Este domingo marcou o fim do I Salão Nacional do Jornalista Escritor, realizado no Memorial da América Latina. E foram duas ocasiões que vi que foram legais.

 Cheguei lá pelas 17 horas, a tempo de assistir ao debate sobre livro-reportagem, que contou com Caco Barcellos, Eliane Brum e Domingos Meirelles. Foi uma ocasião de ouro, principalmente por ouvir Eliane Brum que, do alto de sua timidez, desceu a lenha legal na apuração telefônica que tanto está sendo estimulada na imprensa brasileira. E com propriedade, pois ela simplesmente conseguiu conversar com um monte de gente que viu a Coluna Prestes passar e as conseqüências da mesma, o que inclusive gerou descidas de lenha oriundas de sociólogos, historiadores e outros que não deveriam idealizar esse evento do País, mas que tiveram de se render às evidências quando uma carta de Juarez Távora, um dos comandantes da mesma, falou tudo aquilo que Eliane confirmou com os velhinhos. A mesma Eliane também falou algo que todos nós jornalistas temos de lembrar: que aquilo que escrevemos hoje será usado pelos historiadores no futuro. Portanto, o respeito à verdade dos fatos é fundamental para não gerar uma história distorcida.

Caco Barcellos também falou coisas interessantes, como envolvendo seus livros Rota 66 e Abusado. Falou também sobre certa vertente do jornalismo de hoje em dia, que está na base da ofensa pura e simples e de se pôr acusações ao vivo, sem dar tempo para que o acusado se defenda. Vide o ocorrido recente com o padre Júlio Lancelotti.

Porém, tenho uma especial atenção por tudo aquilo que Domingos Meirelles fala. O cara tem uma incrível capacidade de estabelecer paralelos entre coisas que muitos hoje veriam como novidade, mas que são muitíssimo parecidas com ocorridos dos anos 20. Falou também do tempo em que foi jornalista de revista e das raras ocasiões que possui para escrever livros. Vale lembrar que ele é bem antenado em relação ao período dos anos 20 e 30. E também falou uma coisa que é preciso compartilhar com o pessoal e, principalmente, com os 41,63 que estão querendo uma vaga na ECA-USP: “nunca vi tanto jornalista arrogante como vejo atualmente”. Ele e o Caco, inclusive, falaram também sobre a falta de consideração e respeito que um jornalista tem para com o outro hoje. Isso me faz pensar também se justamente não é a famosa história de querer exclusivamente jornalismo televisivo que tanto atrai vestibulandos que fetichizam o ofício. Também me faz pensar sobre esse lance da falta de união da categoria. Sim, porque já cansei de ouvir que o pior inimigo de um jornalista é outro jornalista, mesmo tendo amigos jornalistas e amigos que deixaram o jornalismo.

 Por fim, houve a entrevista de Mino Carta. Se Eliane desceu a lenha em alguns aspectos da imprensa nacional, o Capital da Carta desceu foi uma floresta amazônica inteira em cima da dita cuja. E uma frase dele achei particularmente interessante, ainda mais pensando no tema do blog. Não me lembrarei dela por inteiro, mas foi algo assim: “os jornais brasileiros passaram por um projeto que visa o aumento de vendas a qualquer custo, acreditando que seus leitores são imbecis”. Falou também sobre a postura oligárquica dos donos da imprensa, de eles quererem a todo custo manter o status quo e estarem felizes de andar com carro blindado, de erguerem grades em suas casas, etc. Também respondeu às acusações de que CartaCapital seria financiada principalmente por publicidade estatal e supostamente chapa-branca. Falou também de seus dois livros autobiográficos por vias alternativas, como Castelo de Âmbar e Sombra do Silêncio.

Ainda voltando um pouco para Eliane Brum, vale lembrar que ela também disse que vê dois tipos de jornalista em uma redação: aquele que acredita que a notícia de hoje embrulhará peixe amanhã e aquele que lembra do uso que os historiadores farão dos textos jornalísticos. Ela também lembrou que, sim, o livro-reportagem pode ser uma excelente alternativa para o jornalista. Domingos Meirelles também lembrou da insegurança que sentiu quando fez seu primeiro livro-reportagem, achando que não tinha talento para fazê-lo.

Por fim, outra coisa importante que foi lembrada nessas palestras foi justamente o fato de que é muito possível de que a imprensa esteja perdendo leitores por estar com textos muito chatos. Falaram também da enorme importância que se dá à informação pura e simples e à pouca importância das nuances, essas sim que só podem ser captadas mesmo quando se está no local, em vez de ao telefone.

Talvez seja mesmo uma boa hora de pôr as barbas de molho e a imprensa se reavaliar. Afinal, por que motivo as pessoas estariam fugindo do impresso para lerem sites e blogs?

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