Alguns chamam o cantor Odair José de repórter musical. O motivo não é mais justo: o cara sabe dar voz em suas canções a pessoas que jamais a teriam ou a tiveram. E também desnudava uma realidade que a censura e o próprio povo insistia em esconder. Era useiro e vezeiro da linguagem de fresta, principalmente em uma época em que a censura era não só política como moral. Sim, para os milicos, não existia oficialmente aquele lance de o casal fazer “bobiça” atrás da igreja. E, claro, como bem sabemos, o ouvinte de suas canções nada sabia do que ele queria dizer com aquelas letras que não mencionavam o que ele queria dizer…

Depois de Gonçalves Dias, ele é o homenageado do blog para mostrar o que aconteceria se ele fosse jornalista na imprensa brasileira de hoje.

Olha… A primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair (aqui onde? Favor especificar aonde o declarante foi)
Eu vim em busca do amor (se ele veio para se distrair, como ele pôde ter vindo em busca do amor? O leitor não acredita em amor de balada…)
Olha..
Foi então que eu te conheci
Naquela noite fria
Em seus braços
meus problemas esqueci (abraçou? Consolou? Trepou? Favor especificar. Nosso leitor não tem como saber o que o personagem fez)

Olha…
A segunda vez que eu estive aqui (aqui onde? Caramba, é preciso responder direito ao “onde” das sete perguntas)
Já não foi pra distrair (eliminar o “distrair”, pois é repetição de palavra)
Eu senti saudade de você (“eu” é muito demonstrativo de arrogância. Pode ficar ofensivo ao leitor)
Olha…
Eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais lhe esquecer (esquecer a quem? Favor especificar, até para que o leitor saiba quem é a/o inesquecível em questão)

Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar? Da lanchonete, do frigorífico? Favor especificar)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“tirar você” e “levar você”. Favor corrigir para “tirá-lo/a” e “levá-lo/a”, isso antes de, é claro, dizer quem é o “você”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim. O leitor pode pensar as mais diversas coisas e temos de ser bem específicos)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa
O que os outros vão pensar (repetição desnecessária e que torna o texto ainda menos informativo)

Eu sei…
Que você tem medo de não dar certo (medo de que não dar certo?)
Pensa que o passado vai estar sempre perto (favor especificar que passado é esse)
E que um dia eu posso me arrepender (arrepender de quê?)
Eu quero
Que você não pense nada triste (o que é triste para uns é alegre para outros. Vamos respeitar a opinião do leitor)
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer (e os crimes passionais? Favor mudar este trecho)

Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar, porra?!)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“levar você” de novo? Você é o quê? Agora só falta dizer “mim faz”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (arrogante o senhor, hein?)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo (leva este texto para ficar contigo)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim o que penso. Fora daqui com esse troço)
Eu vou tirar você desse lugar (claro. Vai tirar da minha mesa para nunca mais eu o ver)

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