“02, seu lugar é fazendo panfleto pra distribuir no sinal” (foto: David Prichard)

Fui neste sábado assistir ao filme Tropa de Elite. Uma coisa me chamou atenção na película: o duro treinamento a que eles são submetidos. Tenho certeza de que na vida real é ainda mais duro.

Tentarei estabelecer um paralelo com a profissão que exerço e, mais ainda, com a fetichização a que ela tem sido submetida. Não consigo enxergar razões para ela, assim como não consigo imaginar razão para a incrível relação candidato/vaga que vemos hoje.

“Você não é imprensa não. Você é moleque! Moleque!” (foto: David Prichard)

Tem muita gente achando que ser jornalista é coisa simples. Pensam que farão e acontecerão. Entram com uma idéia um tanto quanto falsa de como é a realidade da profissão. Para mim, não é surpresa ver o quanto de gente deixa o curso ou acaba fazendo outra coisa da vida.

São poucas vagas, na maioria das vezes pessimamente remuneradas e é tanto índio que muitos dos poucos caciques sentem-se à vontade para xingarem e abusarem. Quantas vezes já senti de amigos de bem uma situação parecida com a de um Neto ou Matias no meio de um batalhão majoritariamente corrupto. Ou mesmo a minha. Neste ramo, caloteiro é o que mais tem. E se não for caloteiro, há também o risco de ser aquele tipo de gente que não se satisfaz com nada e torna tua vida um inferno.

“Ei, mas você não me pagou”. Caloteiro: “faz o RPA que vou cuidar disso” (foto: David Prichard)

Muitos sonham em entrar em ter uma belíssima visibilidade, tipo uma Fátima Bernardes ou William Bonner da vida. Acham que se tornarão apresentadores de telejornal ou diretor de redação de algo gigantesco no tempo em que você termina de ler esta frase. Acham que as redações são uma grande família, mas irão se desiludir em pouco tempo. Em alguns casos, ainda na época da faculdade.

“O mercado seleciona os bons e expurga os incompetentes”

Acharão que bastam serem talentosos e terem um texto bem feito para botarem pra quebrar. Crerão piamente que o mercado seleciona os melhores e expurga os piores. Digo que isso é tão cascata que são as cataratas do Iguaçu e do Niágara juntas. Tenho amigos que são apaixonados pela profissão e competentíssimos no que fazem, mas que mandam ou mandaram um monte de currículos e não conseguem lugar nem a pau. E conheço uma porrada de medíocres que conseguem cargos sem problema algum. E olha que falei medíocre, gente que está na média e que não sairá da média.

 

Estes dois aqui, como podem ver, são duas pessoas competentíssimas que acreditaram na história de que se você for bom, sempre haverá um lugar para trabalhar. A foto foi tirada em 1858 e eles estão esperando em uma entrevista de emprego. Porém, sempre ouvem “um minutinho, por favor, que o dr. Fulano já vai falar com vocês…”

Vejo um monte de gente que nunca levou um “não” dos pais e que quer agir assim na profissão. São aqueles que nos chamam de mal-educados quando falamos sobre algum ocorrido qualquer os envolvendo em um tom de voz que os contraria, sem em momento algum brigar. São aqueles que dão piti em dois tempos. Como já ouvi um cara dizer, talvez saiam chamando a mamãezinha caso se deparem com algum editor mal-educado.

“Prezado editor do blog, com todo o respeito, quem fala essas coisas é porque não confia em seu taco e tem medo de algum garoto talentoso pegar seu lugar nas redações”

Para quem acha que vai mudar o mundo nesta profissão, só lamentos mesmo. Aliás, ficará tanto em uma cadeira defronte a um monitor que vai sentir falta do mundo lá fora. Vai se brutalizar ao ver tanta gente de modos eqüídeos a seu redor. Vai se assustar de ver a que ponto pode chegar até mesmo gente que era bem legal contigo em outros tempos, mas que agora te cumprimenta pela frente e apunhala pelas costas. Isso para não falar dos que você nunca viu mais gordos.

“Prezado editor do blog, o senhor é muito arrogante e mal-educado. Só porque tem uma página na internet, fica aí se achando o dono da verdade e querendo que todos pensem igual a você…”

E, claro, penso se entre esses que tentam ingressar na carreira há mesmo um real interesse pelo jornalismo, aquela coisa de vestir a camisa, informar, ser justo, escrever as matérias e poder botar a cabeça no travesseiro com tranqüilidade, colaborar para que quem lê não só seja informado, mas também tenha algo de relevante para sua vida.

Anúncios