Vi nesta segunda o Roda Viva em que foi entrevistado o médico americano (ainda que ele sinta vergonha de falarem de seu país) Patch Adams. A maioria aqui deve conhecê-lo na interpretação de Robin Williams que, em minha opinião, transmitiu muito da essência desse médico e ativista.

Mais ainda, quem o viu notou o quão radical ele é. Pode falar algumas coisas erradas, como dizer que todos os cargos públicos deveriam ser passados para mulheres e que assim teríamos a paz no mundo, como se não tivéssemos tido governantes do sexo feminino tão ou mais atrozes que qualquer homem atroz. E não podemos cair naquela simplificação de que a mulher bem sucedida no mundo machista tem de se masculinizar, pois muitas vezes, é no ato mais feminino que possa haver que está o maior dos totalitarismos. Porém, ele é um radical que nos atrai. Você chega perto dele e ele não vai te morder. Pelo contrário, vai ganhar o dia.

E o que isso tem a ver com a luta contra o oleitorismo? Diz Patch Adams que o jornalismo hoje é uma mentira, que a maioria das notícias é pura propaganda e que glorificam o dinheiro. Acho que compreendi aonde ele quis chegar: ao fato de que nós jornalistas só estamos vendo a notícia, sem ver o objeto da notícia. E isso é péssimo. Assim como pacientes sentem-se objetos ao serem rodeados por um professor de medicina e seus alunos e ouvirem algo como “este é um caso de câncer de pulmão”, creio que leitores também se sentem péssimos ao passearem o olho por um texto e ouvirem quase que por vias telepáticas algo como “este é um cretino que não saca lhufas e temos de lhe explicar tudo, nem que quebre a fluência e o prazer de um texto”.

Diziam os caras do Roda Viva que a maioria dos sistemas de saúde hoje é sistema de doenças, em que fulano vai lá, é consultado por um médico extremamente frio e arrogante e sai de lá com uma receita. Já passei por isso em 2000, ao me tratar de um simples calázio, que sai com Drenison. Porém, uma coisa demorou muito tempo para sair: a extrema hipocondria que passei, a ponto de achar que ia morrer. Tudo porque o plantonista disse ao olhar o calázio e ver outros lances a singela frase: “o senhor não tem só essa lesão na pele”. Até descobrir que em dermatologia o termo “lesão” significa desde uma espinha até um melanoma maligno, foi um belíssimo tempo da mais pura paranóia.

Mas voltando ao assunto e falando aos colegas jornalistas que lêem esta postagem, parem para pensar na maneira como estão tratando quem os lê. Estão sendo cordiais? Estão passando para eles aquilo que vocês sentiram ao apurar? Estão tentando incentivar os leitores a compreender um pouco que seja aquele próximo abordado em suas matérias?

E quando olham para as fontes, o que vêem? Notícia ou uma pessoa que passa a notícia? OK, há gente bem interesseira e manipuladora e disso não duvido. Assim como gente beeeem grossa e que não quer saber de entrevista. Param para pensar no impacto que é aquele bloco de notas e a caneta na frente de alguém? E o gravador escuro na fuça de alguém? OK, eu também já fui, sou e não estou isento de ser grosseiro, assim como ninguém aqui está isento de se trombar com certos tipos de entrevistado…

Mas voltando ao assunto: dentro daquela busca de isenção, você está buscando falar com o ser humano que te lê ou quer apenas o lucro que ele te dá ao comprar sua matéria na banca? OK, jornalismo é profissão e não é crime ganhar dinheiro informando, uma vez que nós jornalistas nos dedicamos exclusivamente a isso como forma de sobrevivência. Porém, será mesmo que vale a pena ganhar dinheiro tratando o leitor apenas como um mentecapto que precisa ser informado de tudo, até como andar e respirar?

E a fonte? É aquele que vai te dar umas informações para você estampar uma matéria bonitinha que vai te dar uma promoção ou um Esso? Ou é uma pessoa que tem seus motivos para informar e que deve também ser tratada da melhor forma possível?

Pensem, meus caros, naquilo que irão sentir as fontes das notícias que publicam ao verem uma matéria estampada nas bancas ou acessível na internet. E isso vai muito além daquela história de ouvir os dois lados e outras do jornalismo que não discorrerei aqui. Assim como eles não gostam de se sentir assemelhados a peças de carne sendo expostas em uma vitrine, nós também não gostamos. E isso é questão de compaixão. E dá para ter compaixão mesmo com as piores fotos e o texto mais duro. É acusar somente com provas e até mesmo deixar de publicar a matéria se elas não vierem. É não inventar declarações com base nas idéias da pessoa, pois essa irá ler e dirá algo como “eu não falei isso”. É manter as construções textuais da fonte, mesmo que venham com papinho de que voz passiva ou outras coisas não podem”. Enfim, é ver que há um ser humano que gosta de ser humano e não é igual a tantos outros.

E, mais ainda, pensar na utilidade de sua matéria em um contexto construtivo. Afinal, jogar pedras qualquer um consegue, mas ajeitá-las para fazer algo que tenha um forma harmônica é difícil. E sempre perdoando o clichê que se diz nessas horas…

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