Recentemente, o Último Segundo lançou seu manual de redação. Assim como outros meios, ele também tem suas formas de escrever. Chamou atenção um tal “efeito champanhe”, que substituiria a tal pirâmide invertida. A lógica para esse nome seria a de que após tomar uma taça do tal espumante, haveria em momentos pontuais a vontade de jogar as bolhinhas e espuma mais para a borda. Diz solenemente o manual:

Para os textos longos do Último Segundo vale o efeito champanhe, definido pelo consultor Mário Garcia. Ele ensina como usar o efeito champanhe:

• Como as telas do computador, em média, comportam 21 linhas sem necessidade do uso do scroll é preciso trocar o conceito de pirâmide invertida para o conceito de taça de champanhe.

• A cada 21 linhas o redator precisa manter o leitor interessado para que este tenha vontade de rolar a tela e continuar a ler.

• Quem gosta de champanhe sabe que a cada vez que o copo se esvazia é muito bom reabastecê-lo, ver a espuma chegar de novo às bordas.

• Esta metáfora se aplica quando se escreve para ser lido em computador.

• A cada 21 linhas o redator precisa encontrar um gancho atrativo para o parágrafo seguinte, que force o leitor, pela curiosidade, pela necessidade de entender e conhecer mais, a continuar a leitura.

• O redator deve guardar partes significativas da história, da análise ou do comentário para cada grupo de 21 linhas.

• O redator deve ter em mente que precisa continuar a atrair a atenção do leitor a cada 21 linhas.

• Atenção: no Último Segundo este conceito só se aplica para textos analíticos, comentários e opinativos porque os textos noticiosos nunca podem ter mais de 1500 caracteres

Ficam as perguntas:

1) Tem de ser mesmo tão religiosamente a cada 21 linhas? Afinal, as resoluções dos computadores estão mudando. e muitas vezes, uma notícia inteira de muito mais linhas que só 21 pode ser vista em uma tela inteira sem precisar descer a barrinha.

2) Por que presumir que o leitor não está interessado no texto? Se clicou no link, crê-se que esteja previamente interessado no assunto.

3) E por que deixar a atração só em ganchos, em vez de espalhada pelo texto inteiro, de maneira que dê vontade de ir mais e mais adiante no texto?

4) Essa metáfora se aplica quando se escreve para ser lido em computador. É algo assim tão pétreo?

5) E por que esconder o jogo para só revelá-lo depois de 21 linhas? Fico aqui pensando como seriam filmes sobre investigações se obrigassem o diretor a soltar a cada x minutos uma pista, não mais nem menos.

6) E por que o redator precisa ter em mente que tem de continuar atraindo a atenção do leitor obrigatoriamente a cada 21 linhas? Não podem haver outras formas de manter a atração?

Antes que digam qualquer coisa, aviso que sou sim favorável a manuais de redação, mas desde que se restrinjam àquilo que diz respeito à padronagem de determinadas escritas. Pode ser um nome de rua ou de pessoa, ou até formas de se colocar o endereço na parte do serviço. Porém, nem de longe sou favorável a se restringir a maneira de escrever do jornalista a este ou aquele modelo.

Penso também que modelos de escrita acabam também por adestrar os leitores e, por isso, presumir que são idiotas. Algo um tanto semelhante ao cachorro que salivava ao simples toque da sineta de Pavlov. Porém, cadê a comida? Também considero que modelos de escrita são uma restrição à própria diversidade nas redações. Perde-se a oportunidade de contar com um enorme cabedal de experiências e formas de ver o mundo para se forçar a pessoa a agir robotizadamente. Para mim, fico imaginando algo como um clipe de Pink Floyd, em que todos andam a um mesmo passo.
Não sou daqueles que execram a escola pelo simples fato de ser a escola, mas fico pensando se não há um paralelo enorme entre todas as crianças desenharem uma casa no primário de uma maneira mais ou menos parecida sob risco de reprovarem em arte com marmanjos em uma redação escreverem todos de um mesmo jeito, sob risco de demissão.

E será mesmo que o público não quer ver estilos inconfundíveis nas matérias? Ou será que dar espaço para o inconfundível pode gerar medo nos donos dos meios de comunicação de terem de pagar mais para alguém que faz sucesso, sob pena de perdê-lo para o concorrente e, por isso, também a audiência?

Dizem que a vontade de tomar champanhe é contínua e que assim que o copo se esvazia, logo se quer mais. Porém, não esqueçamos que champanhe é bebida alcoólica e tomando várias doses, há o risco de se perder a percepção da realidade ou, pior ainda, acabar com a cara em uma privada com um gosto péssimo na boca. Isso sem contar com a ressaca e a impressão de se ter perdido momentos legais que poderiam haver sem se estar “alto”. E será que isso não é uma forma de manter o leitor embriagado metaforicamente e, portanto, sem a percepção da realidade em 100%? Não há também o risco de todos os textos analíticos ficarem um porre?

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