– Eu não gosto do Saddam, mas se houver mesmo uma guerra entre o Iraque e os Estados Unidos, eu torço para ele.

A frase acima eu ouvi durante a cobertura de um torneio de pesca em Ilha Solteira, oriunda dos integrantes de uma das equipes, esperando pelo peixe morder a isca. E é uma das muitas frases que ouvimos sobre assuntos internacionais comumente em todas e quaisquer rodas de papo no Brasil, independente de onde estivermos.

Mas até isso estão querendo podar. Eis que você está lá comparando dois fatos parecidos, um ocorrido aqui e outro no exterior, e podem falar que “o leitor só se interessa pelo que ocorre no Brasil”. E nessa, o consumidor final fica privado de coisas muito interessantes. Falam que hoje a prioridade de quem lê a imprensa é para aquilo que ocorre em suas cercanias. Porém, cada vez mais suspeito ser mais um sintoma de oleitorismo em nossa mídia.

As conseqüências danosas dessa postura pude testemunhar em 1995, quando estive nos Estados Unidos, mais precisamente na Flórida, estado que sempre teve grande migração latina e razoável presença de brasileiros. Fiquei por lá durante 15 dias e sabem quantas notícias vi a respeito daqui? Uma. Apenas e tão somente uma. Com real sobrevalorizado, quebradeira de empresas legitimamente nacionais dando seus sinais de vida com a compra de muitas marcas brasileiras por estrangeiros e início de recessão em um país continental como o nosso e maior em extensão contínua que os EUA e só vi uma mísera notícia. Adivinhem sobre o quê? A contratação do Romário pelo Flamengo. E só.

As conseqüências disso? Vejam abaixo:

Estabelecer comparativos entre realidades diferentes é interessante, desde que, é claro, sejam comparativos aplicáveis. Fica dentro daquela instigação que se faz ao leitor. Afinal, caso não houvesse comparações, ainda estaríamos achando normal um monte de coisas, como a escravidão, a desigualdade de direitos entre pessoas sacramentada em lei, alegar defesa da honra para justificar um assassinato e por aí vai. Outro grande problema de cortar a comparação podemos ver muito em certas cidades bem provincianas, que são verdadeiras cavernas de Platão da vida real.

E é isso que a imprensa precisa fazer. Dizer que fulano foi do ponto A ao ponto B ou que aconteceu tal coisa em tal lugar, até vizinha fofoqueira diz (presumindo-se que ela esteja se atendo à verdade factual). Uma das funções da imprensa é a de suscitar questionamentos. Ao quererem impor aqui um foco que só se atenha a exemplos locais, estamos cortando uma das melhores coisas de nosso povo, que é essa consciência de cidadão do mundo que até o mais ignorante de nossos iletrados possui. Veja os sacoleiros, que vão ao Paraguai e voltam. Certamente eles sabem do governo de Nicanor Duarte melhor do que muitas editorias de internacional de nossas redações.

Vemos também o quão antenados somos com o que acontece no mundo em detalhes pequenos. Aqui em São Paulo, havia um modelo de bonde popularmente conhecido como Gilda e um ônibus com o posto do motorista avançado em relação ao dos passageiros, conhecido por Camões. Sim, Camões, um caolho português. E não Lampião, caolho brasileiro e muito mais recente. E vale lembrar que na época, começava a migração dos nordestinos para São Paulo e no Brasil, o acesso à comunicação era ainda mais restrito que hoje, por haver só rádio e jornal. Ainda assim, Rita Hayworth e um poeta de quase 500 anos atrás eram nomes populares para objetos.

Vamos mais recentemente, para quem tiver minha faixa de idade e viu a queda da União Soviética. Pouco antes disso, tivemos as políticas do Gorbachev. O que ouvi de gente falando para o outro ir tomar na perestroika não está no gibi. Mais recentemente, vemos gente falar que certo fulano que conheceu na escola, de tanto que aprontava, deve estar hoje na Al-Qaeda.

São tantas as mostras dessa postura atenta ao exterior que o brasileiro possui que, sinceramente, dizer que “ao nosso leitor só interessa o que ocorre no Brasil” chego a considerar como cinismo e tentativa deliberada de alienar. E infelizmente, é outra tendência que vou notando em nossa imprensa. Tá certo que é sim preciso informar daquilo que ocorre localmente, mas mais importante ainda é saber informar sobre o local lembrando das peculiaridades do brasileiro.

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