Já parou para pensar no motivo do incrível unanimismo na imprensa brasileira? Vamos além daquela história do número de famílias que controla a mídia e em eventuais acordos de conchavos dos mais diversos.

Esse unanimismo também ocorre em outros países do mundo. E encaixa-se na história de medir a temperatura do acontecimento que estiver mobilizando a nação. E nesse caso, um meio vigia muito bem o que ocorre com o outro. Caem naquela premissa de escutar o que você desejaria e depois lhe contarem. E isso gera uma dificuldade tremenda em se remar contra a corrente. Sim, talvez a opinião pública seja muito diferente da opinião publicada, mas ir de maneira diferente pode gerar quedas de venda, mesmo que se esteja com a razão.

Veja esse fenõmeno acontecer, por exemplo, em assuntos políticos. Imediatamente uma série de meios da imprensa posiciona-se de um determinado jeito. Aqueles que estiverem contrários irão sofrer um pouco para vender, mesmo que estejam mais certos que o resto dos outros. Irão ser chamados dos mais diversos nomes também e, mais ainda, a impressão que ficará sobre eles irá se espalhar pelo tecido social, mesmo que grande parte dele sequer tenha lido o opositor.

Um exemplo simples de como isso pode acontecer, está no experimento de Solomon Asch. Ele pôs 11 pessoas que viam três linhas. Eles tinham de vê-las e dizer qual delas tinha o mesmo comprimento de uma linha-padrão. O voluntário era informado de que havia mais 10 pessoas na sala também fazendo a mesma coisa. Porém, não fora informado que eram dez atores. E esses dez emitiam sua opinião antes dele. O resultado? Ao chegar a vez do voluntário verdadeiro, este acabava votando igual aos outros 10, mesmo que errado. E isso acontecia mesmo quando eles debatiam entre si sobre qual era a linha certa. O lance foi que o pesquisador fez um sinal secreto para que todos os 10 atores na hora de votar escolhessem a resposta errada. Foram testados 50 voluntários nessa mesma situação e 3/4 deles escolhiam sempre a mesma resposta do grupo.

E isso acontece em parte pela questão de ser aceito em um grupo. Quando se está em uma minoria das minorias, constrange ser diferente. Por isso, ele acaba passando por cima daquilo que acredita ser correto. Isso de certa forma assemelha-se muito a uma barra de ferro que imantamos. A maioria dos átomos acaba por se organizar da forma mais fácil, que é ficarem todos orientados de uma mesma forma, com os pólos sul e norte em mesma posição. Ainda assim, pode haver áreas em que os pólos ficam ordenados de maneira diferente. Porém, o ímã sempre terá um pólo norte e um pólo sul, quando falamos da peça por completo.

Agora imaginem tudo isso no seguinte trajeto: redação – publicação – leitorado. Leitores tendem a confiar nos meios em que adquirem informação e imaginar que se possuem uma determinada circulação ou audiência, algum motivo deve ter. Por isso, irão demorar em mudar de fonte de informação, até por se acostumarem com elas. E, claro, por estarem acostumados, até evitam falar com a redação, por mais que discordem de certas coisas. Quem escreve mesmo é o famoso leitor mala-sem-alça, que se acha no direito de xingar, abusar e demonstrar sua burrice sem repressão alguma. Jornalistas recebem majoritariamente esse tipo de feedback e imediatamente escrevem acreditando ser aquilo o que são os leitores na realidade. Claro que haverá discordância dentro da redação, mas normalmente, quem discorda não sobe muito de cargo. Portanto, o peso do cargo mais alto acabará por forçar que se escreva presumindo que quem lê majoritariamente não teria o reflexo automático de desviar de um objeto jogado em alta velocidade contra sua cabeça. E até por questão de conforto de vida, as pessoas priorizam certas escolhas na vida. Discordar, como qualquer um sabe, estressa, isola e dificulta seu futuro. E em um mercado restrito como o jornalístico…

As notícias escritas presumindo que o leitor seja como um computador acabam ganhando as ruas. Dependendo da repercussão, elas podem ganhar as cabeças. E entre os leitores, haverá sim discordâncias, mas os discordantes em geral, também pelo mesmo motivo de conforto pessoal, irão se silenciar. E nessa, ganha-se em audiência, vendas, pageviews e o que mais houver.

O leitor que discorda em ser tratado como idiota até irá se informar em outros meios, mas, a exemplo desses meios, também correrá o risco de ser estigmatizado. Vai lá o cara falar que cansou de ser tratado como idiota, que não suporta aqueles textos óbvios e anódinos que recebe e a resposta que receberá é a de que provavelmente não se deu conta de que haveria gente de menor escolaridade e menor cultura geral que se informa no mesmo lugar que ele, sem se dar conta de que tal debate pode estar acontecendo na mesma hora e no mesmo local com gente de pouquíssima escolaridade ou cultura geral que também se cansou de ser tratada assim.

Porém, sendo disperso o universo de leitores, há uma dificuldade bem maior de ele fazer ser ouvido. Enviará um e-mail ou uma carta que, como tantas outras, será só mais uma naquela pilha. Outros tantos estarão lá, mas poderão ser confundidos com os tais leitores malas, até porque suas mensagens educadas e respeitosas nem de longe têm o impacto dos textos mal-educados e demonstrativos de burrice absoluta. Claro que também pode haver certas manipulações de má-fé dentro da redação, como pegar uma carta de mil falando contra certa matéria e uma carta de 10 falando a favor e dizer que se está sendo imparcial e dando espaço igual a ambos. Porém, isso aí também é uma forma de agir em grande escala como agiu Solomon Asch com seus 11 julgadores, apenas um deles de verdade.

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