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Esta notícia vem dando o que falar nos muitos grupos de discussão da internet. Hoje, eu a recebi por e-mail e sou obrigado a comentá-la, pois é de uma leveza total. Espero que quem escreveu a dita cuja esteja lendo esta postagem e venha comentar aqui, assim como fez o colega Geneton quando falei da dele.

Como já disse em outras ocasiões, o jornalista brasileiro tende a ser sisudo e chega a um ponto de se fechar exclusivamente no assunto do texto a ponto de boa parte das matérias serem extremamente enfadonhas. Não é o caso desta.

Eis que o Santos está para contratar o meia Bolaños, hoje na LDU, campeoníssima da última Libertadores. Um jornalista que olha o leitor como mentecapto presumido até lembraria que é o sobrenome do Roberto que nos deu ao mundo o Chaves e o Chapolin. Aliás, a história do criador do programa Chespirito é pra lá de interessante e muitos comparam o mexicano a nada mais nada menos que Charles Chaplin.

Mas voltemos ao equatoriano e à postura vigente em boa parte do jornalismo brasileiro. Diriam algo como “ah, mas você tem de lembrar que nem todo leitor gosta de Chaves ou Chapolin. Falar disso pode espantar muita gente do assunto tratado”. E lá iria o jornalista escrever algo como “o Santos quer contratar o meia Bolaños, da LDU e blablablá (bocejos)…”. Você noticiou direitinho, mas garantiu também que sua matéria vá embrulhar peixe ou forrar gaiola de passarinho no dia seguinte.

Já a do Lance! vai ser lembrada daqui a dezenas de anos, tal como até hoje são lembrados os episódios do Chaves e do Chapolin e tal qual vemos camisas e mais camisas com a estampa de Seu Madruga (eu tenho uma também). Vejam que sutileza na hora de comparar os dois Bolaños:

O mais novo reforço do parceiro do Santos, o Grupo Sonda, tentará ser o segundo Bolaños a fazer sucesso no Brasil. O jogador, contratado nesta sexta-feira junto à LDU, tem o mesmo nome do criador e ator dos seriados mexicanos Chaves e Chapolin, Roberto Bolaños.

As duas séries, apresentadas pelo SBT, tiveram o ator como protagonista, já o meia, liderou a LDU na conquista da Copa Libertadores e tentará o mesmo sucesso com a camisa do Santos, que já tem Madson e Lucio Flavio no meio-de-campo.

Claro que até santista fanático deve ter caído no riso e imaginado Madson e Lucio Flavio caracterizados como Seu Madruga, Kiko, Nhonho e outros personagens. E deve ter caído no riso que é uma beleza. Como corinthiano que sou, também caí no riso, ainda que confessadamente, tirando uma certa troça. Claro que o Timão também teve jogadores bizarros e é bem viva em minha memória a zaga de 93, com Baré e Embu, ruins que só, mas que não deixavam passar nem vento naquele Brasileirão que deveria ter ido para o Parque São Jorge.

Santos é cidade praiana e tem muitos turistas. Porém, o mais famoso dos Bolaños esteve na praia e é muito lembrado por causa disso. Será que o equatoriano também será? Vejamos qual o prognóstico do periódico esportivo:

Chaves foi a Acapulco, já Bolaños, está perto de se firmar no litoral paulista. A diretoria santista ainda não o confirmou como novo reforço, mas o jogador já está confiante de que poderá passar a temporada perto da praia.

E o que dizer do quase rebaixamento do time da Vila Belmiro no Brasileirão de 2008, bem como o drama que isso ocasionou?

O meia chegaria ao clube para apagar a má campanha do ano passado, coisa que nem o Chapolin conseguiria evitar. O time lutou contra o rebaixamento até a penúltima rodada do Campeonato Brasileiro e se livrou após dois empates por 0 a 0 seguidos, contra Atlético-MG e Náutico. Falta de astúcia parecida com a do herói de vermelho e marreta biônica.

Sim, mesmo quem odeia o Chaves e adora o time do Pelé em contexto fanático religioso caiu no riso ao ver a comparação das situações. Aliás, talvez o Chapolin, se jogador de futebol fosse, usaria pílula de nanicolina e tentaria reverter o efeito quando estivesse na grande área, para ser o fator-surpresa do time.

OK, pode haver algum torcedor mais fanático que o mais fanático dos integrantes da Al Qaeda (se bem que isso existe em tudo quanto é time) e este poderia roubar um teco-teco e espatifar contra a redação do Lance! só para fazer uma maquete daquilo que vimos em 11 de setembro de 2001. Assim sendo, que façamos um meio-de-campo com os caras e os façamos terminar o dia felizes:

Mas o Santos trabalha para que o clima neste ano seja de alegria, como o da vila em que o barril de Chaves se situa. Só que a Bruxa do 71 está na lateral direita, onde o Peixe só pode contar com Luizinho. Antes que o setor comece a assombrar, como faz a vizinha, a diretoria busca alternativas. A última foi o ala Vitor, do Goiás.

Quantos aqui devem ter imaginado o tal Luizinho caracterizado como a dona Clotilde? Olha, terei de procurar uma foto do cara para imaginá-lo com um chapéu antigo e um birote, mas já o estou imaginando previamente. E, claro, o cara que planejava o tal atentado já deve ter caído na gargalhada e desistido de tal atrocidade.

Pergunto-lhes: o fato de fazer um paralelo tirou a força do conteúdo informativo da matéria? Acho que não preciso responder o que acho. E vocês, o que acharam?

Em tempos: o Bolaños da LDU chama-se Luis. Ao ver o link da matéria, vi que tinha uns corneteiros de plantão xingando o cara. OK, há pessoas que são pessimamente humoradas mesmo, mas será que o jornalista quer mesmo esse tipo de leitor quando está falando de esportes? Já disseram que o futebol é, das coisas menos importantes, a mais importante. Fico aqui pensando com que cabeça vão esses que chiaram com o texto em questão.

Infelizmente, vi gente que é tão ou mais blasé que a jornalistada que os acha idiotas a princípio. OK, há um certo grau de fanatismo em alguns comentários, mas mesmo assim, a matéria conseguiu o mais importante de tudo: não deixar ninguém indiferente.

PS: Aceito comentários que discordem da tal matéria, contanto que sejam respeitosos e falem totalmente da matéria. Qualquer argumento ad hominem, seja contra o escriba deste blog, seja contra o cara que escreveu a matéria não será publicado. O mesmo vale para aqueles que vierem com alegaçõezinhas batidas de que o Lance! seria jornal deste ou daquele time, posto que desprovidas de bases e provas sólidas. A eventuais fanáticos quase al-qaedistas como uns que vi na lista de comentários do link da matéria, aviso que os comentários aqui são pré-moderados, seus IPs aparecem aqui e fica relativamente fácil para saber quem são, em qualquer coisa. Comentaristas que sejam minimamente gente, podem ficar à vontade neste espaço, que também é de vocês.

PPS aos corneteiros sem-humor de plantão: vocês ficarem reclamando de tudo quanto é matéria diferentinha que se faz é uma das causas dos textos enfadonhos que vemos em boa parte da imprensa brasileira. Parem de reclamar e verão outros textos interessantes ganharem espaço e o prazer de ler uma boa matéria retornar.

O trabalho dos coveiros é isso. Imagine isso sendo feito em tudo aquilo que você usa para se informar.

Nesta semana, o repórter Geneton Moraes Neto escreveu um artigo pra lá de interessante em seu blog. Ao ler o dito cujo, realmente não pude deixar de me identificar, e muito, com o que ele diz, até porque é a tecla na qual bato neste blog desde o ano passado.

De fato, muito dos jornais e revistas que lemos por aí te forçam a se perguntar em que realmente te acrescentam na vida. Até acrescentam alguma coisa, como se pode ver na verve irônica do cara:

Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de “crise econômica”, eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.

De fato, certos jornais são sim mais baratos do que uma capa de chuva. Recentemente, fui a um show ao ar livre e caía um toró daqueles e pude ver que preço cobravam pelas ditas cujas.

Aquela sensação de que lemos um mesmo jornal, independente de onde estivermos e que jornal lemos, também foi esmiuçada pelo cara, como se pode ver aqui:

O jornal é de São Paulo. Poderia – perfeitamente – ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro. Eu disse “notícias interessantes”? Em nome da verdade, retiro o que disse.

Também admirei a sinceridade do Geneton ao falar que não é um desses que lê um trilhão de jornais por dia, como muitos jornalistas por aí dizem fazer e nos obrigar a fazer contas sobre quanto tempo demora para ler cada um dos jornais e ver qual a porcentagem do dia que foi ocupada para cada um.

Ele também fala sobre o clima de certos jornais tratarem as notícias ocorridas no ontem a que predominantemente se referem como se fosse uma novidade, bem como fazendo exatamente aquilo que a TV e a internet fizeram já naquele ontem.

E Geneton acaba por resvalar no assunto principal deste blog, mesmo que sequer saiba de sua existência: o tratar o leitor como se fosse alguém permamentemente em coma desde o dia em que nasceu. Geneton, aviso que já dei umas corrigidinhas bem de leve, mas que não alteram o sentido de seu texto. Cacoete de revisor:

Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pelo mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo? Em que planeta os editores de primeira página vivem? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página?

E já que grandes impérios não caem por causa de inimigos externos, mas por fraquezas internas, ele levantou uma boa lebre: a de que certos editores agem assim por na realidade terem medo do fim do jornal impresso, não por obsolescência do tipo de mídia, mas pela maneira como estão sendo feitos.

Em minhas andanças jornalísticas, vi gente exatamente deste jeito que o repórter descreve:

Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.

E que ninguém duvide de sua existência. Ao jornalista que duvidar, que escreva um titulinho mais interessante ou um texto mais envolvente para ver o tipo de resposta que terá invariavelmente termos como “o leitor”, “nosso leitor”, “nosso tipo de público” e assemelhados, sempre jogando a todos nós, que somos leitores, lá no chão, como pessoas plenamente incapazes das coisas mais simples da vida.

Geneton também falou uma legal sobre aquela sensação de vermos muitas pessoas, mas parecer que vemos a mesma pessoa em tudo que é lugar, tal qual um agente Smith de Matrix:

Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.

Sim, a Grande Marcha dos Fatos tem de ser mesmo referida dessa maneira, pois é épico sim fazer um produto de comunicação, que nem precisa ser grande ou dos mais famosos. E os fatos, queiramos ou não, acontecem, cabendo aos jornalistas abordarem da maneira que mais faça a pessoa ler e guardar em sua mente aquilo que está sendo noticiado.

E quando você chega com uma sugestão de matéria das mais interessantes e imediatamente jogam aquele balde de água fria usando das afirmações mais esdrúxulas possíveis? Sim, Geneton também fala e, pela quantidade de vezes que usa a expressão “chata” para se referir à imprensa, não é preciso dizer o quanto que essa mentalidade está entranhada no Brasil. E ele também lembra que a regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.

O jornalista, que como qualquer ser humano precisa ganhar seu sustento, sente-se tolhido de fazer o trabalho do jeito que gostaria de fazer e acaba aceitando ter sua criatividade reprimida e sugada justamente por muitas vezes reportar-se a um desses tais “coveiros” a que ele se refere.

E você, como tem consumido os produtos jornalísticos? Se é que vem consumindo. Se não vem, ninguém irá recriminá-lo por tal coisa. Realmente está muito maçante acompanhar boa parte da imprensa. O pior é que esses que a matam muitas vezes chegam aos melhores cargos. E Geneton mais uma vez faz uma troça desses:

O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco….Quá-quá-quá).

Muitas vezes, os jornais (acrescente aí revistas e por aí vai) só estão vendendo mesmo por causa de seu nome, ainda mais pensando que vivemos uma crise econômica causada por gente que quis pôr o nome como solitária garantida de alguma coisa. Pois se fosse pelo conteúdo, ficariam na banca, isso se já não ficam:

Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente.

Aviso ao colega que não concordo com essa história de que a Gretchen seria descerebrada, ainda mais pensando que ela fez curso de pedagogia, bem como é preciso ter cabeça para sustentar três décadas de carreira na crista da onda. Podemos fazer objeções à Rainha do Bumbum, mas burra é algo de que não podemos chamá-la.

E esse repórter a cujas matérias gosto tanto de assistir também versa no campo dos velhos tabus postos pelos coveiros da imprensa, como a proibição da voz passiva e outras. Aviso também que fiz pequeniníssimas correções ortográficas que não alteram o sentido do texto:

Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia, sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios. Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia “São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio”. Por que não algo como “TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO” ou “JOGADORES DO SÃO PAULO PROIBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV”? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável – um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas… o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.

Aliás, a exemplo da linguagem de fresta que os cantores e compositores usavam no tempo da ditadura militar, os jornalistas também estão fazendo uso da mesma para tentarem passar adiante as informações mais interessantes sem que elas sejam podadas pelos tais coveiros. É um tipo de expediente que ganhou vulto nos anos 90, mas por causa de certas preferências políticas enrustidas que certos meios tinham. Aliás, recomenda-se a todo jornalista que se reportar a um superior com experiência prévia no Araçá ou no Caju que façam isso, pois eles não merecem o que você escreve, mas o leitor sim.

E quem são esses que sepultam a imprensa?

Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.

Vi esse artigo republicado em outros lugares. Em um deles, quem mais descia a lenha no Geneton era uma pessoa cujo olhar e semblante muito me lembram os de famosos psicopatas, isso se não for um sociopata que transforma a vida de seus subordinados em um inferno quanto destes escrevem algo um pouco mais palatável e menos óbvio. E qual não foi a surpresa de ver que os arautos da obviedade na imprensa usaram de expedientes igualmente óbvios para desqualificar o texto? Afinal, não é preciso usar muito raciocínio para chamar de dono da verdade alguém que discorda com propriedade daquilo que você escreve. Tanto não precisa de raciocínio que sequer é necessário ler e decodificar o texto escrito, principalmente se ele for longo. Nessa de desqualificar, também desqualifiquem o cara dizendo que jornalismo diário não seria a do cara. Vale lembrar que Geneton trabalhou por cinco anos no Diário de Pernambuco, bem como na sucursal nordestina do Estadão e na Globo desde 1985, já tendo sido editor e repórter. Duvido aqui que a pessoa que quis desqualificar o texto do repórter especial da Globo tenha mais experiência em jornalismo diário que o Geneton. Em todo caso, a pessoa que comentou sequer versou de leve na contra-argumentação àquilo que o texto diz. Disse que que os exemplos citados pelo pernambucano são estapafúrdios. Mas por que seriam estapafúrdios? Essa resposta, creio que Godot chegará antes dela.

Recentemente, estou lendo A Sangue Frio, de Truman Capote. Será que o assassinato da família Clutter teria a repercussão que teve se fosse na base do “Família é assassinada a tiros no Kansas”? E isso se pensarmos que os chamados jornalistas literários usam desses expedientes desde um tempo em que as fontes disponíveis de notícia eram bem menores que as atuais. Se temos mais, por que a obviedade se multiplica e, pior, reage contra quem lhe faz objeção?

Neste sábado, consegui um frila de revisão de texto em agência publicitária. Era material dos fortes: uns PPTs para uma concorrência de empresa pública, daqueles para entregar para ontem, o que inclusive explica ter sido em um sábado.

Pois bem, lá fiz as tais revisões. De fato, o ambiente estava pesadamente influenciado pelo prazo curto e, fora eu, todos os outros lá estavam inconformados de trabalhar em um sábado. Fora haver horas em que estavam ironizando bastante certos aspectos do tal trabalho.

Porém, houve algo que me fez até passar batidas as 12 horas que lá fiquei: o ambiente. Não sei quantos jornalistas que lêem estas postagem já puderam ter a oportunidade de ver uma agência publicitária fazendo fechamento, mas digo que é algo muito mais civilizado que os fechamentos jornalísticos. Não vi nenhuma reação animalesca quando abordava alguém que estava absorto em seu computador.

Além disso, o ambiente em si era muito mais leve. Piadas surgiam a toda hora e não ouvi um grito sequer. Se havia algo mais grave, era discutido com civilidade. Sei que publicitários também podem ler esta mensagem e discordar de mim, mas garanto ter sido uma boa experiência a revisão publicitária.

O pessoal lá também se surpreendeu com meu estilo de revisão, uma vez que até alertei para detalhes de informação e contraste fundo-letra que impedia o conforto de leitura. Imagino que tenham gostado do que viram e quem sabe possa pintar algo mais da agência em questão.

E fico aqui pensando sobre um dia utópico em que veremos redações tendo esse ambiente mais zen, em que não será rotina a soltura de cachorros. Vale lembrar que tanto jornalismo quanto publicidade costumam ter prazos exíguos e altos graus de espremeção cerebral para que algo saia do jeito certo, bem como jornadas amplas dependendo da ocasião. Porém, o que vi na agência em questão foi justamento o oposto do que veria em uma redação.

Eis que o pessoal do trabalho mais braçal pega um pincel atômico e faz um desenho bem obsceno na lousa da sala e a superior chega à tal sala e fica silenciosa. O que ela faz? Olha para o tal desenho, conversa um pouco com o pessoal e depois, solta uma risada daquelas com o besteirol todo. Fico pensando o que aconteceria se algo assim estivesse em uma redação e fosse uma editora-chefe que visse alguém fazendo uma coisa dessas. Talvez pudesse significar até mesmo a demissão de quem fez tal coisa. Já outro imediatamente fazia uma videomontagem com um áudio do comercial, o que em tese daria toda justificativa para que alguém chegasse e dissesse que ele está desperdiçando tempo e atrapalhando um processo inclusive industrial. Mas não: olharam para o outro besteirol e mais risadas surgiram.

Depois de uma comparação dessas, fico pensando o quanto que o modo de ser carrancudo de nossos jornalistas está sendo transferido para o texto. Isso para não perguntarmos se também está na hora de mudar o conceito de redação como conhecemos para que haja mais conforto ao jornalista. E tudo isso de maneira alguma comprometeria o postulado da isenção e de ouvir os dois lados.

Alguns dirão que publicidade recebe mais grana que jornalismo e que a grana que o jornalismo recebe é a raspa de tacho da publicidade, mas lembremos que há veículos de comunicação jornalística que recebem rios de dinheiro e nem de longe têm o ambiente da agência de publicidade que conheci, que não é das grandalhonas do Brasil, ainda que tenha clientes muito bons. Assim sendo, creio que haja também uma questão de postura coletiva dos publicitários que difere daquela dos jornalistas.

Como já disse aqui outras vezes, a imprensa de língua espanhola dá de mil a zero na brasileira no que tange a não ser careta e ousar. A capa em questão é do jornal colombiano El Tiempo e, como podem ver, é praticamente como se tivéssemos posto o periódico no espelho.
Porém, ela está toda ao contrário mesmo, com direito a todas as fotos serem de pessoas de costas. O motivo? Dar uma sacolejada na galera e solidarizar-se com os protestos contra as FARC. E para quem acha que uma determinada coisa deletéria à sociedade perde força se solenemente a ignorarmos, o jornal já disse: dar as costas ao problema não faz com que ele desapareça. E o pedido para que o povo saia para a marcha de protesto.

No Brasil, um dos poucos jornais que se aventurou a quebrar a caretice reinante em nossa imprensa foi o Correio Braziliense. Porém, o que El Tiempo fez é algo de uma elegância ímpar, uma vez que mantiveram exatamente a mesma diagramação sisuda de costume, espaços bem demarcados, apenas invertendo as letras e pondo só fotos de pessoas de costas.
Segue o link de onde se pode ler mais a respeito da tal capa que, creio, poderá ganhar lugar de destaque no panteão das melhores de todos os tempos. É capa que chama ao debate, dá um tapa na cara do leitor para que ele preste atenção ao problema e em momento algum cai na hipocrisia da imparcialidade ou do “você acha isso ruim, mas há gente que conheço que acha legal”.

Antes de tudo, leia este texto antes de ler este. Leu? OK, podemos então começar a falar por aqui.

Como podem ver, Luciano Martins Costa desce a lenha na imprensa brasileira como um todo. Não fala nomes dos faltosos, até por saber que é fenômeno generalizado nas redações locais.

Observem um detalhe importante: o site de um movimento, que tem obrigatoriamente um viés mais tendencioso, uma vez que precisa defender uma tese, fala de um assunto com mais detalhes e profundidade do que a imprensa brasileira em geral. Sim, isso mesmo que estão lendo: se estão querendo ler algo interessante, terão de se dirigir a vieses teoricamente viciados na origem, pois estes são mais inteligentes que os supostamente isentos e que vêem os muitos lados da questão. E isso é problemático.

Assim como boa parte de nossos jornalistas têm cabecinha de linotipo e insiste em usar pirâmide invertida nos tempos da composição eletrõnica, a imprensa em si não avançou no debate dos assuntos mais corriqueiros, envolvendo ou não política.

O cara fala de coisas interessantes, como a obsolescência dos discursos direita X esquerda e do quão reféns ficam os leitores que querem debater e não conseguem aprofundar um assunto.

O cara versa sobre vários assuntos, como a caixa-preta do sistema bancário da Suíça e a ação de estado que transformou Espanha e Portugal em países de Primeiro Mundo e a não-comparação que a imprensa pratica quando o assunto é falar de ações parecidas na América do Sul. Não entrarei aqui em méritos políticos, até porque este blog fala sobre a postura da imprensa em relação às capacidades do leitor. Deixarei que os que analisam a imprensa sobre o viés político façam essa parte, pois creio que farão melhor que eu.

Analisando sob a ótica deste blog, posso falar sobre os tais textos superficiais, não só sobre assuntos do dia-a-dia, mas também na imprensa especializada. Na automotiva, quando se ouve de jornalistas que “o leitor nem sabe quais as rodas que tracionam determinado carro”, isso é ser superficial. E quem perde, se não o leitor, que não terá substratos adequados?

“Ah, mas o leitor não entende essas coisas. Imagina se eu vou pôr um professor da USP na minha matéria? O cara vai falar um monte de coisa complicada e a maioria não vai entender nada” cai na mesma esparrela. Dá para se falar do buraco na rua, sim, mas se você falar que buracos na rua são causados da base sobre a qual o asfalto é aplicado, você está aprofundando adequadamente. Se você mostra a comparação da vida média do asfalto na Europa (40 anos) com a do Brasil (10 anos) e que lá na Europa usam mais camadas de areia e brita antes de pôr o pretinho propriamente dito, você está se aprofundando no assunto. E todo mundo entende direitinho que mais camadas significam mais proteção contra intempéries. Senão, ninguém mais caprichoso daria duas ou três demãos de tinta em uma parede, pois seriam absolutamente desnecessárias.

Por isso, não duvido mesmo que o superficialismo na imprensa brasileira esteja ligado diretamente ao fato de ela não se aprofundar nos assuntos. Pare para pensar agora em quantos textos no seu jornal ou revista preferido te prendem realmente a atenção, uma vez que foram feitos de uma forma diferente e ao mesmo tempo envolvente. Quer um minuto para pensar? 60, 59, 58… Pensou agora? Agora diga-me um texto que você se lembra e que está escrito em pirâmide invertida ou efeito champanhe. É só ir no bate-pronto e pousar o dedo em qualquer página, seja física, seja de internet, pois é uma porrada deles.

E um texto bem escrito também estimula a inteligência do leitor. Ele pode até não entender em um primeiro momento, dependendo do assunto. Motivos para celeuma e falar que não se pode escrever nada por ele não entender? Não, até porque cada leitor é um, com um conjunto de fortes e fracos diferentes. Porém, se o assunto interessou ao cara por estar em um texto bem escrito, ele fará questão de ler de novo. E até reler mais outras tantas vezes no mesmo dia. Porém, o texto bem escrito o capturou. E não é uma isca industrializada que tem de ser criada de uma maneira padronizada porque é daquele jeito que uma determinada espécie de peixe vê. Estamos falando de gente. E gente gosta quando nota que se pôs um talento em cima. E é o talento em cima que também puxa gente para um determinado assunto.

Sim, o leitor entende até mesmo o que é a teoria das cordas espaciais e a matéria escura que domina o universo. E também se interessa muito sobre ela. Basta escrever de maneira que o prenda àquelas linhas em um espaço predeterminado. E durante essa prisão, você o vai informando de maneira a ele nunca mais esquecer…

Antes de qualquer coisa, leia esta coluna, que é do ano passado, mas cujo assunto é atualíssimo.

Leu? OK, então podemos começar a conversar a respeito. David Pogue falou algo interessante: 95% dos e-mails recebidos por colunistas e críticos são civilizados, amigáveis e com críticas construtivas. Porém, há os tais 5% de malas.

Talvez isso se aplique aos EUA e a outros lugares em que as pessoas são civilizadas ao usar e-mail. Aqui no Brasil a coisa é um pouquinho diferente, pois assusta a quantidade de idiotices que recebemos. E quem for comparar a tiragem do períodico, os pontos de audiência ou o número de pageviews com o feedback recebido vai notar que é sim um hábito do brasileiro civilizado manter-se calado quando gosta de alguma coisa. Não verei obrigatoriamente demérito nisso, pois talvez essas pessoas saibam que muitas vezes não se deve dar idéia para que uma besteira seja feita.

De qualquer maneira, haverá feedback. E é aí que entra uma incrível quantidade de pessoas desmioladas, que ou expõem abertamente uma burrice da qual deveriam se envergonhar e ficarem quietos para não dar gafe ou partem abertamente para o destrutivo mesmo.

E aí que reside o problema, como já disse: dada a baixa quantidade de mensagens educadas e inteligentes que boa parte dos jornais, revistas e sites recebem, o único parâmetro palpável é mesmo o do tal leitor idiota, que acaba servindo de norte para os produtos jornalísticos. Sim, o leitor mediocrizado citado por Eric Nepomuceno pode ser na realidade vítima indireta do tal bando de burros que mandam muitas mensagens.

O pessoal que conheço do G1 e que chega a não disponibilizar de propósito um espaço para comentários sabem do poder dos trolls. Se bem que aí estamos falando de meio puramente internético. Troll é termo de internet e designa especificamente esse tipo de gente que tanto ama solapar sites de fóruns. Os fóruns de religião da Globo.com e do Uol foram extintos por causa desses tipinhos.

Porém, fora da internet também temos coisas parecidas. Já tendo trabalhado em revista, vi o quão poucas são as mensagens que recebemos. Há vezes em que a própria equipe precisa inventar umas cartas, só para encher aquele espaço, de tão poucas que são as mensagens recebidas. Em geral você não notará nada, pois os nomes inventados tendem a ser de padrão comum na população brasileira e as cidades de onde supostamente escreveriam são grandes o suficiente para que esse passa-moleque passe desapercebido. É enganar o leitor? É sim, sem sombra de dúvida, mas o motivo é justamente esse hábito de o brasileiro civilizado mandar poucas mensagens para os meios em que adquirem informação. Sim, há vezes em que revistas de bom conceito e razoável periodicidade recebem pouquíssimas mensagens. E falo pouquíssimas mesmo: coisa de duas ou no máximo três. E isso mesmo em publicações mensais, em que a pessoa teria um belo tempo para escrever uma mensagem legal.

Porém, os leitores malas nem de longe têm o hábito do brasileiro civilizado. Eles já vão vomitando seu monte de besteiras, burrice e agressividade para cima da publicação. E voltando ao texto do NYT, seguem regras para quem quiser ser troll, mas que podem ser aplicadas às malas sem alça. Sim, estão desnudos os idiotas que fazem a publicação se idiotizar desprezando a maioria de leitores que entendem perfeitamente até a coisa mais complicada, desde que explicada com propriedade e texto bom. E quem quiser ser um canalha, seja na internet, seja nos meios de papel, que siga a dicas passadas abaixo:

1) Use a linguagem mais chula possível. Chamar de nomes e usar palavrões é bastante efetivo.

2) Uma opinião violenta não significa que você precisa ter experiência a respeito do assunto. Um monte de pessoas fala sobre livros que nunca leram e filmes que nunca viram. Qualquer um pode imaginar perfeitamente bem se algo é ou não bom.

3) Se é uma crítica positiva a algo que você não gosta, chame quem a escreveu de fanático pelo objeto da crítica. Não nutra a idéia de que o produto, show, filme, livro ou restaurante pode ser realmente bom. Em vez disso, assuma para si a idéia de que o escriba recebeu pagamento daquele a quem teceu a crítica. A palavra “picareta” deve estar sempre à vista.

4) Se é uma crítica negativa, chame quem a escreveu de valentão e chame a crítica de “ataque guerrilheiro”. Acuse-o de receber dinheiro dos rivais e competidores do criticado.

5) Se é uma crítica neutra, ignore as partes positivas. Finja que ela é toda negativa ou toda positiva. Refira-se a ela como delirante ou violenta. Tanto faz.

6) Se achou uma sentença que te incita a interpretar erradamente, não és de maneira alguma obrigado a terminar de ler. Pare exatamente onde está. Expresse sua raiva quando ainda estiver boa e quente! Afinal, quais são as coisas que o autor escreveu adiante e que corroborarão seu ponto de vista?

7) Se o autor lhe responder mostrando que você estava errado (como por exemplo, citando um parágrafo que você pulou), desapareça sem responder. Essa é a internet, que é anônima. Sair à francesa sem ter de agüentar as conseqüências é um privilégio todo seu.

8 ) Ser um troll é deliberadamente fazer um comentário inflamado, um que você sabe perfeitamente ser conversa para boi dormir e apenas para acirrar os ânimos. Ser troll é uma arte. Funciona perfeitamente para audiências de uma pessoa, como, por exemplo, um jornalista. Porém, a verdadeira diversão é zonear fóruns públicos, onde conseguirá dezenas de pessoas putas da vida contigo simultaneamente. Comentários em fóruns de religião, política ou Mac X Windows são boas pedidas. O troll talentoso desfruta dos bombardeios com um sorriso hipócrita e jamais faz tréplica.

9) Não deixe generalidades passarem barato. Não tolere simplificações que facilitem a vida dos leigos. Ignore expressões como “geralmente”, “normalmente” ou “a maioria”. Se leu uma sentença como “O VisionPhone está entre os primeiros videofones para o consumidor comum”, cite a ignorância e a preguiça do autor de ter esquecido de mencionar o protótipo desenvolvido pela AT&T para a Feira Mundial de 1964. Mande a mensagem com cópia para o diretor de redação e, se possível, também aos anunciantes.

Já para os decentes que lêem esta mensagem e querem que as publicações brasileiras parem de tratar o leitor como idiota, incapaz ou retardado, façam ao menos uma coisa igual aos malas e trolls: MANDEM UM MONTE DE MENSAGENS EDUCADAS E CONSTRUTIVAS PARA OS MEIOS QUE LÊEM, DE MANEIRA A ELES SABEREM QUE HÁ SIM UMA PORRADA DE PESSOAS INTELIGENTES E, MAIS AINDA, LOUCAS PARA LEREM BONS TEXTOS, QUE NÃO TENHAM BUROCRACIA. SÓ O JORNALISTA NÃO CONSEGUE FAZER PORRA NENHUMA DENTRO DE ONDE TRABALHA. Desculpem o alterado do momento, mas creio ser fundamental que se as pessoas de bem querem uma boa publicação, precisam mais escrever para elas, sempre tendo propriedade.

E, claro, também identifiquem os trolls da imprensa brasileira. Digo que ignorá-los não adianta absolutamente nada, pois outros não irão ignorar e gerarão o tal circo pegando fogo. O lance é, em caso de calúnia, difamação e injúria, fazer um processo bem fundamentado contra eles, com um monte de provas, até mais que as teoricamente necessárias. E, claro, fazer a tal história de refutá-los fundamentadamente, pois pedirão para ir ao banheiro e caírem fora. E, claro, dentro daquela lógica de quem financia a baixaria é contra a cidadania, boicotar todo e qualquer anunciante da publicação até que ela se livre do otário.

Como já disse em outra ocasião, muitas vezes o jornalista cria uma imagem de leitor em sua cabeça por causa de uma meia-dúzia de manés que mandam carta de monte ou dos trolls de plantão. E é essa imagem distorcida que acaba virando regra nas redações que tratam o leitor como mentecapto.

Porém, se há uma idéia que me agrada é a de conselhos de leitores, como a Info (outrora Info Exame) faz. É algo com assento rotativo, de maneira a não criar vícios na redação. E também uma forma de manter o leitor mais próximo do jornalista.

Um conselho de leitores talvez funcionasse bem mesmo em publicações não-especializadas. Teriam de ser leitores de alguma relevância e, claro, não-idiotas. Em uma base de milhares, é fácil achá-los.

É sempre preciso levar em conta a diversidade de leitores, para que não fique aquele lance de falar propositadamente para sempre o mesmo tipinho de pessoa e querer achar que aqueles são todos seus leitores. Mesmo aqueles colhidos para o conselho não representam exatamente o todo do universo de leitores inteligentes.

Também não saberei se algo assim se aplicaria à internet, ainda mais pensando que esta qualquer um lê. Creio que, a exemplo da Info, aplique-se muito bem a publicações especializadas, pois essas muitas vezes são as que mais sofrem pressões para largarem caminhos que estavam bons, principalmente quando a tal pequena porcentagem de leitores burros que escrevem muito está na ativa. Em outros meios, também encontraria serventia, mas desde que fosse pensado muito sobre como se inseriria.

E você, o que acha?

Para muitos, irá surpreender eu falar justamente sobre alguém que trabalha na Globo, emissora que para alguns de nossos leitores, é das mais oleitoristas (ou otelespectadorísticas), porém, é de lá que vem uma matéria que é simplesmente genial, do colega Marcos Uchôa.

O assunto é meio buraco-de-rua, mas a maneira como ele abordou foi daquelas que qualquer um pensaria “como não fiz isso antes?”. Porém, ele fez, e antes de todo mundo.

Já que estamos falando do Marcos Uchôa, temos de falar do texto da reportagem, excelente. Seguem os trechos:

“É nessa hora que se entende melhor a expressão ‘você não tem vergonha na cara?’. Todos temos e dói mostrá-la na praça pública dos meios de comunicação.

‘Por favor, pára!’, diz a acusada ao ser filmada.”

“Leila recebia por tal confiança R$ 650 e tudo o que você não pode comprar com esse dinheiro estava ali. Televisões, computadores , porque não comprar logo uma loja? Foi o que ela fez. E não economizou. No total foram: uma loja, três terrenos, dois carros, seis apartamentos!” (Detalhe: o câmera mostrando uma loja cheia de televisores LCD que custam mesmo os olhos da cara).

“A empregada e acusada de ter roubado da patroa bens que possibilitaram que ela acumulasse um patrimônio de R$ 300 mil. Uma das últimas coisas que ela comprou foi uma arma, um revólver calibre 32, com certeza para se proteger, afinal o Rio anda muito inseguro”

“Numa livraria pertinho do prédio onde trabalhou, ela poderia ter visto três livros com mulheres na capa, que mostram que o medo dela deveria ter sido outro. Leila foi infiel, duas caras e agora, está desonrada.” (o plano de imagem mostra os livros: “Infiel”, “Vida Dupla” e “Desonrada”)

Marcos Uchôa informou perfeitamente e, mais ainda, trouxe atenção ao texto. Em nenhum momento caiu em denuncismo, uma vez que o lance da tal empregada era perfeitamente rastreável e a polícia há muito devia estar na cola dela ao comparar o que ganhava e o que tinha. Usou de sutilezas textuais tão bem feitas que qualquer um, independente de quem fosse, saberia muito bem sobre o  que ele estava dizendo. E o Homer Simpson sentiu-se tratado como aquilo que é: gente pensante. Parabéns, colega…

Este domingo marcou o fim do I Salão Nacional do Jornalista Escritor, realizado no Memorial da América Latina. E foram duas ocasiões que vi que foram legais.

 Cheguei lá pelas 17 horas, a tempo de assistir ao debate sobre livro-reportagem, que contou com Caco Barcellos, Eliane Brum e Domingos Meirelles. Foi uma ocasião de ouro, principalmente por ouvir Eliane Brum que, do alto de sua timidez, desceu a lenha legal na apuração telefônica que tanto está sendo estimulada na imprensa brasileira. E com propriedade, pois ela simplesmente conseguiu conversar com um monte de gente que viu a Coluna Prestes passar e as conseqüências da mesma, o que inclusive gerou descidas de lenha oriundas de sociólogos, historiadores e outros que não deveriam idealizar esse evento do País, mas que tiveram de se render às evidências quando uma carta de Juarez Távora, um dos comandantes da mesma, falou tudo aquilo que Eliane confirmou com os velhinhos. A mesma Eliane também falou algo que todos nós jornalistas temos de lembrar: que aquilo que escrevemos hoje será usado pelos historiadores no futuro. Portanto, o respeito à verdade dos fatos é fundamental para não gerar uma história distorcida.

Caco Barcellos também falou coisas interessantes, como envolvendo seus livros Rota 66 e Abusado. Falou também sobre certa vertente do jornalismo de hoje em dia, que está na base da ofensa pura e simples e de se pôr acusações ao vivo, sem dar tempo para que o acusado se defenda. Vide o ocorrido recente com o padre Júlio Lancelotti.

Porém, tenho uma especial atenção por tudo aquilo que Domingos Meirelles fala. O cara tem uma incrível capacidade de estabelecer paralelos entre coisas que muitos hoje veriam como novidade, mas que são muitíssimo parecidas com ocorridos dos anos 20. Falou também do tempo em que foi jornalista de revista e das raras ocasiões que possui para escrever livros. Vale lembrar que ele é bem antenado em relação ao período dos anos 20 e 30. E também falou uma coisa que é preciso compartilhar com o pessoal e, principalmente, com os 41,63 que estão querendo uma vaga na ECA-USP: “nunca vi tanto jornalista arrogante como vejo atualmente”. Ele e o Caco, inclusive, falaram também sobre a falta de consideração e respeito que um jornalista tem para com o outro hoje. Isso me faz pensar também se justamente não é a famosa história de querer exclusivamente jornalismo televisivo que tanto atrai vestibulandos que fetichizam o ofício. Também me faz pensar sobre esse lance da falta de união da categoria. Sim, porque já cansei de ouvir que o pior inimigo de um jornalista é outro jornalista, mesmo tendo amigos jornalistas e amigos que deixaram o jornalismo.

 Por fim, houve a entrevista de Mino Carta. Se Eliane desceu a lenha em alguns aspectos da imprensa nacional, o Capital da Carta desceu foi uma floresta amazônica inteira em cima da dita cuja. E uma frase dele achei particularmente interessante, ainda mais pensando no tema do blog. Não me lembrarei dela por inteiro, mas foi algo assim: “os jornais brasileiros passaram por um projeto que visa o aumento de vendas a qualquer custo, acreditando que seus leitores são imbecis”. Falou também sobre a postura oligárquica dos donos da imprensa, de eles quererem a todo custo manter o status quo e estarem felizes de andar com carro blindado, de erguerem grades em suas casas, etc. Também respondeu às acusações de que CartaCapital seria financiada principalmente por publicidade estatal e supostamente chapa-branca. Falou também de seus dois livros autobiográficos por vias alternativas, como Castelo de Âmbar e Sombra do Silêncio.

Ainda voltando um pouco para Eliane Brum, vale lembrar que ela também disse que vê dois tipos de jornalista em uma redação: aquele que acredita que a notícia de hoje embrulhará peixe amanhã e aquele que lembra do uso que os historiadores farão dos textos jornalísticos. Ela também lembrou que, sim, o livro-reportagem pode ser uma excelente alternativa para o jornalista. Domingos Meirelles também lembrou da insegurança que sentiu quando fez seu primeiro livro-reportagem, achando que não tinha talento para fazê-lo.

Por fim, outra coisa importante que foi lembrada nessas palestras foi justamente o fato de que é muito possível de que a imprensa esteja perdendo leitores por estar com textos muito chatos. Falaram também da enorme importância que se dá à informação pura e simples e à pouca importância das nuances, essas sim que só podem ser captadas mesmo quando se está no local, em vez de ao telefone.

Talvez seja mesmo uma boa hora de pôr as barbas de molho e a imprensa se reavaliar. Afinal, por que motivo as pessoas estariam fugindo do impresso para lerem sites e blogs?

Ouvi isso uma vez em que saí com a turma de um amigo meu que mora na Cidade Tiradentes. Referia-se a um cara que tinha tomado umas além da conta e na hora, achei a frase engraçada, pois realmente é engraçada.

O maluco estar louco não significa obrigatoriamente uma redundância, como a linguagem dos classes-médias-afrescalhados-e-moralistas poderia achar em um primeiro momento. “Maluco”, em gíria periférica, significa algo muito além de alguém com desordens mentais. Pode significar simplesmente uma pessoa como eu ou qualquer outro que de longe ou em um convívio mais formal pode se mostrar perfeitamente normal. E significa também que essa pessoa não vai rasgar nota de cem reais, esse o mais famoso termômetro de maluquice que possa haver.

Compartilharei com vocês o trecho de uma letra do Sabotage, legítimo representante da arte que vem da da periferia:

Tumultuado está até demais a minha quebrada

tem um mano que levando, se criando sem falha

não deixa rastro, segue só no sapatinho

conosco é mais embaixo, bola logo esse fininho

bola logo esse fininho e vê se fuma até umas horas

sem miséria, do verdinho

se você é aquilo, tá ligado no que eu digo

quando clareou pra ele é de 100 Gramas a Meio Kilo

mano cavernoso, catador eficaz

com 16 já foi manchete de jornal, rapaz

respeitado lá no Brooklyn de ponta a ponta

de várias broncas, mas de lucro, só leva fama

hoje tem Golf, amanhã Passat metálico

de Kawasaki Ninja, às vezes 7 galo

Alô, ainda algum classe-média-afrescalhado-e-moralista que esteja lendo esta postagem? E algum jornalista, também está? O que entenderam dessa letra? Provavelmente nada. E foi feita por um cara que hoje não mais se encontra entre nós, mas que sempre levava consigo um caderninho e, quando alguém falava uma palavra mais erudita, tratava imediatamente de anotar e já arquitetava uma letra de rap em cima. Porém, meus caros, garanto que gente de todas as periferias do Brasil e que porventura estejam lendo esta postagem entenderam direitinho, ainda que com um monte de gíria tipicamente paulistana e que teoricamente outras praças não entenderiam. E o mais engraçado de tudo é que insistem em entender e os paulistanos insistem em entender as gírias mais intrincadas de outras praças.

Repararam na sofisticação das construções frasais? Ele fez até uma inversão mais extrema de termos. Poderia dizer algo como “tem um mano que levando não deixa rastro, segue só no sapatinho” e deixado o “se criando sem falha” em uma frase separada. Mas não, ele deixou a frase como um aposto no meio da outra. OK, tem o lance da métrica e da rima, mas vejam que isso foi feito por alguém que poderia ser enquadrado como “o leitor” e, se pobre, supostamente seria menos merecedor de um texto refinado pelo simples fato de ser pobre e não ter uma determinada escolaridade que supostamente o tornaria apto a textos mais sofisticados.

E garanto que, como alguém que conhece gente das perifas, eles têm um linguajar extremamente sofisticado sim. “Quente é mil graus”. Sim, para qualquer pessoa é algo quente. Encoste a mão em uma barra de ferro a 1.000ºC e diga depois o que acontece. Porém, o “quente” que se está falando é metafórico e os “mil graus” são para falar que a coisa em questão é bem garantida mesmo.

Poderia discorrer com mais letras de rap, mas esta foi só uma amostra sobre a riqueza que há nas camadas mais baixas da pirâmide sócio-econômica. Enquanto a imprensa só vê sangue e incapacidade intelectual nessas pessoas, quem conhece sabe que eles têm exatamente aquilo que qualquer pessoa com as faculdades mentais em ordem tem: raciocínio, momentos sarcásticos, capacidade de decifrar as linguagens mais de fresta possíveis (ou será que as letras do Sabotage não tinham mais frestas que um rochedo?), sacar metáforas, fazer humor ou mesmo falar algo que o jornalista não entende. E, claro, eles não fazem a menor questão de fazer uma reunião de pauta e dizer algo como “mas o jornalista não vai entender isso”, “você tem que presumir que o jornalista não saiba nada”, “nosso jornalista não tem esse tipo de coisa”. Sim, meus colegas de profissão, para vocês eles são “o leitor”, mas para eles, muitas vezes vocês são uns otários…

Por isso, não economizem no texto sofisticado ao escrever para quem presumem que tratariam como “o leitor” e talvez até desinfetassem as mãos depois de cumprimentar. Linguagem simplesinha e fácil de entender é o que se faria com uma criança bem pequena, até porque ela está em formação. Ás vezes, uma metáfora será mais entendida por toda uma base teoricamente ignara do que seria um linguajar formal e esquemático, por um simples motivo: são pessoas, capazes de entender e que reconhecem quando fulano bota um talento em cima. Seja firmeza e ganhe leitores firmeza. Morô?