Ontem, estava assistindo ao primeiro capítulo da nova minissérie da Globo e houve uma cena que, para mim, disse tudo: foi aquela hora em Tito, Ivan e Paulo estão juntos na redação.

Sendo a história ambientada em 1989, nada mais natural que a redação fosse tomada por máquinas de escrever, principalmente se pensarmos que o lugar em questão era o inferno na Terra. Porém, quem fosse jornalista via muitas coisas que não mudaram muito em quase 20 anos.

Tito é repórter e trabalha em uma revista masculina beeeeeem chinfrim. Além de repórter, acumula o cargo de produtor. Comunista roxo, odeia o trabalho de fazer triagem das mulheres que irão posar, algo previsível dentro do conjunto de crenças que o permeia. Nicola, o dono da revista diz que cem pessoas fariam o trabalho de selecionar as fotografadas de graça e pergunta se Tito é bicha. Ao que Tito responde ser comunista. Aqui, até como uma alegoria de impactos recentes do fim da ditadura, o tal dono da revista (chamada Sexus), que teoricamente estaria do lado da liberdade de imprensa e de expressão, tem uma foto do general Médici na sala. Assim como comunistas de raiz ficaram bem raros da queda do Muro para cá.

Chega o tal cara e conversa com Ivan, o editor, a respeito do especial de Natal da revista. Falam de fazer uma capa toda branca. Até aí, morreu Neves, mas o motivo é justamente lembrar da palavra do sobrenome que citei agora pouco, mas no singular. Ao que prontamente respondem que no Brasil não neva no Natal. Nicola diz que essa é uma imagem que os Estados Unidos popularizaram no imaginário do mundo. Ele logo é retrucado pelo fato de que Natal com neve é coisa normal no Hemisfério Norte, mas não no Sul. A resposta é bem típica: “e você acha que nosso leitor sabe onde ficam os Estados Unidos?”.

Tudo bem que revistas masculinas, ainda mais de cunho pornográfico como a tal publicação sugeriu ser, não são a fonte de consulta que uma pessoa usaria para ter informações. Em 1989, as mais prováveis seriam revistas informativas, jornal, atlas ou enciclopédia. E não é no Brasil onde as pessoas apontam para a Austrália quando lhes perguntam onde fica o Irã.

Provavelmente, quem viu Nicola falar sobre o leitor deve ter dado um riso, pois a cena de fato tem seu humor. Para quem for jornalista, é o famoso “seria cômico se não fosse trágico”, pois continuamos a ouvir exatamente isso, quase duas décadas depois, e em uma sociedade com internet, GPS, Google Earth e mais um monte de coisas. Também continuamos a ver um bocado de Nicolas dando as cartas. E também vários (e bota vários nisso) Ivans, Titos e Paulos.

Não precisa ser uma revistazinha chinfrim com cunho pornográfico, mas muitos daqueles tidos como “o leitor” são atraídos pelo apelo aos baixos instintos e vão ficando nas publicações que querem mais que ele se dane não sem antes dar seu dinheiro ou audiência. Muitas são as Sexus em que os colegas trabalham.

O mundo mudou muito de 1989 para cá. E o jornalismo, mais sua relação com o leitor? OK, tivemos uma porrada de danças de cadeiras, mas falo dos ambientes de trabalho. E também da postura dos colegas frente certas coisas. Quem é o jornalista hoje?

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