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Por acaso esta menina merece ser bucha de canhão para enriquecer cofres de gente que fatura sobre sua morte falando dela diuturnamente?

Ninguém aqui quer que as investigações sejam suspensas ou esquecidas, mas também não queremos a espetacularização que se promove em cima dessa menina cuja morte, de fato, foi bastante atroz.

De dia, de tarde, de noite e de madrugada, somos bombardeados com notícias desse caso. Porém, qual a relevância dessas notícias? “Alexandre Nardoni bebe água”, anuncia o meio X em letras garrafais. “Ana Carolina Jatobá pede uma pizza meio margherita, meio frango com catupiry”, diz o meio Y. E no canal de TV, uma manchete bombástica que você não pode perder: “Pai de Alexandre espirra compulsivamente perto de um jardim florido”.

Alguns dirão que é isso que o leitor, o ouvinte, o telespectador ou o internauta querem. Porém, querem fazer parecer crer que estão na sua prerrogativa de meio informarivo, escondendo, como alguém esconderia um elefante debaixo do tapete, que apelam para suas sensações com o simples intuito de ganhar mais audiência ou tiragem, ambas por sinal bastante voláteis.

Além disso, pensando no tempo de um programa de TV, no número de páginas de uma revista ou terminal ou em quantos gigabytes tem um servidor, já pararam para pensar o quanto de notícia de fato não se tornou de conhecimento público para dar espaço para detalhes sem importância do caso?

É natural que assassinato de criança gere comoções. Porém, quantas outras crianças foram assassinadas entre 29 de março e a data em que esta postagem foi publicada e que não tiveram sequer um minuto de notícia? Quando muito, viraram estatística de delegacia e olhe lá.

Isso me faz lembrar também as duas semanas que passei na Flórida no começo de 1995, quando ainda era um adolescente. Ligava a TV e o que mais se via era falarem do caso O.J Simpson. Ligasse a TV, passasse o canal e só se via o senhor Orenthal James e o assassinato de sua ex-esposa Nicole Brown. Em duas semanas por lá, sabe qual foi a única notícia que tive do Brasil? A contratação de Romário pelo Flamengo. E só. Isso para não falar de notícias que interessariam aos próprios americanos e estavam sendo deixadas de lado para falar que o ex-jogador de futebol americano fez o importante ato de pôr uma moedinha em uma máquina de refrigerante e pegar uma Coca-Cola, algo que, como sabemos, é de extrema importância para a vida de todos e ninguém conseguiria dormir sem tal coisa.

Ele também tomou um belo tempo do noticiário americano. E também indiretamente tomou um belo tempo daquelas notícias que de fato afetam a vida das pessoas

A exploração em cima do caso O.J Simpson chegou a tal ponto que houve hora em que as próprias emissoras de TV pararam voluntariamente de exibir notícias a respeito do caso, de tão saturado que o público e suas grades de programação estavam. Chegou um ponto em que se via como selo a ser exposto atrás dos apresentadores uma foto do cara e os dizeres “No More O.J”.

E, claro, nem é preciso parar para pensar se os ocorridos com O.J Simpson e Isabella Nardoni obrigatoriamente mudam de fato a vida de um entorno maior que o dos envolvidos. Aliás, tenho cá minhas suspeitas de por que a pequena acabou sendo a bola da vez e isso envolve muito mais que um caso de infanticídio. Envolve questões de classe social, lugar onde foi praticado o crime, bem como a relativa assepsia da coisa toda. Não foi um crime em que alguém teve a cabeça esmigalhada por um balaço e que a simples veiculação das imagens gera asco e comoção pela memória do morto sendo tão acintosamente desrespeitada.

Portanto, dá até para traçar um paralelo entre a maneira como vêm abordando o caso Isabella e aquela como a grande mídia vem abordando a guerra do Iraque. Por acaso se lembram de verem cadáveres em Bagdá depois de tantas bombas caídas do céu e milícias se enfrentando na rua? E por acaso se lembram de alguma parte do inquérito de Isabella ser mostrada mais explicitamente? Claro que não, afinal, isso faria com que a audiência se manifestasse negativamente e notasse que vem sendo continuamente explorada na comoção que de boa fé têm ao verem um caso desses.

Tudo bem que, tirando o sensacionalismo, parece que a mídia aprendeu bem com os erros do caso Escola Base, à exceção de uma ou outra coisa. Porém, continua o equívoco de se dar a um caso de homicídio desses uma repercussão que não tem se analisarmos mais na real. Mais uma vez, pergunto-lhes quantas crianças morrem assassinadas em São Paulo a cada mês e que nem de longe seus casos têm a mesma repercussão. Por que será isso? Porque aí teriam de falar mais aprofundadamente de coisas que vão além da simples psicologia ou investigação criminal? Teriam de chocar o público mostrando que nem todas essas crianças moravam em um imóvel decente como o apartamento da pequena? Afinal, como sabemos, a visão de um barraco mal-construído é muito mais assustadora que a de um prédio bem feitinho, assim como a rua de terra com esgoto aberto choca a vista enquanto um asfalto bem assentado nem de longe gera tal sensação.

Que cenário te prende mais a atenção para o assassinato em si? Este acima?

Ou este aqui?

Não duvidarei que parte da comoção artificialmente gerada sobre o caso Isabella venha também da mente de alguns capi dos meios de comunicação. Analisando friamente a notícia, vejamos que há muito menos elementos de desvio de atenção no assassinato da menina do que haveria no assassinato de outra menina de mesma idade em uma bocada qualquer. Diriam eles, ainda que não assumidamente, que um corpo caído em uma perifa qualquer não tem o impacto que vem tendo a pequena Isabella. Afinal, o cenário de fundo acaba tirando parte do destaque ao protagonista da história. Afinal, o que é aquele esgoto a céu aberto correndo do lado do cadáver? E aquela casa que está quase para cair? E aquela mãe lotada de filhos, todos eles bem desnutridos? E o que dizer daquele Gol estacionado na rua com um adesivo gigantesco nos vidros fumê? Muitos detalhes para prestar atenção, não é verdade?

E lhes garanto que essa análise fria não é tão fictícia assim quanto parece. Conheço casos de programas de TV estilo “essa é sua vida” em que o diretor ficava gritando no ponto eletrõnico para quem apresentava coisas como “mas e aí, essa vaca não vai chorar?”. Sim, isso mesmo que estão lendo: a mulher se emocionando, mas sem chorar, algo que pode acontecer com várias pessoas, sem que isso signifique que elas são frias sociopatas que falam de suas maldades como falariam onde é uma rua.

Aliás, já que falamos de padrões midiáticos, pararam para notar que na TV, mulher do povo sempre tem uma voz esganiçadinha, como se ao ouvir uma, tivéssemos ouvido todas as outras? Mas será mesmo que toda mulher do povo tem esse timbre de voz ou não existem aquelas que teriam uma voz mais ou menos parecida com a de Ivete Sangalo ou Zélia Duncan?

Portanto, meus caros parcos leitores, vou lhes sugerir que mudem de canal sempre que aparecer algo sobre Isabella. Sei que é difícil, até pelo apelo às sensações meio que compelir automaticamente a ficar vendo, mas parem para pensar se saber ou não disso irá mesmo mudar suas vidas. Aliás, o que de fato muda em sua vida a presença ou não de Isabella neste plano, caso você não seja amigo, parente, vizinho ou professor dela? Não quero aqui dar uma de pessoa fria, até porque já tive gente querida assassinada por um trio de assaltantes, sendo que o único sobrevivente dos meliantes, para variar, era dimenó. Chegou até a aparecer em alguns programas da TV no dia do ocorrido. Filmaram até a fachada da casa. Porém, a viúva não deu muita trela para a mídia. Recusou-se a emprestar uma foto para que jornais, revistas e televisão ilustrassem. O resultado é que provavelmente nenhum de vocês deve se lembrar do ocorrido, que foi em janeiro de 2004. E não duvidarei que em muitas emissoras e jornais, tenhamos ouvido certos superiores falando sobre a viúva palavras tão “abonadoras” quanto as do diretor do programa de TV no ponto eletrônico. Porém, ela e seus familiares conseguiram ter um pouco de paz em suas vidas, bem como o caso foi igualmente investigado e constatou-se que de fato, o trio era mesmo de assaltantes sem relação alguma com a vítima ou sua família. E o dimenó, garanto-lhes, não era nenhum coitadinho. Aliás, era até primeiro-anista de curso de Direito e, portanto, com 17, quase 18, quando do acontecido.

Enquanto gasta-se muito tempo para falar de insignificâncias sobre o crime em questão, gasta-se muito pouco tempo para se falar da carestia mundial dos alimentos. E o que me diz da questão das muitas mortes diárias do trânsito? Ah, isso não aparece, pois forçaria até mesmo os jornalistas a pensarem um pouco em cima. E pensar dói para alguns colegas de profissão.

Por fim, alguns virão aqui dizer que estou querendo faturar em cima do ocorrido, ao que respondo que este blog é apenas e tão somente sobre a imprensa e a maneira como ela trata o leitor. Pararam para pensar um pouco se não estão sendo tratados como incapazes que reagem com o fígado quando lhes bombardeiam com notícias sobre o tal caso? E a troco de que dão tanta audiência? Aliás, aviso que esta será a primeira, última e única vez em que abordarei este assunto por aqui. Afinal, se quero que parem de urubuzar tanto o cadáver de uma menina até por respeito a sua memória…

 

Alguns chamam o cantor Odair José de repórter musical. O motivo não é mais justo: o cara sabe dar voz em suas canções a pessoas que jamais a teriam ou a tiveram. E também desnudava uma realidade que a censura e o próprio povo insistia em esconder. Era useiro e vezeiro da linguagem de fresta, principalmente em uma época em que a censura era não só política como moral. Sim, para os milicos, não existia oficialmente aquele lance de o casal fazer “bobiça” atrás da igreja. E, claro, como bem sabemos, o ouvinte de suas canções nada sabia do que ele queria dizer com aquelas letras que não mencionavam o que ele queria dizer…

Depois de Gonçalves Dias, ele é o homenageado do blog para mostrar o que aconteceria se ele fosse jornalista na imprensa brasileira de hoje.

Olha… A primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair (aqui onde? Favor especificar aonde o declarante foi)
Eu vim em busca do amor (se ele veio para se distrair, como ele pôde ter vindo em busca do amor? O leitor não acredita em amor de balada…)
Olha..
Foi então que eu te conheci
Naquela noite fria
Em seus braços
meus problemas esqueci (abraçou? Consolou? Trepou? Favor especificar. Nosso leitor não tem como saber o que o personagem fez)

Olha…
A segunda vez que eu estive aqui (aqui onde? Caramba, é preciso responder direito ao “onde” das sete perguntas)
Já não foi pra distrair (eliminar o “distrair”, pois é repetição de palavra)
Eu senti saudade de você (“eu” é muito demonstrativo de arrogância. Pode ficar ofensivo ao leitor)
Olha…
Eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais lhe esquecer (esquecer a quem? Favor especificar, até para que o leitor saiba quem é a/o inesquecível em questão)

Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar? Da lanchonete, do frigorífico? Favor especificar)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“tirar você” e “levar você”. Favor corrigir para “tirá-lo/a” e “levá-lo/a”, isso antes de, é claro, dizer quem é o “você”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim. O leitor pode pensar as mais diversas coisas e temos de ser bem específicos)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa
O que os outros vão pensar (repetição desnecessária e que torna o texto ainda menos informativo)

Eu sei…
Que você tem medo de não dar certo (medo de que não dar certo?)
Pensa que o passado vai estar sempre perto (favor especificar que passado é esse)
E que um dia eu posso me arrepender (arrepender de quê?)
Eu quero
Que você não pense nada triste (o que é triste para uns é alegre para outros. Vamos respeitar a opinião do leitor)
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer (e os crimes passionais? Favor mudar este trecho)

Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar, porra?!)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“levar você” de novo? Você é o quê? Agora só falta dizer “mim faz”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (arrogante o senhor, hein?)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo (leva este texto para ficar contigo)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim o que penso. Fora daqui com esse troço)
Eu vou tirar você desse lugar (claro. Vai tirar da minha mesa para nunca mais eu o ver)

carta-capital-de-28-11-2007.jpg

Leiam na Carta Capital desta semana a matéria “Por linhas tortas”, que fala do I Salão Nacional do Jornalista Escritor, que fala também da qualidade média da imprensa nacional hoje em dia. Entre as fontes da reportagem, está o Eric Nepomuceno, que realmente desceu legal a lenha na imprensa brasileira.

Fala-se também do espaço cada vez menor que é dado à reportagem, o unanimismo dos meios de comunicação nacionais, entre outras. E há uma frase pra lá de interessante do Eric, que passo abaixo:

“Temos, de um lado, leitores mediocrizados e de outro, jornalistas medíocres. Então, dá tudo certo. Se você acostuma o consumidor a tomar leite com soda cáustica, após algum tempo ele vai achar normal. Só que o produto é uma porcaria”

Notaram a sutileza dos adjetivos? “Leitores mediocrizados” foi o que o Eric disse. Portanto, são leitores que sofreram uma ação para se tornarem medíocres. E, pior ainda, acostumaram-se a ser tratados como tal. Portanto, os mesmos leitores que liam coisas interessantes outrora. O que mudou foi a abordagem, em que se passou a dar atenção excessiva para uma minoria de leitores iracundos que mandam mensagens mal-educadas para a redação. Os jornalistas, que quase não trabalham fora da redação, acabaram tendo por padrão esse tipo de leitor e quiseram estender tal avaliação a todo leitor, sendo que esses últimos não escrevem com tamanha freqüência. E nisso, o ciclo ficou completo.

Há também o depoimento de Ricardo Kotscho, também falando do medo que o jornalista tem de ser demitido. Tudo bem que estamos em outros tempos, mas algumas coisas assustam tanto ou mais que nos anos de chumbo. “Ninguém acredita que pode mudar nada. Então, cruza os braços. Nem na época da censura vi comportamento tão medroso nas redações”, conta. E também lembra da vez em que no trainee da Folha desceu uma lenha no próprio jornal e em seu manual, o que lhe rendeu a pergunta de uma estudante sobre eventual medo dele de ser demitido. Sim, meus caros, hoje em dia, jornalista tem medo sim. Não o medo do que está lá fora. Mas o medo do que está dentro. Lembram-se daquela história de que o pior inimigo de um jornalista é outro jornalista? Acho que não é preciso se estender.

E também a reportagem fala do boicote que a própria imprensa faz quando ela é que se torna notícia. “Muitas empresas de comunicação nos ofereceram espaço publicitário e ajudaram a divulgar a idéia, mas depois nos esqueceram na reunião de pauta”. Esqueceram ou foram esquecidos?

Para muitos, irá surpreender eu falar justamente sobre alguém que trabalha na Globo, emissora que para alguns de nossos leitores, é das mais oleitoristas (ou otelespectadorísticas), porém, é de lá que vem uma matéria que é simplesmente genial, do colega Marcos Uchôa.

O assunto é meio buraco-de-rua, mas a maneira como ele abordou foi daquelas que qualquer um pensaria “como não fiz isso antes?”. Porém, ele fez, e antes de todo mundo.

Já que estamos falando do Marcos Uchôa, temos de falar do texto da reportagem, excelente. Seguem os trechos:

“É nessa hora que se entende melhor a expressão ‘você não tem vergonha na cara?’. Todos temos e dói mostrá-la na praça pública dos meios de comunicação.

‘Por favor, pára!’, diz a acusada ao ser filmada.”

“Leila recebia por tal confiança R$ 650 e tudo o que você não pode comprar com esse dinheiro estava ali. Televisões, computadores , porque não comprar logo uma loja? Foi o que ela fez. E não economizou. No total foram: uma loja, três terrenos, dois carros, seis apartamentos!” (Detalhe: o câmera mostrando uma loja cheia de televisores LCD que custam mesmo os olhos da cara).

“A empregada e acusada de ter roubado da patroa bens que possibilitaram que ela acumulasse um patrimônio de R$ 300 mil. Uma das últimas coisas que ela comprou foi uma arma, um revólver calibre 32, com certeza para se proteger, afinal o Rio anda muito inseguro”

“Numa livraria pertinho do prédio onde trabalhou, ela poderia ter visto três livros com mulheres na capa, que mostram que o medo dela deveria ter sido outro. Leila foi infiel, duas caras e agora, está desonrada.” (o plano de imagem mostra os livros: “Infiel”, “Vida Dupla” e “Desonrada”)

Marcos Uchôa informou perfeitamente e, mais ainda, trouxe atenção ao texto. Em nenhum momento caiu em denuncismo, uma vez que o lance da tal empregada era perfeitamente rastreável e a polícia há muito devia estar na cola dela ao comparar o que ganhava e o que tinha. Usou de sutilezas textuais tão bem feitas que qualquer um, independente de quem fosse, saberia muito bem sobre o  que ele estava dizendo. E o Homer Simpson sentiu-se tratado como aquilo que é: gente pensante. Parabéns, colega…

Fui neste sábado a esse encontro, que está acontecendo no Memorial da América Latina. Chego lá com o primeiro evento começado, mas ainda a tempo de ouvir Mauro Santayana falando de seus tempos de cobertura da guerra da independência do Marrocos, da entrevista com Garrincha. Falou também do sofrimento que teve na época da ditadura, mas o fato de não querer indenização do estado por causa daqueles ocorridos. E também disse uma interessante: “você tem de fazer o leitor ter prazer em ler aquilo que escreve. Tem de dar um ligeiro barato”.

Também houve o Zuenir Ventura, excelente. Um debate que gostei foi o com Eric Nepomuceno, Antônio Torres e Flávio Tavares. Gostei em especial do Eric. Ele, até por estar fora do jornalismo, desceu a lenha legal na imprensa brasileira, na falta absoluta de ousadia, etc.

Houve o reconforto de ver Ziraldo, menino maluquinho de 75 anos. Falava ele de idéias para estímulo à leitura no Brasil, mais outras tantas que veio tendo. Falou também do sucesso que ganhou escrevendo livros para as crianças. E falou uma frase interessante, do Millôr: “escreva para seu leitor mais inteligente”. Emendou com isso a história de que se uma criança não sabe algo, imediatamente pergunta aos pais ou vai pesquisar por si própria. Engraçado como as nossas tão adultas matérias não fazem o mesmo com o leitor, forçando-o a sair de sua zona de conforto. Já pararam para pensar que se uma criança se sente tratada como idiota, imediatamente se afasta de quem a trata assim? Será mesmo que os meninos que cresceram, independente ou não de lerem Ziraldo, também fizeram a mesma coisa com os meios de comunicação tradicionais?

Por fim, houve o debate sobre a revista Realidade, com Mylton Severiano, José Hamilton Ribeiro e Ignácio de Loyola Brandão. Vale lembrar que a revista fazia “new journalism” antes de essa onda estourar nos EUA e os colonizados mentais se perguntarem por que ninguém fazia algo parecido por aqui. É mais ou menos como as pessoas que se surpreenderam com os primeiros raps americanos que aqui chegaram e não deixaram que pense, que diga e que fale. Hamilton Ribeiro também falava da época do copidesque, que pegava uma matéria, esquartejava-a e deixava-a uniforme com outras, passando a impressão de que todo um jornal tinha sido escrito pela mesma pessoa. E falou também sobre os copidesques e editores da Realidade, que respeitavam o estilo de escrita de cada jornalista e, mais ainda, muitas vezes melhoravam o texto do cara…

Enfim, uma ocasião daquelas que não esquecerei tão cedo. Foi uma oxigenada daquelas nas minhas idéias. Domingo é o último dia e terá gente boa, como Caco Barcellos e Mino Carta… vale a pena ir…

Esta é mais perceptível ao jornalista, mas também pode ser notada pelo leitor ao se deparar com um texto que não feda nem cheire pelo simples fato de não feder e nem cheirar: às vezes entrevistamos uma fonte que costuma falar ditos ou expressões bastante populares, muitas vezes já com grande poder de síntese embutido e que poupam uns preciosos caracteres do espaço tão exíguo dado para se escrever.

Porém, eis que vemos o editor chiar com tal tipo de texto e substituir tal expressão por algo bem mais comprido e que nem de longe terá o mesmo poder de síntese. E esse algo comprido, é claro, sem usar metáfora alguma e talvez sem explicar como explicaria aquela singela expressão. E nessa, vai-se por água abaixo a exatidão da declaração da fonte e o respeito à verdade dos fatos, fora o respeito pela maneira como a pessoa estrutura seus pensamentos.

E o motivo disso? Claro, o leitor não entende essas expressões populares, o conteúdo da expressão pode ser ofensivo a certas culturas e crenças e por aí vai. E você acaba recebendo em sua casa um veículo de comunicação igual a tantos outros por aí.

Não, os blogs não substituirão a imprensa em papel, até pelo fato de dependerem de energia elétrica fornecida na hora para serem lidos, seja em um computador daqueles, seja em um smartphone qualquer dentro de um ônibus. Se a bateria acaba, o tiozinho do lado que está com um jornal tradicional continuará lendo, enquanto o moderninho vai ter de olhar sobre o ombro. Porém, é essa conexão direta que sinto falta na imprensa tradicional. Não a vemos se atrevendo a jogar as coisas ao crivo dos leitores para receber a resposta depois. É sempre “o leitor não isso”, “o leitor não aquilo”, “você acha que o leitor vai saber?” e por aí vai. OK, o retorno para a matéria na via tradicional nem de longe terá a rapidez que haveria em um site ou um blog. Porém, acaba por forçar que o leitor, que não há como ser controlado em seu perfil, escolha uma de duas: ignorar ou ler, nem que desconheça boa parte do que está lá escrito. E é justamente o ler sem saber a coisa que torna interessante, pois força a pessoa a pesquisar. E na base da pesquisa, talvez em vez de ver apenas uma coisa, irá ver outra. E não falamos de hyperlinks. Até mesmo um volume de enciclopédia física gera essa experiência e isso por ter lido em outra fonte igualmente feita de papel. Quantos aqui podem ter conhecido mais sobre os sumérios pelo simples fato de terem lido na Bíblia que Abraão era de Ur?

Um dos motivos que falam para a existência de manuais de redação e estilo é a história de querer fazer parecer que um determinado meio foi todo escrito por uma pessoa apenas. É algo que ainda ouvi quando dos tempos da faculdade. Como já disse outras vezes, não sou contra manuais, desde que se restrinjam a coisas pequenas, como grafia de palavras, modos de pôr endereços e por aí vai. Mas sou totalmente contra querer que alguém escreva em um determinado estilo, como se fosse ghost-writer de um autor desconhecido. E amorfo também, uma vez que meios de comunicação são feitos por pessoas, cada uma diferente da outra.

E qual o real motivo de se querer que todo um veículo de comunicação pareça ser escrito por uma pessoa só? Talvez a resposta possa estar em não querer que alguém se destaque. Afinal, em esse alguém se destacando, há o risco de haver assédio da concorrência, que pode oferecer condições gerais melhores. E, claro, não receber reclamações dos leitores do porquê de terem tirado alguém. Quantas não foram as vezes em que vi colegas sentindo-se como peças de reposição ao serem demitidos?

Porém, isso é imposição das mais artificiais que possa existir. Basta olharmos para nossas famílias. Seu irmão ou irmã escreve e faz tudo igualzinho a ti, a ponto de quem está fora achar que são apenas uma pessoa? Nem gêmeos idênticos que sigam uma mesma profissão devem achar isso. O mesmo tipo de bolo, feito por sua avó ou sua mãe, ambas seguindo rigorosamente a mesma receita, é tão indistinguível que você acha que foi feito por uma mesma pessoa? Lógico que não.

Essa é apenas uma obsessão inútil que permeia o ambiente jornalístico. Uma coisa são padronizações de escrita de certos termos, outra é insistirem em querer que alguém siga um determinado estilo. Em alguns meios manualizados, vêm até mesmo com o papo de que a vaga para o jornalista é como um favor feito pela empresa e que, portanto, ele precisaria fazer tudo exatamente como quer a firma.

Em minha profissão, por sinal, nas ocasiões de coletivas, a gente chega até a bater o olho em uma pessoa e saber onde ela trabalha, sem ela precisar falar nada e mesmo que nunca a tenhamos visto mais gorda. Aos parcos leitores deste blog, sugiro que façam esse mesmo exercício nas oportunidades em que puderem ver jornalistas ao vivo e em grandes números. Sugiro que assistam ao Roda Viva, em uma daquelas ocasiões em que vão ministros ou políticos. Façam isso mais de uma vez e prestem atenção em determinados jornalistas. Mesmo que de um programa para outro haja mudança do entrevistador escalado, vocês terão a estranha sensação de ver a mesma pessoa, independendo de cor, etnia, sexo ou credo. Garanto que não mais estranharão se depois algum amigo jornalista lhes disser que fulano tem cara do meio X ou Y.

Sempre que ouço um “o leitor não vai saber o que é isso” ou coisa assemelhada como justificativa para não passar adiante, fico pensando no real porquê de tal alegação.

Creio em uma função transformadora para o jornalismo, até por já ter testemunhado isso, e com gente das mais simples. Tudo bem que mudar o mundo nenhuma matéria irá, mas causar pequenos impactos em contexto construtivo é perfeitamente possível.

E “o leitor isso”, “o leitor aquilo” só vai mesmo ajudar a manter um status quo. Ao introduzir conceitos novos e matérias elaboradas para público que teoricamente não as leria, indiretamente o meio de comunicação acaba por forçar uma saída da zona de conforto. E, claro, como se sabe de antemão que essa misteriosa entidade amorfa chamada O Leitor não vai entender algo se sequer foi posto esse algo para ele?

Às vezes, pergunto-me se tal postura é adotada pelos meios por saberem de total consciência que estão dando continuamente feijão com arroz sem um temperinho sequer para seus leitores e, dando-lhes um risoto com ervas finas, fariam com que ele recusasse o que lhe era servido até então, por conhecer coisa melhor.

Ao instigar, cria-se na cabeça do leitor um ligeiro desconforto mental. E é na base do desconforto que o mundo progrediu. Um certo Louis Pasteur se cansou de ver gente morrendo por causa do vírus da raiva e criou uma vacina que salvou muitas vidas, tanto humanas como animais. E por que os meios de comunicação em massa parecem não se cansar de oferecer fórmulas batidas? Por que insistem em tratar coisas de vulto praticamente como se falassem onde é uma determinada rua? E por que insistem em achar que seus leitores são desprovidos de raciocínio e precisam ser guiados pela mãozinha?

Quando instigam, forçam a pesquisar. Mas será que há medo da parte deles de os leitores instigados pesquisarem sobre o próprio meio por fontes que o meio não controla? Aliás, falando em não-controle, como já disse na postagem anterior, os meios não têm como controlar quem vai ou não adquirir informação por eles. Do lado do receptor da mensagem, pode haver desde um professor pós-doutorado quanto o mais simples servidor braçal. E se ambos pagarem com dinheiro em espécie então, nem há como se rastrear o perfil de leitor por base na análise dos gastos de cartões de débito ou crédito.

Na internet então, é mais impossível ainda, principalmente se pensarmos em poderosos motores de busca. Já vi aqui nas estatísticas do blog os termos mais estranhos possíveis que trouxeram alguém para cá. Talvez alguns tenham até lido postagens daqui com a intenção original de ver outra coisa.

Por isso, fico aqui pensando se o contínuo feijão-com-arroz não é uma forma de escravizar mentalmente o leitor, que de tanto se acostumar, estranharia algo que saísse disso. Lembro-me do ex-diretor de redação da UM, W.F Padovani, falando sobre essa história de um veículo jornalístico fechar para si que seu leitor tem um determinado perfil e ficar escrevendo presumindo-se que ele seja assim: é algo como uma seita, em que você cria uma mentira para você mesmo, acredita nessa mentira e depois se esforça para outros acreditarem na mentira que você criou. Será que “o leitor não sabe dessa coisa” não é uma espécie de seita? E quem lê algo baseado nessa premissa sem se dar conta, seria um prosélito cego e fanatizado, presa fácil de roubadas? Seria também um daqueles capazes de defender com afinco algo bem ruim e danoso, crendo ser esse algo bom?

 

 É, papito! Já distorceram o que você disse uma vez, man!

Se há algo que me enfurece no jornalismo é distorcer declarações. Já fui fonte de matéria e qual não foi minha raiva de ver que atribuíram a mim algo que nunca disse? OK, jornalistas são humanos, mas nossas fontes também o são, salvo se forem extraterrestres, mas não entrarei neste ramo, preferindo deixá-lo aos colegas da UFO, que são mais abalizados.

Esta postagem é, de certa forma, continuação da anterior. Relatarei um caso que pude testemunhar ao menos em parte. Em 2000, naquele fervo das eleições municipais, resolveram fazer no Programa do Jô uma entrevista com Marta Suplicy e no mesmo programa emendar uma entrevista com seu filho Supla.

Entra o papito em uma bela Harley com aquele seu visual de sempre. Recém-egresso de um bom tempo morando nos Estados Unidos, eis que o Rei dos Piores Clipes conta uma história pra lá de engraçada: a vez em que ele disputou campeonatos de futebol amador para um time de Nova York e a cada partida disputada, ganhava uma ajuda de custo. O time em questão era apadrinhado por um colombiano da pesada, mas que o músico nunca viu na vida. Para receber o dinheiro, ele ia a um determinado endereço e batia na porta. Disse o Charada Brasileiro: “eu batia na porta, e recebia o dinheiro em um envelope branco”. Era simplesmente hilário, dada o inusitado de tudo. 

E na Veja que saiu no sábado daquela semana, na seção de frases, pegam exatamente aquela frase que ouvi in loco e que milhões de brasileiros ouviram na televisão e editaram para algo como “recebia o dinheiro em sacos brancos”. Não é preciso dizer que associação se pode fazer entre um colombiano da pesada e sacos de cor alva. Porém, o papito, geração saúde como sempre foi naquele visual pesado, nunca pegou sacos de cor branca, mas envelope!

E essa é um exemplo extremo da distorção nossa de cada dia. Uma coisa é adequar uma declaração para um determinado espaço. Já outra é descaracterizá-la. E com isso, vão-se as nuances da fala do entrevistado. Uma vez, já me deparei com gente que implicava com uma fonte cuja declaração iniciava-se com “primeiramente”. Dizia a pessoa em questão: “ninguém fala assim”. Logo, leia-se, a fonte era ninguém e, como tal, indigna de estar naquela matéria. E com isso, perdemos aquelas coisas típicas de uma localidade ou de uma pessoa.

Claro que não é para chegar ao extremo de se tripudiar da fonte, como publicar palavras que revelem ela ser ignorante por falta de oportunidade de estudo (“nóis fumo”, “nóis vortemo” e por aí vai). Também não se pode ridicularizar algum estrangeiro com dificuldades de falar nosso idioma escrevendo no texto um ipsis literis do som que ele emite com as palavras (já vi isso com matérias falando a respeito de pessoas nascidas em países vizinhos). É tratar de ser justo com todos.

Há sempre o risco de ficar aquele algo padronizado. Será que o mesmo ninguém que não fala “primeiramente”, se for nordestino, não falará “aperrear”? E se for paraense, não soltará um “pai d´égua”? Isso porque estamos falando de regionalismos bem generalistas. Porém, temos também de levar em conta as especificidades da fala de cada um. É também uma forma de transportar o leitor para dentro de nossos textos, uma vez que as pessoas falam diferente e é essa diferença que atiça a curiosidade. Vide o sucesso que Pelé fazia na Suécia de 1958, uma época em que era mais difícil ainda que agora de ver um negro por aquelas bandas. Um amigo de meu irmão conta o caso de uma amiga de seus pais, filha de japoneses, que foi morar na Bahia há mais de 30 anos. O pessoal chegava a pará-la na rua, tirar fotos com ela, de tão diferente que era tal presença na mais africana das unidades federativas nacionais. Como podem ver, nada que envolva preconceito, mas a simples curiosidade.

Já vi também implicarem com construções textuais assemelhadas ao português de Portugal, e isso porque proferidas por descedentes de portugueses, mas perfeitamente inteligíveis a qualquer brasileiro sem origem lusitana, uma vez que eram construções textuais, mas usando palavras perfeitamente normais em qualquer parte do Brasil. É um valor cultural que faz parte de quem declara. E não é nada estereotipado…

Fico aqui pensando como seria se o Mestre Yoda existisse na vida real e fosse entrevistado e desse suas palavras de sabedoria. Talvez um “povo muito preocupado com picuinhas fica” iria se tornar um “povo fica muito preocupado com picuinhas”. Porém, a graça do Yoda é justamente a anástrofe soltada aos borbotões…

De Yoda declaração dada não distorcerão. Se distorcerem, feliz que do lado negro da Força Mestre não está. O mesmo com Anakin Skywalker impossível é fazer.