Sempre que ouço um “o leitor não vai saber o que é isso” ou coisa assemelhada como justificativa para não passar adiante, fico pensando no real porquê de tal alegação.

Creio em uma função transformadora para o jornalismo, até por já ter testemunhado isso, e com gente das mais simples. Tudo bem que mudar o mundo nenhuma matéria irá, mas causar pequenos impactos em contexto construtivo é perfeitamente possível.

E “o leitor isso”, “o leitor aquilo” só vai mesmo ajudar a manter um status quo. Ao introduzir conceitos novos e matérias elaboradas para público que teoricamente não as leria, indiretamente o meio de comunicação acaba por forçar uma saída da zona de conforto. E, claro, como se sabe de antemão que essa misteriosa entidade amorfa chamada O Leitor não vai entender algo se sequer foi posto esse algo para ele?

Às vezes, pergunto-me se tal postura é adotada pelos meios por saberem de total consciência que estão dando continuamente feijão com arroz sem um temperinho sequer para seus leitores e, dando-lhes um risoto com ervas finas, fariam com que ele recusasse o que lhe era servido até então, por conhecer coisa melhor.

Ao instigar, cria-se na cabeça do leitor um ligeiro desconforto mental. E é na base do desconforto que o mundo progrediu. Um certo Louis Pasteur se cansou de ver gente morrendo por causa do vírus da raiva e criou uma vacina que salvou muitas vidas, tanto humanas como animais. E por que os meios de comunicação em massa parecem não se cansar de oferecer fórmulas batidas? Por que insistem em tratar coisas de vulto praticamente como se falassem onde é uma determinada rua? E por que insistem em achar que seus leitores são desprovidos de raciocínio e precisam ser guiados pela mãozinha?

Quando instigam, forçam a pesquisar. Mas será que há medo da parte deles de os leitores instigados pesquisarem sobre o próprio meio por fontes que o meio não controla? Aliás, falando em não-controle, como já disse na postagem anterior, os meios não têm como controlar quem vai ou não adquirir informação por eles. Do lado do receptor da mensagem, pode haver desde um professor pós-doutorado quanto o mais simples servidor braçal. E se ambos pagarem com dinheiro em espécie então, nem há como se rastrear o perfil de leitor por base na análise dos gastos de cartões de débito ou crédito.

Na internet então, é mais impossível ainda, principalmente se pensarmos em poderosos motores de busca. Já vi aqui nas estatísticas do blog os termos mais estranhos possíveis que trouxeram alguém para cá. Talvez alguns tenham até lido postagens daqui com a intenção original de ver outra coisa.

Por isso, fico aqui pensando se o contínuo feijão-com-arroz não é uma forma de escravizar mentalmente o leitor, que de tanto se acostumar, estranharia algo que saísse disso. Lembro-me do ex-diretor de redação da UM, W.F Padovani, falando sobre essa história de um veículo jornalístico fechar para si que seu leitor tem um determinado perfil e ficar escrevendo presumindo-se que ele seja assim: é algo como uma seita, em que você cria uma mentira para você mesmo, acredita nessa mentira e depois se esforça para outros acreditarem na mentira que você criou. Será que “o leitor não sabe dessa coisa” não é uma espécie de seita? E quem lê algo baseado nessa premissa sem se dar conta, seria um prosélito cego e fanatizado, presa fácil de roubadas? Seria também um daqueles capazes de defender com afinco algo bem ruim e danoso, crendo ser esse algo bom?

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