You are currently browsing the category archive for the ‘A minoria barulhenta’ category.

A mesma imprensa que amplamente divulgou que Eloá aos 12 anos namorava um cara de 19, bem como outras coisas que devassaram a vida da falecida e também da Nayara acabou por gerar na blogosfera um fenômeno que no mínimo é o mais puro mau gosto: os que agora jogam pedra na sepultura da morta.

Não irei aqui reproduzir ou mesmo dar o link das postagens em outros blogs que vi, pois não quero gerar efeito multiplicador das ditas cujas. Apenas aviso que salvei a íntegra das páginas em questão. Vejo que é diretamente conseqüência daquilo que foi amplamente divulgado pela mídia que nem se importou que havia duas vidas em jogo. Eis que vemos aqueles que são do contra por esporte se esbaldando e chamando a parte vítima da história de Geni, quase como se eximisse o Lindemberg de culpa.

Nas linhas que li, vi gente duvidando da cristandade da mãe de Eloá e de ela ter perdoado o assassino. Se ela perdoou ou só disse que perdoou, não somos nós que devemos dizer e muito menos isso poupa da justiça dos homens. Já sobre duvidar da fé da referida senhora, pergunto quem somos para afirmar isso. Vi também gente dizendo que em vez de pensarmos no caso de cárcere privado, deveríamos ter pensado nas milhares de crianças que morreram de fome no mundo durante os quatro dias do seqüestro, entre outras. Houve gente que duvidou das faculdades mentais da senhora em questão. Também desmereceram o momento em que a mãe diz que a filha está feliz e que isso pode ser um desígnio de Deus.

Li também gente jogando dúvidas sobre a conduta sexual da falecida e a maneira como se projetava em relação à sociedade, tudo em contexto bastante depreciativo. A coisa mais revoltante que li foi a de que após a morte, finalmente havia algo na cabeça dela: uma bala. Outro primor de insensibilidade: gente que diz ter ficado muito contente (claro que esse “muito contente” em sentido jocoso) de que a morte da menina serviu para disponibilizar coração, pulmões, córneas, fígado, pâncreas, rins e outros órgãos. Quem escreveu isso talvez diga que só estava sendo irônico e que o problema de fazer uma ironia é que os outros não entendem, mas creio que quem disse tal coisa não gostaria que falassem o mesmo de uma irmã ou outro ente querido e provavelmente esmurrariam o infeliz que dissesse que estava sendo irônico e que o esmurrador não teria capacidade e sofisticação mental para entender a piada.

Sobre a Nayara, li gente dizendo coisas das mais desabonadoras, chamando-a de burra e otária por ter voltado ao cativeiro. OK que foi um erro sem tamanho o retorno dela ao lugar em que recebeu o tiro no rosto, mas fica a pergunta aos colegas blogueiros que tanto amaram apontar dedos a ela sobre se eles alguma vez em suas vidas foram reféns ou estiveram no meio de uma situação tão tensa e arrasadora quanto essa. Ela esteve e garanto que muito marmanjo por aí ficaria tremendinho de medo. Mas esses mesmos estão lá para descer a lenha. Outra coisa também de péssimo gosto que li: a de que a menina daqui a três anos estará em capa de revista masculina (imagino que quem tenha cometido tal comentário possa tê-lo feito usando como exemplo as mais quentes, se é que me entendem).

Eloá e Nayara faziam parte de um grupo de amigas na escola intitulado Bonde das Glamourosas. E, claro, os que tornaram o ser odioso uma profissão (muito provavelmente sem remuneração) logo desmereceram a história. Provavelmente são os mesmos que se fizeram faculdade longe de casa, deram um nome bem bizarro para a república em que moravam e criaram um termo para identificar quem dela era. E aí, será mesmo que possuem moral para dizer algo? Também vieram com maledicências sobre se de fato elas duas e os dois meninos também feitos reféns estariam fazendo um trabalho escolar.

Porém, onde estarão esses maledicentes profissionais quando uma mulher próxima conta que a primeira vez dela foi aos 13 ou 14 anos com um cara de 20 ou 21? E se essa mesma mulher dá umas 100 escovadas antes de dormir? Não deveriam estar os mesmos descendo nessas mulheres próximas a mesma lenha que desceram na morta? E por que não descem? Ah, claro, é porque é minha irmã e ela tem a cabeça no lugar. Ou então é uma amiga muito querida e que sempre se preveniu. Afinal, a casa de todo mundo é perfeita e a privacidade tem de ser respeitada, não é verdade?

Noto também uma gigantesca arrogância nas tais postagens. Parecem desmerecer o natural sentimento de compaixão que a maioria dos seres humanos têm mesmo para com desconhecidos. Parecem até rir disso. De certa forma, os autores dessas postagens antecipam o que irão dizer a respeito deles, mas fica tudo parecendo o mesmo contexto que um troll usaria. E trolls, como sabemos, são gente que entra em um fórum de internet e propositadamente soltam comentários contra aquilo que o mesmo aborda só para verem o circo pegar fogo, mesmo que o que façam chegue às raias do absurdo e do ódio contra o outro. Imagino também que nem de longe tenham usado para com a Isabella a mesma régua maledicente que usaram para com a Eloá. Porém, não duvidarei que tenham tido uma coceirinha na mão.

Tudo bem que em certos momentos até falam coisas que fazem sentido, como a história que, de fato, estando ou não Eloá morta, não vai mesmo afetar a vida de quem não era próximo dela. Falam também de outros casos que não tiveram a mesma repercussão. Porém, é preciso perguntar se a não-repercussão dos casos em questão foi pelo fato de terem sido eventos súbitos e bastante delimitados e, claro, sem um monte de imprensa em cima acompanhando em tempo real. Porém, também é preciso lembrar que os casos em questão não eram de seqüestro. E seqüestro, como já disse na postagem anterior, não pode nem de longe ser abordado como se aborda um assassinato puro e simples, estando ou não seguido de estupro. Em seqüestro, há uma vítima, possivelmente viva, e tudo aquilo que a mídia disser ou mostrar poderá afetar o andamento de tal forma que o seqüestrado poderá perder a vida ou a família do seqüestrado sofrer ainda mais. Lembram daquela batatada que se falou quando do seqüestro de Wellington Camargo, irmão da famosa dupla sertaneja, de que deveriam criar um número de telefone para se juntar dinheiro para o resgate? Pois é. Depois que o seqüestrador ouviu isso, aumentou o valor que Zezé e Luciano teriam de amealhar para ter o irmão de volta.

E, claro, nem preciso dizer que fiquei indignado com os tais textos que li (e, relembro, cujas páginas salvei e não irei divulgar os links, por não querer gerar efeito multiplicador, subida em rankings de blogs e por aí vai). Pergunto-me se gostariam que sofrimentos de vocês fossem abordados de tal forma em outros blogs para serem comentados por gente que nunca viram. Com certeza não, independente ou não de haver mídia cobrindo. Não conheci Eloá e não conheço Nayara, bem como já disse que fiz questão de não ver muito a respeito do tal fato. Mas ninguém aqui pode se esquecer que há pessoas e que essas pessoas merecem ser respeitadas. Se não tiveram o respeito que merecem por parte da mídia, que o tenham por parte dos leitores, e principalmente dos leitores blogueiros, uma vez que esses são lidos por outros.

Além disso, tais postagens prestaram um desserviço e tanto na luta pela melhoria na qualidade do texto e na abordagem de um assunto. Vai um jornalista que acredita que o leitor é idiota até que prove o contrário ler as ditas cujas e irá acreditar que de fato, é o mais vil e reles que o público de produtos jornalísticos quer.

E para a mídia que espetacularizou o seqüestro de Santo André, que seus componentes durmam sempre lembrando, pois sabem que foram vocês que criaram essa montoeira de maledicência e julgamentos para cima de uma série de pessoas que estão abaladas e traumatizadas com o fato. Precisavam mesmo ter criado? Talvez digam que não, mas confesso que não acreditarei no que dizem, assim como confesso que não acreditei nem um pouco em quando vieram com aquele protocolar básico de que os princípios do jornalismo foram respeitados.

Já parou para pensar no motivo do incrível unanimismo na imprensa brasileira? Vamos além daquela história do número de famílias que controla a mídia e em eventuais acordos de conchavos dos mais diversos.

Esse unanimismo também ocorre em outros países do mundo. E encaixa-se na história de medir a temperatura do acontecimento que estiver mobilizando a nação. E nesse caso, um meio vigia muito bem o que ocorre com o outro. Caem naquela premissa de escutar o que você desejaria e depois lhe contarem. E isso gera uma dificuldade tremenda em se remar contra a corrente. Sim, talvez a opinião pública seja muito diferente da opinião publicada, mas ir de maneira diferente pode gerar quedas de venda, mesmo que se esteja com a razão.

Veja esse fenõmeno acontecer, por exemplo, em assuntos políticos. Imediatamente uma série de meios da imprensa posiciona-se de um determinado jeito. Aqueles que estiverem contrários irão sofrer um pouco para vender, mesmo que estejam mais certos que o resto dos outros. Irão ser chamados dos mais diversos nomes também e, mais ainda, a impressão que ficará sobre eles irá se espalhar pelo tecido social, mesmo que grande parte dele sequer tenha lido o opositor.

Um exemplo simples de como isso pode acontecer, está no experimento de Solomon Asch. Ele pôs 11 pessoas que viam três linhas. Eles tinham de vê-las e dizer qual delas tinha o mesmo comprimento de uma linha-padrão. O voluntário era informado de que havia mais 10 pessoas na sala também fazendo a mesma coisa. Porém, não fora informado que eram dez atores. E esses dez emitiam sua opinião antes dele. O resultado? Ao chegar a vez do voluntário verdadeiro, este acabava votando igual aos outros 10, mesmo que errado. E isso acontecia mesmo quando eles debatiam entre si sobre qual era a linha certa. O lance foi que o pesquisador fez um sinal secreto para que todos os 10 atores na hora de votar escolhessem a resposta errada. Foram testados 50 voluntários nessa mesma situação e 3/4 deles escolhiam sempre a mesma resposta do grupo.

E isso acontece em parte pela questão de ser aceito em um grupo. Quando se está em uma minoria das minorias, constrange ser diferente. Por isso, ele acaba passando por cima daquilo que acredita ser correto. Isso de certa forma assemelha-se muito a uma barra de ferro que imantamos. A maioria dos átomos acaba por se organizar da forma mais fácil, que é ficarem todos orientados de uma mesma forma, com os pólos sul e norte em mesma posição. Ainda assim, pode haver áreas em que os pólos ficam ordenados de maneira diferente. Porém, o ímã sempre terá um pólo norte e um pólo sul, quando falamos da peça por completo.

Agora imaginem tudo isso no seguinte trajeto: redação – publicação – leitorado. Leitores tendem a confiar nos meios em que adquirem informação e imaginar que se possuem uma determinada circulação ou audiência, algum motivo deve ter. Por isso, irão demorar em mudar de fonte de informação, até por se acostumarem com elas. E, claro, por estarem acostumados, até evitam falar com a redação, por mais que discordem de certas coisas. Quem escreve mesmo é o famoso leitor mala-sem-alça, que se acha no direito de xingar, abusar e demonstrar sua burrice sem repressão alguma. Jornalistas recebem majoritariamente esse tipo de feedback e imediatamente escrevem acreditando ser aquilo o que são os leitores na realidade. Claro que haverá discordância dentro da redação, mas normalmente, quem discorda não sobe muito de cargo. Portanto, o peso do cargo mais alto acabará por forçar que se escreva presumindo que quem lê majoritariamente não teria o reflexo automático de desviar de um objeto jogado em alta velocidade contra sua cabeça. E até por questão de conforto de vida, as pessoas priorizam certas escolhas na vida. Discordar, como qualquer um sabe, estressa, isola e dificulta seu futuro. E em um mercado restrito como o jornalístico…

As notícias escritas presumindo que o leitor seja como um computador acabam ganhando as ruas. Dependendo da repercussão, elas podem ganhar as cabeças. E entre os leitores, haverá sim discordâncias, mas os discordantes em geral, também pelo mesmo motivo de conforto pessoal, irão se silenciar. E nessa, ganha-se em audiência, vendas, pageviews e o que mais houver.

O leitor que discorda em ser tratado como idiota até irá se informar em outros meios, mas, a exemplo desses meios, também correrá o risco de ser estigmatizado. Vai lá o cara falar que cansou de ser tratado como idiota, que não suporta aqueles textos óbvios e anódinos que recebe e a resposta que receberá é a de que provavelmente não se deu conta de que haveria gente de menor escolaridade e menor cultura geral que se informa no mesmo lugar que ele, sem se dar conta de que tal debate pode estar acontecendo na mesma hora e no mesmo local com gente de pouquíssima escolaridade ou cultura geral que também se cansou de ser tratada assim.

Porém, sendo disperso o universo de leitores, há uma dificuldade bem maior de ele fazer ser ouvido. Enviará um e-mail ou uma carta que, como tantas outras, será só mais uma naquela pilha. Outros tantos estarão lá, mas poderão ser confundidos com os tais leitores malas, até porque suas mensagens educadas e respeitosas nem de longe têm o impacto dos textos mal-educados e demonstrativos de burrice absoluta. Claro que também pode haver certas manipulações de má-fé dentro da redação, como pegar uma carta de mil falando contra certa matéria e uma carta de 10 falando a favor e dizer que se está sendo imparcial e dando espaço igual a ambos. Porém, isso aí também é uma forma de agir em grande escala como agiu Solomon Asch com seus 11 julgadores, apenas um deles de verdade.

Jornalistas que entram em uma redação são orientados a não escrever em voz passiva, isso quando não são instados a bani-la de seus textos. Essa é tida como um complicador à leiturabilidade e que deve ser banida a qualquer custo. Porém, quando indagados mais profundamente, muitos jornalistas deixarão demonstrado o desconhecimento do porquê de tal regra que muitas vezes nem encartada no manual de redação está.

Quando os meios são lidos, expressões como “bala perdida mata fulano” têm maior constância em sua aparição, mesmo que sua construção seja um demonstrativo de pessoas transformadas em mera estatística, isso quando não insensibilidade. É algo que um “fulano é atingido por bala perdida” seria mais respeitoso à memória do anônimo que teve abotoado o paletó de madeira.

E a voz passiva segue transformada em tabu. Até mesmo objetos inanimados são tidos como dignos de voz ativa. Assim, subitamente a uma bala é conferida vida própria, até mesmo ser transformada em agente de um crime.

Ouvem-se diversos papos em redações contra a dita cuja. Porém, ela nunca é pensada como algo enriquecedor de textos e com lugar adequado, desde que usada com parcimônia, assim como a ativa o deve ser. Crê-se que seu banimento foi causado pela presunção de que o leitor é portador de alto grau de ignorância e incapaz de saber ou ter algum grau de conhecimento.

Este texto foi propositadamente escrito em voz passiva. Agora, veremos o que foi entendido pelos parcos leitores deste blog nos comentários. Desde já, estou agradecido pela leitura feita.

“Hehehe, hehehe, Penélope vai morrer, mas antes vou mandar um e-mail para a revista que leio. Hehehehe, hehehe” 

“Hehehe, hehehe, Penélope vai morrer, mas antes mandarei um e-mail para a revista que leio…”

 Sim, sou totalmente contrário a tratar o leitor como idiota ou incapaz. Sou totalmente contrário ao jornalista que não põe coisas mais elaboradas achando que o leitor de determinado meio não vai sabê-las (como se vai ter noção de que ele não sabe se não se fala a ele?). Porém, sou totalmente contrário a um tipo de leitor: o que adora dar pitaco. Pitaco difere de opinião porque é algo não-abalizado e muitas vezes destrutivo.

Esse tipo de leitor era um que costumava ficar quietinho nos tempos da pré-internet. Afinal, se já não gostava de ler, não gostava também de escrever. Porém, hoje ele se sente muito à vontade para escrever, pois precisa:

1 – Ter a idéia

2 – Escrevê-la

3 – Matutar bem aquilo que está escrevendo e tomar cuidado para não se perder no caminho

4 – Imprimir a carta (pule para o passo seguinte se for manuscrita)

5 – Pegar o envelope

6 – Escrever o endereço para o qual quer mandar a correspondência

7 – Escrever o remetente

8 – Morrer em alguns centavos para colar o selo

9 – Fechar o envelope

10 – Ir a uma caixa de correio

11 – Postar a mensagem

Repararam quantos passos foram cortados? É uma situação de fazer esse tipo específico de leitor ficar bem à vontade para fazer aquilo para o qual em outros tempos não teria vontade e paciência para fazer. O resultado disso é que nós jornalistas recebemos coisas do tipo:

1 – E-mails escritos em caixa-alta desmerecendo nosso trabalho. O cara faz um belo esforço para receber de feedback um “quanto blablablá”.

2 – Gente reclamando que não lê um texto longo porque… é longo. Os mesmos que não lêem um texto sem figuras porque… não tem figuras.

3 – Argumentações ad hominem a dar com pau

4 – Gente dizendo que o cara disse uma coisa, quando nunca disse algo assim, mas sim a pessoa que não leu direito. São os famosos analfaburros funcionais

5 – Gente desmerecendo seu trabalho, sem se dar conta que entre a apuração a matéria publicada há um monte de trabalho em cima.

6 – Mal-educados em geral. E que normalmente esquecem o Caps Lock ligado.

7 – Gente que IxKlEvI aXiM e acha que ter moral para chamar o autor do texto de burro.

8 – Gente burra na mais pura acepção do termo, que faz comentários nada a ver.

Admiramos comentários educados, assim como também correções bem feitas a eventuais erros nossos. Porém, se há algo que não admiramos e repudiamos, como qualquer pessoa que trabalha, é alguém que você nunca viu na vida dando palpite em seu trabalho sem saber como é o tal ofício. E como o que aparece é só um endereço eletrônico, dificilmente você teria como ir até a casa do fulano, chegar e dizer algo como “já que reclama, por que não tenta fazer melhor?”. 

 

 “Prezado repórter. Não li sua matéria pois ela está muito longa e isso enche meu saco. Dá para resumir?” 

Caso alguém conheça o portal G1, onde trabalha gente que conheço pessoalmente, já deve ter notado que há vezes em que se passam longos períodos sem espaço para comentários das notícias. É muito comum haver comentários de cabeças-ocas por lá, cabeças-ocas esses que respondem pela maioria dos comentários na editoria de Ciência e Saúde (editoria essa que considero das melhores no assunto entre todos os meios de comunicação brasileiros que conheço, pois são notícias escritas por gente que manja muito do assunto). E geralmente são comentários que seguem um certo padrão:

1 – “Por que os cientistas perdem tempo pesquisando o mico-leão e não trabalham para cuidar dos problemas da fome da humanidade?”

2 – “Por que os governos não param de gastar dinheiro com a exploração de outros mundos e cuidam deste mundo, assolado pela fome e pela miséria?”

3 – “Olha, esse ratinho parece o Renan Calheiros”

4 – “De acordo com a Bíblia, livro tal, versículo tal, tal coisa é pecado e o homem está querendo brincar de Deus”

5 – “Esse jornalista escreve idiotices e não é um bom pesquisador porque blablablá…”

Perguntei para o pessoal que cuida do G1 se eles deixam longos períodos sem espaço para comentários como uma punição aos leitores. E eles acabaram me confirmando o que eu já suspeitava há muito. Dizem eles da incrível dificuldade que há para moderar muitos comentários ao mesmo tempo, algo de que não duvido.

E quando a gente vai ver quem são os tais idiotas, são sempre os mesmos. Podem mudar de nick, mas entregam-se em outros detalhes, como estilo de escrita e padrão de burrice. E escrevem muitas mensagens. E como escrevem! Parem textos como coelhos ou mesmo ratos (talvez esses últimos mais adequados para definir, pois saem da sujeira para atazanar o cidadão). Se você os risca, já bem p da vida, logo vêm brandindo que aqui é uma democracia, há liberdade de expressão e blablablá. Seus muitos textos inúteis feitos em série acabam por solapar os fóruns de debates, quase como se fosse um câncer tomando conta de um organismo. São leitores que fazem a festa principalmente quando a equipe é inepta (acha que todo mundo pode escrever, mesmo se mal-educado ou analfaburro de fazer com os dedos no teclado aquilo que deveria fazer sobre a privada) ou hipócrita (sim, há lugares em que há suspeita de que certos idiotas que não são banidos para todo o sempre na realidade não o são porque são amiguinhos de alguém lá dentro, enquanto gente justa é banida por simplesmente falar a verdade nua e crua).

Acharei lícito suspeitar em parte que hoje se esteja escrevendo com a presunção de idiotice no receptor pelo fato de justamente esses poucos idiotas serem muito, mas muito ativos em suas caixinhas de e-mail. E como sabemos, o triunfo dos maus é o silêncio dos bons. Também não se surpreendam se vocês virem alguém que conheçam e saibam que é burro dizendo que jornalista é tudo arrogante e nojento e que recebeu uma resposta atravessada do repórter de um meio do qual adquiria informação. Provavelmente essa pessoa é analfaburra, escreveu furiosinho soltando um rosário para cima do jornalista e o jornalista, ao constatar que respondia a um idiota, fez questão de ser sarcástico e esfregar na cara do cara aquilo que ele não leu, como se esfrega o focinho de um cachorro naquilo que ele soltou em lugar errado.

 

 “Olha, mano, tô com a última palavra em matéria de computador. Vou mandar um e-mail sobre essa matéria, pois achei esse repórter muito prepotente. Esse cara é um pé no saco, um grosseirão e pensa que é o dono da verdade. Quero ver ele ficar pianinho… Buá, buá, ele me respondeu. Nenê ficou magoado. Buá, buá…”

É um prazer sádico, eu sei. Mas como já me disse a pessoa do G1 em questão, cada vez mais ele tem a impressão de que é uma gente que sabe que está protegida por uma tela e boa distância da redação e que se acha no direito de ficar agindo tal qual agiria um bêbado que entra em um lugar arrumando treta e dizendo que de um canto para lá só tem corno e do outro, só tem viado, crendo que sua embriaguez lhe torna superior aos sóbrios lá presentes. Quem já viu bebum em coletivo tem uma noção do que quero dizer. Em todo caso, aquele leitormala (neologismo que costumo usar para esse tipo de gente, e só para esse tipo de gente, uma vez que há sim leitores gente boa, direi até boníssima) pensará uma, duas ou três vezes antes de falar algo para aquele jornalista que o fez perder uma oportunidade de ficar quieto. Talvez vá fazer isso com outro e pobre daquele colega de profissão que o suportar e não tiver mão firme e raciocínio ligeiro.

Por isso, meus caros leitores que se enquadram na categoria dos educados e que querem bons textos, se quiserem dar uma força para que os meios parem de subestimar suas capacidades intelectuais, usem exatamente as mesmas armas do leitormala: e-mail em doses cavalares. Expliquem, sempre com polidez, de que não é preciso ensinar pai-nosso ao vigário, comentem sempre se atendo ao assunto, mostrem-se interessados pelo assunto em questão e se possível, até tentem ver por si próprios o que é o assunto em questão, seja pesquisando, seja estando no lugar.

Sei de uma coisa: ainda que haja gente de pouca escolaridade que lê, a maioria delas entende direitinho aquilo que foi explicado e ainda faz comentários legais. Uma vez, lembro-me que comentei em um ônibus com um amigo sobre uma reportagem do Fantástico sobre o açor (ave de rapina que voa baixo e tem a incrível capacidade de passar por vãos estreitos em alta velocidade). Eis que um tiozinho bem simples no banco de trás logo falou sobre a tal reportagem, impressionado com a ave. Sim, o açor, aquela ave que não entra nos textos porque o leitor não sabe, assim como não sabe onde é o arquipélago dos Açores e o motivo de seu nome.

E também digo uma coisa: explique a coisa mais complicada para alguém atento, mesmo que de baixa escolaridade, sem subestimar sua capacidade, que ele logo entende o assunto, com o mesmo surgindo bem lógico em sua frente quase como passe de mágica. E com ele falando abalizadamente do mesmo depois disso.

“Querida, veja como este computador é fácil de operar. Até mesmo achei onde aquele jornalista prepotente mora. Vou mandar um e-mail bem desaforado para ele”

Será ele O Leitor, essa misteriosa pessoa falada nas redações?

Há vezes em que fico pensando quem seria essa misteriosa figura que assalta a cabeça de alguns jornalistas e faz com que escrevam textos bem chinfrins, ponham títulos bem óbvios e outras coisas que fazem qualquer um se enfastiar a cada página virada.

Imagino uma pessoa daquelas que só de olhar já dá pena. É alguém tão incapaz que tem de ler duas vezes um letreiro de ônibus para entender o significado. Isso se o coletivo não for embora. É alguém que valoriza mais a imagem que a informação e que prefere ver uma gostosa (talvez nem tão gostosa assim) a saber como pode investir seu dinheiro para ganhar mais ou como pode se informar melhor. É alguém incapaz de pôr o dedo na ponta do nariz de olhos fechados. É preciso sempre estar com o babador em posição, pois ele não é capaz de fechar a boca.

O Leitor que nunca entende nada e sequer se interessa por algo, conforme dizem alguns colegas de profissão, é um cara que se viaja para algum lugar congelado, leva neve na bagagem como lembrança de férias. É alguém que rasga nota de cem reais.

Quando lhe perguntam quem descobriu o Brasil, logo responde que foi Cristóvão Colombo. Ele tenta coçar o cotovelo com a mão do mesmo lado. Tenta lamber a própria testa.

Se lhe perguntam do que é feita a farinha de mandioca, é capaz de responder  errado. E sobre quantos eram os Doze Apóstolos de Cristo? É pedir para travar mentalmente. Pergunte algo mais fácil, sobre quantos eram os três Reis Magos.

O que é aquilo que brilha no céu de noite? Não, ele não sabe o que são estrelas. E você acha que O Leitor vai entender o que são estrelas? E qual a cor do céu de dia? Não, você tem de presumir que O Leitor não saiba nada desse assunto. O que são nuvens? Ô meu, O Leitor não entende esssas coisas. Você precisa deixar tudo muito explicadinho. Quis falar um pouco sobre a história do idioma que falamos, mas O Leitor não vai saber isso e sequer vai se interessar pelo assunto. Também quis falar aO Leitor sobre o porquê das cores da bandeira brasileira, mas me perguntaram com um tom de ironia: “você acha que O Leitor sabe disso?”.

Quem será essa pessoa tão obtusa cujo primeiro nome é O e o sobrenome é Leitor? Procuro-a pelas ruas, mas não encontro. Vejo até mesmo os vendedores de amendoim falando animadamente e com razoável grau de conhecimento sobre política, atualidades e música. Olho para o outro lado e vejo um humilde dono de bar conversando sobre tudo e se impressionando com a última foto do jipinho da Nasa em Marte. Ele até tece um comentário inspirado: “gostaria de ter um carro que se desatolasse sozinho como esse aí dos americanos”. Talvez o jovem de bombeta e moletom saiba me responder como faço para achar O Leitor. Tudo em vão: ele não conhece tal pessoa, mas papo vai, papo vem, ele me diz que está louco para arranjar MP3 do Tim Maia na fase racional para ouvir em seu iPobre. Recomendo-lhe o Soulseek.

Decepcionado, volto para casa, me sentindo o maior dos idiotas. Talvez mais que O Leitor.

 Ou será ele O Leitor?

 

Quando era criança, sempre que eu ou meu irmão não sabíamos algo, perguntávamos para nossos pais o que era. Depois de um certo tempo, quando perguntávamos o que significava uma palavra, recebíamos invariavelmente a resposta “procure no dicionário”. Naturalmente, ficava bastante irritado com tal resposta, mas hoje até agradeço por isso. E, pela minha idade, era em tempos em que internet ainda era coisa restrita aos militares americanos.

Talvez fosse parte do jeito naturalmente meio rústico de um lar metade italiano do Sul, metade ibérico. Dizem que lares gregos também não são muito diferentes, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é nossa postura enquanto jornalistas. Será mesmo que estamos incentivando nosso leitor a pesquisar ou, ao dar a coisa tão mastigadinha e tratando-o quase como uma criança que deve ser guiada pelo bracinho, não estamos incentivando, isso sim, a não-informação?

Vamos lá, no alto de nossa pretensão de querer informar e ficamos nos detendo tanto em explicar coisinhas irrisórias ao entendimento do ocorrido, ou sendo forçados a, que acabamos por desviar a atenção do leitor, que pode acabar se sentindo satisfeito com aquele nível de informação mais enfeitada que um carro alegórico, que terminando o Carnaval costuma ter destino parecido ao de um jornal quando não é mais do dia. E que te leva do ponto A, conhecido como concentração, ao ponto B, também chamado de apoteose. E só.

 Acima, o que muitos jornalistas enfrentam na hora em que passam suas matérias e a certos editores, em uma versão ligeiramente (e só ligeiramente mesmo) exagerada. E o cerne da coisa, como fica?

 Porém, estamos estimulando o leitor a ir atrás e se informar mais do que aquele espacinho que nos foi reservado para escrever? Creio que não. Em alguns casos, até te pedem para dar alguma fonte de informação a mais. Porém, qual será o grau de consultas a tal fonte. Quantos aceitarão a matéria como verdade inquestionável e sequer se darão ao trabalho de ir além? Estamos querendo dar autonomia para quem nos lê ou pensar que podemos escravizá-lo?

 Penso nisso principalmente ao ver matérias que só faltam dizer latitude e longitude em que ocorreu algo, mas que falham ao inserir o leitor no cenário, de tão burocráticas que ficam.