Vemos a imprensa querer ensinar muita coisa. Até aí, tudo bem, pois nem todo mundo sabe dar nó em gravata ou um rápido da história do Uzbesquistão. Porém, estamos indo mais além e falar da postura arrogante que a imprensa assume.

 

Não há problema algum em se usar o imperativo. O problema é a maneira como é usado, assim como um Vossa Excelência pode soar mais ofensivo que um palavrão qualquer. Porém, eis que vemos muitas vezes coisas como “saiba como fazer tal coisa”, até mesmo em meios que falam da tal coisa. Logo, acaba havendo até aquela impressão de que na realidade o jornalista quis dizer algo como “eu sei que você não sabe nada e eu, que detenho esse conhecimento, irei te dar uma vaga noção disso”.

 

Isto não é da deontologia do jornalista e este que ergue a mão não é o leitor

Quando vejo certas matérias altamente oleitorísticas, a impressão que me passa é que ou seu autor ou o editor pelo qual passou o texto queriam dar aulas em escolas mas, vendo o quão pouco reconhecidos são os docentes, resolveram optar pelo jornalismo, na vaga ilusão de que ganhariam alguma consideração por seus trabalhos e mais salário, é claro.

Porém, desiludidos que ficaram com a profissão tão fetichizada que optaram seguir, meio que descontam as mágoas nas matérias. OK, um esclarecimento ou outro que se pede sobre certos trechos, uma mudancinha ou outra no texto ainda é aceitável. Porém, querer que explique tudo é pedir para deixar a coisa chata e tratar o receptor da notícia como incapaz.

 

Isto não é uma redação

Claro que também não precisa ser o editor mais rasteiro ou mesmo um diretor de redação a ter de iniciativa própria as posturas de “o leitor isso” ou “o leitor aquilo”. Há ocasiões em que é do próprio dono, esse muitas vezes alguém que quis ser acadêmico, mas não conseguiu. E, claro, não vamos deixar de lado também o fato de que muitas vezes esse dono contrata como subordinados gente que tenha afinação parecida no pensamento. E esses subordinados por aí vai… Claro que haverão exceções nessa cadeia hierárquica, mas essas ou se reprimirão para manter um emprego que lhes dá algum salário que seja ou baterão de frente com seus superiores, tendo altos riscos de serem demitidos.

 

Não, isto não é um centro de professores

E essas matérias muito esquemáticas sobre coisas amplamente conhecidas pelo leitor das mesmas é que acabam passando mais nitidamente a impressão de presunção de não-conhecimento por parte de quem lê o texto, o que não é verdade. Fora haver outras formas de abordar o leitor que valorizem os conhecimentos que ele tem. Não se iludam: meios jornalísticos são para informar, e não ensinar. Talvez possam até ser coadjuvantes na escola, dentro daquela conhecida parceria do tipo Veja na Escola ou Carta Capital na Escola. São úteis para leituras comentadas, mas nunca para serem cartilhas onde se aprende o beabá.

Penso aqui comigo quantos jornalistas enfadados dariam excelentes professores e, isso sim, tirariam o Brasil do déficit educacional que se encontram. E o porquê de tanta fetichização do jornalismo a ponto de hordas de pessoas quererem seguir a carreira.

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