Publicações especializadas não faltam no Brasil. E isso é bom. Denota que temos sim uma imprensa bastante desenvolvida, até mesmo em campos mais restritos. E com gente que adquire informações por ela.

Porém, mesmo aí vemos algum grau de subestimação da capacidade do leitor. Em meu ramo, o automotivo, já cansei de ouvir de colegas coisas como “o leitor nem sabe em que eixo está a tração do carro”. E se formos nos guiar por coisas como essas, estaremos escrevendo “seje”, “pobrema” e outras, pois ouve-se gente do povo falar isso.

 

Dois carros cantando pneu adoidado. Visualiza-se bem quais as rodas que fazem o esforço. Porém, como o leitor não sabe qual o eixo que traciona, dirá: “puxa vida, quantos quilos de gelo seco foram usados para fazer essas nuvens de fumaça?” 

Agir na base de que o leitor não sabe qual o eixo que traciona o carro é pedir para ser tão ou mais medíocre que esse tal leitor presumido. E isso gera problemas, alguns deles que posso até enumerar:

1 – Atrair a atenção para coisas superficiais, como estilo, sendo que há carros que não são exatamente beldades, mas que são muito melhores que certos rostinhos bonitos em muitos aspectos. Ou mesmo valorizar-se carros pelo simples fato de serem lançamento, mesmo que sejam uma nova casca em cima de velharia, sendo que muitas vezes a velharia é muuuuuito melhor.

2 – Acabar associando como ruins coisas que na realidade são características do projeto que o comprador vai ter de se acostumar e ter em conta na hora em que adquire um carro. Carros com motor dianteiro e tração traseira têm um túnel central saliente (é para passar o cardã), que rouba algum espaço interno. Carros de tração dianteira, quando acelerados mais fortemente, irão ter algum grau de esterçamento por torque, ainda que bastante atenuado em alguns modelos, mas que vai se acentuando conforme aumenta a potência. E em tese, carros de tração dianteira são mais espaçosos para um mesmo tamanho.

Acima, o banco traseiro de um BMW Série 3, abaixo, um A4. O BMW tem tração traseira e o Audi, dianteira. Qual deles é mais apertado mesmo?

3 – Forçar o leitor a ter de adivinhar o que se está querendo dizer. Um texto diz que um determinado carro é mais estável que outro. Porém, onde está o teste de aceleração lateral (a famosa força G) para ter a noção de quanto o carro agarra na curva? Há coisas que fazem um carro parecer menos estável, mas só parecer. Inclinação excessiva da carroceria nas curvas é uma delas. Pode até ser bem desconfortável para os passageiros se muito acentuada. Porém, há carros que inclinam bem a carroceria em curvas, mas são muito estáveis de curvas. Palavra de quem dirige um Civic 2001, que pula que nem uma carroça na buraqueira e inclina bem nas curvas, mas que faz curva muito bem, sem ser traiçoeiro.

4 – Fazer o leitor prestar atenção mais à perfumaria do que ao importante. De que adianta um ar-condicionado com controles digitais se o carro chega a ser mais perigoso ao volante do que um concorrente mais simplesinho que é excelente na guia. Quantas vezes em 10 minutos você vira o volante e quantas por dia mexe no grau do ar? É preciso explicar mais?

5 – Não se aprofundar em coisas que importam para ficar na superficialidade, em um aspecto geral.

E isso para ficar em uma pequena amostra. Porém, vai ter gente achando que o fato de um carro ter tração traseira é ruim. Não é o que os europeus acham. Em sua categoria, o BMW Série 3 só perde em vendas para o Passat e na Alemanha, o novo Mercedes Classe C é por ora o segundo carro mais vendido no geral por lá, atrás apenas do Golf. E nessa categoria de tamanho, um dos carros menos espaçosos para quem senta atrás é justamente o Audi A4, que sempre teve tração dianteira (ou no máximo nas quatro rodas), que aqui insistem em dizer que obrigatoriamente libera mais espaço interno. Ô carro apertado…

Falaram um monte de vezes que carros antigos de tração traseira eram ruins como se a tração traseira fosse o problema. O problema eram os carros antigos com essa configuração, que eram desequilibrados na distribuição de peso entre os eixos. Era muito comum que um Opala ou Maverick da vida tivesse 70% do peso concentrado na frente. Ficava aquela traseira leve, abobada, que somada a suspensões rudimentares, não os tornavam exatamente à prova de idiotas. Já boa parte dos carros de tração dianteira a partir dos anos 70 tinha uns 60% de peso na frente. Com uma traseira mais assentada, é natural que haja mais segurança e melhor comportamento dinâmico. Porém, quando o carro é 50-50 ou algo próximo disso, a tendência é de um comportamento muito mais equilibrado. Quem quiser saber, que dirija um Omega nacional e depois um Santana. Dá até para sentir em qual a frente é mais pesada. Fora isso, sugiro que também tentem subir uma ladeira escorregadia com carros de ambas as configurações, saindo do zero na ladeira, para ver qual sofrerá menos. Se rebocando algo, vão se lembrar ainda mais.

 

Duas beldades da produção nacional. A de cima é fácil de dirigir, extremamente equilibrada e muito à prova de idiotas. A de baixo (o carro) era arisco, tinha a frente bem mais pesada que a traseira, suspensões rudimentares e não admitia tantos vacilos. Por muito tempo, viu-se na imprensa dizerem que carros como o de baixo eram ruins pelo simples fato de terem tração traseira, e não por terem 70% do peso concentrado na frente, mais suspensões rudimentares. Fico pensando o quanto que nosso último modelo nacional de passeio com tração traseira (o de cima) sofreu de repúdio do público pelo simples fato de ter tração traseira, que seria associada às peraltices do de baixo e outros tão rudimentares quanto. Dizem os fabricantes nacionais que não mais fazem carros de tração traseira porque supostamente seriam caros demais de serem produzidos por aqui. Tudo bem que também suspeito de erros estratégicos, pois o Omega, quando foi lançado aqui, logo no ano seguinte foi substituído na Europa por um Omega mais moderno, e igualmente tracionado por trás. Já o daqui teve de encarar concorrentes importados mais modernos que ele e em plena farra do real barato. Porém, pergunto-me se não houve em parte na imprensa nacional um ligeiro linchamento moral à tração traseira que fez pessoas repudiarem o Omega simplesmente por ter tal solução. Atualmente, o carro de tração traseira mais barato do Brasil é o BMW 120i, que custa “apenas” R$ 124 mil. 

Enfim, podia ir mais além, mas deu para entender aonde quis chegar. Claro que há outros tipos de imprensa especializada que são bem rigorosos em suas avaliações e de forma alguma subestimam o leitor, até porque se subestimarem tomarão carão do leitor. Tente dizer que um Duron é melhor que um Athlon X2 porque está montado em um gabinete mais bonitinho e verá a resposta que vai receber. Porém, como sabemos, os critérios para adquirir um computador não são os mesmos de um carro, pois processadores ficam obsoletos mais rápidos e todo mundo acha mais facilmente alguém que sabe tudo de computador do que de carros.

Abaixo, um vídeo que deveria se exibido a quem acha que o leitor de publicação especializada sequer sabe em que rodas estão a tração. Não tentem fazer isso em carro de tração dianteira, até porque, além de proibido e perigosíssimo ao se fazer em ruas, e o que sai parecido nem de longe tem esta plasticidade e controle ao volante:

 REITERANDO EM CAIXA ALTÍSSIMA E NEGRITO ITÁLICO: NÃO TENTEM FAZER NAS RUAS O QUE ESTÁ SENDO FEITO NESTE VÍDEO. OS CARAS QUE APARECEM AQUI SÃO PILOTOS E COMO PODEM VER NA MAIORIA DAS CENAS, ESTÃO FAZENDO SUAS PERIPÉCIAS EM CIRCUITO FECHADO. ATÉ ME DESCULPEM OS LEITORES QUE PORVENTURA ACHEM QUE OS ESTOU TRATANDO COMO IDIOTAS, MAS SEGURANÇA NO TRÂNSITO É FUNDAMENTAL.

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