Talvez os poucos leitores deste blog tenham notado que não fiz postagens diárias nestes últimos tempos. Parte do motivo disso é que no fim de semana eu estava em Curitiba (sou de São Paulo). Já nesta segunda metade da semana, o motivo foi que ontem perdi minha avó. Estava com 98 anos, se bem que nos últimos meses já não estava tão bem. No começo deste ano, teve uma série de infecções que a minaram. Saiu do hospital até curada, mas não estava como sempre esteve. Passou a uma cadeira de rodas, entre outras coisas.

Às vezes creio ser o único que nunca a tratou como coitada ou incapaz por causa de sua idade avançada. Sempre que a visitava, fazia piadas, tentava puxar um papo, por mais quieta que ela fosse e por mais que nos anos mais recentes quisessem fazer com que eu acreditasse que ela não era a pessoa lúcida que sempre foi.

E falo isso porque chegava lá e perguntava o que ela contava. Normalmente, ela me respondia algo como “nada, estou aqui sentada”. Chegava a conversar mais um pouco e era capaz de ela me responder um “quer o quê? Que eu pule?”. Muitos em minha família me recriminaram quando contei à minha avó que eu tinha síndrome do pânico. Diziam que eu devia evitar de falar essas coisas para ela, por causa da idade, por causa de supostos problemas de cabeça, etc. Porém, ela foi a que melhor compreendeu em minha família, apesar de sua pouca escolaridade e não-leitura de jornais e livros. Chegou e me perguntou: “é problema de nervos?”. Respondi que sim. Ela retrucou: “você está se tratando?”. Falei que sim. Ela inclusive lembrou daquele dia em que cheguei surtado à casa dela. Sim, isso mesmo, a mais velha da família não fez celeuma alguma. Sabia que minha avó não era nem nunca foi gagá. O teste era simples: soltava um “parla, bestia!”, ao que ela respondia de bate-pronto “bestia sei tu”.

Sabe, eu era uma pessoa dedicada à velhinha. Fiz questão de que ela fosse à minha formatura da faculdade e fiquei chateado quando ela não foi à minha formatura de colegial. Mas tudo bem, ela, na época com 87 anos, estava no Recife e não ia querer que ela deixasse de passar o Natal com aquela parte da família. Mais que fazer questão de que ela fosse à minha formatura de faculdade, só paguei o baile de formatura por causa dela. Sinceramente, como até sugeri à comissão de formatura, preferiria que fôssemos a Fortaleza. E também ficava chateado quando ela ficava p da vida comigo, muitas vezes não por minha causa, mas quando alguém punha tudo a perder, seja por birita, seja por arrogância natural potencializada por C2H5OH.

Fico pensando também em como vai ficar a família agora que ela se foi. Afinal, de alguma forma era quem nos reunia. No meu caso em especial, sinto-me até livre para procurar emprego em outra cidade que não São Paulo (desde que, é claro, seja uma cidade minimante civilizada, como Curitiba, e não um enclave neandertal como uns que conheci). Sim, fiz questão de não procurar empregos em outras cidades justamente por causa da minha avó. Queria visitá-la de rotina, não precisando me deslocar do ponto A ao B em distâncias de centenas ou milhares de quilômetros.

Com a morte dela, raciocino ser também hora de reavaliarmos a maneira como tratamos nossos velhos. Penso se não haveria a chance de minha avó viver mais e melhor se não a ficassem tratando com ressalvas quanto à idade. Fico aqui pensando que, se os não tão velhos como ela não ficassem com proibições, ela ainda continuasse preparando comida e até andando sozinha na rua. Proibiram-na de fazer comida porque uma vez ela esqueceu o gás aberto (mas já vi gente muito mais nova fazer isso e com mais frequência). Proibiram-na de andar sozinha na rua por causa de tombos que ela levou (esqueceram-se de que velhos em  média levam um tombo por ano e que sua ossatura sempre foi forte, jamais tendo uma fratura em quase um século). E isso, sinceramente, é pedir para que nossos velhos definhem progressivamente.

Ainda que quieta e não apreciar brincadeiras, minha avó tinha seus momentos de espirituosidade. Uma vez, perguntaram a ela sobre o fato de sua coluna estar se envergando. Ela respondeu que ia envergando, envergando, até cair no caixão.
Fico também pensando como seria se minha avó morasse em outros lugares com baixo índice de velhinhos deteriorados, como Belém do Pará e outras. Aliás, fico pensando o quanto que os velhinhos paulistanos são submetidos a deteriorações de agentes externos (seja poluição, seja lar mesmo).

E fico pensando como quero que ajam comigo quando eu for velho. Com certeza não aceitaria que ficassem cheios de cuidados para cima de mim, pois aí é pedir para ficar dependente mesmo. Alguns de vocês têm essa impressão de que quando um velho morre, é um termômetro do que se deve ou não fazer com nossos idosos?

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