Ouvi isso uma vez em que saí com a turma de um amigo meu que mora na Cidade Tiradentes. Referia-se a um cara que tinha tomado umas além da conta e na hora, achei a frase engraçada, pois realmente é engraçada.

O maluco estar louco não significa obrigatoriamente uma redundância, como a linguagem dos classes-médias-afrescalhados-e-moralistas poderia achar em um primeiro momento. “Maluco”, em gíria periférica, significa algo muito além de alguém com desordens mentais. Pode significar simplesmente uma pessoa como eu ou qualquer outro que de longe ou em um convívio mais formal pode se mostrar perfeitamente normal. E significa também que essa pessoa não vai rasgar nota de cem reais, esse o mais famoso termômetro de maluquice que possa haver.

Compartilharei com vocês o trecho de uma letra do Sabotage, legítimo representante da arte que vem da da periferia:

Tumultuado está até demais a minha quebrada

tem um mano que levando, se criando sem falha

não deixa rastro, segue só no sapatinho

conosco é mais embaixo, bola logo esse fininho

bola logo esse fininho e vê se fuma até umas horas

sem miséria, do verdinho

se você é aquilo, tá ligado no que eu digo

quando clareou pra ele é de 100 Gramas a Meio Kilo

mano cavernoso, catador eficaz

com 16 já foi manchete de jornal, rapaz

respeitado lá no Brooklyn de ponta a ponta

de várias broncas, mas de lucro, só leva fama

hoje tem Golf, amanhã Passat metálico

de Kawasaki Ninja, às vezes 7 galo

Alô, ainda algum classe-média-afrescalhado-e-moralista que esteja lendo esta postagem? E algum jornalista, também está? O que entenderam dessa letra? Provavelmente nada. E foi feita por um cara que hoje não mais se encontra entre nós, mas que sempre levava consigo um caderninho e, quando alguém falava uma palavra mais erudita, tratava imediatamente de anotar e já arquitetava uma letra de rap em cima. Porém, meus caros, garanto que gente de todas as periferias do Brasil e que porventura estejam lendo esta postagem entenderam direitinho, ainda que com um monte de gíria tipicamente paulistana e que teoricamente outras praças não entenderiam. E o mais engraçado de tudo é que insistem em entender e os paulistanos insistem em entender as gírias mais intrincadas de outras praças.

Repararam na sofisticação das construções frasais? Ele fez até uma inversão mais extrema de termos. Poderia dizer algo como “tem um mano que levando não deixa rastro, segue só no sapatinho” e deixado o “se criando sem falha” em uma frase separada. Mas não, ele deixou a frase como um aposto no meio da outra. OK, tem o lance da métrica e da rima, mas vejam que isso foi feito por alguém que poderia ser enquadrado como “o leitor” e, se pobre, supostamente seria menos merecedor de um texto refinado pelo simples fato de ser pobre e não ter uma determinada escolaridade que supostamente o tornaria apto a textos mais sofisticados.

E garanto que, como alguém que conhece gente das perifas, eles têm um linguajar extremamente sofisticado sim. “Quente é mil graus”. Sim, para qualquer pessoa é algo quente. Encoste a mão em uma barra de ferro a 1.000ºC e diga depois o que acontece. Porém, o “quente” que se está falando é metafórico e os “mil graus” são para falar que a coisa em questão é bem garantida mesmo.

Poderia discorrer com mais letras de rap, mas esta foi só uma amostra sobre a riqueza que há nas camadas mais baixas da pirâmide sócio-econômica. Enquanto a imprensa só vê sangue e incapacidade intelectual nessas pessoas, quem conhece sabe que eles têm exatamente aquilo que qualquer pessoa com as faculdades mentais em ordem tem: raciocínio, momentos sarcásticos, capacidade de decifrar as linguagens mais de fresta possíveis (ou será que as letras do Sabotage não tinham mais frestas que um rochedo?), sacar metáforas, fazer humor ou mesmo falar algo que o jornalista não entende. E, claro, eles não fazem a menor questão de fazer uma reunião de pauta e dizer algo como “mas o jornalista não vai entender isso”, “você tem que presumir que o jornalista não saiba nada”, “nosso jornalista não tem esse tipo de coisa”. Sim, meus colegas de profissão, para vocês eles são “o leitor”, mas para eles, muitas vezes vocês são uns otários…

Por isso, não economizem no texto sofisticado ao escrever para quem presumem que tratariam como “o leitor” e talvez até desinfetassem as mãos depois de cumprimentar. Linguagem simplesinha e fácil de entender é o que se faria com uma criança bem pequena, até porque ela está em formação. Ás vezes, uma metáfora será mais entendida por toda uma base teoricamente ignara do que seria um linguajar formal e esquemático, por um simples motivo: são pessoas, capazes de entender e que reconhecem quando fulano bota um talento em cima. Seja firmeza e ganhe leitores firmeza. Morô?

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