Este é mais um texto que escrevi e foi publicado no Comunique-se em 2004, três anos antes de constatada qual é a desse site com aqueles que dizem a verdade nua e crua a respeito de coisas que lá ocorrem. Foi um momento que considero especial em meu ethos jornalístico, pois mostrou que nunca, jamais, em momento algum, devemos associar um tipo de pessoa a algo que acreditamos ser desse tipo de pessoa. Segue do jeito que saiu lá:

Precisamente no dia 19 de fevereiro deste ano, inspirado pelo acalorado debate do artigo aqui publicado sobre os sete anos da morte de Paulo Francis, resolvi empreender uma expedição de busca a uma verdadeira raridade e que mereceria ser republicada: o livro Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis, escrito por Fernando Jorge.

Pela proximidade de minha residência com o centro da cidade, empreendo a longa busca a pé. Caminhando, a distância dos melhores sebos da cidade vai ficando pequena. Passo pelo viaduto 9 de Julho, pela Câmara dos Vereadores, pela rua Maria Paula. Primeira parada: o Sebo do Messias. Em suas grandes dependências, pergunto pelo livro, porém, a resposta é “não”. Porém, não desisto e sigo ao Nova Floresta da Brigadeiro.

Lá, a resposta: está na filial da Praça João Mendes e custa R$ 25. Maravilha, penso. Logo, sigo naquele rumo, passando pelo viaduto João Paulino. Porém, logo tenho de correr para o bar da esquina, para me abrigar de uma fortíssima chuva, daquelas que caem de repente e em canivete, típicas de nosso verão.

Passo longos minutos por lá, tamanha a força do aguaceiro. Logo, sarjetas virariam riachos bastante caudalosos e realmente só se alguém fosse louco para andar naquelas condições. Porém, aquelas manifestações meteorológicas logo se acalmariam e logo atravesso a rua. Finalmente Eldorado se aproximava.

Chego lá, subo a escada e vejo que o livro já estava reservado para mim. Pego-o, vejo uma ou outra coisa e logo desço. Aproveito para dar uma olhada nos CDs e, preparando-me para voltar, um pequeno detalhe tira-me do roteiro inicial.

Um senhor pelos seus 50 anos, de origem nordestina e modo de ser bastante simples, pergunta-me se posso ajudá-lo a achar um determinado álbum. Ele cantarola a melodia e logo vejo tratar-se de As Quatro Estações, de Vivaldi. Logo, disponho-me a dar uma força àquele homem.

Dedilho rapidamente os CDs do setor de música clássica e logo vejo que não há o tal álbum do italiano. Porém, aquele senhor não sairia de lá com as mãos abanando, pois logo pôs na sacola dois CDs de Mozart.

Surpreso com a admiração daquele senhor por aquela que seria conhecida como música erudita, o mesmo me diz que sempre foi amante daquilo que sai de orquestras sinfônicas. Esmiuço mais e continuo a conversa. O mesmo diz de onde aprendeu a gostar desse estilo: desde criancinha, quando morava em algum lugar do sertão baiano, ele ouvia isso sempre. Mais que isso, o mesmo fala que no que consideraríamos o cafundó-do-judas, sempre, sempre, ouviu música clássica e que a mesma tocava em todos os lugares de alguma cidadezinha pequena da qual não me disse o nome.

Logo, a conversa termina. Ele segue rumo à Liberdade e, eu de volta para minha casa. Porém, saio de lá com um novo conceito sobre aquilo que agora vejo que mal tenho idéia do que seja: esse tal sertão nordestino, tão desconhecido de todos nós paulistanos. Vejo ainda mais riqueza nessa região e reparo que rabecas e pífanos não servem apenas para tocar apenas o forró e o xote que tanto adoro dançar. Saio também com o conceito de música popular e música erudita totalmente riscados de minha mente. Agora, prefiro dizer música clássica e música contemporânea ou música de orquestra e música de banda, ou qualquer outra coisa que não estereotipe o público que acompanha essas vertentes da música.

E, claro, mudo também minha opinião sobre o que realmente o povo gosta. Se aquele senhor tanto procurava CDs de Mozart e Vivaldi, não duvido que muito mais gente, assim como ele, ouça coisas que não os comercialismos descartáveis de artistas praticamente criados em laboratório. Se antes já não concordava com quem dizia que é necessária a existência de artistas ruins porque é o que massas pobres ou ignorantes conseguem compreender, agora digo que posso até partir para a ignorância para quem me disser isso.

E fico pensando se não está na hora de levar a orquestra para onde o povo está. Um senhor daqueles não tem como ir ao Municipal (sua vestimenta o barraria na porta e o preço do ingresso é além do que ele pode pagar). Porém, o contato dos smokings com o chinelo e a bermuda com certeza ajudaria em muitas coisas. Não diria inclusão social, pois, se todos somos parte da sociedade, estamos inclusos, mas algo que vai muito além disso: a derrubada de barreiras de origem ou classe social. Se a classe média cantarola Racionais, se jovens lotam as casas que tocam o forró pé-de-serra, que outrora era e ainda é estigmatizado (já ouvi uma pivetinha dizer que não gostava de forró porque era brega e coisa de baiano. No caso, ambos os termos sendo usados em contexto pejorativo), por que não levarmos as orquestras para tocarem na periferia? Muitos senhores e senhoras semelhantes àquele com quem conversei podem não só ter contato com algo raro de tocar lá, mas, muito além disso, terem o direito de recordar um passado tão difícil de se resgatar.

 (*) Publicado originalmente em 2004, na seção Em Pauta, do Comunique-se. Vale lembrar que “Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis, em 2007, ganhou uma segunda edição, depois de muito tempo sendo encontrado apenas em sebos. E em momentos pontuais, Arthur Moreira Lima leva a orquestra para as periferias do Brasil, em um caminhão especialmente feito para essas ocasiões.

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