Antes de ler esta postagem, pedirei que leia este link e não se atreva, nem que uma borboleta pouse na ponta de seu nariz, de ir adiante se não ler.

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Tom Curley também já viu que o leitor entende

 Leu? Essa notícia é importante, pois é o presidente da Associated Press, o senhor Tom Curley, que, em 2 de novembro, fez duras críticas aos próprios meios de comunicação tradicionais. “Editores precisam parar de choramingar pelo velho mundo e liderar a criação de um novo”. E essa frase diz muito.

Tom disse algo que os jornalistas antioleitoristas já sabem há muito tempo: que as empresas da mídia devem parar de pensar que são as centralizadoras da informação e ir atrás daqueles que se informam pela internet de maneira personalizada. Sim, isso mesmo que leram: parar de ficar escrevendo coisas como “pela internet, a rede mundial de computadores” (copiando totalmente o que o colega jornalista e blogueiro Pedro Serra).

E já que o CEO da AP já estava descendo a lenha, falou ainda mais: que as empresas midiáticas são parcialmente culpadas pelos problemas que estão experimentando ao se adaptar às novas realidades. “Nossa arrogância foi pior para nós do que qualquer portal de internet”. Sem querer, ele acabou concordando com o repórter inglês Robert Fisk. O repórter, correspondente no Oriente Médio há mais de 30 anos, falou que as pessoas estão deixando de ler jornal e indo para a internet porque os periódicos estão muito chatos. E acho que já falei aqui do amigo que me confessou que anda lendo os jornais mais por hábito do que por prazer.

Voltarei à história de as empresas ainda se acharem os filtros da informação, pois creio ser essa uma das maiores razões de “o leitor isso”, “o leitor aquilo”. Li a coluna do Antônio Brasil no Comunique-se e ele falou algo interessante: está acontecendo com os jornais algo semelhante ao que ocorreu com a igreja depois da invenção da imprensa. O leitor não entendeu? De duas, uma: ou ele vai procurar pesquisar em outras fontes sobre o assunto, e talvez as mais técnicas terão mesmo uma linguagem mais formal e densa, ou vai esquecer por completo aquilo. Ao menos fica-se com 50% da base, que vai ter ler porque seu texto é agradável de ler. E pronto. Nada de ficar achando que vai lhe dar todas as informações em um espaço de uns 3 mil caracteres. Isso é pedir para dar um ar de enfado à coisa e, pior, afastar todos os leitores, interessados e desinteressados no assunto.

Ao falar sobre o público que pega a notícia na internet e se informa de seu próprio jeito, Tom Curley acabou por admitir uma coisa importantíssima: que os leitores (e talvez até mesmo O Leitor e Oleitor) entendem, sabem, não estão interessados em terem uma pauta barrada por alegação de que seriam incapazes e, mais ainda, não querem saber de serem pensados da maneira como as redações acham que eles são. Apenas querem a coisa mais simples: informação, bem passada e escrita e que lhes faça ir adiante.

Quando a Globo perde audiência para a Record, pode acreditar que é por oleitorismo. Quando as grandes revistas semanais perdem assinantes a olhos vistos, é porque acham que o leitor não vai entender as pautas interessantes que barraram achando que ele não se interessa. Quando a imprensa especializada perde leitores, é porque não deixaram gente talentosa escrever do jeito que eles gostariam. Quando os jornais empoeiram nas bancas, é porque há vários editores que sabem o manual de redação de cabo a rabo, mas esquecem-se de que são gente e escrevem para gente que gosta de ler algo escrito por gente, não por robô. As pessoas estão afluindo para a internet também por mais proximidade com o autor da notícia. E é essa proximidade que está faltando ao jornalismo tradicional. Informar-se sobre algo pelo telefone, qualquer um faz. Porém, sacar as minúcias que o telefone não informa, aí é o trabalho do jornalista. E isso só se faz saindo a campo…

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