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Lembro-me de uma Car & Driver em que lia o teste de uma pick-up Subaru Baja. Eis que falavam dos contras do veículo em um box e aparecia o seguinte:
Cons: Hervé Villechaize Memorial cargo bed
Traduzindo para o português: caçamba do tamanho do Memorial Hervé Villechaize. Esse cara era o Tatoo do seriado Ilha da Fantasia. Era anão e preferia ser chamado de anão. E, pelo visto, não dava muita bola para o fato de não ter a altura de um Shaquille da vida. Logo, seria algo semelhante a dizer no Brasil que o banco traseiro de um carro é espaçoso o bastante para o Nelson Ned.
E quem lê matérias americanas vê sempre algumas jogadas dessas que abrem um sorriso. Em meu ramo predileto, o jornalismo automotivo, temos também o exemplo de Jeremy Clarkson, apresentador do programa de TV Top Gear, da BBC que sempre tem uns lances de humor, como comparar o tempo que um Ford Mustang faz um circuito com o tempo que um mustang de verdade (raça de cavalo selvagem) faz o mesmo traçado (e surpreendentemente, o cavalo fez o circuito em questão mais rápido que o carro). O mesmo vale para o concorrente do Channel 4, o Fifth Gear. Sempre há algo bem inusitado e que atrai a atenção da pessoa. E não é nada de jogar todas as informações no começo e deixar o fim vazio, como em uma pirâmide invertida, e como muitos jornalistas ainda insistem.
Já repararam no quão sisudas são as matérias brasileiras? Olhem com atenção e vejam isso. Raras são as vezes em que se usa um pouco de humor ou jogo de palavras. E isso atrai o leitor, sim. Quando muito, vemos brincadeiras meio óbvias. Quando o Enéas morreu, é claro que houve gente que pôs o título ou no texto algo como “seu nome era Enéas”. Isso para não falar dos que ficaram no “Morre Enéas Carneiro, tantos anos, vítima de leucemia”. Fica uma coisa tão fria que chega a ser desrespeito para com o personagem da matéria, independente de quem seja. É quase como descontextualizá-lo.
Voltando à descontração perdida em nossas redações, muitas das vezes em que tentamos ver algo que se aproxime um pouco mais do leitor, não é incomum uma aproximação que se assemelhe a alguém bem emburrado tentando quebrar o gelo de uma maneira um tanto forçada.
Porém, isso é coisa recente em nosso jornalismo. Até pouco, tínhamos esse ligeiro humor mais forte. Tem o caso mais famoso, o do Notícias Populares. Porém, se formos um pouco mais atrás, temos outros exemplos, mesmo de gente que não valia a fita da Olivetti ou Remington em que escrevia. Tem uma matéria de David Nasser que falava sobre um assassinato em uma casa que tinha um passarinho na gaiola. Ele encerrou a mesma com a seguinte frase: “E a partir daquele dia, o curió não mais cantou”. Foi coisa mais ou menos assim, tanto que nem sei se era curió, canário ou o que fosse. David Nasser acusava falsamente, criava matérias de sua cabeça, fora usar a profissão para enriquecer em outros negócios, mas não podemos negar que o tal fim da matéria foi interessante. Simples, direto e resumia bem o clima de luto do tal ocorrido, e sem desrespeitar a memória do morto. Talvez um ou outro mala sem alça fosse falar que sim, o passarinho ia cantar de novo, mas qualquer pessoa com entendimento mínimo de metáforas sacou o que se quis dizer.
Passa-me a impressão que foi por causa de maus jornalistas que escreviam bem que houve uma certa caça ao texto mais descontraído, que quase conversa com o leitor como em uma mesa de bar. Fica a impressão que o tal distanciamento obrigatório do jornalista em relação às fontes e até ao leitor está sendo levado de uma forma tão rígida que sente-se até uma proibição velada a qualquer coisa que tente transportar mentalmente a pessoa que lê à situação descrita lá naquelas linhas ou minutos de TV ou rádio. É como se estivessem com medo do vigarista, mas esquecendo que há gente de bem que consegue ter um papo verdadeiramente intimista na maior das naturalidades e sem querer passar alguém para trás.
E isso é mau, pois gera insensibilidade. O leitor começa a passar batido por muitas coisas, como chacinas, estupros e outras mazelas da humanidade. Ou mesmo em um assunto mais recente, como o aquecimento global. Desaba uma casa erguida no solo congelado da Sibéria por causa de erosão causada por descongelamento. Dependendo da abordagem, é muito capaz de se induzir um sentimento de “e eu com isso?”. E nessa, a pessoa esquece de coisas que vêm ocorrendo no Brasil, como as estações do ano destrambelhadas ou desertificação de solos. No caso dos crimes, agir com eles como se fossem estatísticas também gera uma certa indiferença nas potenciais vítimas. Fica parecendo um cinismo do próprio meio de comunicação, como que quisesse que seu próprio leitor também seja uma vítima em potencial para gerar audiência em curto prazo.
Não precisa chegar ao escracho ou esculacho como em alguns dos próprios meios que citei, mas como sabemos, quando as coisas são feitas com classe, o papo é outro.
Pare um pouco para lembrar. Tomou Doril, o que aconteceu com a dor mesmo? É, gente, estamos falando de comerciais. Todos aqui lembram rapidinho de uma série de fatos jornalísticos relevantes, assim como lembram de uma série de comerciais. Mas e alguma matéria marcante sobre um determinado fato jornalístico importante, lembram?
OK, agora é a hora em que muitos param para pensar. E falo de matérias mesmo, não de colunas ou artigos. Falamos daquilo mesmo: ser isento, ouvir todos os lados e outros postulados do bom jornalismo. Pedirei ainda mais: que falem de uma matéria marcante que tenha saído em jornal ou revista, não valendo livro-reportagem. Piorou?
Não duvidarei que isso acontecesse. Em compensação, se perguntarmos de quantos comerciais marcantes as pessoas lembram, imediatamente virão uma série de filmes realmente geniais. E não é à toa. E o motivo é simples: comerciais precisam segurar a atenção do telespectador, pois este provavelmente aproveitará o intervalo para ir ao banheiro ou mesmo zapear. Se estiver lendo uma revista, tem de ser um anúncio que lhe atraia suficientemente a atenção para que não pule de página ou passe batido. Já meios de comunicação estão achando que serão lidos obrigatoriamente por aquele que os adquire.
E voltamos a apresentar X. Alguém aqui lembra mesmo de um texto imortal em uma matéria das mais ordinárias? Difícil, não é verdade? E não lhes tiro a razão.
Pegarei um exemplo recente de comercial que achei muito bom: aquela série da Unibanco-AIG em que a hiena Hardy contracena com o Miguel Falabella. Eis que o divertidamente pessimista personagem da Hanna-Barbera diz uma frase:
- E se aqui do lado morar um maluco que pensa que é Nero?
Precisa mesmo dizer quem foi Nero e o que significaria um maluco que pensa que é o imperador romano? Talvez, se fosse uma matéria sobre seguro de imóveis teríamos algo como “um dos maiores problemas do seguro de imóveis é haver a presença de um vizinho piromaníaco que tem surtos esquizofrênicos e se acha Nero, o imperador que mandou incendiar Roma para botar a culpa nos cristãos”. Burocrático, não é verdade? Textinho enfadonho? Concordam comigo?
E pior ainda que isso, vai completamente contra o poder de síntese que o jornalismo supostamente deveria ter. Se me perguntarem se o leitor (o leitor mesmo, não a pessoa com primeiro nome O e sobrenome Leitor procurado inutilmente na postagem anterior) leria isso, com certeza não. Talvez até pulasse essa frase. Mas é isso que o brasileiro tem visto em boa parte dos meios de comunicação: textos que, se fossem pessoas, teriam ido dormir de calça jeans e/ou meia-calça. Preciso mesmo dizer o que significa essa expressão?
E o pior é que, em alguns meios, quando você quer fazer algo um pouco diferente no jornalismo, logo dizem que você tem ego inflado, quer aparecer, que não se dá conta de que a informação tem de ser facilmente compreendida, entre outras. Isso se não te pedirem para reescrever a matéria, uma vez que com o computador, não faz mais efeito dramático algum rasgar o texto na frente de seu autor que tanto se esforçou. Será mesmo que por escrever de um determinado jeito e não de outro, queremos aparecer mais que o assunto?
Abaixo, um comercial que acho fantástico:






