“Super-homem, tenho uma missão muito importante para você… o universo todo está dependendo te ti. Poderia nos ajudar, como sempre fez?”. O Homem de Aço responde que não. Um tapa na cara dos que tentam ver o Super como símbolo de propaganda do governo americano, mas se esquecem de acompanhar a mitologia para ter melhor noção

A ficção glamouriza por demais o ofício jornalístico. Mas de certa forma, há coisas legais nesse glamour, pois dá uma levantada na auto-estima. Particularmente, adoro o Super-Homem. Recuso-me a falar Superman como a DC quer em todo o mundo, até porque ela não transformou a Mulher-Maravilha em Wonder Woman ou o Lanterna Verde em Green Lantern. Identifico-me com ele tanto por ser jornalista como também com sua correção enquanto pessoa (os que acham ser ele propaganda dos EUA deveriam ler um pouco as histórias para ver que ele se recusa a ligar sua imagem à do governo, fazendo questão de ser herói do povo).

Também não é preciso dizer que parte da glamourização aqui feita ao jornalista é quando vemos filmes americanos. De fato por lá os jornalistas são mais valorizados que por aqui. E não falo sobre repercussão de matérias ou coisa assemelhada, mas sim nas condições de trabalho. Pergunte a um colega de profissão de lá se ele trabalharia nas condições em que muitos daqui trabalham e teriam a resposta na ponta da língua. Sim, aos que não sabem, jornalistas no Brasil em geral ganham mal e muitos trabalham em redações com ambientes bem deletérios, daqueles que se você puser um vasinho em sua mesa de trabalho, a plantinha murcha por mais que a regue nos momentos certos e a adube nas horas necessárias.

Porém, estamos nos americanizando e não preciso dizer o sentido disso, uma vez que está no título. Um exemplo simples: já repararam na insistência que se vê em alguns meios em identificar homens pelo sobrenome? Isso é algo completamente alienígena à nossa cultura e muita gente boa já passou uns vexames em insistir em tal coisa. Em 1994, quando Fernando Henrique assumiu, foi um tal de “presidente Cardoso” pra lá e pra cá que todo mundo estranhou. Getúlio Vargas só é conhecido pelo sobrenome na famosa avenida do Rio de Janeiro, e olhe lá. Alguns dizem que essa sobrenomização de homens surgiu no Brasil por causa da posse de José Sarney. Sim, síndrome de vira-lata total: um Zé não podia assumir a presidência do País, mas um Tancredo poderia. E desde então foi uma imposição daquelas a nosso modo de vida. Se uma matéria tem um José da Silva e um João de Souza, eles serão conhecidos por Silva e Souza, e não por José e João, como a sociedade brasileira sempre chamou. E olha que pus dois sobrenomes comuns. Imagine como ficaria se um dos personagens fictícios tivesse um daqueles sobrenomes tchecos bem cheios de consoantes…

Fosse só isso, haveria apenas o problema de violência à nossa cultura, que conseguimos tirar de letra. Porém, agora, estamos querendo ser mais realistas que o rei e uma nova moda surge: a de não fotografar ninguém que tenha menos de 18 anos. Sim, isso mesmo que leram. E o Estatuto da Criança e do Adolescente é bem claro sobre o que pode e o que não pode ao fotografar menores. Seguem os artigos:

Art. 143. E vedada a divulgação de atos judiciais, policiais e administrativos que digam respeito a crianças e adolescentes a que se atribua autoria de ato infracional.

Parágrafo único. Qualquer notícia a respeito do fato não poderá identificar a criança ou adolescente, vedando-se fotografia, referência a nome, apelido, filiação, parentesco, residência e, inclusive, iniciais do nome e sobrenome. (Redação dada pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

Art. 240. Produzir ou dirigir representação teatral, televisiva, cinematográfica, atividade fotográfica ou de qualquer outro meio visual, utilizando-se de criança ou adolescente em cena pornográfica, de sexo explícito ou vexatória: (Redação dada pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

Art. 241. Apresentar, produzir, vender, fornecer, divulgar ou publicar, por qualquer meio de comunicação, inclusive rede mundial de computadores ou internet, fotografias ou imagens com pornografia ou cenas de sexo explícito envolvendo criança ou adolescente: (Redação dada pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

§ 1o Incorre na mesma pena quem: (Incluído pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

I – agencia, autoriza, facilita ou, de qualquer modo, intermedeia a participação de criança ou adolescente em produção referida neste artigo;

II – assegura os meios ou serviços para o armazenamento das fotografias, cenas ou imagens produzidas na forma do caput deste artigo;

III – assegura, por qualquer meio, o acesso, na rede mundial de computadores ou internet, das fotografias, cenas ou imagens produzidas na forma do caput deste artigo.

§ 2o A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos: (Incluído pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

I – se o agente comete o crime prevalecendo-se do exercício de cargo ou função;

II – se o agente comete o crime com o fim de obter para si ou para outrem vantagem patrimonial.

Esta imagem correu o mundo em 1982. Caso um fotógrafo hoje tivesse captado algo parecido, perigaria de ser barrado pela chefia de certos meios de comunicação que não publicam fotos de crianças, independente do que seja

Como se lê, o que fala é que não se pode mostrar criança ou adolescente em situações vexatórias ou degradantes. Porém, há publicações que simplesmente não estão mais tirando fotos de adolescentes ou crianças, independente da situação retratada. E, caso um fotógrafo leve tal tipo de foto, cria-se uma incrível celeuma na redação. Será tão vexatório assim a uma criança mostrá-la brincando ou tendo reações normais de qualquer ser humano?

Fica a pergunta sobre quantos seres humanos são pedófilos em relação ao total da população. Com certeza, menos do que aparenta, ainda que a prostituição de menores e a pedofilia pela internet sejam problemas dos mais graves. Porém, será mesmo que pedófilos bateriam uma de ver uma criança ou um adolescente estáticos e em uma situação nada demais? Sinceramente, não consigo imaginar tal cena. E, já que é para ser assim mesmo, terei de cobrar que não exibam então atores e atrizes que sejam “de menor”, o mesmo valendo para modelos. Porém, não é o que vi quando mostravam as muitas fotos da belíssima Daniela Sarahyba quando ainda pelos seus 14 a 17 anos. OK, já foi há um certo tempo, mas muitos colegas mais novos podem lembrar de meios que proíbem fotos de menores de idade, independentemente da situação, mas que publicaram sem pudor algum foto de alguma estrela “de menor”. 

Alguém sabe me dizer quantas dessas modelos são menores de idade? Se houver alguma, é capaz de esta foto não ser publicada? Ou será? “Não, mas não é bem assim”, dirão uns. Porém, publicar um grupo de adolescentes conversando em uma lanchonete ou crianças brincando, em certos lugares é imediatamente vetado…

Sim, vejam o tamanho da paranóia. Vale lembrar que um americano quando vem para cá se assusta com a forma como brincamos com nossas crianças. Porém, nós brasileiros não nos assustamos, nem nossos brasileirinhos. Então, por que querer importar para cá essa paranóia? Boa parte de nossas crianças já está bem orientada sobre como não cair em garras de pedófilos e também sabe o que é situação vexatória. Mostrar a cara para um fotógrafo fazendo algo normal e saudável de criança não tem nada de contrário à lei.

“Rapaz, consegui uma foto fenomenal e comovente. Vi um homem voando sem motor nem nada, desceu as cataratas do Niágara e salvou um menino”, diz o fotógrafo. “Desculpe, mas não publicamos fotos de crianças aqui, pois o manual de redação, no parágrafo tal, blablablablá…”, diz o editor

OBS: Se o link direto ao Youtube que passei acima estiver dando pau, segue o direto.

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