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Ontem, estava assistindo ao primeiro capítulo da nova minissérie da Globo e houve uma cena que, para mim, disse tudo: foi aquela hora em Tito, Ivan e Paulo estão juntos na redação.

Sendo a história ambientada em 1989, nada mais natural que a redação fosse tomada por máquinas de escrever, principalmente se pensarmos que o lugar em questão era o inferno na Terra. Porém, quem fosse jornalista via muitas coisas que não mudaram muito em quase 20 anos.

Tito é repórter e trabalha em uma revista masculina beeeeeem chinfrim. Além de repórter, acumula o cargo de produtor. Comunista roxo, odeia o trabalho de fazer triagem das mulheres que irão posar, algo previsível dentro do conjunto de crenças que o permeia. Nicola, o dono da revista diz que cem pessoas fariam o trabalho de selecionar as fotografadas de graça e pergunta se Tito é bicha. Ao que Tito responde ser comunista. Aqui, até como uma alegoria de impactos recentes do fim da ditadura, o tal dono da revista (chamada Sexus), que teoricamente estaria do lado da liberdade de imprensa e de expressão, tem uma foto do general Médici na sala. Assim como comunistas de raiz ficaram bem raros da queda do Muro para cá.

Chega o tal cara e conversa com Ivan, o editor, a respeito do especial de Natal da revista. Falam de fazer uma capa toda branca. Até aí, morreu Neves, mas o motivo é justamente lembrar da palavra do sobrenome que citei agora pouco, mas no singular. Ao que prontamente respondem que no Brasil não neva no Natal. Nicola diz que essa é uma imagem que os Estados Unidos popularizaram no imaginário do mundo. Ele logo é retrucado pelo fato de que Natal com neve é coisa normal no Hemisfério Norte, mas não no Sul. A resposta é bem típica: “e você acha que nosso leitor sabe onde ficam os Estados Unidos?”.

Tudo bem que revistas masculinas, ainda mais de cunho pornográfico como a tal publicação sugeriu ser, não são a fonte de consulta que uma pessoa usaria para ter informações. Em 1989, as mais prováveis seriam revistas informativas, jornal, atlas ou enciclopédia. E não é no Brasil onde as pessoas apontam para a Austrália quando lhes perguntam onde fica o Irã.

Provavelmente, quem viu Nicola falar sobre o leitor deve ter dado um riso, pois a cena de fato tem seu humor. Para quem for jornalista, é o famoso “seria cômico se não fosse trágico”, pois continuamos a ouvir exatamente isso, quase duas décadas depois, e em uma sociedade com internet, GPS, Google Earth e mais um monte de coisas. Também continuamos a ver um bocado de Nicolas dando as cartas. E também vários (e bota vários nisso) Ivans, Titos e Paulos.

Não precisa ser uma revistazinha chinfrim com cunho pornográfico, mas muitos daqueles tidos como “o leitor” são atraídos pelo apelo aos baixos instintos e vão ficando nas publicações que querem mais que ele se dane não sem antes dar seu dinheiro ou audiência. Muitas são as Sexus em que os colegas trabalham.

O mundo mudou muito de 1989 para cá. E o jornalismo, mais sua relação com o leitor? OK, tivemos uma porrada de danças de cadeiras, mas falo dos ambientes de trabalho. E também da postura dos colegas frente certas coisas. Quem é o jornalista hoje?

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O repórter segue seu caminho. Está em um carro indo para entrevistar a fonte. Está animado, pois o assunto é muito interessante e vale mesmo passar uns minutos com a pessoa a ser indagada. Seus olhos verão ou não aquilo sobre o qual leu.

O trânsito está razoável. Muitos carros, mas eles andam em velocidade constante. O motorista habilmente desvia dos pés-de-breque e já está perto de um trecho mais veloz de pista. De lá até o destino, é só questão de minutos.

Toca o celular. Da redação, pedem que o repórter vá urgentemente, pois sua presença é necessária naquele momento. Faça a entrevista por telefone.

Pede o repórter para o motorista dar meia-volta. Porém, ele já desconfia que há algo estranho no pedido. Afinal, a maioria de suas pautas já foi cumprida. O que será que de tão necessário seu superior necessita para que seja descumprido um horário já marcado antes?

Chega o repórter desconfiado à redação e pergunta o que ocorre. Pedem-lhe que revise as provas de textos que serão publicados, mas enviados à gráfica apenas no fim do dia. Era algo que podia perfeitamente ser feito assim que ele voltasse da entrevista in loco. Chateado e soltando fogo pelas ventas, o repórter ainda diplomaticamente liga para a fonte passando um recibo qualquer de que não pôde ir lá, falando com a voz mais simpática possível. Nota-se na fonte também um ligeiro estranhamento.

Termina o expediente e volta o repórter para casa. Grita e esbraveja em um canto só seu tudo aquilo que não pode falar abertamente na redação. Xinga o editor obtuso. Não quer mais voltar àquele antro que o limita de todos os jeitos, tanto profissional quanto pessoalmente. Não quer mais ver aquela gente rasa e vazia a quem chama de colegas. Mas queria falar tudo isso e não o faz porque sabe que teria o bilhete azul e imediatamente alguém ocuparia sua vaga, talvez até fazendo mais conformistamente seu trabalho.

Profissional, ele faz a matéria com uma entrevistinha mixa por telefone. Ele sabe que sairá um lixo e não faz muito caso de melhorar esse lixo, pois já esteve com o diamante bruto próximo de suas mãos, mas o dono do garimpo o tirou de lá na hora em que via o brilho da pedra de alto quilate.

Sai a matéria publicada. Muitos leitores, sem se darem conta, pensarão que o repórter esteve mesmo lá. Mal sabem que estão sendo enganados. Porém, sabe o repórter que está a contragosto enganando aqueles por quem tem consideração.

Esta postagem talvez fale mais alto para quem for jornalista ou estudante e, mais ainda, viva o cotidiano das redações.

Já pararam para pensar que o oleitorismo é uma das piores formas de preconceito que existe? Pior porque perversa, ao generalizar o conjunto do qual cada um de nós faz parte e criar uma figura que nenhum de nós é ou será. É também o mais democrático dos preconceitos, atingindo as pessoas independente de cor de pele, sexo, crença ou outras qualidades alvos de discriminação. Eu sou “o leitor”, você é “o leitor”, meus colegas de profissão são “o leitor”. E no caso dos jornalistas é ainda pior, pois quando dizem que o leitor não entende ou não se interessa por determinada coisa, acabam dizendo que eles também não se interessam por ela ou, pior ainda, dizendo subliminarmente que eles próprios, jornalistas, não se interessam por aquela coisa.

É forma de censura velada. Imaginem se você quisesse porque quisesse ver naquilo que lê uma matéria sobre um assunto que muito se interessa, por gostar daquele meio e da maneira como aborda um assunto. Você chega até a mandar uma mensagem para a redação falando do assunto. Porém, é muito provável que olhem para ela com desprezo e sequer abordem na reunião de pauta. Por quê? Porque, como sabemos o leitor não se interessa pelo assunto. Mas peraí, você não é o leitor? Então como ousou ter interesse? E por que quis romper isso? A punição não é pau-de-arara, nem choques nas partes íntimas ou empalamento. É a continuação dos textos que te tratam como criancinha, dos títulos óbvios e das fórmulas mais que batidas.

E pode acreditar que sofrimento não gera revolta, mas apatia. Sim, meu caro, para qualquer um aqui, jornalista ou leitor. Ao jornalista, quando se cansa de bater de frente e começa a ficar quietinho, uma vez que precisa manter o emprego e a sanidade mental fora do trabalho. Afinal, nessa lógica, não vale a pena ficar batendo de frente quando o assunto é levar comida para casa. Também não valerá a pena ficar discutindo com o colega obtuso na parte de cima da cadeia hierárquica, pois ele continuará obtuso e, se não o for, é muito provável que seja subordinado a um obtuso. E que poder tem esse alguém quando não é dono do meio e muito menos tem possibilidade de ascensão, uma vez que lhe falta obtusidade?

No caso do leitor, ele continua a adquirir informações por aquele meio sem questioná-las por saber que os outros também o tratarão de forma mais ou menos semelhante. E em certa parte, por haver dinâmica semelhante à do vício. Alguém já conversou com um fumante inveterado sobre os malefícios de seu hábito? Nem é preciso dizer que ele vai querer ou mudar de assunto ou brigar contigo. No caso do leitor, não chega a esse ponto, mas há o lance de a cabeça ser moldada por aquele meio, a ponto de ele ficar ligeiramente cego para o que há lá fora.

E vício também há nos jornalistas oleitoristas, uma vez que fecham para si que quem os lê é de um determinado jeito e qualquer coisa que significar uma mudança tem de ser punida sumariamente, isso se não significar soltar os cachorros para cima de quem a propôs. E garanto que os oleitoristas são muito, mas muito difíceis de serem convencidos do contrário. Tornaram-se algo tão orgânico dos meios que parecem viver em simbiose com eles.

Também noto uma certa ligação desse preconceito democrático com os preconceitos que atingem grupos específicos. Alberto Dines explica isso melhor do que ninguém:

A idéia de que leitoras só se interessam por superficialidades e mundanidades é terrivelmente injusta e preconceituosa, porém condenada à clandestinidade – tabu. Nenhuma jornalista ou colunista ousaria propor uma discussão sobre o assunto numa reunião de pauta. Nenhum jornal ou revista encomendaria uma sondagem a respeito. E, no entanto, quando as tiragens começam a cair a solução mais comum é apelar para a mulher e insistir na tal da “leveza”.

Sim, a apatia gerada pelas estruturas que insistem em ter uma visão de mundo gestada na redação e que o exterior só serve para que ela seja confirmada, independente se contestada na primeira esquina, chega a um ponto que se torna algo sobre o qual não se deve falar, sob pena de quem ousar fazer isso ficar marcado pelos outros. E é mancha praticamente indelével, pois poderá significar a inempregabilidade do jornalista no futuro próximo, caso queira uma determinada vaga. E como já dito antes, jornalista é um trabalhador como outro qualquer, que usa suas capacidades para conseguir uma remuneração que lhe garanta vida minimamente digna.

Diga diretamente que X é burro, idiota e cretino por ser X e ganharás um processo daqueles por preconceito. Porém, diga que o assunto Y não interessa a X porque ele enquanto leitor não quer saber dessas coisas e dirão que você é o melhor jornalista e preocupado com as demandas e necessidades de X. Porém, perguntaram mesmo para X?

A despeito das piadinhas que sempre são geradas quando falamos de nosso vizinho de fronteira, em alguns detalhes o Paraguai supera em muito o Brasil.

Um deles é o aprofundamento da mídia. E olha que falamos de um país tão pobre quanto o Brasil e talvez com gente tão ou mais maciçamente ignorante que a nossa.

Abra um caderno de esportes por lá e vai tomar um susto de ver que todas as divisões, sem exceção, têm cobertura pela imprensa de lá. E mais que isso, há tabelas e mais tabelas dos campeonatos. Ué, mas não é o leitor que não se interessa por essas coisas?

E olha que falamos de futebol, pois como sabemos, na política, as coisas são um tanto mais passionais na América que fala espanhol…

Alberto Dines levantou uma lebre interessante: a parte que cabe à mídia no latifúndio da má educação. Mais ainda, falou sobre a qualidade de texto a que nossas crianças estão sendo submetidas.

Se a mídia trata adultos como criancinhas incapazes de compreender o que lá está escrito, como será que está tratando dos futuros leitores?

Vale lembrar que, ao menos em jornais, é sim bom contemplar todas as faixas etárias, dentro da história de captar leitores desde cedo e garantir a sobrevivência a longo prazo. Mas a que custo?

Como sabemos, já é algo mais ou menos difundido usar revistas e jornais no processo educacional. Em lugares que aplicam bem o processo, os pais chegam a ter o espetáculo de ver seus pequenos chegarem pedindo mais informações a respeito de notícias que normalmente só adultos se interessariam. Às vezes, até os pais se embaralham um pouco, principalmente quando o assunto envolve bolsa de valores, economia, essas coisas.

Quando adolescente, era ávido leitor do Zap!, o caderno do Estadão para essa faixa. Era um caderno bem legal, ainda que com seus vícios (como contemplar em matéria de música quase que apenas o rock, e quase que apenas o indie), mas era algo que lia sentindo-me respeitado. Por muito tempo dava para ver que os caras acertaram a mão. Porém, com o passar dos anos, já na época em que era meio grandinho para ler esse tipo de suplemento, ele foi reduzindo, reduzindo, até se tornar uma seção de duas páginas em um dos cadernos e depois acabar. Tudo bem que eram tempos de passaralhos, como foram todos os primeiros anos da décda de 2000. E, de fato, muitos suplementos de jornais e revistas de editoras foram extintos, isso para não falar de sites.

Tudo bem que jornal e revista não são nem devem ser obrigados a ensinar qualquer coisa, pois não é função deles e qualquer pretensão nesse campo é cair em oleitorismo. Porém, não caberia a eles pensarem um pouco mais nesse tipo de leitor? Como o próprio Dines disse, é de se perguntar se estimulam a reflexão. E no caso das crianças, elas são mais espertas do que supomos. Vejam, por sinal, que as vendas de livros infantis costumam ser maiores que as dos livros para adultos. Também temos em nossa história uma série de autores que escreviam livros para adultos e passaram por completo para a literatura infantil, muitas vezes fazendo maior sucesso do que quando escreviam para os pais daqueles.

Qualquer pessoa com cabeça sabe que tratar uma criança com carinho, sem esquecer de chamá-la a sua responsabilidade, é a forma que se tem de termos um adulto sem maiores complexos. E por que não cobrar isso daquilo que ela lê?

 

Alguns chamam o cantor Odair José de repórter musical. O motivo não é mais justo: o cara sabe dar voz em suas canções a pessoas que jamais a teriam ou a tiveram. E também desnudava uma realidade que a censura e o próprio povo insistia em esconder. Era useiro e vezeiro da linguagem de fresta, principalmente em uma época em que a censura era não só política como moral. Sim, para os milicos, não existia oficialmente aquele lance de o casal fazer “bobiça” atrás da igreja. E, claro, como bem sabemos, o ouvinte de suas canções nada sabia do que ele queria dizer com aquelas letras que não mencionavam o que ele queria dizer…

Depois de Gonçalves Dias, ele é o homenageado do blog para mostrar o que aconteceria se ele fosse jornalista na imprensa brasileira de hoje.

Olha… A primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair (aqui onde? Favor especificar aonde o declarante foi)
Eu vim em busca do amor (se ele veio para se distrair, como ele pôde ter vindo em busca do amor? O leitor não acredita em amor de balada…)
Olha..
Foi então que eu te conheci
Naquela noite fria
Em seus braços
meus problemas esqueci (abraçou? Consolou? Trepou? Favor especificar. Nosso leitor não tem como saber o que o personagem fez)

Olha…
A segunda vez que eu estive aqui (aqui onde? Caramba, é preciso responder direito ao “onde” das sete perguntas)
Já não foi pra distrair (eliminar o “distrair”, pois é repetição de palavra)
Eu senti saudade de você (“eu” é muito demonstrativo de arrogância. Pode ficar ofensivo ao leitor)
Olha…
Eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais lhe esquecer (esquecer a quem? Favor especificar, até para que o leitor saiba quem é a/o inesquecível em questão)

Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar? Da lanchonete, do frigorífico? Favor especificar)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“tirar você” e “levar você”. Favor corrigir para “tirá-lo/a” e “levá-lo/a”, isso antes de, é claro, dizer quem é o “você”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim. O leitor pode pensar as mais diversas coisas e temos de ser bem específicos)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa
O que os outros vão pensar (repetição desnecessária e que torna o texto ainda menos informativo)

Eu sei…
Que você tem medo de não dar certo (medo de que não dar certo?)
Pensa que o passado vai estar sempre perto (favor especificar que passado é esse)
E que um dia eu posso me arrepender (arrepender de quê?)
Eu quero
Que você não pense nada triste (o que é triste para uns é alegre para outros. Vamos respeitar a opinião do leitor)
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer (e os crimes passionais? Favor mudar este trecho)

Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar, porra?!)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“levar você” de novo? Você é o quê? Agora só falta dizer “mim faz”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (arrogante o senhor, hein?)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo (leva este texto para ficar contigo)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim o que penso. Fora daqui com esse troço)
Eu vou tirar você desse lugar (claro. Vai tirar da minha mesa para nunca mais eu o ver)

Realmente sou obrigado a concordar com o Luciano Martins Costa mais uma vez, como dá para ver neste artigo no Observatório. Seguem abaixo algumas frases importantes:

“Se os editores não movem seus corpinhos para fora das redações, em busca do conhecimento onde ele se manifesta, seguiremos tendo que encarar reportagens levianas, embasadas em crendices e preconceitos.”

“Limitados ao trajeto entre suas casas e as redações, os editores ficam longe dos lugares onde a inteligência se manifesta. Como se tivessem que carregar um fardo pesado nos glúteos, preferem o conforto de suas cadeiras às platéias dos eventos onde o Brasil ainda se pensa. Sempre se pode dizer que a agenda dos editores é complicada, que falta tempo até para conciliar a vida profissional com a necessidade de dar atenção à família. Mas a agenda se torna mais flexível em outras ocasiões, muito especialmente no final do ano, quando as grandes empresas promovem jantares e almoços regados a vinho de qualidade, com direito ao tradicional jabaculê na saída.

Na mesma semana em que se realizava o debate na Fiesp, muitos editores e colunistas foram vistos em alegres confraternizações com executivos de empresas anunciantes, onde tinham que suportar algumas maçantes apresentações sobre resultados financeiros e ações filantrópicas, em nome do bom relacionamento. Claro que relacionamento faz parte, mas não é tudo. Nem só de jabá viverá o jornalismo.”

E isso porque estamos falando de uma coisa importante, que são os mais de 40 milhões de processos para pouco mais de 14 mil juízes. E também as 2,6 milhões de leis que existem neste país e permitem interpretações das mais diversas. Costumo brincar com o pessoal dizendo que, dependendo de quanto um determinado advogado receber de seu cliente, ele consegue até mesmo provar que a Constituição é inconstitucional, baseado na própria Carta Magna.

Pois é, gente, quantas notícias capazes de mudar muita coisa para melhor estamos perdendo por causa dessa insistência em não querer deixar os jornalistas irem ao encontro da notícia sem um telefone criando dificuldades para vender facilidades? Apenas serei obrigado a discordar do Luciano em uma coisa: paira a espada de Dâmocles da demissão sobre o jornalista que quiser ir à rua. Aliás, é o perigo da demissão que emperra o jornalismo brasileiro, por melhor vontade que tenham os jornalistas. Sim, isso mesmo que lêem.

É algo de que se esquecem os jornalistas que consideram seu ofício algo assemelhado ao de escultores, filósofos e artistas em geral, e não uma profissão regulamentada. E é esse tipo de mentalidade que vai continuar estimulando o embutimento…

Antes de tudo, leia este texto antes de ler este. Leu? OK, podemos então começar a falar por aqui.

Como podem ver, Luciano Martins Costa desce a lenha na imprensa brasileira como um todo. Não fala nomes dos faltosos, até por saber que é fenômeno generalizado nas redações locais.

Observem um detalhe importante: o site de um movimento, que tem obrigatoriamente um viés mais tendencioso, uma vez que precisa defender uma tese, fala de um assunto com mais detalhes e profundidade do que a imprensa brasileira em geral. Sim, isso mesmo que estão lendo: se estão querendo ler algo interessante, terão de se dirigir a vieses teoricamente viciados na origem, pois estes são mais inteligentes que os supostamente isentos e que vêem os muitos lados da questão. E isso é problemático.

Assim como boa parte de nossos jornalistas têm cabecinha de linotipo e insiste em usar pirâmide invertida nos tempos da composição eletrõnica, a imprensa em si não avançou no debate dos assuntos mais corriqueiros, envolvendo ou não política.

O cara fala de coisas interessantes, como a obsolescência dos discursos direita X esquerda e do quão reféns ficam os leitores que querem debater e não conseguem aprofundar um assunto.

O cara versa sobre vários assuntos, como a caixa-preta do sistema bancário da Suíça e a ação de estado que transformou Espanha e Portugal em países de Primeiro Mundo e a não-comparação que a imprensa pratica quando o assunto é falar de ações parecidas na América do Sul. Não entrarei aqui em méritos políticos, até porque este blog fala sobre a postura da imprensa em relação às capacidades do leitor. Deixarei que os que analisam a imprensa sobre o viés político façam essa parte, pois creio que farão melhor que eu.

Analisando sob a ótica deste blog, posso falar sobre os tais textos superficiais, não só sobre assuntos do dia-a-dia, mas também na imprensa especializada. Na automotiva, quando se ouve de jornalistas que “o leitor nem sabe quais as rodas que tracionam determinado carro”, isso é ser superficial. E quem perde, se não o leitor, que não terá substratos adequados?

“Ah, mas o leitor não entende essas coisas. Imagina se eu vou pôr um professor da USP na minha matéria? O cara vai falar um monte de coisa complicada e a maioria não vai entender nada” cai na mesma esparrela. Dá para se falar do buraco na rua, sim, mas se você falar que buracos na rua são causados da base sobre a qual o asfalto é aplicado, você está aprofundando adequadamente. Se você mostra a comparação da vida média do asfalto na Europa (40 anos) com a do Brasil (10 anos) e que lá na Europa usam mais camadas de areia e brita antes de pôr o pretinho propriamente dito, você está se aprofundando no assunto. E todo mundo entende direitinho que mais camadas significam mais proteção contra intempéries. Senão, ninguém mais caprichoso daria duas ou três demãos de tinta em uma parede, pois seriam absolutamente desnecessárias.

Por isso, não duvido mesmo que o superficialismo na imprensa brasileira esteja ligado diretamente ao fato de ela não se aprofundar nos assuntos. Pare para pensar agora em quantos textos no seu jornal ou revista preferido te prendem realmente a atenção, uma vez que foram feitos de uma forma diferente e ao mesmo tempo envolvente. Quer um minuto para pensar? 60, 59, 58… Pensou agora? Agora diga-me um texto que você se lembra e que está escrito em pirâmide invertida ou efeito champanhe. É só ir no bate-pronto e pousar o dedo em qualquer página, seja física, seja de internet, pois é uma porrada deles.

E um texto bem escrito também estimula a inteligência do leitor. Ele pode até não entender em um primeiro momento, dependendo do assunto. Motivos para celeuma e falar que não se pode escrever nada por ele não entender? Não, até porque cada leitor é um, com um conjunto de fortes e fracos diferentes. Porém, se o assunto interessou ao cara por estar em um texto bem escrito, ele fará questão de ler de novo. E até reler mais outras tantas vezes no mesmo dia. Porém, o texto bem escrito o capturou. E não é uma isca industrializada que tem de ser criada de uma maneira padronizada porque é daquele jeito que uma determinada espécie de peixe vê. Estamos falando de gente. E gente gosta quando nota que se pôs um talento em cima. E é o talento em cima que também puxa gente para um determinado assunto.

Sim, o leitor entende até mesmo o que é a teoria das cordas espaciais e a matéria escura que domina o universo. E também se interessa muito sobre ela. Basta escrever de maneira que o prenda àquelas linhas em um espaço predeterminado. E durante essa prisão, você o vai informando de maneira a ele nunca mais esquecer…

Já parou para pensar no motivo do incrível unanimismo na imprensa brasileira? Vamos além daquela história do número de famílias que controla a mídia e em eventuais acordos de conchavos dos mais diversos.

Esse unanimismo também ocorre em outros países do mundo. E encaixa-se na história de medir a temperatura do acontecimento que estiver mobilizando a nação. E nesse caso, um meio vigia muito bem o que ocorre com o outro. Caem naquela premissa de escutar o que você desejaria e depois lhe contarem. E isso gera uma dificuldade tremenda em se remar contra a corrente. Sim, talvez a opinião pública seja muito diferente da opinião publicada, mas ir de maneira diferente pode gerar quedas de venda, mesmo que se esteja com a razão.

Veja esse fenõmeno acontecer, por exemplo, em assuntos políticos. Imediatamente uma série de meios da imprensa posiciona-se de um determinado jeito. Aqueles que estiverem contrários irão sofrer um pouco para vender, mesmo que estejam mais certos que o resto dos outros. Irão ser chamados dos mais diversos nomes também e, mais ainda, a impressão que ficará sobre eles irá se espalhar pelo tecido social, mesmo que grande parte dele sequer tenha lido o opositor.

Um exemplo simples de como isso pode acontecer, está no experimento de Solomon Asch. Ele pôs 11 pessoas que viam três linhas. Eles tinham de vê-las e dizer qual delas tinha o mesmo comprimento de uma linha-padrão. O voluntário era informado de que havia mais 10 pessoas na sala também fazendo a mesma coisa. Porém, não fora informado que eram dez atores. E esses dez emitiam sua opinião antes dele. O resultado? Ao chegar a vez do voluntário verdadeiro, este acabava votando igual aos outros 10, mesmo que errado. E isso acontecia mesmo quando eles debatiam entre si sobre qual era a linha certa. O lance foi que o pesquisador fez um sinal secreto para que todos os 10 atores na hora de votar escolhessem a resposta errada. Foram testados 50 voluntários nessa mesma situação e 3/4 deles escolhiam sempre a mesma resposta do grupo.

E isso acontece em parte pela questão de ser aceito em um grupo. Quando se está em uma minoria das minorias, constrange ser diferente. Por isso, ele acaba passando por cima daquilo que acredita ser correto. Isso de certa forma assemelha-se muito a uma barra de ferro que imantamos. A maioria dos átomos acaba por se organizar da forma mais fácil, que é ficarem todos orientados de uma mesma forma, com os pólos sul e norte em mesma posição. Ainda assim, pode haver áreas em que os pólos ficam ordenados de maneira diferente. Porém, o ímã sempre terá um pólo norte e um pólo sul, quando falamos da peça por completo.

Agora imaginem tudo isso no seguinte trajeto: redação – publicação – leitorado. Leitores tendem a confiar nos meios em que adquirem informação e imaginar que se possuem uma determinada circulação ou audiência, algum motivo deve ter. Por isso, irão demorar em mudar de fonte de informação, até por se acostumarem com elas. E, claro, por estarem acostumados, até evitam falar com a redação, por mais que discordem de certas coisas. Quem escreve mesmo é o famoso leitor mala-sem-alça, que se acha no direito de xingar, abusar e demonstrar sua burrice sem repressão alguma. Jornalistas recebem majoritariamente esse tipo de feedback e imediatamente escrevem acreditando ser aquilo o que são os leitores na realidade. Claro que haverá discordância dentro da redação, mas normalmente, quem discorda não sobe muito de cargo. Portanto, o peso do cargo mais alto acabará por forçar que se escreva presumindo que quem lê majoritariamente não teria o reflexo automático de desviar de um objeto jogado em alta velocidade contra sua cabeça. E até por questão de conforto de vida, as pessoas priorizam certas escolhas na vida. Discordar, como qualquer um sabe, estressa, isola e dificulta seu futuro. E em um mercado restrito como o jornalístico…

As notícias escritas presumindo que o leitor seja como um computador acabam ganhando as ruas. Dependendo da repercussão, elas podem ganhar as cabeças. E entre os leitores, haverá sim discordâncias, mas os discordantes em geral, também pelo mesmo motivo de conforto pessoal, irão se silenciar. E nessa, ganha-se em audiência, vendas, pageviews e o que mais houver.

O leitor que discorda em ser tratado como idiota até irá se informar em outros meios, mas, a exemplo desses meios, também correrá o risco de ser estigmatizado. Vai lá o cara falar que cansou de ser tratado como idiota, que não suporta aqueles textos óbvios e anódinos que recebe e a resposta que receberá é a de que provavelmente não se deu conta de que haveria gente de menor escolaridade e menor cultura geral que se informa no mesmo lugar que ele, sem se dar conta de que tal debate pode estar acontecendo na mesma hora e no mesmo local com gente de pouquíssima escolaridade ou cultura geral que também se cansou de ser tratada assim.

Porém, sendo disperso o universo de leitores, há uma dificuldade bem maior de ele fazer ser ouvido. Enviará um e-mail ou uma carta que, como tantas outras, será só mais uma naquela pilha. Outros tantos estarão lá, mas poderão ser confundidos com os tais leitores malas, até porque suas mensagens educadas e respeitosas nem de longe têm o impacto dos textos mal-educados e demonstrativos de burrice absoluta. Claro que também pode haver certas manipulações de má-fé dentro da redação, como pegar uma carta de mil falando contra certa matéria e uma carta de 10 falando a favor e dizer que se está sendo imparcial e dando espaço igual a ambos. Porém, isso aí também é uma forma de agir em grande escala como agiu Solomon Asch com seus 11 julgadores, apenas um deles de verdade.

carta-capital-de-28-11-2007.jpg

Leiam na Carta Capital desta semana a matéria “Por linhas tortas”, que fala do I Salão Nacional do Jornalista Escritor, que fala também da qualidade média da imprensa nacional hoje em dia. Entre as fontes da reportagem, está o Eric Nepomuceno, que realmente desceu legal a lenha na imprensa brasileira.

Fala-se também do espaço cada vez menor que é dado à reportagem, o unanimismo dos meios de comunicação nacionais, entre outras. E há uma frase pra lá de interessante do Eric, que passo abaixo:

“Temos, de um lado, leitores mediocrizados e de outro, jornalistas medíocres. Então, dá tudo certo. Se você acostuma o consumidor a tomar leite com soda cáustica, após algum tempo ele vai achar normal. Só que o produto é uma porcaria”

Notaram a sutileza dos adjetivos? “Leitores mediocrizados” foi o que o Eric disse. Portanto, são leitores que sofreram uma ação para se tornarem medíocres. E, pior ainda, acostumaram-se a ser tratados como tal. Portanto, os mesmos leitores que liam coisas interessantes outrora. O que mudou foi a abordagem, em que se passou a dar atenção excessiva para uma minoria de leitores iracundos que mandam mensagens mal-educadas para a redação. Os jornalistas, que quase não trabalham fora da redação, acabaram tendo por padrão esse tipo de leitor e quiseram estender tal avaliação a todo leitor, sendo que esses últimos não escrevem com tamanha freqüência. E nisso, o ciclo ficou completo.

Há também o depoimento de Ricardo Kotscho, também falando do medo que o jornalista tem de ser demitido. Tudo bem que estamos em outros tempos, mas algumas coisas assustam tanto ou mais que nos anos de chumbo. “Ninguém acredita que pode mudar nada. Então, cruza os braços. Nem na época da censura vi comportamento tão medroso nas redações”, conta. E também lembra da vez em que no trainee da Folha desceu uma lenha no próprio jornal e em seu manual, o que lhe rendeu a pergunta de uma estudante sobre eventual medo dele de ser demitido. Sim, meus caros, hoje em dia, jornalista tem medo sim. Não o medo do que está lá fora. Mas o medo do que está dentro. Lembram-se daquela história de que o pior inimigo de um jornalista é outro jornalista? Acho que não é preciso se estender.

E também a reportagem fala do boicote que a própria imprensa faz quando ela é que se torna notícia. “Muitas empresas de comunicação nos ofereceram espaço publicitário e ajudaram a divulgar a idéia, mas depois nos esqueceram na reunião de pauta”. Esqueceram ou foram esquecidos?

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