Talvez alguns leitores tenham ouvido falar, mas uma técnica que ainda está muito em voga no jornalismo de hoje é a tal da pirâmide invertida. É uma técnica que privilegia a informação mais importante no começo e o menos importante para o fim, com o primeiro parágrafo contando tudo no começo (o famoso lead resuminho) e com o resto obrigatoriamente em ordem linear. É um sistema que tem origem no antigo telégrafo e foi transplantado para o jornalismo, persistindo até os dias de hoje. Consiste em responder já no primeiro parágrafo às seis questões: quê? Quem? Quando? Por quê? Como?

No caso do telégrafo, os dados tinham que ser entregues de forma rápida e clara. E nesse caso, a tal pirâmide invertida tinha sim sua utilidade. Imaginemos um front de guerra das antigas, em que mensagens sobre baixas ou movimentações precisavam ser passadas o mais rápido possível. Um exemplo simples de mensagem rápida: Atingido (que) alvo nazista (quem) agora pouco (quando) em latitude X, longitude Y (onde). Ele estava desguarnecido (por que) e foi alevejado por um de nossos atiradores de elite (como). Em um curto espaço de tempo, o essencial da informação foi transmitido. E era mesmo preciso rapidez. E não falamos apenas de guerras, mas também de controle de tráfego no tempo das locomotivas a vapor e outras situações bem antigas.

Telégrafos eram sistema que podiam ter problemas de interrupção de transmissão. Assim, o essencial tinha mesmo de ser passado primeiro. E com os jornalistas não era diferente. Passando o essencial, ao menos uma nota sobre o assunto estava garantida caso não chegasse nada além.

Os telégrafos lentamente foram substituídos por outras formas de comunicação, como os transmissores de rádio, mas a tal pirâmide invertida ficou, principalmente por causa das composições manuais, como o linotipo (foto abaixo).

Porém, linotipo e assemelhados hoje são coisa de museu. Até para fazer cartão de visitas, usa-se arquivo eletrônico. E a principal vantagem deles é, justamente pelo fato de não serem algo físico, poderem ser moldados pacientemente ao espaço que se tem disponível. Dá até para se fazer com o espaço disponível.

 =====================================================================================

Tem alguém ainda aí? Sim, se acharam chato o texto, não os culpo, pois tentei escrevê-lo em pirâmide invertida propositadamente. E é assim que boa parte das matérias que lêem é feita. Ficou algo tão, mas tão entranhado no fazer jornalístico que até jornalistas que nunca viram em funcionamento um trambolho como o acima agem como se ele existisse. Perde você, caro leitor, que terá a impressão de que todas as notícias foram escritas por uma mesma pessoa.

E dessas notícias em pirâmide invertida, tem alguma da qual você se lembre que tenha sido inesquecível? Só não vale falar das que seriam marcantes independentemente de quem a tivesse escrito. Portanto, descarte aí episódios como a morte do Tancredo, a queda do Muro de Berlim, o Fora Collor e por aí vai, pois isso é o extraordinário. Falamos, isso sim, daquilo que em tese não vai mudar sua vida, mas que é interessante saber.

Nem todos gostam do mundo-cão, mas provavelmente quem já está pelos seus 30 ao menos uma matéria do Gil Gomes assistiu com muita atenção…

Anúncios