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Muitos são os estudos de hoje em dia que falam da censura privada. Diferentemente da censura estatal, a mesma não possui regras e, portanto, torna sua burla muito mais difícil.

Leia no jornal que esconde os podres de um partido e noticia amplamente os de outro. É também censura privada dar um espaço de resposta de área bem menor e em seção mais escondida do que aquela em que saiu o texto que originou.

Outro exemplo disso é quando se recebe mil cartas e e-mails contrários e uns dez favoráveis e publica-se apenas um de cada, dando uma bela desproporcionalidade de representação, afinal, os contrários ficaram com um milésimo da realidade e os favoráveis, com um décimo. Dirão que deram espaço para os dois lados, mas será mesmo que não foram tendenciosos e desonestos para com o público? Isso é muito comum principalmente quando envolve textos de colunistas bem odiosos. Ao público leitor vai parecer que ele é amplamente apoiado, quando na realidade não o é.

Como não possui regras escritas, a linguagem de fresta para a censura privada é muitíssimo difícil de ser feita, até porque textos passam por edição. O que pode acontecer é de o repórter, já bastante desiludido, fazer textos que se encaixem naquilo pedido. Afinal, quantos aqui gostam de terem seu saco enchido continuamente?

Já vi uma certa linguagem de fresta em títulos. Outra modalidade de linguagem de fresta comum na época do governo FHC eram os textos em que o último parágrafo contradizia de forma sutil tudo aquilo que fora dito até então na matéria. Lembremos que ainda há muitos editores cabecinha-de-linotipo, que raciocinam em pirâmide invertida e não viram as maravilhas que a composição eletrônica possibilita.

Porém, o grande problema da linguagem de fresta é que passa desapercebida até para quem devia entendê-la. Luiz Ayrão que o diga. Em 1977, sua canção 13 anos, de protesto contra os 13 anos do regime militar, foi censurada. Emplacou exatamente os mesmos versos com o título de O divórcio e ela passou sem titubeios. O pior de tudo para ele foi ver gente que queria se divorciar falando que ele disse tudo que acontecia com eles. E isso porque ele não falou de divórcio na canção assim intitulada, ainda que o ano fosse 1977, em que se aprovou a lei regulamentando o divórcio, até então proibido. Mário Prata passou coisa parecida à de Luiz Ayrão ao escrever Estúpido Cupido.

É ruim para as empresas jornalísticas praticarem censura privada, pois apenas se denunciam naquilo que negam fazer. Continuarei o assunto amanhã…

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