faz a revista.
Não falou mal, pelo contrário, disse que a revista está indo bem, mas que pode e deve ir adiante.
Fosse eu quem tivesse um e-mail tão tratado como algo desprezível e de desocupado e soubesse de tal tratamento, imediatamente faria duas coisas:
1) Parar de adquirir informação por aquele meio. Afinal, se tratam assim a quem o lê, gente boa não são. Só querem ter algum otário para depositar uma determinada quantia pecuniária da qual irá se extrair a parte que cabe a quem publica.
2) Falar imediatamente a todos que conhecem tal meio sobre a forma como eles trataram a quem o lê e quis ajudar. Claro que não podemos controlar o que os outros fazem de suas vidas, mas se de 100 pessoas, umas 2 fizerem o mesmo, já triplicou a perda de receita que você gerou. E, claro, se entre as 100 pessoas houver falatório sobre sua reação, imediatamente dá para crer que outras pessoas indiretamente também pararão de adquirir. E aí, você gera uma onda.
Aliás, estamos vendo isso de certa forma quando o IVC mostra que muita gente grande perdeu muita tiragem…
Fora isso, também já aconteceu comigo de parar de ler algo por causa de tal tratamento oriundo desse algo.
Aí é bem possível que quem proferiu tal coisa preferisse a carcada ao passaralho, pois na primeira o emprego está a princípio garantido.