Antes de tudo, pedirei que leiam este texto. Prestem atenção à seguinte frase:

Um dos problemas de nós, jornalistas, é que vivemos muito no meio de jornalistas.

Sim, Gilberto Dimenstein talvez tenha tocado em uma ferida interessante: nós jornalistas estamos escrevendo textos para outros jornalistas, que crêem que quem os lerá é completamente desprovido de inteligência, 100% alienado e capaz de continuamente tentar absurdos como lamber o próprio cotovelo.

OK, ele quis na realidade falar sobre o noticiário de política, que está enfadonho e falando de coisas que ainda serão, como a sucessão presidencial em 2010. Porém, também penso aqui se o fato de vivermos muito no meio de jornalistas é um causador de “o leitor não sabe dessas coisas” e assemelhados.

É também de se perguntar a obsessão do jornalista em achar que possui em suas mãos todo o conhecimento e de que todo leitor é alienado e incapaz de pesquisar, tendo de ser obrigatoriamente informado sobre tudo. Estaríamos nós em nossas matérias gerando preguiça em quem as lê e está fora da redação? Afinal, em alguns casos só falta dizer algo como “quando o parafuso é virado para a direita, ele aperta, mas quando virado para a esquerda, ele afrouxa”. E nos perdemos nesses explicacionismos.

Há outro parágrafo desse artigo que muito me interessa:

Tenho visto jovens, muitas vezes acusados de alienados, despertarem rapidamente para o debate sobre coisas públicas quando a política se traduz em seu cotidiano, trazida de forma apropriada para sala de aula.

É de se perguntar se os tais jovens alienados na realidade estão nesse torpor pelo fato de os textos estarem bastante enfadonhos por estarem na base de “o leitor não isso”, “o leitor não aquilo”, sendo que o leitor sim isso e aquilo e que os tais idiotas na realidade são um grupo pequeno, mas barulhento que, por ser barulhento, acaba parecendo maior do que realmente é. Estamos com a história de que a leitura prazerosa só pode ser feita pelos escolhidos, leia-se aí gente de altíssima escolaridade, que mora em um bairro nobre e por aí vai. Porém, todos, independente de quem são, querem ser envolvidos por um bom texto. Esqueceram-se de falar para esse todo que eles são “o leitor” e que, portanto, não podem exigir nada além de textos que tenham a pretensão de informarem a extraterrestres que acabaram de chegar à Terra sobre como é o planeta.

Chega a ser engraçado ver que os mesmos que nossa imprensa diz não se interessarem por nada e que por isso têm de ser guiados pela mãozinha acompanharem com tanta atenção o cinema e a teledramaturgia. E por que isso? Se virmos a nova safra dos filmes brasileiros então, notaremos inclusive que eles têm um narrador em primeira pessoa que faz tudo aquilo que a imprensa diz que o leitor não entenderá, como certas ironias e deixadas no ar. E o leitor insiste em entender. E, mais ainda, insiste em abrir debates, como os sobre Tropa de Elite

Enquanto isso, nós, jornalistas, insistimos em viver muito no meio de jornalistas. É a apuração por telefone que não nos tira da redação para ver o sol lá fora. É o recebimento de uma grande quantidade de cartas e e-mails de gente ignorante que adora escrever de monte e nessa, moldar o pensamento de que todos seriam como esses obsessivos. É o ambiente quase hermético das redações que não permite que o som entre. É o andar quase que apenas com jornalistas e nessa, apenas reciclar os vícios da profissão. E o leitor? Ah, ele é um burro mesmo e só um detalhe entre o que mandamos para a banca e o dinheiro que recebemos da venda…

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