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A notícia já é ligeiramente envelhecida, mas vale a pena comentá-la. E o principal motivo é que ela fala da internet superando os jornais como segunda fonte de notícia mais procurada nos EUA, perdendo apenas para a televisão. Vale lembrar que aqui no Brasil, esse fenômeno já aconteceu antes e só agora muita gente grande se deu conta que está sendo superada.

Como não poderia deixar de ser, tenho de guinar o tema para o que fala este blog. E neste caso, dá para embutir aí o conceito da reação do leitor, tido como idiota por muitos jornalistas, contra estes.

Motivos não falta para que eu ache isso. É da natureza da internet ser um lugar aonde você procura a notícia e não é procurado por ela. O jornal e a revista, se você os assina, são jogados regularmente na porta de sua casa. A televisão, basta você ligar e ouvir o que o âncora tem a te dizer. Já este meio em que esta mensagem é escrita, não. Se você não sabe o que significa algo, bastará digitar em algum buscador e este te passará, por exemplo, um link da Wikipedia dizendo resumidamente o que é esse algo. A notícia é inclusive mais limpa esteticamente por conta dessa natureza, bastando ver o exemplo abaixo, que qualquer um é obrigado a explicar, uma vez que não é assunto que uma ampla maioria conheça ou tenha a qualquer noção:

Internet:

pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico

Meio escrito:

pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico (portador de empedramento dos pulmões causado por inalação de cinzas vulcânicas)

A palavra em si tem 46 caracteres. Na explicação do meio físico, você teve de acrescentar mais 81 (incluindo aí o espaço entre a palavra e o primeiro parêntese). Fosse só isso, não haveria maiores problemas. Porém, aquilo que o colega Geneton definiu como o enterro da imprensa teima em explicar tudo, achando que a pessoa a princípio nada sabe, isso para não falar do farto fornecimento de detalhes a perigosos extraterrestres que tenham chegado a este planeta sem saber qualquer coisa a respeito dele, mas com fins de dominação. Um clássico é “internet, a rede mundial de computadores”. Até minha falecida avozinha sabia o que era internet, mesmo que nunca tivesse mexido com a dita cuja e sua escrita remetesse às normas ortográficas dos anos 30.

Alguns teóricos da internet diriam que pôr um link tira a audiência de seu site, mas muito antes do advento das abas, já era possível pô-lo abrindo em outra janela, como é feito neste blog. Agora com a aba, basta apenas abrir uma, clicar, ler a dita cuja e voltar ao texto. Claro que alguns se esquecerão do que estavam fazendo, mas como imprensa é empresa, o pageview foi garantido e o dono pode esfregar os mesmos na cara dos anunciantes. Isso para não falar de soluções que permitem que a explicação esteja na própria página ou remetida para um glossário ou coisa parecida dentro do site em questão.

Ainda na parte ativa da internet e minha suspeita de isso ter sido uma das principais causas de ela ter superado os jornais em audiência, fica a coisa de poder comparar o que dois portais disseram e ver quem está com maior acurácia. Em uma aba, posso ter o Uol, na outra o G1 e em outra o Terra, todos falando da mesma coisa, isso para não falar da nova imprensa que surge e que já fez muito tubarão arrancar os cabelos antes de a Polícia Federal deflagrar operações de nome maneiro relacionadas.

Parte da questão da portabilidade foi resolvida. Quem tem um telefone 3G pode sossegadamente ler as tais notícias da net onde estiver. Dependendo do modelo, dá até para poupar os pacotes de dados e acessar em wi-fi. Claro que para moradores deste país, devido à grande presença de pessoas que invejam aqueles que trabalham honestamente e adquirem seus bens com o suor do rosto, recomenda-se não fazer isso em ruas ou lugares com muitas pessoas.

Sim, há no Brasil essa aspecto da segurança pessoal e da não-ostentação que pode ser um filão a ser explorado pelos jornais e revistas. Porém, é muito pouco, uma vez que poucos são os profissionais que ficam na rua o dia inteiro (e no caso dos jornalistas, eles estão ficando na rua menos tempo do que deveriam, uma vez que muitas empresas acham que a apuração exclusivamente telefônica serve para alguma coisa além de enganar o leitor). Boa parte dos profissionais de hoje tem em sua frente uma tela de computador e este computador ligado à rede. Portanto, pode ver a notícia acontecendo quase simultaneamente ao fato.

E para que servirão os jornais? Muitas empresas ainda não notaram que os jornais não sumirão, mas sim serão reinventados. Esquecem-se do maior conforto de leitura que uma fonte refletora de luz tem em relação a uma que emite. Quantos aqui conseguem ler um texto longo na internet sem que pareça que uma hora as letras andem pela tela? Só no presente momento que escrevo este compridinho, já pus as mãos na cara e cocei os olhos. Porém, quantos aqui lêem na boa não um jornal, mas um livro de mais de 500 páginas? Dúvidas? Vá a um ônibus ou metrô e veja o brasileiro normal fazendo isso.

Já a outra coisa é puramente jornalística mesmo. Apure (bem e usando o telefone só para primeiros contatos ou coisas pequenas) algo que a internet ou a TV não tenha dado e tenha certeza que seu meio impresso aumentará as vendas e terá leitores fiéis. Ah sim, que essa boa apuração esteja nas mãos de alguém que escreva bem, pois um texto envolvente faz qualquer um ler na boa 20 mil caracteres em uma sentada só. Claro que isso serve sem problema para a própria internet, que é escrita.

“Ah, mas o leitor não vai saber o que estamos falando. Nosso meio tem como público-alvo pessoas de pouca escolaridade e oriundas da aprovação automática”. Já parou para ver onde estão alguns desses? Qualquer dúvida, vá a uma LAN-house e verá uma porrada desses seus leitores-alvo. Quer ir para o humilde casebre de um deles? Corre o risco de ver um computador mais invocado que o da sua casa, e regiamente pago em dia. E, claro, com uma série de conhecimentos que nem de longe estão retratados nas redações que dizem pensar neles. Quanto tempo demorou para a imprensa, especialmente a musical, tomar conhecimento de fenômenos silenciosos do País, como o tecnobrega do Pará e o kuduro transplantado de Angola para a Bahia? Talvez ainda estejam alheios a isso. E talvez ainda achem que só entram na internet para ver Orkut e mandar currículo.

Como outros aqui, acompanhei de alguma forma o seqüestro e cárcere privado das meninas Eloá e Nayara. Diríamos que acompanhei de maneira passiva, pois evitei ao máximo ver qualquer notícia a respeito, para não me sentir cúmplice do show de horror que os meios de comunicação promoveram.

Dá para considerar sim a mídia como cúmplice da situação. Acabaram fazendo muito do que o Lindemberg queria. Disse Nayara à polícia que o tal ex-namorado dizia que era o cara, que era o príncipe do gueto, que os policiais tinham medo dele e por aí vai.

Porém, não irei falar tanto sobre o seqüestro em si, apenas esperando que o tal Lindemberg receba uma justiça digna de tal nome e sem chicanas como as que fazem Pimenta Neves estar condenado por homicídio doloso e ainda em liberdade. Também não comentarei a respeito da postura da polícia, que considerei das piores possíveis, ainda mais pensando que haviam conseguido libertar uma das reféns e a devolveram para o seqüestrador. Isso para não falar das inúmeras oportunidades que tiveram em muitas horas de cárcere privado de prender o cara e libertar as duas garotas sem ferimentos. Falarei isso sim da postura da imprensa em geral no tal caso.

Quem ainda não assistiu a “Montanha dos Sete Abutres”, que assista e veja Kirk Douglas em ótima forma. E um pouco dessa montanha foi parar em Santo André na semana que passou. Vimos de tudo um pouco em matéria de absurdos. Que tal entrevistar o seqüestrador? Pois é o que fizeram. E que tal falar que a polícia se dirigia ao lugar? Também tivemos isso. Alguém aqui duvida que o Lindemberg estava assistindo aos vários canais que noticiavam quase em tempo real a tal mazela?

Isso não se faz. E o pior de tudo é que trataram aos espectadores como idiotas. Acharam que vocês eram feras sedentas por sangue, quando não duvido que no círculo social de cada um que lê esta postagem, uma porrada de pessoas tenha achado simplesmente horrorizante e doentio o que repórteres e apresentadores de programas noticiosos fizeram. E mesmo o mais ignaro teve seu senso de humanidade acionado ao notar o que queriam fazer com aquelas duas meninas.

Eloá teve morte cerebral, mas é possível que nas mais de 100 horas de horror a que foi submetida, tenha notado que virou não “superstar do Notícias Populares” (Racionais), mas sim de uma série de meios que há vezes em que pensamos se o extinto espreme-que-sai-sangue não chegava a ser mais leve que aquilo que um coletivo de canais fez.

Vale lembrar que uma série de artigos existe no Código de Ética dos Jornalistas e que somos obrigados a levar em conta quando vemos tal espetacularização de algo que podia ter tido desfecho melhor. Seguem alguns, com seus devidos comentários:

Art. 6º É dever do jornalista:

II – divulgar os fatos e as informações de interesse público;

VIII – respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;

XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias;

Será mesmo que era de interesse tão público assim divulgar informações que ajudassem ao tal Lindemberg a se planejar? A quem interessaria saber que a polícia se dirigia ao local do crime? Creio que só mesmo a quem o perpetrava.

E a intimidade, a privacidade, a honra e a imagem de Eloá e Nayara, foram mesmo corretamente preservadas? Quantos comentários ouvimos a respeito da diferença de idade entre a hoje morta e seu ex-namorado? Foram comentários de pessoas que nunca viram a hoje morta mais gorda ou mais magra e que, mesmo que ela tenha sido refém, na prática o ocorrido não afetará diretamente suas vidas.

Eis que vimos também duas adolescentes de 15 anos (aqui, portanto, temos duas condições se cruzando) tendo suas vidas devassadas pela imprensa. Foi mesmo preciso saber que Eloá, quando aos 12 anos, namorava um cara de 20? O que muita gente deve ter pensado a respeito disso? Com certeza coisas não muito honrosas. E o que dizer da contínua divulgação do nome e da imagem das duas vítimas? Nayara sobreviveu, mas que ninguém duvide que ela precisará de um belo tratamento, tanto médico quanto psicológico, para tentar lidar com tudo a que foi submetida. Poderá andar pelas ruas e algo mais chamará a atenção que a marca da bala que recebeu. Onde quer que esteja, alguém lembrará dela como a garota que foi vítima do tal Lindemberg. Isso para não falarmos de comentários maliciosos a respeito de sua libertação e volta ao cárcere. Também não podemos esquecer que alguns inclusive se perguntam se não houve violação do Estatuto da Criança e do Adolescente a respeito disso tudo.

Segue mais um artigo:

Art. 7º O jornalista não pode:

IV – expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais;

V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;

Preciso mesmo comentar alguma coisa a esse respeito? Porém, deixarei aqui um parágrafo do mesmo artigo para que pensem se ocorreu ou não durante todo esse espetáculo dantesco:

IX – valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais.

Aqui também se articula com o que está acima uma parte do próximo artigo:

Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações:

I – visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica;

II – de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes;

Que ninguém aqui duvide que aqueles que falam “mas essa vaca não vai chorar?” durante programas do tipo “Esta é sua vida” tenham tido o mesmo tipo de “sensibilidade” quando do caso de Santo André. Aliás, meus caros, gente que, se não fosse comunicador, seria serial killer, é coisa que tem bastante na comunicação social. Pois é, uma comunicação que deveria ser social, está virando comunicação sociopata.
E seguem mais um artigo para que pensem:

Art. 13. A cláusula de consciência é um direito do jornalista, podendo o profissional se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios deste Código de Ética ou que agridam as suas convicções.

Parágrafo único. Esta disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para que o jornalista deixe de ouvir pessoas com opiniões divergentes das suas.

Fico aqui pensando sobre quantos foram cobrir a tal morbidez contra suas vontades, indo lá apenas porque se não fossem, seriam demitidos e, pior ainda, correriam o risco de nunca mais serem contratados por quem quer que fosse.

Aliás, este ano que se encaminha para o fim foi pródigo no que considero mau uso da mídia. Já comentei aqui sobre o caso Isabella e agora temos aqui o caso de Santo André. Também me pergunto sobre quantos mais Lindembergs teremos daqui para diante. E sobre quantos comportamentos de manada da mídia teremos.

Tarde de terça-feira, 15 de julho de 2008. O ônibus segue pela Rebouças rumo ao centro da cidade. Percorre o corredor e, em pé no degrau da porta traseira esquerda, o que vemos? Sim, ele, o leitor:

A foto está tremida e foi tirada com um celular, mas o escriba deste blog testifica e dá fé que o rapaz em questão tinha todo aquele jeito que só quem é das perifas paulistanas tem. Usava aquelas roupas chamativas e incrementadas que você precisa ser mesmo de lá para saber deixar tudo na maior das elegâncias. A camisa era de botão e preta, mas as costuras com um quê de desenhos tribais tiravam toda e qualquer sisudez da dita cuja. Isso para não falar da calça do mancebo, também bastante maneira. Um office-boy? Um auxiliar administrativo? Não saberemos ao certo.

E o que ele lia?

A) O Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, na edição da L&PM Pocket

B) Cigana do Amor. Trago seu (sua) amado(a) em três dias. Pagamento depois do resultado.

C) O Doce Veneno do Escorpião, de Bruna Surfistinha

D) Algum folheto de orientações sobre equipamentos de segurança

Já chegando perto do ponto final, ele pôs o que lia no bolso e desceu na altura da esquina da Paulista com a Consolação. Talvez trabalhe lá ou talvez fosse aproveitar o Bilhete Único.

Impressionou-me o quanto ele estava compenetrado no assunto. Passava longo tempo em uma mesma página, destrinchando aquilo que estava em suas mãos. Era cara bem atento mesmo.

E aí, já descobriu o que ele lia? Segue a resposta abaixo:

Opção A

Sim, isso mesmo. Ele lia uma obra histórica e de importância fundamental para entendermos o que ocorreu do século XIX em diante. Lia sem maiores problemas, prestando bastante atenção aos tão intrincados textos, ainda que feitos para uma massa proletária ignara do século retrasado.

Esqueceram de avisá-lo que não pode ler essas coisas, pois é “o leitor” e dele só se espera que leia e compreenda qualquer coisa até o tamanho do letreiro do ônibus em que estava. Já na imprensa, esqueceram de avisá-lo que ele só pode ler textos curtinhos, mastigados, anódinos ao extremo e que forrarão gaiola de passarinho quando o dia terminar. Avisem também que ele não poderá ler qualquer coisa que tenha ordem passiva e que terá de cantar o Virundum sem ter a menor idéia do que é anacoluto e outras figuras de linguagem. Obrigado.

Por acaso esta menina merece ser bucha de canhão para enriquecer cofres de gente que fatura sobre sua morte falando dela diuturnamente?

Ninguém aqui quer que as investigações sejam suspensas ou esquecidas, mas também não queremos a espetacularização que se promove em cima dessa menina cuja morte, de fato, foi bastante atroz.

De dia, de tarde, de noite e de madrugada, somos bombardeados com notícias desse caso. Porém, qual a relevância dessas notícias? “Alexandre Nardoni bebe água”, anuncia o meio X em letras garrafais. “Ana Carolina Jatobá pede uma pizza meio margherita, meio frango com catupiry”, diz o meio Y. E no canal de TV, uma manchete bombástica que você não pode perder: “Pai de Alexandre espirra compulsivamente perto de um jardim florido”.

Alguns dirão que é isso que o leitor, o ouvinte, o telespectador ou o internauta querem. Porém, querem fazer parecer crer que estão na sua prerrogativa de meio informarivo, escondendo, como alguém esconderia um elefante debaixo do tapete, que apelam para suas sensações com o simples intuito de ganhar mais audiência ou tiragem, ambas por sinal bastante voláteis.

Além disso, pensando no tempo de um programa de TV, no número de páginas de uma revista ou terminal ou em quantos gigabytes tem um servidor, já pararam para pensar o quanto de notícia de fato não se tornou de conhecimento público para dar espaço para detalhes sem importância do caso?

É natural que assassinato de criança gere comoções. Porém, quantas outras crianças foram assassinadas entre 29 de março e a data em que esta postagem foi publicada e que não tiveram sequer um minuto de notícia? Quando muito, viraram estatística de delegacia e olhe lá.

Isso me faz lembrar também as duas semanas que passei na Flórida no começo de 1995, quando ainda era um adolescente. Ligava a TV e o que mais se via era falarem do caso O.J Simpson. Ligasse a TV, passasse o canal e só se via o senhor Orenthal James e o assassinato de sua ex-esposa Nicole Brown. Em duas semanas por lá, sabe qual foi a única notícia que tive do Brasil? A contratação de Romário pelo Flamengo. E só. Isso para não falar de notícias que interessariam aos próprios americanos e estavam sendo deixadas de lado para falar que o ex-jogador de futebol americano fez o importante ato de pôr uma moedinha em uma máquina de refrigerante e pegar uma Coca-Cola, algo que, como sabemos, é de extrema importância para a vida de todos e ninguém conseguiria dormir sem tal coisa.

Ele também tomou um belo tempo do noticiário americano. E também indiretamente tomou um belo tempo daquelas notícias que de fato afetam a vida das pessoas

A exploração em cima do caso O.J Simpson chegou a tal ponto que houve hora em que as próprias emissoras de TV pararam voluntariamente de exibir notícias a respeito do caso, de tão saturado que o público e suas grades de programação estavam. Chegou um ponto em que se via como selo a ser exposto atrás dos apresentadores uma foto do cara e os dizeres “No More O.J”.

E, claro, nem é preciso parar para pensar se os ocorridos com O.J Simpson e Isabella Nardoni obrigatoriamente mudam de fato a vida de um entorno maior que o dos envolvidos. Aliás, tenho cá minhas suspeitas de por que a pequena acabou sendo a bola da vez e isso envolve muito mais que um caso de infanticídio. Envolve questões de classe social, lugar onde foi praticado o crime, bem como a relativa assepsia da coisa toda. Não foi um crime em que alguém teve a cabeça esmigalhada por um balaço e que a simples veiculação das imagens gera asco e comoção pela memória do morto sendo tão acintosamente desrespeitada.

Portanto, dá até para traçar um paralelo entre a maneira como vêm abordando o caso Isabella e aquela como a grande mídia vem abordando a guerra do Iraque. Por acaso se lembram de verem cadáveres em Bagdá depois de tantas bombas caídas do céu e milícias se enfrentando na rua? E por acaso se lembram de alguma parte do inquérito de Isabella ser mostrada mais explicitamente? Claro que não, afinal, isso faria com que a audiência se manifestasse negativamente e notasse que vem sendo continuamente explorada na comoção que de boa fé têm ao verem um caso desses.

Tudo bem que, tirando o sensacionalismo, parece que a mídia aprendeu bem com os erros do caso Escola Base, à exceção de uma ou outra coisa. Porém, continua o equívoco de se dar a um caso de homicídio desses uma repercussão que não tem se analisarmos mais na real. Mais uma vez, pergunto-lhes quantas crianças morrem assassinadas em São Paulo a cada mês e que nem de longe seus casos têm a mesma repercussão. Por que será isso? Porque aí teriam de falar mais aprofundadamente de coisas que vão além da simples psicologia ou investigação criminal? Teriam de chocar o público mostrando que nem todas essas crianças moravam em um imóvel decente como o apartamento da pequena? Afinal, como sabemos, a visão de um barraco mal-construído é muito mais assustadora que a de um prédio bem feitinho, assim como a rua de terra com esgoto aberto choca a vista enquanto um asfalto bem assentado nem de longe gera tal sensação.

Que cenário te prende mais a atenção para o assassinato em si? Este acima?

Ou este aqui?

Não duvidarei que parte da comoção artificialmente gerada sobre o caso Isabella venha também da mente de alguns capi dos meios de comunicação. Analisando friamente a notícia, vejamos que há muito menos elementos de desvio de atenção no assassinato da menina do que haveria no assassinato de outra menina de mesma idade em uma bocada qualquer. Diriam eles, ainda que não assumidamente, que um corpo caído em uma perifa qualquer não tem o impacto que vem tendo a pequena Isabella. Afinal, o cenário de fundo acaba tirando parte do destaque ao protagonista da história. Afinal, o que é aquele esgoto a céu aberto correndo do lado do cadáver? E aquela casa que está quase para cair? E aquela mãe lotada de filhos, todos eles bem desnutridos? E o que dizer daquele Gol estacionado na rua com um adesivo gigantesco nos vidros fumê? Muitos detalhes para prestar atenção, não é verdade?

E lhes garanto que essa análise fria não é tão fictícia assim quanto parece. Conheço casos de programas de TV estilo “essa é sua vida” em que o diretor ficava gritando no ponto eletrõnico para quem apresentava coisas como “mas e aí, essa vaca não vai chorar?”. Sim, isso mesmo que estão lendo: a mulher se emocionando, mas sem chorar, algo que pode acontecer com várias pessoas, sem que isso signifique que elas são frias sociopatas que falam de suas maldades como falariam onde é uma rua.

Aliás, já que falamos de padrões midiáticos, pararam para notar que na TV, mulher do povo sempre tem uma voz esganiçadinha, como se ao ouvir uma, tivéssemos ouvido todas as outras? Mas será mesmo que toda mulher do povo tem esse timbre de voz ou não existem aquelas que teriam uma voz mais ou menos parecida com a de Ivete Sangalo ou Zélia Duncan?

Portanto, meus caros parcos leitores, vou lhes sugerir que mudem de canal sempre que aparecer algo sobre Isabella. Sei que é difícil, até pelo apelo às sensações meio que compelir automaticamente a ficar vendo, mas parem para pensar se saber ou não disso irá mesmo mudar suas vidas. Aliás, o que de fato muda em sua vida a presença ou não de Isabella neste plano, caso você não seja amigo, parente, vizinho ou professor dela? Não quero aqui dar uma de pessoa fria, até porque já tive gente querida assassinada por um trio de assaltantes, sendo que o único sobrevivente dos meliantes, para variar, era dimenó. Chegou até a aparecer em alguns programas da TV no dia do ocorrido. Filmaram até a fachada da casa. Porém, a viúva não deu muita trela para a mídia. Recusou-se a emprestar uma foto para que jornais, revistas e televisão ilustrassem. O resultado é que provavelmente nenhum de vocês deve se lembrar do ocorrido, que foi em janeiro de 2004. E não duvidarei que em muitas emissoras e jornais, tenhamos ouvido certos superiores falando sobre a viúva palavras tão “abonadoras” quanto as do diretor do programa de TV no ponto eletrônico. Porém, ela e seus familiares conseguiram ter um pouco de paz em suas vidas, bem como o caso foi igualmente investigado e constatou-se que de fato, o trio era mesmo de assaltantes sem relação alguma com a vítima ou sua família. E o dimenó, garanto-lhes, não era nenhum coitadinho. Aliás, era até primeiro-anista de curso de Direito e, portanto, com 17, quase 18, quando do acontecido.

Enquanto gasta-se muito tempo para falar de insignificâncias sobre o crime em questão, gasta-se muito pouco tempo para se falar da carestia mundial dos alimentos. E o que me diz da questão das muitas mortes diárias do trânsito? Ah, isso não aparece, pois forçaria até mesmo os jornalistas a pensarem um pouco em cima. E pensar dói para alguns colegas de profissão.

Por fim, alguns virão aqui dizer que estou querendo faturar em cima do ocorrido, ao que respondo que este blog é apenas e tão somente sobre a imprensa e a maneira como ela trata o leitor. Pararam para pensar um pouco se não estão sendo tratados como incapazes que reagem com o fígado quando lhes bombardeiam com notícias sobre o tal caso? E a troco de que dão tanta audiência? Aliás, aviso que esta será a primeira, última e única vez em que abordarei este assunto por aqui. Afinal, se quero que parem de urubuzar tanto o cadáver de uma menina até por respeito a sua memória…

O repórter segue seu caminho. Está em um carro indo para entrevistar a fonte. Está animado, pois o assunto é muito interessante e vale mesmo passar uns minutos com a pessoa a ser indagada. Seus olhos verão ou não aquilo sobre o qual leu.

O trânsito está razoável. Muitos carros, mas eles andam em velocidade constante. O motorista habilmente desvia dos pés-de-breque e já está perto de um trecho mais veloz de pista. De lá até o destino, é só questão de minutos.

Toca o celular. Da redação, pedem que o repórter vá urgentemente, pois sua presença é necessária naquele momento. Faça a entrevista por telefone.

Pede o repórter para o motorista dar meia-volta. Porém, ele já desconfia que há algo estranho no pedido. Afinal, a maioria de suas pautas já foi cumprida. O que será que de tão necessário seu superior necessita para que seja descumprido um horário já marcado antes?

Chega o repórter desconfiado à redação e pergunta o que ocorre. Pedem-lhe que revise as provas de textos que serão publicados, mas enviados à gráfica apenas no fim do dia. Era algo que podia perfeitamente ser feito assim que ele voltasse da entrevista in loco. Chateado e soltando fogo pelas ventas, o repórter ainda diplomaticamente liga para a fonte passando um recibo qualquer de que não pôde ir lá, falando com a voz mais simpática possível. Nota-se na fonte também um ligeiro estranhamento.

Termina o expediente e volta o repórter para casa. Grita e esbraveja em um canto só seu tudo aquilo que não pode falar abertamente na redação. Xinga o editor obtuso. Não quer mais voltar àquele antro que o limita de todos os jeitos, tanto profissional quanto pessoalmente. Não quer mais ver aquela gente rasa e vazia a quem chama de colegas. Mas queria falar tudo isso e não o faz porque sabe que teria o bilhete azul e imediatamente alguém ocuparia sua vaga, talvez até fazendo mais conformistamente seu trabalho.

Profissional, ele faz a matéria com uma entrevistinha mixa por telefone. Ele sabe que sairá um lixo e não faz muito caso de melhorar esse lixo, pois já esteve com o diamante bruto próximo de suas mãos, mas o dono do garimpo o tirou de lá na hora em que via o brilho da pedra de alto quilate.

Sai a matéria publicada. Muitos leitores, sem se darem conta, pensarão que o repórter esteve mesmo lá. Mal sabem que estão sendo enganados. Porém, sabe o repórter que está a contragosto enganando aqueles por quem tem consideração.

Esta postagem talvez fale mais alto para quem for jornalista ou estudante e, mais ainda, viva o cotidiano das redações.

Já pararam para pensar que o oleitorismo é uma das piores formas de preconceito que existe? Pior porque perversa, ao generalizar o conjunto do qual cada um de nós faz parte e criar uma figura que nenhum de nós é ou será. É também o mais democrático dos preconceitos, atingindo as pessoas independente de cor de pele, sexo, crença ou outras qualidades alvos de discriminação. Eu sou “o leitor”, você é “o leitor”, meus colegas de profissão são “o leitor”. E no caso dos jornalistas é ainda pior, pois quando dizem que o leitor não entende ou não se interessa por determinada coisa, acabam dizendo que eles também não se interessam por ela ou, pior ainda, dizendo subliminarmente que eles próprios, jornalistas, não se interessam por aquela coisa.

É forma de censura velada. Imaginem se você quisesse porque quisesse ver naquilo que lê uma matéria sobre um assunto que muito se interessa, por gostar daquele meio e da maneira como aborda um assunto. Você chega até a mandar uma mensagem para a redação falando do assunto. Porém, é muito provável que olhem para ela com desprezo e sequer abordem na reunião de pauta. Por quê? Porque, como sabemos o leitor não se interessa pelo assunto. Mas peraí, você não é o leitor? Então como ousou ter interesse? E por que quis romper isso? A punição não é pau-de-arara, nem choques nas partes íntimas ou empalamento. É a continuação dos textos que te tratam como criancinha, dos títulos óbvios e das fórmulas mais que batidas.

E pode acreditar que sofrimento não gera revolta, mas apatia. Sim, meu caro, para qualquer um aqui, jornalista ou leitor. Ao jornalista, quando se cansa de bater de frente e começa a ficar quietinho, uma vez que precisa manter o emprego e a sanidade mental fora do trabalho. Afinal, nessa lógica, não vale a pena ficar batendo de frente quando o assunto é levar comida para casa. Também não valerá a pena ficar discutindo com o colega obtuso na parte de cima da cadeia hierárquica, pois ele continuará obtuso e, se não o for, é muito provável que seja subordinado a um obtuso. E que poder tem esse alguém quando não é dono do meio e muito menos tem possibilidade de ascensão, uma vez que lhe falta obtusidade?

No caso do leitor, ele continua a adquirir informações por aquele meio sem questioná-las por saber que os outros também o tratarão de forma mais ou menos semelhante. E em certa parte, por haver dinâmica semelhante à do vício. Alguém já conversou com um fumante inveterado sobre os malefícios de seu hábito? Nem é preciso dizer que ele vai querer ou mudar de assunto ou brigar contigo. No caso do leitor, não chega a esse ponto, mas há o lance de a cabeça ser moldada por aquele meio, a ponto de ele ficar ligeiramente cego para o que há lá fora.

E vício também há nos jornalistas oleitoristas, uma vez que fecham para si que quem os lê é de um determinado jeito e qualquer coisa que significar uma mudança tem de ser punida sumariamente, isso se não significar soltar os cachorros para cima de quem a propôs. E garanto que os oleitoristas são muito, mas muito difíceis de serem convencidos do contrário. Tornaram-se algo tão orgânico dos meios que parecem viver em simbiose com eles.

Também noto uma certa ligação desse preconceito democrático com os preconceitos que atingem grupos específicos. Alberto Dines explica isso melhor do que ninguém:

A idéia de que leitoras só se interessam por superficialidades e mundanidades é terrivelmente injusta e preconceituosa, porém condenada à clandestinidade – tabu. Nenhuma jornalista ou colunista ousaria propor uma discussão sobre o assunto numa reunião de pauta. Nenhum jornal ou revista encomendaria uma sondagem a respeito. E, no entanto, quando as tiragens começam a cair a solução mais comum é apelar para a mulher e insistir na tal da “leveza”.

Sim, a apatia gerada pelas estruturas que insistem em ter uma visão de mundo gestada na redação e que o exterior só serve para que ela seja confirmada, independente se contestada na primeira esquina, chega a um ponto que se torna algo sobre o qual não se deve falar, sob pena de quem ousar fazer isso ficar marcado pelos outros. E é mancha praticamente indelével, pois poderá significar a inempregabilidade do jornalista no futuro próximo, caso queira uma determinada vaga. E como já dito antes, jornalista é um trabalhador como outro qualquer, que usa suas capacidades para conseguir uma remuneração que lhe garanta vida minimamente digna.

Diga diretamente que X é burro, idiota e cretino por ser X e ganharás um processo daqueles por preconceito. Porém, diga que o assunto Y não interessa a X porque ele enquanto leitor não quer saber dessas coisas e dirão que você é o melhor jornalista e preocupado com as demandas e necessidades de X. Porém, perguntaram mesmo para X?

Obviamente, ninguém aqui nega a necessidade das pesquisas para saber o perfil médio de quem lê determinado meio. Porém, o que registram se não uma média? E a média obrigatoriamente significa algo que deva ser seguido a ferro e fogo? Obviamente não.

A estatística é apenas uma orientação. Ela não abrange em seus números a realidade de ninguém em especial. Portanto, sendo ninguém em especial, não há como se querer que seja alguém, e muito menos o misterioso leitor. O leitor sou eu, é você, é cada um que lê este e outros textos.

Claro que não há como se saber quem é cada um que lê, mas também não dá para se presumir que sejam, sem exceção, incapazes e que não se interessem por este ou aquele assunto. Portanto, muito limitado fica o jornalista por não ter como saber o que quem o lerá quer exatamente.

Portanto, querer achar algo pela estatística é meio que presunçoso. O leitor não quer saber desse assunto? Por quê? Quem falou isso? A estatística? Mas a estatística é tão rainha assim? Claro que não. Será mesmo que quem disse tal coisa foi alguém que acha que outro alguém não vai querer tal coisa? E por que esse alguém acha isso? Será que possui subsídios tão consistentes para essa conclusão? Estatística não é uma prova tão firme assim.

Tanto a estatística não é absoluta em suas conclusões que muitos dos maiores fracassos da história da indústria foram feitos inteiramente de acordo com o que os estudos diziam ser o quente para aquele público naquele momento. O mesmo vale para o jornalismo. É só ver quantas publicações foram para o vinagre mesmo estando de acordo com o que dizia o estudo.

E cada vez mais, vemos a internet provar isso. Coisas que jamais passariam da porta do prédio vão ganhando espaço. Disseram uma vez que o brasileiro não se interessa por times e jogos de divisões inferiores. Criaram os Jogos Perdidos, que inclusive já foi quadro do programa do Vanucci na RedeTV! e hoje tem programa fixo no canal virtual ClicTV.

A despeito das piadinhas que sempre são geradas quando falamos de nosso vizinho de fronteira, em alguns detalhes o Paraguai supera em muito o Brasil.

Um deles é o aprofundamento da mídia. E olha que falamos de um país tão pobre quanto o Brasil e talvez com gente tão ou mais maciçamente ignorante que a nossa.

Abra um caderno de esportes por lá e vai tomar um susto de ver que todas as divisões, sem exceção, têm cobertura pela imprensa de lá. E mais que isso, há tabelas e mais tabelas dos campeonatos. Ué, mas não é o leitor que não se interessa por essas coisas?

E olha que falamos de futebol, pois como sabemos, na política, as coisas são um tanto mais passionais na América que fala espanhol…

Alberto Dines levantou uma lebre interessante: a parte que cabe à mídia no latifúndio da má educação. Mais ainda, falou sobre a qualidade de texto a que nossas crianças estão sendo submetidas.

Se a mídia trata adultos como criancinhas incapazes de compreender o que lá está escrito, como será que está tratando dos futuros leitores?

Vale lembrar que, ao menos em jornais, é sim bom contemplar todas as faixas etárias, dentro da história de captar leitores desde cedo e garantir a sobrevivência a longo prazo. Mas a que custo?

Como sabemos, já é algo mais ou menos difundido usar revistas e jornais no processo educacional. Em lugares que aplicam bem o processo, os pais chegam a ter o espetáculo de ver seus pequenos chegarem pedindo mais informações a respeito de notícias que normalmente só adultos se interessariam. Às vezes, até os pais se embaralham um pouco, principalmente quando o assunto envolve bolsa de valores, economia, essas coisas.

Quando adolescente, era ávido leitor do Zap!, o caderno do Estadão para essa faixa. Era um caderno bem legal, ainda que com seus vícios (como contemplar em matéria de música quase que apenas o rock, e quase que apenas o indie), mas era algo que lia sentindo-me respeitado. Por muito tempo dava para ver que os caras acertaram a mão. Porém, com o passar dos anos, já na época em que era meio grandinho para ler esse tipo de suplemento, ele foi reduzindo, reduzindo, até se tornar uma seção de duas páginas em um dos cadernos e depois acabar. Tudo bem que eram tempos de passaralhos, como foram todos os primeiros anos da décda de 2000. E, de fato, muitos suplementos de jornais e revistas de editoras foram extintos, isso para não falar de sites.

Tudo bem que jornal e revista não são nem devem ser obrigados a ensinar qualquer coisa, pois não é função deles e qualquer pretensão nesse campo é cair em oleitorismo. Porém, não caberia a eles pensarem um pouco mais nesse tipo de leitor? Como o próprio Dines disse, é de se perguntar se estimulam a reflexão. E no caso das crianças, elas são mais espertas do que supomos. Vejam, por sinal, que as vendas de livros infantis costumam ser maiores que as dos livros para adultos. Também temos em nossa história uma série de autores que escreviam livros para adultos e passaram por completo para a literatura infantil, muitas vezes fazendo maior sucesso do que quando escreviam para os pais daqueles.

Qualquer pessoa com cabeça sabe que tratar uma criança com carinho, sem esquecer de chamá-la a sua responsabilidade, é a forma que se tem de termos um adulto sem maiores complexos. E por que não cobrar isso daquilo que ela lê?

Antes de tudo, leia este texto antes de ler este. Leu? OK, podemos então começar a falar por aqui.

Como podem ver, Luciano Martins Costa desce a lenha na imprensa brasileira como um todo. Não fala nomes dos faltosos, até por saber que é fenômeno generalizado nas redações locais.

Observem um detalhe importante: o site de um movimento, que tem obrigatoriamente um viés mais tendencioso, uma vez que precisa defender uma tese, fala de um assunto com mais detalhes e profundidade do que a imprensa brasileira em geral. Sim, isso mesmo que estão lendo: se estão querendo ler algo interessante, terão de se dirigir a vieses teoricamente viciados na origem, pois estes são mais inteligentes que os supostamente isentos e que vêem os muitos lados da questão. E isso é problemático.

Assim como boa parte de nossos jornalistas têm cabecinha de linotipo e insiste em usar pirâmide invertida nos tempos da composição eletrõnica, a imprensa em si não avançou no debate dos assuntos mais corriqueiros, envolvendo ou não política.

O cara fala de coisas interessantes, como a obsolescência dos discursos direita X esquerda e do quão reféns ficam os leitores que querem debater e não conseguem aprofundar um assunto.

O cara versa sobre vários assuntos, como a caixa-preta do sistema bancário da Suíça e a ação de estado que transformou Espanha e Portugal em países de Primeiro Mundo e a não-comparação que a imprensa pratica quando o assunto é falar de ações parecidas na América do Sul. Não entrarei aqui em méritos políticos, até porque este blog fala sobre a postura da imprensa em relação às capacidades do leitor. Deixarei que os que analisam a imprensa sobre o viés político façam essa parte, pois creio que farão melhor que eu.

Analisando sob a ótica deste blog, posso falar sobre os tais textos superficiais, não só sobre assuntos do dia-a-dia, mas também na imprensa especializada. Na automotiva, quando se ouve de jornalistas que “o leitor nem sabe quais as rodas que tracionam determinado carro”, isso é ser superficial. E quem perde, se não o leitor, que não terá substratos adequados?

“Ah, mas o leitor não entende essas coisas. Imagina se eu vou pôr um professor da USP na minha matéria? O cara vai falar um monte de coisa complicada e a maioria não vai entender nada” cai na mesma esparrela. Dá para se falar do buraco na rua, sim, mas se você falar que buracos na rua são causados da base sobre a qual o asfalto é aplicado, você está aprofundando adequadamente. Se você mostra a comparação da vida média do asfalto na Europa (40 anos) com a do Brasil (10 anos) e que lá na Europa usam mais camadas de areia e brita antes de pôr o pretinho propriamente dito, você está se aprofundando no assunto. E todo mundo entende direitinho que mais camadas significam mais proteção contra intempéries. Senão, ninguém mais caprichoso daria duas ou três demãos de tinta em uma parede, pois seriam absolutamente desnecessárias.

Por isso, não duvido mesmo que o superficialismo na imprensa brasileira esteja ligado diretamente ao fato de ela não se aprofundar nos assuntos. Pare para pensar agora em quantos textos no seu jornal ou revista preferido te prendem realmente a atenção, uma vez que foram feitos de uma forma diferente e ao mesmo tempo envolvente. Quer um minuto para pensar? 60, 59, 58… Pensou agora? Agora diga-me um texto que você se lembra e que está escrito em pirâmide invertida ou efeito champanhe. É só ir no bate-pronto e pousar o dedo em qualquer página, seja física, seja de internet, pois é uma porrada deles.

E um texto bem escrito também estimula a inteligência do leitor. Ele pode até não entender em um primeiro momento, dependendo do assunto. Motivos para celeuma e falar que não se pode escrever nada por ele não entender? Não, até porque cada leitor é um, com um conjunto de fortes e fracos diferentes. Porém, se o assunto interessou ao cara por estar em um texto bem escrito, ele fará questão de ler de novo. E até reler mais outras tantas vezes no mesmo dia. Porém, o texto bem escrito o capturou. E não é uma isca industrializada que tem de ser criada de uma maneira padronizada porque é daquele jeito que uma determinada espécie de peixe vê. Estamos falando de gente. E gente gosta quando nota que se pôs um talento em cima. E é o talento em cima que também puxa gente para um determinado assunto.

Sim, o leitor entende até mesmo o que é a teoria das cordas espaciais e a matéria escura que domina o universo. E também se interessa muito sobre ela. Basta escrever de maneira que o prenda àquelas linhas em um espaço predeterminado. E durante essa prisão, você o vai informando de maneira a ele nunca mais esquecer…