Como outros aqui, acabo de assistir à inauguração das transmissões digitais de televisão no Brasil. Entre as novidades, teremos alta definição, multiprogramação, possibilidade de transmissão móvel sem perda de qualidade e interatividade. Por isso, já teço aqui meus comentários em como esses aspectos poderão combater o otelespectadorismo, essa variação eletrônica do oleitorismo, essa chaga que insiste em presumir que quem acompanha a mídia é incapaz, retardado, supostamente não gostaria de um capricho e um talento postos em cima, entre outras. Seguem meus comentários:

Alta definição: veremos mais detalhes na imagem, tanto que a teledramaturgia terá de mudar cenários e melhorar a maquiagem dos atores, pois o que hoje passa batido, agora será facilmente notado. No caso do jornalismo, a chance de ver mais detalhes na cena vai fazer as pessoas notarem mais coisas ainda. E muitas vezes, coisas que passariam batido. Sim, não será fácil para o telerrepórter e o editor do telejornal quererem dar passa-moleque no telespectador. E também será interessante para forçar as pessoas a notarem outros detalhes outrora edulcorados e eufemizados, como a feiúra das favelas.

Multiprogramação: tudo bem que há o risco de a programação mais levinha ter um monte de audiência quando comparada com a mais séria, mas mesmo assim, poderá ser o fim da ditadura de horários. E isso é bom, pois poderemos ver telejornal e programas jornalísticos a qualquer hora. Talvez também signifique mais empregos para os jornalistas e, assim também o combate aos lugares de trabalho que são o inferno na Terra.

Transmissão digital em movimento sem perda de qualidade de sinal: já pararam para pensar no quão exponencialmente crescerá a audiência da TV? Sim, além de aparelhos portáteis, mesmo um celular, o simples fato de o sinal não cair significará a chance de acompanhar atentamente a TV em qualquer lugar deste país. Também poderá significar uma ajuda muito mais efetiva em problemas das cidades, como congestionamentos. Imaginem o impacto de uma imagem mostrando um congestionamento-monstro em uma avenida ou em uma rodovia e no quanto que a imagem mostrará que é mesmo para ir por vias alternativas. E de alguma forma, vai acabar se associando com o próximo aspecto de que falarei aqui

Interatividade: sim, o Homer Simpson vai mostrar que entende. Mais ainda, as notícias que passam incógnitas à televisão terão de ser mostradas e levar em conta. Portanto, nada de fazer desaparecer um evento mundial de grande monta pelo simples fato de estar em Cuba ou no Irã. Mandar SMS, quem tem celular sabe perfeitamente fazer e provavelmente não terá dificuldade em fazer coisa parecida na TV digital.

Fora isso, passando para o contexto brasileiro, o telespectador interferiria na notícia. Poderá reclamar da qualidade das matérias, poderá acrescentar informações fresquinhas, poderá perguntar de bate-pronto aquilo que não entende. Fora isso, também a chance de o telespectador poder mostrar na cara de seus fornecedores quem ele é e mostrar que quer um bom texto. Fora isso, acontecimentos como as Diretas Já não poderão ser sistematicamente ocultados.

Claro que isso é tecendo um cenário otimista. Há sempre o cenário pessimista que vai ter (e como) de ser levado em conta. É grande, por exemplo, o risco de o trolling se expandir também para a TV…

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