Esta notícia vem dando o que falar nos muitos grupos de discussão da internet. Hoje, eu a recebi por e-mail e sou obrigado a comentá-la, pois é de uma leveza total. Espero que quem escreveu a dita cuja esteja lendo esta postagem e venha comentar aqui, assim como fez o colega Geneton quando falei da dele.

Como já disse em outras ocasiões, o jornalista brasileiro tende a ser sisudo e chega a um ponto de se fechar exclusivamente no assunto do texto a ponto de boa parte das matérias serem extremamente enfadonhas. Não é o caso desta.

Eis que o Santos está para contratar o meia Bolaños, hoje na LDU, campeoníssima da última Libertadores. Um jornalista que olha o leitor como mentecapto presumido até lembraria que é o sobrenome do Roberto que nos deu ao mundo o Chaves e o Chapolin. Aliás, a história do criador do programa Chespirito é pra lá de interessante e muitos comparam o mexicano a nada mais nada menos que Charles Chaplin.

Mas voltemos ao equatoriano e à postura vigente em boa parte do jornalismo brasileiro. Diriam algo como “ah, mas você tem de lembrar que nem todo leitor gosta de Chaves ou Chapolin. Falar disso pode espantar muita gente do assunto tratado”. E lá iria o jornalista escrever algo como “o Santos quer contratar o meia Bolaños, da LDU e blablablá (bocejos)…”. Você noticiou direitinho, mas garantiu também que sua matéria vá embrulhar peixe ou forrar gaiola de passarinho no dia seguinte.

Já a do Lance! vai ser lembrada daqui a dezenas de anos, tal como até hoje são lembrados os episódios do Chaves e do Chapolin e tal qual vemos camisas e mais camisas com a estampa de Seu Madruga (eu tenho uma também). Vejam que sutileza na hora de comparar os dois Bolaños:

O mais novo reforço do parceiro do Santos, o Grupo Sonda, tentará ser o segundo Bolaños a fazer sucesso no Brasil. O jogador, contratado nesta sexta-feira junto à LDU, tem o mesmo nome do criador e ator dos seriados mexicanos Chaves e Chapolin, Roberto Bolaños.

As duas séries, apresentadas pelo SBT, tiveram o ator como protagonista, já o meia, liderou a LDU na conquista da Copa Libertadores e tentará o mesmo sucesso com a camisa do Santos, que já tem Madson e Lucio Flavio no meio-de-campo.

Claro que até santista fanático deve ter caído no riso e imaginado Madson e Lucio Flavio caracterizados como Seu Madruga, Kiko, Nhonho e outros personagens. E deve ter caído no riso que é uma beleza. Como corinthiano que sou, também caí no riso, ainda que confessadamente, tirando uma certa troça. Claro que o Timão também teve jogadores bizarros e é bem viva em minha memória a zaga de 93, com Baré e Embu, ruins que só, mas que não deixavam passar nem vento naquele Brasileirão que deveria ter ido para o Parque São Jorge.

Santos é cidade praiana e tem muitos turistas. Porém, o mais famoso dos Bolaños esteve na praia e é muito lembrado por causa disso. Será que o equatoriano também será? Vejamos qual o prognóstico do periódico esportivo:

Chaves foi a Acapulco, já Bolaños, está perto de se firmar no litoral paulista. A diretoria santista ainda não o confirmou como novo reforço, mas o jogador já está confiante de que poderá passar a temporada perto da praia.

E o que dizer do quase rebaixamento do time da Vila Belmiro no Brasileirão de 2008, bem como o drama que isso ocasionou?

O meia chegaria ao clube para apagar a má campanha do ano passado, coisa que nem o Chapolin conseguiria evitar. O time lutou contra o rebaixamento até a penúltima rodada do Campeonato Brasileiro e se livrou após dois empates por 0 a 0 seguidos, contra Atlético-MG e Náutico. Falta de astúcia parecida com a do herói de vermelho e marreta biônica.

Sim, mesmo quem odeia o Chaves e adora o time do Pelé em contexto fanático religioso caiu no riso ao ver a comparação das situações. Aliás, talvez o Chapolin, se jogador de futebol fosse, usaria pílula de nanicolina e tentaria reverter o efeito quando estivesse na grande área, para ser o fator-surpresa do time.

OK, pode haver algum torcedor mais fanático que o mais fanático dos integrantes da Al Qaeda (se bem que isso existe em tudo quanto é time) e este poderia roubar um teco-teco e espatifar contra a redação do Lance! só para fazer uma maquete daquilo que vimos em 11 de setembro de 2001. Assim sendo, que façamos um meio-de-campo com os caras e os façamos terminar o dia felizes:

Mas o Santos trabalha para que o clima neste ano seja de alegria, como o da vila em que o barril de Chaves se situa. Só que a Bruxa do 71 está na lateral direita, onde o Peixe só pode contar com Luizinho. Antes que o setor comece a assombrar, como faz a vizinha, a diretoria busca alternativas. A última foi o ala Vitor, do Goiás.

Quantos aqui devem ter imaginado o tal Luizinho caracterizado como a dona Clotilde? Olha, terei de procurar uma foto do cara para imaginá-lo com um chapéu antigo e um birote, mas já o estou imaginando previamente. E, claro, o cara que planejava o tal atentado já deve ter caído na gargalhada e desistido de tal atrocidade.

Pergunto-lhes: o fato de fazer um paralelo tirou a força do conteúdo informativo da matéria? Acho que não preciso responder o que acho. E vocês, o que acharam?

Em tempos: o Bolaños da LDU chama-se Luis. Ao ver o link da matéria, vi que tinha uns corneteiros de plantão xingando o cara. OK, há pessoas que são pessimamente humoradas mesmo, mas será que o jornalista quer mesmo esse tipo de leitor quando está falando de esportes? Já disseram que o futebol é, das coisas menos importantes, a mais importante. Fico aqui pensando com que cabeça vão esses que chiaram com o texto em questão.

Infelizmente, vi gente que é tão ou mais blasé que a jornalistada que os acha idiotas a princípio. OK, há um certo grau de fanatismo em alguns comentários, mas mesmo assim, a matéria conseguiu o mais importante de tudo: não deixar ninguém indiferente.

PS: Aceito comentários que discordem da tal matéria, contanto que sejam respeitosos e falem totalmente da matéria. Qualquer argumento ad hominem, seja contra o escriba deste blog, seja contra o cara que escreveu a matéria não será publicado. O mesmo vale para aqueles que vierem com alegaçõezinhas batidas de que o Lance! seria jornal deste ou daquele time, posto que desprovidas de bases e provas sólidas. A eventuais fanáticos quase al-qaedistas como uns que vi na lista de comentários do link da matéria, aviso que os comentários aqui são pré-moderados, seus IPs aparecem aqui e fica relativamente fácil para saber quem são, em qualquer coisa. Comentaristas que sejam minimamente gente, podem ficar à vontade neste espaço, que também é de vocês.

PPS aos corneteiros sem-humor de plantão: vocês ficarem reclamando de tudo quanto é matéria diferentinha que se faz é uma das causas dos textos enfadonhos que vemos em boa parte da imprensa brasileira. Parem de reclamar e verão outros textos interessantes ganharem espaço e o prazer de ler uma boa matéria retornar.

A notícia já é ligeiramente envelhecida, mas vale a pena comentá-la. E o principal motivo é que ela fala da internet superando os jornais como segunda fonte de notícia mais procurada nos EUA, perdendo apenas para a televisão. Vale lembrar que aqui no Brasil, esse fenômeno já aconteceu antes e só agora muita gente grande se deu conta que está sendo superada.

Como não poderia deixar de ser, tenho de guinar o tema para o que fala este blog. E neste caso, dá para embutir aí o conceito da reação do leitor, tido como idiota por muitos jornalistas, contra estes.

Motivos não falta para que eu ache isso. É da natureza da internet ser um lugar aonde você procura a notícia e não é procurado por ela. O jornal e a revista, se você os assina, são jogados regularmente na porta de sua casa. A televisão, basta você ligar e ouvir o que o âncora tem a te dizer. Já este meio em que esta mensagem é escrita, não. Se você não sabe o que significa algo, bastará digitar em algum buscador e este te passará, por exemplo, um link da Wikipedia dizendo resumidamente o que é esse algo. A notícia é inclusive mais limpa esteticamente por conta dessa natureza, bastando ver o exemplo abaixo, que qualquer um é obrigado a explicar, uma vez que não é assunto que uma ampla maioria conheça ou tenha a qualquer noção:

Internet:

pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico

Meio escrito:

pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico (portador de empedramento dos pulmões causado por inalação de cinzas vulcânicas)

A palavra em si tem 46 caracteres. Na explicação do meio físico, você teve de acrescentar mais 81 (incluindo aí o espaço entre a palavra e o primeiro parêntese). Fosse só isso, não haveria maiores problemas. Porém, aquilo que o colega Geneton definiu como o enterro da imprensa teima em explicar tudo, achando que a pessoa a princípio nada sabe, isso para não falar do farto fornecimento de detalhes a perigosos extraterrestres que tenham chegado a este planeta sem saber qualquer coisa a respeito dele, mas com fins de dominação. Um clássico é “internet, a rede mundial de computadores”. Até minha falecida avozinha sabia o que era internet, mesmo que nunca tivesse mexido com a dita cuja e sua escrita remetesse às normas ortográficas dos anos 30.

Alguns teóricos da internet diriam que pôr um link tira a audiência de seu site, mas muito antes do advento das abas, já era possível pô-lo abrindo em outra janela, como é feito neste blog. Agora com a aba, basta apenas abrir uma, clicar, ler a dita cuja e voltar ao texto. Claro que alguns se esquecerão do que estavam fazendo, mas como imprensa é empresa, o pageview foi garantido e o dono pode esfregar os mesmos na cara dos anunciantes. Isso para não falar de soluções que permitem que a explicação esteja na própria página ou remetida para um glossário ou coisa parecida dentro do site em questão.

Ainda na parte ativa da internet e minha suspeita de isso ter sido uma das principais causas de ela ter superado os jornais em audiência, fica a coisa de poder comparar o que dois portais disseram e ver quem está com maior acurácia. Em uma aba, posso ter o Uol, na outra o G1 e em outra o Terra, todos falando da mesma coisa, isso para não falar da nova imprensa que surge e que já fez muito tubarão arrancar os cabelos antes de a Polícia Federal deflagrar operações de nome maneiro relacionadas.

Parte da questão da portabilidade foi resolvida. Quem tem um telefone 3G pode sossegadamente ler as tais notícias da net onde estiver. Dependendo do modelo, dá até para poupar os pacotes de dados e acessar em wi-fi. Claro que para moradores deste país, devido à grande presença de pessoas que invejam aqueles que trabalham honestamente e adquirem seus bens com o suor do rosto, recomenda-se não fazer isso em ruas ou lugares com muitas pessoas.

Sim, há no Brasil essa aspecto da segurança pessoal e da não-ostentação que pode ser um filão a ser explorado pelos jornais e revistas. Porém, é muito pouco, uma vez que poucos são os profissionais que ficam na rua o dia inteiro (e no caso dos jornalistas, eles estão ficando na rua menos tempo do que deveriam, uma vez que muitas empresas acham que a apuração exclusivamente telefônica serve para alguma coisa além de enganar o leitor). Boa parte dos profissionais de hoje tem em sua frente uma tela de computador e este computador ligado à rede. Portanto, pode ver a notícia acontecendo quase simultaneamente ao fato.

E para que servirão os jornais? Muitas empresas ainda não notaram que os jornais não sumirão, mas sim serão reinventados. Esquecem-se do maior conforto de leitura que uma fonte refletora de luz tem em relação a uma que emite. Quantos aqui conseguem ler um texto longo na internet sem que pareça que uma hora as letras andem pela tela? Só no presente momento que escrevo este compridinho, já pus as mãos na cara e cocei os olhos. Porém, quantos aqui lêem na boa não um jornal, mas um livro de mais de 500 páginas? Dúvidas? Vá a um ônibus ou metrô e veja o brasileiro normal fazendo isso.

Já a outra coisa é puramente jornalística mesmo. Apure (bem e usando o telefone só para primeiros contatos ou coisas pequenas) algo que a internet ou a TV não tenha dado e tenha certeza que seu meio impresso aumentará as vendas e terá leitores fiéis. Ah sim, que essa boa apuração esteja nas mãos de alguém que escreva bem, pois um texto envolvente faz qualquer um ler na boa 20 mil caracteres em uma sentada só. Claro que isso serve sem problema para a própria internet, que é escrita.

“Ah, mas o leitor não vai saber o que estamos falando. Nosso meio tem como público-alvo pessoas de pouca escolaridade e oriundas da aprovação automática”. Já parou para ver onde estão alguns desses? Qualquer dúvida, vá a uma LAN-house e verá uma porrada desses seus leitores-alvo. Quer ir para o humilde casebre de um deles? Corre o risco de ver um computador mais invocado que o da sua casa, e regiamente pago em dia. E, claro, com uma série de conhecimentos que nem de longe estão retratados nas redações que dizem pensar neles. Quanto tempo demorou para a imprensa, especialmente a musical, tomar conhecimento de fenômenos silenciosos do País, como o tecnobrega do Pará e o kuduro transplantado de Angola para a Bahia? Talvez ainda estejam alheios a isso. E talvez ainda achem que só entram na internet para ver Orkut e mandar currículo.

Fujo totalmente ao tema do blog, mas por motivo mais do que justo, uma vez que nossos compatriotas catarinenses estão sofrendo (e bota sofrimento nisso) com as enchentes. Milhares de desabrigados precisam da ajuda de todos nós e os parcos leitores daqui podem ser catarinenses ou ter parentes lá.

Passo-lhes uma série de números de contas especialmente feitas para essa ocasião. Infelizmente, como sabemos, há muitos golpistas nessa ocasião trágica e até mesmo a Defesa Civil daquele estado já alertou. Na hora em que estiverem fazendo a transferência, tem de constar na tela “Fundo de Defesa Civil de Santa Catarina”. Seguem os números:

Besc:
Agência: 0680
Conta corrente: 80.000-0

Banco do Brasil:
Agência: 3582-3
Conta corrente: 80.000-7

Bradesco:
Agência: 0348-4
Conta corrente: 160.000-1

Caixa Econômica Federal:
Agência: 1277
Operação 006
Conta corrente: 80.000-8

Quem preferir fazer doações em produtos físicos, segue a lista do que é mais necessário. Há alguns lugares onde entregar os donativos, como as sedes da Funasa. As lojas da grife Cavalera também estão recebendo donativos, a serem entregues até o dia 7/12. Se os colegas que lêem esta postagem souberem de mais endereços, pedirei que os ponham nos comentários.

O trabalho dos coveiros é isso. Imagine isso sendo feito em tudo aquilo que você usa para se informar.

Nesta semana, o repórter Geneton Moraes Neto escreveu um artigo pra lá de interessante em seu blog. Ao ler o dito cujo, realmente não pude deixar de me identificar, e muito, com o que ele diz, até porque é a tecla na qual bato neste blog desde o ano passado.

De fato, muito dos jornais e revistas que lemos por aí te forçam a se perguntar em que realmente te acrescentam na vida. Até acrescentam alguma coisa, como se pode ver na verve irônica do cara:

Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de “crise econômica”, eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.

De fato, certos jornais são sim mais baratos do que uma capa de chuva. Recentemente, fui a um show ao ar livre e caía um toró daqueles e pude ver que preço cobravam pelas ditas cujas.

Aquela sensação de que lemos um mesmo jornal, independente de onde estivermos e que jornal lemos, também foi esmiuçada pelo cara, como se pode ver aqui:

O jornal é de São Paulo. Poderia – perfeitamente – ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro. Eu disse “notícias interessantes”? Em nome da verdade, retiro o que disse.

Também admirei a sinceridade do Geneton ao falar que não é um desses que lê um trilhão de jornais por dia, como muitos jornalistas por aí dizem fazer e nos obrigar a fazer contas sobre quanto tempo demora para ler cada um dos jornais e ver qual a porcentagem do dia que foi ocupada para cada um.

Ele também fala sobre o clima de certos jornais tratarem as notícias ocorridas no ontem a que predominantemente se referem como se fosse uma novidade, bem como fazendo exatamente aquilo que a TV e a internet fizeram já naquele ontem.

E Geneton acaba por resvalar no assunto principal deste blog, mesmo que sequer saiba de sua existência: o tratar o leitor como se fosse alguém permamentemente em coma desde o dia em que nasceu. Geneton, aviso que já dei umas corrigidinhas bem de leve, mas que não alteram o sentido de seu texto. Cacoete de revisor:

Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pelo mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo? Em que planeta os editores de primeira página vivem? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página?

E já que grandes impérios não caem por causa de inimigos externos, mas por fraquezas internas, ele levantou uma boa lebre: a de que certos editores agem assim por na realidade terem medo do fim do jornal impresso, não por obsolescência do tipo de mídia, mas pela maneira como estão sendo feitos.

Em minhas andanças jornalísticas, vi gente exatamente deste jeito que o repórter descreve:

Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.

E que ninguém duvide de sua existência. Ao jornalista que duvidar, que escreva um titulinho mais interessante ou um texto mais envolvente para ver o tipo de resposta que terá invariavelmente termos como “o leitor”, “nosso leitor”, “nosso tipo de público” e assemelhados, sempre jogando a todos nós, que somos leitores, lá no chão, como pessoas plenamente incapazes das coisas mais simples da vida.

Geneton também falou uma legal sobre aquela sensação de vermos muitas pessoas, mas parecer que vemos a mesma pessoa em tudo que é lugar, tal qual um agente Smith de Matrix:

Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.

Sim, a Grande Marcha dos Fatos tem de ser mesmo referida dessa maneira, pois é épico sim fazer um produto de comunicação, que nem precisa ser grande ou dos mais famosos. E os fatos, queiramos ou não, acontecem, cabendo aos jornalistas abordarem da maneira que mais faça a pessoa ler e guardar em sua mente aquilo que está sendo noticiado.

E quando você chega com uma sugestão de matéria das mais interessantes e imediatamente jogam aquele balde de água fria usando das afirmações mais esdrúxulas possíveis? Sim, Geneton também fala e, pela quantidade de vezes que usa a expressão “chata” para se referir à imprensa, não é preciso dizer o quanto que essa mentalidade está entranhada no Brasil. E ele também lembra que a regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.

O jornalista, que como qualquer ser humano precisa ganhar seu sustento, sente-se tolhido de fazer o trabalho do jeito que gostaria de fazer e acaba aceitando ter sua criatividade reprimida e sugada justamente por muitas vezes reportar-se a um desses tais “coveiros” a que ele se refere.

E você, como tem consumido os produtos jornalísticos? Se é que vem consumindo. Se não vem, ninguém irá recriminá-lo por tal coisa. Realmente está muito maçante acompanhar boa parte da imprensa. O pior é que esses que a matam muitas vezes chegam aos melhores cargos. E Geneton mais uma vez faz uma troça desses:

O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco….Quá-quá-quá).

Muitas vezes, os jornais (acrescente aí revistas e por aí vai) só estão vendendo mesmo por causa de seu nome, ainda mais pensando que vivemos uma crise econômica causada por gente que quis pôr o nome como solitária garantida de alguma coisa. Pois se fosse pelo conteúdo, ficariam na banca, isso se já não ficam:

Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente.

Aviso ao colega que não concordo com essa história de que a Gretchen seria descerebrada, ainda mais pensando que ela fez curso de pedagogia, bem como é preciso ter cabeça para sustentar três décadas de carreira na crista da onda. Podemos fazer objeções à Rainha do Bumbum, mas burra é algo de que não podemos chamá-la.

E esse repórter a cujas matérias gosto tanto de assistir também versa no campo dos velhos tabus postos pelos coveiros da imprensa, como a proibição da voz passiva e outras. Aviso também que fiz pequeniníssimas correções ortográficas que não alteram o sentido do texto:

Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia, sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios. Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia “São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio”. Por que não algo como “TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO” ou “JOGADORES DO SÃO PAULO PROIBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV”? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável – um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas… o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.

Aliás, a exemplo da linguagem de fresta que os cantores e compositores usavam no tempo da ditadura militar, os jornalistas também estão fazendo uso da mesma para tentarem passar adiante as informações mais interessantes sem que elas sejam podadas pelos tais coveiros. É um tipo de expediente que ganhou vulto nos anos 90, mas por causa de certas preferências políticas enrustidas que certos meios tinham. Aliás, recomenda-se a todo jornalista que se reportar a um superior com experiência prévia no Araçá ou no Caju que façam isso, pois eles não merecem o que você escreve, mas o leitor sim.

E quem são esses que sepultam a imprensa?

Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.

Vi esse artigo republicado em outros lugares. Em um deles, quem mais descia a lenha no Geneton era uma pessoa cujo olhar e semblante muito me lembram os de famosos psicopatas, isso se não for um sociopata que transforma a vida de seus subordinados em um inferno quanto destes escrevem algo um pouco mais palatável e menos óbvio. E qual não foi a surpresa de ver que os arautos da obviedade na imprensa usaram de expedientes igualmente óbvios para desqualificar o texto? Afinal, não é preciso usar muito raciocínio para chamar de dono da verdade alguém que discorda com propriedade daquilo que você escreve. Tanto não precisa de raciocínio que sequer é necessário ler e decodificar o texto escrito, principalmente se ele for longo. Nessa de desqualificar, também desqualifiquem o cara dizendo que jornalismo diário não seria a do cara. Vale lembrar que Geneton trabalhou por cinco anos no Diário de Pernambuco, bem como na sucursal nordestina do Estadão e na Globo desde 1985, já tendo sido editor e repórter. Duvido aqui que a pessoa que quis desqualificar o texto do repórter especial da Globo tenha mais experiência em jornalismo diário que o Geneton. Em todo caso, a pessoa que comentou sequer versou de leve na contra-argumentação àquilo que o texto diz. Disse que que os exemplos citados pelo pernambucano são estapafúrdios. Mas por que seriam estapafúrdios? Essa resposta, creio que Godot chegará antes dela.

Recentemente, estou lendo A Sangue Frio, de Truman Capote. Será que o assassinato da família Clutter teria a repercussão que teve se fosse na base do “Família é assassinada a tiros no Kansas”? E isso se pensarmos que os chamados jornalistas literários usam desses expedientes desde um tempo em que as fontes disponíveis de notícia eram bem menores que as atuais. Se temos mais, por que a obviedade se multiplica e, pior, reage contra quem lhe faz objeção?

A mesma imprensa que amplamente divulgou que Eloá aos 12 anos namorava um cara de 19, bem como outras coisas que devassaram a vida da falecida e também da Nayara acabou por gerar na blogosfera um fenômeno que no mínimo é o mais puro mau gosto: os que agora jogam pedra na sepultura da morta.

Não irei aqui reproduzir ou mesmo dar o link das postagens em outros blogs que vi, pois não quero gerar efeito multiplicador das ditas cujas. Apenas aviso que salvei a íntegra das páginas em questão. Vejo que é diretamente conseqüência daquilo que foi amplamente divulgado pela mídia que nem se importou que havia duas vidas em jogo. Eis que vemos aqueles que são do contra por esporte se esbaldando e chamando a parte vítima da história de Geni, quase como se eximisse o Lindemberg de culpa.

Nas linhas que li, vi gente duvidando da cristandade da mãe de Eloá e de ela ter perdoado o assassino. Se ela perdoou ou só disse que perdoou, não somos nós que devemos dizer e muito menos isso poupa da justiça dos homens. Já sobre duvidar da fé da referida senhora, pergunto quem somos para afirmar isso. Vi também gente dizendo que em vez de pensarmos no caso de cárcere privado, deveríamos ter pensado nas milhares de crianças que morreram de fome no mundo durante os quatro dias do seqüestro, entre outras. Houve gente que duvidou das faculdades mentais da senhora em questão. Também desmereceram o momento em que a mãe diz que a filha está feliz e que isso pode ser um desígnio de Deus.

Li também gente jogando dúvidas sobre a conduta sexual da falecida e a maneira como se projetava em relação à sociedade, tudo em contexto bastante depreciativo. A coisa mais revoltante que li foi a de que após a morte, finalmente havia algo na cabeça dela: uma bala. Outro primor de insensibilidade: gente que diz ter ficado muito contente (claro que esse “muito contente” em sentido jocoso) de que a morte da menina serviu para disponibilizar coração, pulmões, córneas, fígado, pâncreas, rins e outros órgãos. Quem escreveu isso talvez diga que só estava sendo irônico e que o problema de fazer uma ironia é que os outros não entendem, mas creio que quem disse tal coisa não gostaria que falassem o mesmo de uma irmã ou outro ente querido e provavelmente esmurrariam o infeliz que dissesse que estava sendo irônico e que o esmurrador não teria capacidade e sofisticação mental para entender a piada.

Sobre a Nayara, li gente dizendo coisas das mais desabonadoras, chamando-a de burra e otária por ter voltado ao cativeiro. OK que foi um erro sem tamanho o retorno dela ao lugar em que recebeu o tiro no rosto, mas fica a pergunta aos colegas blogueiros que tanto amaram apontar dedos a ela sobre se eles alguma vez em suas vidas foram reféns ou estiveram no meio de uma situação tão tensa e arrasadora quanto essa. Ela esteve e garanto que muito marmanjo por aí ficaria tremendinho de medo. Mas esses mesmos estão lá para descer a lenha. Outra coisa também de péssimo gosto que li: a de que a menina daqui a três anos estará em capa de revista masculina (imagino que quem tenha cometido tal comentário possa tê-lo feito usando como exemplo as mais quentes, se é que me entendem).

Eloá e Nayara faziam parte de um grupo de amigas na escola intitulado Bonde das Glamourosas. E, claro, os que tornaram o ser odioso uma profissão (muito provavelmente sem remuneração) logo desmereceram a história. Provavelmente são os mesmos que se fizeram faculdade longe de casa, deram um nome bem bizarro para a república em que moravam e criaram um termo para identificar quem dela era. E aí, será mesmo que possuem moral para dizer algo? Também vieram com maledicências sobre se de fato elas duas e os dois meninos também feitos reféns estariam fazendo um trabalho escolar.

Porém, onde estarão esses maledicentes profissionais quando uma mulher próxima conta que a primeira vez dela foi aos 13 ou 14 anos com um cara de 20 ou 21? E se essa mesma mulher dá umas 100 escovadas antes de dormir? Não deveriam estar os mesmos descendo nessas mulheres próximas a mesma lenha que desceram na morta? E por que não descem? Ah, claro, é porque é minha irmã e ela tem a cabeça no lugar. Ou então é uma amiga muito querida e que sempre se preveniu. Afinal, a casa de todo mundo é perfeita e a privacidade tem de ser respeitada, não é verdade?

Noto também uma gigantesca arrogância nas tais postagens. Parecem desmerecer o natural sentimento de compaixão que a maioria dos seres humanos têm mesmo para com desconhecidos. Parecem até rir disso. De certa forma, os autores dessas postagens antecipam o que irão dizer a respeito deles, mas fica tudo parecendo o mesmo contexto que um troll usaria. E trolls, como sabemos, são gente que entra em um fórum de internet e propositadamente soltam comentários contra aquilo que o mesmo aborda só para verem o circo pegar fogo, mesmo que o que façam chegue às raias do absurdo e do ódio contra o outro. Imagino também que nem de longe tenham usado para com a Isabella a mesma régua maledicente que usaram para com a Eloá. Porém, não duvidarei que tenham tido uma coceirinha na mão.

Tudo bem que em certos momentos até falam coisas que fazem sentido, como a história que, de fato, estando ou não Eloá morta, não vai mesmo afetar a vida de quem não era próximo dela. Falam também de outros casos que não tiveram a mesma repercussão. Porém, é preciso perguntar se a não-repercussão dos casos em questão foi pelo fato de terem sido eventos súbitos e bastante delimitados e, claro, sem um monte de imprensa em cima acompanhando em tempo real. Porém, também é preciso lembrar que os casos em questão não eram de seqüestro. E seqüestro, como já disse na postagem anterior, não pode nem de longe ser abordado como se aborda um assassinato puro e simples, estando ou não seguido de estupro. Em seqüestro, há uma vítima, possivelmente viva, e tudo aquilo que a mídia disser ou mostrar poderá afetar o andamento de tal forma que o seqüestrado poderá perder a vida ou a família do seqüestrado sofrer ainda mais. Lembram daquela batatada que se falou quando do seqüestro de Wellington Camargo, irmão da famosa dupla sertaneja, de que deveriam criar um número de telefone para se juntar dinheiro para o resgate? Pois é. Depois que o seqüestrador ouviu isso, aumentou o valor que Zezé e Luciano teriam de amealhar para ter o irmão de volta.

E, claro, nem preciso dizer que fiquei indignado com os tais textos que li (e, relembro, cujas páginas salvei e não irei divulgar os links, por não querer gerar efeito multiplicador, subida em rankings de blogs e por aí vai). Pergunto-me se gostariam que sofrimentos de vocês fossem abordados de tal forma em outros blogs para serem comentados por gente que nunca viram. Com certeza não, independente ou não de haver mídia cobrindo. Não conheci Eloá e não conheço Nayara, bem como já disse que fiz questão de não ver muito a respeito do tal fato. Mas ninguém aqui pode se esquecer que há pessoas e que essas pessoas merecem ser respeitadas. Se não tiveram o respeito que merecem por parte da mídia, que o tenham por parte dos leitores, e principalmente dos leitores blogueiros, uma vez que esses são lidos por outros.

Além disso, tais postagens prestaram um desserviço e tanto na luta pela melhoria na qualidade do texto e na abordagem de um assunto. Vai um jornalista que acredita que o leitor é idiota até que prove o contrário ler as ditas cujas e irá acreditar que de fato, é o mais vil e reles que o público de produtos jornalísticos quer.

E para a mídia que espetacularizou o seqüestro de Santo André, que seus componentes durmam sempre lembrando, pois sabem que foram vocês que criaram essa montoeira de maledicência e julgamentos para cima de uma série de pessoas que estão abaladas e traumatizadas com o fato. Precisavam mesmo ter criado? Talvez digam que não, mas confesso que não acreditarei no que dizem, assim como confesso que não acreditei nem um pouco em quando vieram com aquele protocolar básico de que os princípios do jornalismo foram respeitados.

Como outros aqui, acompanhei de alguma forma o seqüestro e cárcere privado das meninas Eloá e Nayara. Diríamos que acompanhei de maneira passiva, pois evitei ao máximo ver qualquer notícia a respeito, para não me sentir cúmplice do show de horror que os meios de comunicação promoveram.

Dá para considerar sim a mídia como cúmplice da situação. Acabaram fazendo muito do que o Lindemberg queria. Disse Nayara à polícia que o tal ex-namorado dizia que era o cara, que era o príncipe do gueto, que os policiais tinham medo dele e por aí vai.

Porém, não irei falar tanto sobre o seqüestro em si, apenas esperando que o tal Lindemberg receba uma justiça digna de tal nome e sem chicanas como as que fazem Pimenta Neves estar condenado por homicídio doloso e ainda em liberdade. Também não comentarei a respeito da postura da polícia, que considerei das piores possíveis, ainda mais pensando que haviam conseguido libertar uma das reféns e a devolveram para o seqüestrador. Isso para não falar das inúmeras oportunidades que tiveram em muitas horas de cárcere privado de prender o cara e libertar as duas garotas sem ferimentos. Falarei isso sim da postura da imprensa em geral no tal caso.

Quem ainda não assistiu a “Montanha dos Sete Abutres”, que assista e veja Kirk Douglas em ótima forma. E um pouco dessa montanha foi parar em Santo André na semana que passou. Vimos de tudo um pouco em matéria de absurdos. Que tal entrevistar o seqüestrador? Pois é o que fizeram. E que tal falar que a polícia se dirigia ao lugar? Também tivemos isso. Alguém aqui duvida que o Lindemberg estava assistindo aos vários canais que noticiavam quase em tempo real a tal mazela?

Isso não se faz. E o pior de tudo é que trataram aos espectadores como idiotas. Acharam que vocês eram feras sedentas por sangue, quando não duvido que no círculo social de cada um que lê esta postagem, uma porrada de pessoas tenha achado simplesmente horrorizante e doentio o que repórteres e apresentadores de programas noticiosos fizeram. E mesmo o mais ignaro teve seu senso de humanidade acionado ao notar o que queriam fazer com aquelas duas meninas.

Eloá teve morte cerebral, mas é possível que nas mais de 100 horas de horror a que foi submetida, tenha notado que virou não “superstar do Notícias Populares” (Racionais), mas sim de uma série de meios que há vezes em que pensamos se o extinto espreme-que-sai-sangue não chegava a ser mais leve que aquilo que um coletivo de canais fez.

Vale lembrar que uma série de artigos existe no Código de Ética dos Jornalistas e que somos obrigados a levar em conta quando vemos tal espetacularização de algo que podia ter tido desfecho melhor. Seguem alguns, com seus devidos comentários:

Art. 6º É dever do jornalista:

II – divulgar os fatos e as informações de interesse público;

VIII – respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;

XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias;

Será mesmo que era de interesse tão público assim divulgar informações que ajudassem ao tal Lindemberg a se planejar? A quem interessaria saber que a polícia se dirigia ao local do crime? Creio que só mesmo a quem o perpetrava.

E a intimidade, a privacidade, a honra e a imagem de Eloá e Nayara, foram mesmo corretamente preservadas? Quantos comentários ouvimos a respeito da diferença de idade entre a hoje morta e seu ex-namorado? Foram comentários de pessoas que nunca viram a hoje morta mais gorda ou mais magra e que, mesmo que ela tenha sido refém, na prática o ocorrido não afetará diretamente suas vidas.

Eis que vimos também duas adolescentes de 15 anos (aqui, portanto, temos duas condições se cruzando) tendo suas vidas devassadas pela imprensa. Foi mesmo preciso saber que Eloá, quando aos 12 anos, namorava um cara de 20? O que muita gente deve ter pensado a respeito disso? Com certeza coisas não muito honrosas. E o que dizer da contínua divulgação do nome e da imagem das duas vítimas? Nayara sobreviveu, mas que ninguém duvide que ela precisará de um belo tratamento, tanto médico quanto psicológico, para tentar lidar com tudo a que foi submetida. Poderá andar pelas ruas e algo mais chamará a atenção que a marca da bala que recebeu. Onde quer que esteja, alguém lembrará dela como a garota que foi vítima do tal Lindemberg. Isso para não falarmos de comentários maliciosos a respeito de sua libertação e volta ao cárcere. Também não podemos esquecer que alguns inclusive se perguntam se não houve violação do Estatuto da Criança e do Adolescente a respeito disso tudo.

Segue mais um artigo:

Art. 7º O jornalista não pode:

IV – expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais;

V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;

Preciso mesmo comentar alguma coisa a esse respeito? Porém, deixarei aqui um parágrafo do mesmo artigo para que pensem se ocorreu ou não durante todo esse espetáculo dantesco:

IX – valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais.

Aqui também se articula com o que está acima uma parte do próximo artigo:

Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações:

I – visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica;

II – de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes;

Que ninguém aqui duvide que aqueles que falam “mas essa vaca não vai chorar?” durante programas do tipo “Esta é sua vida” tenham tido o mesmo tipo de “sensibilidade” quando do caso de Santo André. Aliás, meus caros, gente que, se não fosse comunicador, seria serial killer, é coisa que tem bastante na comunicação social. Pois é, uma comunicação que deveria ser social, está virando comunicação sociopata.
E seguem mais um artigo para que pensem:

Art. 13. A cláusula de consciência é um direito do jornalista, podendo o profissional se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios deste Código de Ética ou que agridam as suas convicções.

Parágrafo único. Esta disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para que o jornalista deixe de ouvir pessoas com opiniões divergentes das suas.

Fico aqui pensando sobre quantos foram cobrir a tal morbidez contra suas vontades, indo lá apenas porque se não fossem, seriam demitidos e, pior ainda, correriam o risco de nunca mais serem contratados por quem quer que fosse.

Aliás, este ano que se encaminha para o fim foi pródigo no que considero mau uso da mídia. Já comentei aqui sobre o caso Isabella e agora temos aqui o caso de Santo André. Também me pergunto sobre quantos mais Lindembergs teremos daqui para diante. E sobre quantos comportamentos de manada da mídia teremos.

Ando notando em alguns uma certa euforia para com a onda de blogs. Alguns dizem ser o futuro da notícia. Outros falam que a partir de agora, todo mundo é jornalista, entre outras.

Ouço essas coisas com o maior dos respeitos, até porque vem de gente com quem me dou bem. Porém, não posso deixar de achar que há aqui uma euforia equivalente àquela de quem achava que a TV iria acabar com o rádio e o cinema, entre outras assemelhadas.

Sinto muito, mas isso não vai acontecer. Assim como você continua indo ao cinema, ouve seu radinho e lê seu jornal, os jornalistas continuarão sendo jornalistas e para chegar longe, terão de comer muito feijão, estudar um bocado e agir jornalisticamente. E jornalistas poderão ser blogueiros, bem como a maioria absolutíssima dos blogueiros não é nem nunca será jornalista.

Um dos motivos é simples: o agir blogueiro difere do agir jornalístico. Por mais que se tente agir jornalisticamente, o grau de opinionismo por aqui é maior, porque blogs são mesmo opinativos por essência. Quem lê este blog o lê porque espera aqui ver aquilo que penso a respeito de algo. Mesmo que eu noticie algo aqui (como da vez em que cobri o Salão Nacional do Jornalista Escritor), já está subentendido que mesmo que se tente ser isento, é aquilo que penso e em um viés que no sentido jornalístico estrito, estaria mais para uma coluna do que para uma matéria.

Vejo a polêmica sobre o diploma, mas vejo também que um esquecimento do ciclo de vida das profissões, o quanto que elas evoluem e o quanto de saber específico elas passam a exigir. Olhem para os dentes de algum urbanóide pela casa dos 60 a 70 anos e vejam o que o dentista prático fez em sua arcada. Compare agora com a média dos dentes de quem foi cuidado por algum portador de número do CFO mais recente.

Concursos públicos vêm ganhando importância na absorção da mão-de-obra de nossa profissão. E para assumir o cargo neles disputado, é preciso ter diploma e registro. Diga “eu tenho um blog” na hora de assumir o cargo e verá as pessoas de lá contendo os risos para não ficar ridículo para seu lado. E olha que muitos dos cargos de concursos são bons cargos, dos mais construtivos e daqueles que você teria orgulho de desempenhar.

Recentemente, tivemos séries muito boas em blogs, como a que Luís Nassif vem conduzindo sobre a Veja e que antes da Satiagraha estourar, já havia cantado muitas bolas. Porém, nunca se esqueça que por lá está sim o jornalista Luís Nassif, mas também o blogueiro, que vai acabar em algum momento deixando algo que revela o tal viés opinativo mais forte dos blogs. Se bem que no caso dele, ele chega a separar o que é notícia puro-sangue do que é blogagem, permitindo que a pessoa vá com a cabeça já preparada para ver o que é o que, ainda que aquela ressalva mental tenha de ser acionada sempre que virmos algo que é blog.

Fala-se do tal “jornalismo cidadão”, mas alguns se esquecem que as tais contribuições são feitas por pessoas que não têm o jornalismo como atividade-fim. Portanto, é de se esperar que não haja o mesmo comprometimento com a qualidade da dita cuja, por mais bem apurada que seja. Comprometimento, no caso, entenda-se de estar permanentemente voltado para o ato de noticiar de maneira isenta, uma vez que disso se vive. Ou alguém aqui de sã consciência vai imaginar que um “jornalista cidadão” que por um acaso seja médico vai largar um paciente no meio de uma cirurgia para atender ao celular e anotar atentamente tudo que a fonte fala em um bloquinho? Com certeza não. Noto aqui, no máximo, um ligeiro paralelo com os cinegrafistas amadores. Vide a história da Favela Naval: o cara flagrou os PMs dando porrada em cidadãos, mas quem foi lá apurar a história foram os jornalistas. Lá foram eles ouvirem os muitos lados, lá foram eles se dedicar ao assunto. Já o cinegrafista amador, não é de se imaginar que extraia seu sustento de fazer imagens em contexto jornalístico, como faria um videorrepórter.

Blogs são fontes de informação? Sim, assim como placas de trânsito, jornais, vizinhas fofoqueiras e cães que te arrastam para ver algo que lhes chamou a atenção. A grande diferença é sobre o que é a informação jornalística. Essa tem cara bem definida e, assim como em qualquer outro ofício, temos os bons e os maus, com a diferença que os maus conseguem prejudicar alguém em espectro muito mais amplo que o da fofoca da vizinha. Alguns de cara irão se lembrar da Escola Base e o massacre a que foram submetidos os envolvidos. Porém, os mais antigos irão se lembrar de uma gama de casos muito mais ampla, daquelas que fará qualquer um agradecer aos céus de os tempos românticos do jornalismo não mais existirem, ao que sugerirei a leitura de Cobras Criadas, livro de Luiz Maklouf Carvalho que fala de David Nasser, mas também de certos aspectos daquele jornalismo.

Portanto, informe-se nos blogs, mas não ache que alguém que escreve um blog é jornalista pelo fato de escrever blog. Porém, lembre que o blog demanda paciência de quem o lê, não pode ser transportado para lá e para cá, não tem a infra-estrutura de uma empresa jornalística (quem nem grande precisa ser) e por aí vai. Não ache que isto aqui é presumivelmente isento até que se prove o contrário. Nem os blogueiros acham. E também não ache que os blogs balançarão a roseira a ponto de qualquer pessoa poder ser considerada jornalista.

Deixo-os com este link para que pensem um pouco. Link esse que já levantou uma bela polêmica na blogosfera.

Neste sábado, consegui um frila de revisão de texto em agência publicitária. Era material dos fortes: uns PPTs para uma concorrência de empresa pública, daqueles para entregar para ontem, o que inclusive explica ter sido em um sábado.

Pois bem, lá fiz as tais revisões. De fato, o ambiente estava pesadamente influenciado pelo prazo curto e, fora eu, todos os outros lá estavam inconformados de trabalhar em um sábado. Fora haver horas em que estavam ironizando bastante certos aspectos do tal trabalho.

Porém, houve algo que me fez até passar batidas as 12 horas que lá fiquei: o ambiente. Não sei quantos jornalistas que lêem estas postagem já puderam ter a oportunidade de ver uma agência publicitária fazendo fechamento, mas digo que é algo muito mais civilizado que os fechamentos jornalísticos. Não vi nenhuma reação animalesca quando abordava alguém que estava absorto em seu computador.

Além disso, o ambiente em si era muito mais leve. Piadas surgiam a toda hora e não ouvi um grito sequer. Se havia algo mais grave, era discutido com civilidade. Sei que publicitários também podem ler esta mensagem e discordar de mim, mas garanto ter sido uma boa experiência a revisão publicitária.

O pessoal lá também se surpreendeu com meu estilo de revisão, uma vez que até alertei para detalhes de informação e contraste fundo-letra que impedia o conforto de leitura. Imagino que tenham gostado do que viram e quem sabe possa pintar algo mais da agência em questão.

E fico aqui pensando sobre um dia utópico em que veremos redações tendo esse ambiente mais zen, em que não será rotina a soltura de cachorros. Vale lembrar que tanto jornalismo quanto publicidade costumam ter prazos exíguos e altos graus de espremeção cerebral para que algo saia do jeito certo, bem como jornadas amplas dependendo da ocasião. Porém, o que vi na agência em questão foi justamento o oposto do que veria em uma redação.

Eis que o pessoal do trabalho mais braçal pega um pincel atômico e faz um desenho bem obsceno na lousa da sala e a superior chega à tal sala e fica silenciosa. O que ela faz? Olha para o tal desenho, conversa um pouco com o pessoal e depois, solta uma risada daquelas com o besteirol todo. Fico pensando o que aconteceria se algo assim estivesse em uma redação e fosse uma editora-chefe que visse alguém fazendo uma coisa dessas. Talvez pudesse significar até mesmo a demissão de quem fez tal coisa. Já outro imediatamente fazia uma videomontagem com um áudio do comercial, o que em tese daria toda justificativa para que alguém chegasse e dissesse que ele está desperdiçando tempo e atrapalhando um processo inclusive industrial. Mas não: olharam para o outro besteirol e mais risadas surgiram.

Depois de uma comparação dessas, fico pensando o quanto que o modo de ser carrancudo de nossos jornalistas está sendo transferido para o texto. Isso para não perguntarmos se também está na hora de mudar o conceito de redação como conhecemos para que haja mais conforto ao jornalista. E tudo isso de maneira alguma comprometeria o postulado da isenção e de ouvir os dois lados.

Alguns dirão que publicidade recebe mais grana que jornalismo e que a grana que o jornalismo recebe é a raspa de tacho da publicidade, mas lembremos que há veículos de comunicação jornalística que recebem rios de dinheiro e nem de longe têm o ambiente da agência de publicidade que conheci, que não é das grandalhonas do Brasil, ainda que tenha clientes muito bons. Assim sendo, creio que haja também uma questão de postura coletiva dos publicitários que difere daquela dos jornalistas.

Tarde de terça-feira, 15 de julho de 2008. O ônibus segue pela Rebouças rumo ao centro da cidade. Percorre o corredor e, em pé no degrau da porta traseira esquerda, o que vemos? Sim, ele, o leitor:

A foto está tremida e foi tirada com um celular, mas o escriba deste blog testifica e dá fé que o rapaz em questão tinha todo aquele jeito que só quem é das perifas paulistanas tem. Usava aquelas roupas chamativas e incrementadas que você precisa ser mesmo de lá para saber deixar tudo na maior das elegâncias. A camisa era de botão e preta, mas as costuras com um quê de desenhos tribais tiravam toda e qualquer sisudez da dita cuja. Isso para não falar da calça do mancebo, também bastante maneira. Um office-boy? Um auxiliar administrativo? Não saberemos ao certo.

E o que ele lia?

A) O Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, na edição da L&PM Pocket

B) Cigana do Amor. Trago seu (sua) amado(a) em três dias. Pagamento depois do resultado.

C) O Doce Veneno do Escorpião, de Bruna Surfistinha

D) Algum folheto de orientações sobre equipamentos de segurança

Já chegando perto do ponto final, ele pôs o que lia no bolso e desceu na altura da esquina da Paulista com a Consolação. Talvez trabalhe lá ou talvez fosse aproveitar o Bilhete Único.

Impressionou-me o quanto ele estava compenetrado no assunto. Passava longo tempo em uma mesma página, destrinchando aquilo que estava em suas mãos. Era cara bem atento mesmo.

E aí, já descobriu o que ele lia? Segue a resposta abaixo:

Opção A

Sim, isso mesmo. Ele lia uma obra histórica e de importância fundamental para entendermos o que ocorreu do século XIX em diante. Lia sem maiores problemas, prestando bastante atenção aos tão intrincados textos, ainda que feitos para uma massa proletária ignara do século retrasado.

Esqueceram de avisá-lo que não pode ler essas coisas, pois é “o leitor” e dele só se espera que leia e compreenda qualquer coisa até o tamanho do letreiro do ônibus em que estava. Já na imprensa, esqueceram de avisá-lo que ele só pode ler textos curtinhos, mastigados, anódinos ao extremo e que forrarão gaiola de passarinho quando o dia terminar. Avisem também que ele não poderá ler qualquer coisa que tenha ordem passiva e que terá de cantar o Virundum sem ter a menor idéia do que é anacoluto e outras figuras de linguagem. Obrigado.

Por acaso esta menina merece ser bucha de canhão para enriquecer cofres de gente que fatura sobre sua morte falando dela diuturnamente?

Ninguém aqui quer que as investigações sejam suspensas ou esquecidas, mas também não queremos a espetacularização que se promove em cima dessa menina cuja morte, de fato, foi bastante atroz.

De dia, de tarde, de noite e de madrugada, somos bombardeados com notícias desse caso. Porém, qual a relevância dessas notícias? “Alexandre Nardoni bebe água”, anuncia o meio X em letras garrafais. “Ana Carolina Jatobá pede uma pizza meio margherita, meio frango com catupiry”, diz o meio Y. E no canal de TV, uma manchete bombástica que você não pode perder: “Pai de Alexandre espirra compulsivamente perto de um jardim florido”.

Alguns dirão que é isso que o leitor, o ouvinte, o telespectador ou o internauta querem. Porém, querem fazer parecer crer que estão na sua prerrogativa de meio informarivo, escondendo, como alguém esconderia um elefante debaixo do tapete, que apelam para suas sensações com o simples intuito de ganhar mais audiência ou tiragem, ambas por sinal bastante voláteis.

Além disso, pensando no tempo de um programa de TV, no número de páginas de uma revista ou terminal ou em quantos gigabytes tem um servidor, já pararam para pensar o quanto de notícia de fato não se tornou de conhecimento público para dar espaço para detalhes sem importância do caso?

É natural que assassinato de criança gere comoções. Porém, quantas outras crianças foram assassinadas entre 29 de março e a data em que esta postagem foi publicada e que não tiveram sequer um minuto de notícia? Quando muito, viraram estatística de delegacia e olhe lá.

Isso me faz lembrar também as duas semanas que passei na Flórida no começo de 1995, quando ainda era um adolescente. Ligava a TV e o que mais se via era falarem do caso O.J Simpson. Ligasse a TV, passasse o canal e só se via o senhor Orenthal James e o assassinato de sua ex-esposa Nicole Brown. Em duas semanas por lá, sabe qual foi a única notícia que tive do Brasil? A contratação de Romário pelo Flamengo. E só. Isso para não falar de notícias que interessariam aos próprios americanos e estavam sendo deixadas de lado para falar que o ex-jogador de futebol americano fez o importante ato de pôr uma moedinha em uma máquina de refrigerante e pegar uma Coca-Cola, algo que, como sabemos, é de extrema importância para a vida de todos e ninguém conseguiria dormir sem tal coisa.

Ele também tomou um belo tempo do noticiário americano. E também indiretamente tomou um belo tempo daquelas notícias que de fato afetam a vida das pessoas

A exploração em cima do caso O.J Simpson chegou a tal ponto que houve hora em que as próprias emissoras de TV pararam voluntariamente de exibir notícias a respeito do caso, de tão saturado que o público e suas grades de programação estavam. Chegou um ponto em que se via como selo a ser exposto atrás dos apresentadores uma foto do cara e os dizeres “No More O.J”.

E, claro, nem é preciso parar para pensar se os ocorridos com O.J Simpson e Isabella Nardoni obrigatoriamente mudam de fato a vida de um entorno maior que o dos envolvidos. Aliás, tenho cá minhas suspeitas de por que a pequena acabou sendo a bola da vez e isso envolve muito mais que um caso de infanticídio. Envolve questões de classe social, lugar onde foi praticado o crime, bem como a relativa assepsia da coisa toda. Não foi um crime em que alguém teve a cabeça esmigalhada por um balaço e que a simples veiculação das imagens gera asco e comoção pela memória do morto sendo tão acintosamente desrespeitada.

Portanto, dá até para traçar um paralelo entre a maneira como vêm abordando o caso Isabella e aquela como a grande mídia vem abordando a guerra do Iraque. Por acaso se lembram de verem cadáveres em Bagdá depois de tantas bombas caídas do céu e milícias se enfrentando na rua? E por acaso se lembram de alguma parte do inquérito de Isabella ser mostrada mais explicitamente? Claro que não, afinal, isso faria com que a audiência se manifestasse negativamente e notasse que vem sendo continuamente explorada na comoção que de boa fé têm ao verem um caso desses.

Tudo bem que, tirando o sensacionalismo, parece que a mídia aprendeu bem com os erros do caso Escola Base, à exceção de uma ou outra coisa. Porém, continua o equívoco de se dar a um caso de homicídio desses uma repercussão que não tem se analisarmos mais na real. Mais uma vez, pergunto-lhes quantas crianças morrem assassinadas em São Paulo a cada mês e que nem de longe seus casos têm a mesma repercussão. Por que será isso? Porque aí teriam de falar mais aprofundadamente de coisas que vão além da simples psicologia ou investigação criminal? Teriam de chocar o público mostrando que nem todas essas crianças moravam em um imóvel decente como o apartamento da pequena? Afinal, como sabemos, a visão de um barraco mal-construído é muito mais assustadora que a de um prédio bem feitinho, assim como a rua de terra com esgoto aberto choca a vista enquanto um asfalto bem assentado nem de longe gera tal sensação.

Que cenário te prende mais a atenção para o assassinato em si? Este acima?

Ou este aqui?

Não duvidarei que parte da comoção artificialmente gerada sobre o caso Isabella venha também da mente de alguns capi dos meios de comunicação. Analisando friamente a notícia, vejamos que há muito menos elementos de desvio de atenção no assassinato da menina do que haveria no assassinato de outra menina de mesma idade em uma bocada qualquer. Diriam eles, ainda que não assumidamente, que um corpo caído em uma perifa qualquer não tem o impacto que vem tendo a pequena Isabella. Afinal, o cenário de fundo acaba tirando parte do destaque ao protagonista da história. Afinal, o que é aquele esgoto a céu aberto correndo do lado do cadáver? E aquela casa que está quase para cair? E aquela mãe lotada de filhos, todos eles bem desnutridos? E o que dizer daquele Gol estacionado na rua com um adesivo gigantesco nos vidros fumê? Muitos detalhes para prestar atenção, não é verdade?

E lhes garanto que essa análise fria não é tão fictícia assim quanto parece. Conheço casos de programas de TV estilo “essa é sua vida” em que o diretor ficava gritando no ponto eletrõnico para quem apresentava coisas como “mas e aí, essa vaca não vai chorar?”. Sim, isso mesmo que estão lendo: a mulher se emocionando, mas sem chorar, algo que pode acontecer com várias pessoas, sem que isso signifique que elas são frias sociopatas que falam de suas maldades como falariam onde é uma rua.

Aliás, já que falamos de padrões midiáticos, pararam para notar que na TV, mulher do povo sempre tem uma voz esganiçadinha, como se ao ouvir uma, tivéssemos ouvido todas as outras? Mas será mesmo que toda mulher do povo tem esse timbre de voz ou não existem aquelas que teriam uma voz mais ou menos parecida com a de Ivete Sangalo ou Zélia Duncan?

Portanto, meus caros parcos leitores, vou lhes sugerir que mudem de canal sempre que aparecer algo sobre Isabella. Sei que é difícil, até pelo apelo às sensações meio que compelir automaticamente a ficar vendo, mas parem para pensar se saber ou não disso irá mesmo mudar suas vidas. Aliás, o que de fato muda em sua vida a presença ou não de Isabella neste plano, caso você não seja amigo, parente, vizinho ou professor dela? Não quero aqui dar uma de pessoa fria, até porque já tive gente querida assassinada por um trio de assaltantes, sendo que o único sobrevivente dos meliantes, para variar, era dimenó. Chegou até a aparecer em alguns programas da TV no dia do ocorrido. Filmaram até a fachada da casa. Porém, a viúva não deu muita trela para a mídia. Recusou-se a emprestar uma foto para que jornais, revistas e televisão ilustrassem. O resultado é que provavelmente nenhum de vocês deve se lembrar do ocorrido, que foi em janeiro de 2004. E não duvidarei que em muitas emissoras e jornais, tenhamos ouvido certos superiores falando sobre a viúva palavras tão “abonadoras” quanto as do diretor do programa de TV no ponto eletrônico. Porém, ela e seus familiares conseguiram ter um pouco de paz em suas vidas, bem como o caso foi igualmente investigado e constatou-se que de fato, o trio era mesmo de assaltantes sem relação alguma com a vítima ou sua família. E o dimenó, garanto-lhes, não era nenhum coitadinho. Aliás, era até primeiro-anista de curso de Direito e, portanto, com 17, quase 18, quando do acontecido.

Enquanto gasta-se muito tempo para falar de insignificâncias sobre o crime em questão, gasta-se muito pouco tempo para se falar da carestia mundial dos alimentos. E o que me diz da questão das muitas mortes diárias do trânsito? Ah, isso não aparece, pois forçaria até mesmo os jornalistas a pensarem um pouco em cima. E pensar dói para alguns colegas de profissão.

Por fim, alguns virão aqui dizer que estou querendo faturar em cima do ocorrido, ao que respondo que este blog é apenas e tão somente sobre a imprensa e a maneira como ela trata o leitor. Pararam para pensar um pouco se não estão sendo tratados como incapazes que reagem com o fígado quando lhes bombardeiam com notícias sobre o tal caso? E a troco de que dão tanta audiência? Aliás, aviso que esta será a primeira, última e única vez em que abordarei este assunto por aqui. Afinal, se quero que parem de urubuzar tanto o cadáver de uma menina até por respeito a sua memória…