Escrever, qualquer um escreve. Escrever jornalisticamente, alguns poucos. Escrever criticando a própria imprensa é mais difícil ainda, até por sermos parte dela e também pisar-se um pouco em ovos. Dizem que o pior inimigo do jornalista é outro jornalista. E não duvido disso, tamanha a desunião da categoria.

Por isso, demorei um pouco para fazer um blog, ainda que houvesse pessoas pedindo para que eu fizesse isso. Não queria fazer mais um blog qualquer desses com gifs piscantes ou um assunto mais que manjado.

Confesso também que em parte, o receio envolve a parte de não se ter um referencial físico e próximo. Dependendo do caso, nós jornalistas escrevemos muito mais para os editores dos meios em que estamos do que para quem de fato lerá o que escrevemos. Ainda que haja os famosos “o leitor não isso”, “o leitor não aquilo”, ainda há um referencial que seja.

Porém, no blog, ficamos meio perdidos, até por saber que há gente de tudo quanto é tipo lendo-me neste presente momento. Porém, estou vendo o lado bom, que é justamente saber que há sim gente que em muitas redações seria vista como O Leitor, mas que mostra não serem isso. E, mais ainda, ver que há jornalistas, até mesmo de contatos mais próximos, que já leram o blog. E isso porque nem falo dele costumeiramente.

Escrever sem um editor, ao mesmo tempo que te deixa livre para pôr no ar o que der na telha e na íntegra, meio que também te faz pensar em que assuntos irá abordar, pois não há instâncias superiores que derrubem sua pauta. É algo interessante, pois quem referenda ou não é justamente o leitor. E esse contato direto é algo que normalmente só teríamos ao abordar as fontes. E às vezes, aqui é até mais direto.

E escrever para quem você nunca viu mais gordo é também a oportunidade de dar asas àquilo que dificilmente conseguiria emplacar em uma redação. E também a oportunidade de o leitor ver os jornalistas como são. E justamente o ver como são faz com que muitos sejam desnudados. Alguns que aparentavam uma coisa quando lidos em meios mais formais acabaram mostrando uma face que queriam ocultar de toda forma, mas que não dá para fazer, salvo se alguém estiver escrevendo por ele. E aí acaba perdendo um pouco da graça.

Confesso que era e ainda sou um pouco refratário aos blogs, justamente por crer que não valem a pena se ficarem com assuntos superficiais. Aliás, há vezes em que me considero o mais superficial dentre os que escrevem blogs ou mesmo dentre os jornalistas. E com uma certa constância. Porém, se há algo que venho considerando como recompensa é justamente poder falar diretamente com o público final. E isso é o mais interessante, pois não se parte com a convicção de o mundo lá fora ser de um determinado jeito que as redações querem que seja e irão lhe forçar que confirme ser daquele jeito, mesmo que as evidências mostrem o contrário.

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