rolling-stone-13.jpg 

Neste sábado, tive a oportunidade de ler a última edição da Rolling Stone. E gostei do que li. O que é aquilo?

O bom deles é investir no texto. Qualquer matéria lá sairia sem maiores preocupações, mesmo que todas as fotos estivessem um lixo, pois a própria programação visual permite que se faça isso. Exemplo disso é a matéria de capa sobre o Faustão, em que a maioria das fotos é coisa velha de arquivo.

Falando sobre a entrevista de Fausto Silva, também fazia tempo que não via o cara tão afiado. Lembrou-me uma entrevista que ouvi no começo dos anos 90, se não me engano na rádio Eldorado. Deu saudades do Faustão que conhecíamos. Passa-me a impressão de ainda haver uma alma de repórter esportivo e Perdidos na Noite nesse homem quase sessentão.

Outro texto que gostei muito foi aquele sobre a Transamazônica hoje. É texto que vale a pena ler, feito por repórter que não tem vergonha de pôr o pé na lama e sabedor de que telefone só deve ser usado para contatos iniciais e para perguntas complementares e tiradas de dúvida depois, já pouco antes da publicação. Vale também ver a matéria sobre os 100 melhores discos nacionais de todos os tempos.

Em nenhum momento senti-me tratado como idiota e muito menos me lembro de verem gente ensinando o pai-nosso ao vigário. Talvez seja outra razão para seu sucesso. Semana passada, no aniversário de um amigo meu, ele ganhou de presente uma assinatura da Rolling Stone.

Bom, se bem conheço sobre versões nacionais de revistas internacionais, eles são obrigados a manter no máximo a maneira como são conduzidas no original. Portanto, a equipe daqui não pode ficar com as matérias oleitorísticas (neologismo que crio agora) que tanto vemos em publicações legitimamente nacionais. Sim, infelizmente há vezes em que é preciso pagar uns royalties para que haja mudanças na imprensa brasileira.

Voltando agora, falo mais uma vez sobre a programação visual da revista. Ela é feita propositadamente para os repórteres terem conforto ao pôr suas matérias, pois dá muito espaço para que escrevam. Como disse antes, daria para publicarem sossegadamente matérias excelentes com fotos péssimas. E a prova de que o público brasileiro lê sim o texto e não as imagens.

Fico aqui pensando se nos EUA ouviríamos coisas como “but our reader doesn’t understand this thing”, “you need to explain everything to our reader”, “put all the information in the first paragraph” entre outras livres traduções daquilo que ouvimos tanto nas reuniões de pauta daqui. Aliás, talvez os caras da RS original falassem algo como “you’re fired. Stop underestimating our readers and get your fucking ass out here” se ouvissem algo assim. E olha que o americano médio é muito mais obtuso e alienado que o brasileiro médio, apesar de a escolaridade média do americano ser maior que a do brasileiro.

Enfim, uma americanização no bom sentido de nosso jornalismo. Não se faz uma revista ser franquia mundial achando que o leitor não entende ou não tem determinada coisa ou que não vai ler sobre determinada coisa que vai ser posta lá. Torço sinceramente para que um dia tenhamos versões internacionais de revistas legitimamente brasileiras, pois vejo nas redações muita gente trabalhadora e que quer ir mais além, mas que está sendo castrada por esquemas de trabalho bem mesquinhos e superiores muito medíocres.

Terminando, preciso destacar uma frase que saiu na nota sobre Britney Spears: E o melhor, muitos jornalistas – aqueles que não sabem escrever e entrevistam quem não sabe falar para quem não sabe ler – estão tentando entender o que aconteceu até agora! Será alguma indireta em linguagem de fresta à postura de grande parte da imprensa brasileira? Uma indireta de outros caras cansados de ouvirem que “o leitor não entende essas coisas”, “nosso leitor não entende isso” e outras?

Anúncios