Preste atenção nessas duas capas da Playboy com a Luma de Oliveira. Que diferença você nota? Uns dirão que a Luma envelheceu muito bem, afinal a primeira capa é de 1987 e a segunda, de 2005 e, de fato, ela passou dos 40 e continua bonita. Outros falarão que há mais de uma tipologia na da direita, que também tem menos chamadas, dentro de uma tendência da década de 2000. Outros talvez lembrem de a capa da direita ser em papel envernizado. Mas qual é a diferença mesmo?

Vamos mais aprofundadamente: reparem na jovem Luma. OK, a foto é externa e isso dá para ver pelo vento assoprando na parte direita do rosto. Mas reparem também na textura da pele. Tem exatamente o mesmo grau de brilho da maioria das mulheres com pele bem cuidada. O papel também sugere uma textura normal de pele que uma mulher de 20 e poucos anos tem.

Dando o desconto de a foto da direita ser em interna, também notem a maneira como a luz se espalha pela fotografada na da esquerda. Já na Luma madura e na época com 40 anos recém-completados, há coisas que estão estranhas, como a textura da pele, muito perfeita para ser real.

“Você se lembra da minha voz? Continua a mesma, mas o que o Glenn Feron fez…”

Quem olha também umas Playboys mais antigas notará que naquelas épocas, as mulheres que posavam nuas tinham mesmo de ser absolutamente gostosas, lindas, daquelas que causariam espécie tanto passando em frente à construção quanto badalando em uma danceteria cujo ingresso custe uma fábula.

Repararam como os arredores de olhos hoje não mais possuem as linhas e marcas tão comuns a qualquer ser humano?

Já hoje, o Photoshop está criando uma irrealidade que já dá sinais de cansaço no próprio leitor. E inclusive nas celebridades, que teoricamente deveriam estar a favor de aparecerem sempre (teoricamente) impecáveis. Algumas exigem sim que façam algumas coisas, como apagar cicatrizes ou mesmo algo muito mais além, tipo transformar alguém que na vida real é um bucho em algo tão gracioso que qualquer marmanjo aqui apresentaria orgulhoso como a nova namoradinha (pena que só no papel…).

Até a apresentadora ficou chateada por ter sido emagrecida digitalmente…

Porém, os retoques acabam por apagar também algo que as revistas dos anos 80 e começo dos 90 tinham: a sensação de naturalidade. Aquela luz desordenada, aqueles pêlos não tão simétricos, aquela textura de imagem natural estão indo embora. Em parte porque as próprias câmeras digitais já fazem uma pré-edição de imagem, ainda que disponibilizem o .RAW para quem quiser ver qual foi a imagem que de fato foi captada pela lente. Porém, o que estamos falando é algo que vai além disso: a tentativa de padronizar também aquilo que os olhos vêem. E, por isso, sempre as luzes incrivelmente perfeitas, as peles rigorosamente acetinadas e certos traços que chegam a ser impossíveis na espécie humana.

Tudo bem que uma Luma retocada em nada vai afetar a problemática da paz do mundo, mas há certas manipulações digitais de imagem que são gravíssimas, como as de fotos de guerra, assim como as de fotos em que há pessoas públicas.

 

 Será que inventaram um novo tipo de luz que é adesiva? Afinal, a ciência há muito descobriu que ela tem massa…

E por que essa obsessão pela imagem perfeita? Será mesmo que uma imagem pesadamente retocada irá angariar mais leitores? Mais do que nas revistas masculinas, penso nas femininas, pois nessas, sente-se um jogo pesado em se dizer que a leitora quer mesmo se ver daquele jeito que a fulaninha fotografada está. E será mesmo que somos tão idiotas a ponto de não distinguirmos o real do manipulado e não fazermos questão?

Acima, a que saiu, abaixo, as que a compuseram. Não contavam com a astúcia do leitor…

Por isso, sugiro aos parcos leitores deste blog um exercício simples: irem a um sebo de revistas e folhearem duas edições de Playboy: uma dos anos 1980 e outra dos anos 2000. Vejam as diferenças e digam qual lhes pareceu deixar mais à vontade. É um exercício interessante.

 Já outra coisa que fico pensando é se daqui a uns 10 anos olharemos para as fotos retocadas de hoje como olhamos para os ternos de ombreiras altas e cores escandalosamente berrantes dos anos 1980…

Por fim, o exemplo de um uso sábio de fotomontagem que há anos circula na internet e dá uma mostra da real dimensão de um iceberg…

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