Alberto Dines levantou uma lebre interessante: a parte que cabe à mídia no latifúndio da má educação. Mais ainda, falou sobre a qualidade de texto a que nossas crianças estão sendo submetidas.

Se a mídia trata adultos como criancinhas incapazes de compreender o que lá está escrito, como será que está tratando dos futuros leitores?

Vale lembrar que, ao menos em jornais, é sim bom contemplar todas as faixas etárias, dentro da história de captar leitores desde cedo e garantir a sobrevivência a longo prazo. Mas a que custo?

Como sabemos, já é algo mais ou menos difundido usar revistas e jornais no processo educacional. Em lugares que aplicam bem o processo, os pais chegam a ter o espetáculo de ver seus pequenos chegarem pedindo mais informações a respeito de notícias que normalmente só adultos se interessariam. Às vezes, até os pais se embaralham um pouco, principalmente quando o assunto envolve bolsa de valores, economia, essas coisas.

Quando adolescente, era ávido leitor do Zap!, o caderno do Estadão para essa faixa. Era um caderno bem legal, ainda que com seus vícios (como contemplar em matéria de música quase que apenas o rock, e quase que apenas o indie), mas era algo que lia sentindo-me respeitado. Por muito tempo dava para ver que os caras acertaram a mão. Porém, com o passar dos anos, já na época em que era meio grandinho para ler esse tipo de suplemento, ele foi reduzindo, reduzindo, até se tornar uma seção de duas páginas em um dos cadernos e depois acabar. Tudo bem que eram tempos de passaralhos, como foram todos os primeiros anos da décda de 2000. E, de fato, muitos suplementos de jornais e revistas de editoras foram extintos, isso para não falar de sites.

Tudo bem que jornal e revista não são nem devem ser obrigados a ensinar qualquer coisa, pois não é função deles e qualquer pretensão nesse campo é cair em oleitorismo. Porém, não caberia a eles pensarem um pouco mais nesse tipo de leitor? Como o próprio Dines disse, é de se perguntar se estimulam a reflexão. E no caso das crianças, elas são mais espertas do que supomos. Vejam, por sinal, que as vendas de livros infantis costumam ser maiores que as dos livros para adultos. Também temos em nossa história uma série de autores que escreviam livros para adultos e passaram por completo para a literatura infantil, muitas vezes fazendo maior sucesso do que quando escreviam para os pais daqueles.

Qualquer pessoa com cabeça sabe que tratar uma criança com carinho, sem esquecer de chamá-la a sua responsabilidade, é a forma que se tem de termos um adulto sem maiores complexos. E por que não cobrar isso daquilo que ela lê?

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