A mesma imprensa que amplamente divulgou que Eloá aos 12 anos namorava um cara de 19, bem como outras coisas que devassaram a vida da falecida e também da Nayara acabou por gerar na blogosfera um fenômeno que no mínimo é o mais puro mau gosto: os que agora jogam pedra na sepultura da morta.

Não irei aqui reproduzir ou mesmo dar o link das postagens em outros blogs que vi, pois não quero gerar efeito multiplicador das ditas cujas. Apenas aviso que salvei a íntegra das páginas em questão. Vejo que é diretamente conseqüência daquilo que foi amplamente divulgado pela mídia que nem se importou que havia duas vidas em jogo. Eis que vemos aqueles que são do contra por esporte se esbaldando e chamando a parte vítima da história de Geni, quase como se eximisse o Lindemberg de culpa.

Nas linhas que li, vi gente duvidando da cristandade da mãe de Eloá e de ela ter perdoado o assassino. Se ela perdoou ou só disse que perdoou, não somos nós que devemos dizer e muito menos isso poupa da justiça dos homens. Já sobre duvidar da fé da referida senhora, pergunto quem somos para afirmar isso. Vi também gente dizendo que em vez de pensarmos no caso de cárcere privado, deveríamos ter pensado nas milhares de crianças que morreram de fome no mundo durante os quatro dias do seqüestro, entre outras. Houve gente que duvidou das faculdades mentais da senhora em questão. Também desmereceram o momento em que a mãe diz que a filha está feliz e que isso pode ser um desígnio de Deus.

Li também gente jogando dúvidas sobre a conduta sexual da falecida e a maneira como se projetava em relação à sociedade, tudo em contexto bastante depreciativo. A coisa mais revoltante que li foi a de que após a morte, finalmente havia algo na cabeça dela: uma bala. Outro primor de insensibilidade: gente que diz ter ficado muito contente (claro que esse “muito contente” em sentido jocoso) de que a morte da menina serviu para disponibilizar coração, pulmões, córneas, fígado, pâncreas, rins e outros órgãos. Quem escreveu isso talvez diga que só estava sendo irônico e que o problema de fazer uma ironia é que os outros não entendem, mas creio que quem disse tal coisa não gostaria que falassem o mesmo de uma irmã ou outro ente querido e provavelmente esmurrariam o infeliz que dissesse que estava sendo irônico e que o esmurrador não teria capacidade e sofisticação mental para entender a piada.

Sobre a Nayara, li gente dizendo coisas das mais desabonadoras, chamando-a de burra e otária por ter voltado ao cativeiro. OK que foi um erro sem tamanho o retorno dela ao lugar em que recebeu o tiro no rosto, mas fica a pergunta aos colegas blogueiros que tanto amaram apontar dedos a ela sobre se eles alguma vez em suas vidas foram reféns ou estiveram no meio de uma situação tão tensa e arrasadora quanto essa. Ela esteve e garanto que muito marmanjo por aí ficaria tremendinho de medo. Mas esses mesmos estão lá para descer a lenha. Outra coisa também de péssimo gosto que li: a de que a menina daqui a três anos estará em capa de revista masculina (imagino que quem tenha cometido tal comentário possa tê-lo feito usando como exemplo as mais quentes, se é que me entendem).

Eloá e Nayara faziam parte de um grupo de amigas na escola intitulado Bonde das Glamourosas. E, claro, os que tornaram o ser odioso uma profissão (muito provavelmente sem remuneração) logo desmereceram a história. Provavelmente são os mesmos que se fizeram faculdade longe de casa, deram um nome bem bizarro para a república em que moravam e criaram um termo para identificar quem dela era. E aí, será mesmo que possuem moral para dizer algo? Também vieram com maledicências sobre se de fato elas duas e os dois meninos também feitos reféns estariam fazendo um trabalho escolar.

Porém, onde estarão esses maledicentes profissionais quando uma mulher próxima conta que a primeira vez dela foi aos 13 ou 14 anos com um cara de 20 ou 21? E se essa mesma mulher dá umas 100 escovadas antes de dormir? Não deveriam estar os mesmos descendo nessas mulheres próximas a mesma lenha que desceram na morta? E por que não descem? Ah, claro, é porque é minha irmã e ela tem a cabeça no lugar. Ou então é uma amiga muito querida e que sempre se preveniu. Afinal, a casa de todo mundo é perfeita e a privacidade tem de ser respeitada, não é verdade?

Noto também uma gigantesca arrogância nas tais postagens. Parecem desmerecer o natural sentimento de compaixão que a maioria dos seres humanos têm mesmo para com desconhecidos. Parecem até rir disso. De certa forma, os autores dessas postagens antecipam o que irão dizer a respeito deles, mas fica tudo parecendo o mesmo contexto que um troll usaria. E trolls, como sabemos, são gente que entra em um fórum de internet e propositadamente soltam comentários contra aquilo que o mesmo aborda só para verem o circo pegar fogo, mesmo que o que façam chegue às raias do absurdo e do ódio contra o outro. Imagino também que nem de longe tenham usado para com a Isabella a mesma régua maledicente que usaram para com a Eloá. Porém, não duvidarei que tenham tido uma coceirinha na mão.

Tudo bem que em certos momentos até falam coisas que fazem sentido, como a história que, de fato, estando ou não Eloá morta, não vai mesmo afetar a vida de quem não era próximo dela. Falam também de outros casos que não tiveram a mesma repercussão. Porém, é preciso perguntar se a não-repercussão dos casos em questão foi pelo fato de terem sido eventos súbitos e bastante delimitados e, claro, sem um monte de imprensa em cima acompanhando em tempo real. Porém, também é preciso lembrar que os casos em questão não eram de seqüestro. E seqüestro, como já disse na postagem anterior, não pode nem de longe ser abordado como se aborda um assassinato puro e simples, estando ou não seguido de estupro. Em seqüestro, há uma vítima, possivelmente viva, e tudo aquilo que a mídia disser ou mostrar poderá afetar o andamento de tal forma que o seqüestrado poderá perder a vida ou a família do seqüestrado sofrer ainda mais. Lembram daquela batatada que se falou quando do seqüestro de Wellington Camargo, irmão da famosa dupla sertaneja, de que deveriam criar um número de telefone para se juntar dinheiro para o resgate? Pois é. Depois que o seqüestrador ouviu isso, aumentou o valor que Zezé e Luciano teriam de amealhar para ter o irmão de volta.

E, claro, nem preciso dizer que fiquei indignado com os tais textos que li (e, relembro, cujas páginas salvei e não irei divulgar os links, por não querer gerar efeito multiplicador, subida em rankings de blogs e por aí vai). Pergunto-me se gostariam que sofrimentos de vocês fossem abordados de tal forma em outros blogs para serem comentados por gente que nunca viram. Com certeza não, independente ou não de haver mídia cobrindo. Não conheci Eloá e não conheço Nayara, bem como já disse que fiz questão de não ver muito a respeito do tal fato. Mas ninguém aqui pode se esquecer que há pessoas e que essas pessoas merecem ser respeitadas. Se não tiveram o respeito que merecem por parte da mídia, que o tenham por parte dos leitores, e principalmente dos leitores blogueiros, uma vez que esses são lidos por outros.

Além disso, tais postagens prestaram um desserviço e tanto na luta pela melhoria na qualidade do texto e na abordagem de um assunto. Vai um jornalista que acredita que o leitor é idiota até que prove o contrário ler as ditas cujas e irá acreditar que de fato, é o mais vil e reles que o público de produtos jornalísticos quer.

E para a mídia que espetacularizou o seqüestro de Santo André, que seus componentes durmam sempre lembrando, pois sabem que foram vocês que criaram essa montoeira de maledicência e julgamentos para cima de uma série de pessoas que estão abaladas e traumatizadas com o fato. Precisavam mesmo ter criado? Talvez digam que não, mas confesso que não acreditarei no que dizem, assim como confesso que não acreditei nem um pouco em quando vieram com aquele protocolar básico de que os princípios do jornalismo foram respeitados.

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