Faço esta postagem suspeitando que possa haver uma revoada de gente revoltadinha e que pula para conclusões. Mas continuarei mesmo assim. É preciso falar sobre nossa profissão e o que enfrentamos.

Não obstante os salários bem baixos (ainda mais depois que descobri que um repórter nos EUA ganha em média salário equivalente no Brasil a R$ 4.600. Pena que o único link que achei foi do Comunique-se que, como já disse aqui, não mais me é digno de confiança), temos aqui também o problema de muitos lugares de trabalho serem verdadeiros infernos na terra (e apesar do ar-condicionado de alguns desses lugares deixar o ambiente bem fresquinho). Talvez alguns falem que muitas das coisas ruins do ambiente de trabalho jornalístico se repitam em outros lugares e em outras profissões. Porém, garanto que nas redações, elas se potencializam.

O jornalista tem de ser ético? Depois de alguns ocorridos, os éticos continuam sendo éticos porque sabem que repousarão a cabeça no travesseiro sem serem assaltados pela dúvida. Porém, verão que sua ética de nada adianta para ganharem espaço de ascensão profissional. Já os não-éticos não estão nem aí e em muitos casos, chegam a cargos de alto gabarito dentro das redações.

Querem um exemplo simples de falta de ética no ambiente jornalístico? Os muitos anúncios de vaga que pedem que a pessoa seja de um determinado sexo ou que mande foto junto com o currículo. Isso é uma ilegalidade sem tamanho, independendo da profissão, uma vez que vai até contra o que diz a Constituição e as leis que regem o trabalho, que proíbem veementemente esse tipo de seleção. Já cheguei recentemente a ver anúncio que procurava gente para apresentar programa de televisão. Tinha que ser do sexo feminino, pediam para mandar foto com o currículo e, mais ainda, pediam “boa aparência”. Cheguei até mesmo a falar com o moderador do site em questão sobre o quão irregular era tal anúncio. Falei inclusive do que significa realmente o termo “boa aparência”, que quem é afrodescendente (mesmo que em um nível de beleza comparável ao de Naomi Campbell, Isabel Fillardis e outras beldades) é um escamoteador de racismo daqueles. Claro que o idiota, analfaburro funcional como ele só, veio querer dizer que eu estava sendo preconceituoso, dizendo que eu disse que o negro não podia ter boa aparência, quando na realidade disse que o termo “boa aparência”, no mercado de trabalho, significa preconceito escamoteado do empregador contra o negro. Até esfreguei na cara a analfaburrice dele e o mesmo acabou apagando os comentários do tópico, e não o tópico em si. Logo, continuou indiretamente a incentivar o racismo e o sexismo.

Mas voltemos aos ambientes. Em alguns lugares, parece que sabem da histórica desunião dos jornalistas e estimulam a cizânia. o mais interessante é conversar com os ex-funcionários desse lugar. Em primeiro lugar, vai se ver o pouco tempo que eles acabam ficando no emprego, por verem a roubada que é. E isso, como sabemos, é péssimo, pois não cria aquela constância para o leitor, que vai ver e saber que fulano é responsável por tal área, sicrano por outra e por aí vai. Fora, é claro, as muitas variações de texto em pouco tempo, por mais que em alguns lugares tente se reprimir o máximo possível um texto que tenha uma marca própria, dentro daquela lógica canhestra de que o veículo inteiro deveria parecer ser escrito por uma pessoa só. Há lugares em que se bato o olho num expediente da época em que trabalhei e agora, periga de nem a tia do cafezinho ser a mesma, de tanta gente que saiu.

Vejo jornalistas com mais tempo de estrada chateadíssimos, por mais que se veja nos olhos deles o quanto gostam do ofício. Estão chateados por não poder mostrar aquilo que são. Estão chateados pelo tanto de hipocrisia que reina nas redações. Se atingiram maiores posições, chateados de ver o quão obtusos são os donos da empresa para a qual trabalham ou trabalharam.

Nos com não tanto tempo de estrada, mas nada inexperientes, também vemos um cansaço. Cansaço de tantas vezes tentar levar idéias novas e tomarem portadas na cara. A resignação de verem que sequer levam em conta suas discordâncias quanto a fórmula do meio.

E nos novos, a decepção de não conseguirem emprego. O fraquejamento relacionado às muitas respostas que não recebem dos muitos currículos que recebem, nem que seja para falar que a vaga não foi preenchida. A decepção de ver que gente com tão pouco tempo de casa quanto eles conseguindo empregos sem problema algum, mas sendo muito mais toupeiras que eles. A descoberta da incrível quantidade de picaretas e caloteiros, mais a necessidade de ir à justiça para conseguir algo. A chateação de verem uma pauta bem apurada não ser sequer passada adiante. O começo das descobertas dos antiprofissionalismos que assolam a profissão. Ver que amigos talentosíssimos não conseguem emprego na área nem a pau.

Em todas as faixas, constatar a incrível promiscuidade entre donos da notícia e noticiados. A imposição de uma visão de mundo e das coisas e do pedido de saída para a rua praticamente para apenas confirmar a idéia que a redação quer passar adiante. Assim como também panacas dizerem que estamos falando isso porque na realidade estaríamos com medo de um jovem talentoso tomar nosso lugar na redação…

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