Um dos motivos que falam para a existência de manuais de redação e estilo é a história de querer fazer parecer que um determinado meio foi todo escrito por uma pessoa apenas. É algo que ainda ouvi quando dos tempos da faculdade. Como já disse outras vezes, não sou contra manuais, desde que se restrinjam a coisas pequenas, como grafia de palavras, modos de pôr endereços e por aí vai. Mas sou totalmente contra querer que alguém escreva em um determinado estilo, como se fosse ghost-writer de um autor desconhecido. E amorfo também, uma vez que meios de comunicação são feitos por pessoas, cada uma diferente da outra.

E qual o real motivo de se querer que todo um veículo de comunicação pareça ser escrito por uma pessoa só? Talvez a resposta possa estar em não querer que alguém se destaque. Afinal, em esse alguém se destacando, há o risco de haver assédio da concorrência, que pode oferecer condições gerais melhores. E, claro, não receber reclamações dos leitores do porquê de terem tirado alguém. Quantas não foram as vezes em que vi colegas sentindo-se como peças de reposição ao serem demitidos?

Porém, isso é imposição das mais artificiais que possa existir. Basta olharmos para nossas famílias. Seu irmão ou irmã escreve e faz tudo igualzinho a ti, a ponto de quem está fora achar que são apenas uma pessoa? Nem gêmeos idênticos que sigam uma mesma profissão devem achar isso. O mesmo tipo de bolo, feito por sua avó ou sua mãe, ambas seguindo rigorosamente a mesma receita, é tão indistinguível que você acha que foi feito por uma mesma pessoa? Lógico que não.

Essa é apenas uma obsessão inútil que permeia o ambiente jornalístico. Uma coisa são padronizações de escrita de certos termos, outra é insistirem em querer que alguém siga um determinado estilo. Em alguns meios manualizados, vêm até mesmo com o papo de que a vaga para o jornalista é como um favor feito pela empresa e que, portanto, ele precisaria fazer tudo exatamente como quer a firma.

Em minha profissão, por sinal, nas ocasiões de coletivas, a gente chega até a bater o olho em uma pessoa e saber onde ela trabalha, sem ela precisar falar nada e mesmo que nunca a tenhamos visto mais gorda. Aos parcos leitores deste blog, sugiro que façam esse mesmo exercício nas oportunidades em que puderem ver jornalistas ao vivo e em grandes números. Sugiro que assistam ao Roda Viva, em uma daquelas ocasiões em que vão ministros ou políticos. Façam isso mais de uma vez e prestem atenção em determinados jornalistas. Mesmo que de um programa para outro haja mudança do entrevistador escalado, vocês terão a estranha sensação de ver a mesma pessoa, independendo de cor, etnia, sexo ou credo. Garanto que não mais estranharão se depois algum amigo jornalista lhes disser que fulano tem cara do meio X ou Y.

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