Sim, essa é a proporção do curso mais concorrido do vestibular para a USP neste ano. E adivinha qual é o curso que conseguiu essa proporção? Sim, ele, jornalismo.

E o curso nos últimos dez anos esteve sempre entre os dez mais concorridos da USP. Sim, é de se estranhar algo assim. Por que raios uma carreira em geral mal paga, em que se trabalha muito e com mercado de trabalho saturado é tão concorrida?

Culparei muito a fetichização feita ao ofício. Há muita gente que acha que ser jornalista é ser William Bonner e Fátima Bernardes e que quando se fala a palavra “jornalismo”, imediatamente lembra de televisão, como se essa fosse a única forma de fazer jornalismo. Provavelmente nunca se darão conta que até por quadrinhos dá para fazer uma matéria, como prova Joe Sacco. Lendo alguns debates, vi que há gente que quer imediatamente jornalismo televisivo. E, aliás, as disciplinas de jornalismo televisivo são justamente o momento em que a turma perde aquela união que tinha até outros momentos e a real personalidade de alguns é revelada. Em meus tempos de estudante universitário, foi exatamente isso que ocorreu. Via gente jogando arrogantemente pauta no colo do outro e na única vez em que fui editor-chefe, eram tantos egos juntos que não consegui chefiar nada.

E lendo ainda mais alguns debates a respeito, vejo que muitos só vão cair na real depois que se formam e constatam que o mercado de trabalho está saturado, que por mais talentoso que se seja, não se consegue sequer ser chamado para entrevista e por aí vai. E aí, lá vão eles tentar outros cursos. E o pior de tudo isso é ver gente que conheço, talentosíssima, que está fazendo curso em outra área e que provavelmente jamais voltará a pôr os pés no jornalismo. Sim, estamos perdendo gente boa, que gosta de jornalismo, mas se cansou de ver tanto medíocre na área. Gente que já vi na minha frente chorar ao contar sobre o inferno que era o ambiente onde trabalhava. E olha que a pessoa em questão trabalhava em meio da grande imprensa, com uma infra-estrutura fenomenal e salário até que razoável.

Em que pensarão esses 41,63? Observem que não são 42, o que me faz crer que, sim, há alguém tão lesado, mas tão lesado, que pode ser considerado como 0,63 pessoa. Mas o que levará as outras 41 pessoas inteiras a procurarem uma vaga de jornalismo?

Ouvi primeiramente essa notícia nesta segunda-feira, em meu frila no Agora São Paulo, conversando com o motorista que me levava para um destino. A surpresa da quantidade de candidatos para a vaga logo me fez pensar alto um pouco. Porém, a surpresa do pensamento alto foi a de que a telepatia também foi alta e logo o motorista começou a conversar a respeito. Falava ele que tem visto uns jornalistas recém-formados bem dos nojentos, que se acham um monte e que querem os outros a sua disposição. Falou até de umas tretas que teve com esse tipo de gente.

Já em outros casos, é o clássico caso de criados a leite com pêra e ovomaltino que tanto se proliferam no ambiente profissional. Como moderador de fórum de jornalismo, sei muito bem do que os afrescalhados são capazes. Fale para eles tomarem um cu-de-jegue (cachaça com sal e limão, popular em Alagoas) e logo os verá dizendo que você é um mal-educado, grosseiro, indelicado e por aí vai. Em alguns momentos, chego a pensar até que a Roberta Close é mais macho que muito marmanjo reclamão que lá vejo. Peça para eles cumprirem as regras do fórum e, pior, vai vê-los dizendo que você está desrespeitando a democracia, as liberdades de imprensa e expressão e blablablá. Nada que uma boa descompostura no dito cujo não dê jeito. É gente que até sabe ler, mas não decodifica corretamente qualquer coisa mais longa que um letreiro de ônibus e que, quando fazem besteira decorrente dessa leitura diagonal, logo vêm querer brigar contigo.

E logo me pergunto se o oleitorismo poderá ser fortalecido, pois alguém que age arrogantemente com gente no convívio social pode muito bem agir assim com gente que nunca viu. E quem é que ele nunca viu? O leitor, é claro. E lá irá o cara escrevendo para na crença total e sincera de que quem lê é um idiota, incapaz, analfabeto, desinformado até das coisas mais elementares, portador de sinapses defeituosas e por aí vai. E estaremos reproduzindo também a mesma espiral que hoje vemos, talvez em versão piorada.

E aí, o que passa na cabeça de cada um dos 41,63 candidatos que disputam uma vaga de jornalismo na USP? Será mesmo que eles querem jornalismo de uma maneira sincera ou como trampolim para fama? Conseguem se imaginar pondo o pé na lama ou só querem um mundo de socialite? Estão para inovar o jornalismo ou só mesmo para ajudar fortemente na perpetuação das velhas fórmulas batidas? Com a palavra, eles.

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