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Esta notícia vem dando o que falar nos muitos grupos de discussão da internet. Hoje, eu a recebi por e-mail e sou obrigado a comentá-la, pois é de uma leveza total. Espero que quem escreveu a dita cuja esteja lendo esta postagem e venha comentar aqui, assim como fez o colega Geneton quando falei da dele.

Como já disse em outras ocasiões, o jornalista brasileiro tende a ser sisudo e chega a um ponto de se fechar exclusivamente no assunto do texto a ponto de boa parte das matérias serem extremamente enfadonhas. Não é o caso desta.

Eis que o Santos está para contratar o meia Bolaños, hoje na LDU, campeoníssima da última Libertadores. Um jornalista que olha o leitor como mentecapto presumido até lembraria que é o sobrenome do Roberto que nos deu ao mundo o Chaves e o Chapolin. Aliás, a história do criador do programa Chespirito é pra lá de interessante e muitos comparam o mexicano a nada mais nada menos que Charles Chaplin.

Mas voltemos ao equatoriano e à postura vigente em boa parte do jornalismo brasileiro. Diriam algo como “ah, mas você tem de lembrar que nem todo leitor gosta de Chaves ou Chapolin. Falar disso pode espantar muita gente do assunto tratado”. E lá iria o jornalista escrever algo como “o Santos quer contratar o meia Bolaños, da LDU e blablablá (bocejos)…”. Você noticiou direitinho, mas garantiu também que sua matéria vá embrulhar peixe ou forrar gaiola de passarinho no dia seguinte.

Já a do Lance! vai ser lembrada daqui a dezenas de anos, tal como até hoje são lembrados os episódios do Chaves e do Chapolin e tal qual vemos camisas e mais camisas com a estampa de Seu Madruga (eu tenho uma também). Vejam que sutileza na hora de comparar os dois Bolaños:

O mais novo reforço do parceiro do Santos, o Grupo Sonda, tentará ser o segundo Bolaños a fazer sucesso no Brasil. O jogador, contratado nesta sexta-feira junto à LDU, tem o mesmo nome do criador e ator dos seriados mexicanos Chaves e Chapolin, Roberto Bolaños.

As duas séries, apresentadas pelo SBT, tiveram o ator como protagonista, já o meia, liderou a LDU na conquista da Copa Libertadores e tentará o mesmo sucesso com a camisa do Santos, que já tem Madson e Lucio Flavio no meio-de-campo.

Claro que até santista fanático deve ter caído no riso e imaginado Madson e Lucio Flavio caracterizados como Seu Madruga, Kiko, Nhonho e outros personagens. E deve ter caído no riso que é uma beleza. Como corinthiano que sou, também caí no riso, ainda que confessadamente, tirando uma certa troça. Claro que o Timão também teve jogadores bizarros e é bem viva em minha memória a zaga de 93, com Baré e Embu, ruins que só, mas que não deixavam passar nem vento naquele Brasileirão que deveria ter ido para o Parque São Jorge.

Santos é cidade praiana e tem muitos turistas. Porém, o mais famoso dos Bolaños esteve na praia e é muito lembrado por causa disso. Será que o equatoriano também será? Vejamos qual o prognóstico do periódico esportivo:

Chaves foi a Acapulco, já Bolaños, está perto de se firmar no litoral paulista. A diretoria santista ainda não o confirmou como novo reforço, mas o jogador já está confiante de que poderá passar a temporada perto da praia.

E o que dizer do quase rebaixamento do time da Vila Belmiro no Brasileirão de 2008, bem como o drama que isso ocasionou?

O meia chegaria ao clube para apagar a má campanha do ano passado, coisa que nem o Chapolin conseguiria evitar. O time lutou contra o rebaixamento até a penúltima rodada do Campeonato Brasileiro e se livrou após dois empates por 0 a 0 seguidos, contra Atlético-MG e Náutico. Falta de astúcia parecida com a do herói de vermelho e marreta biônica.

Sim, mesmo quem odeia o Chaves e adora o time do Pelé em contexto fanático religioso caiu no riso ao ver a comparação das situações. Aliás, talvez o Chapolin, se jogador de futebol fosse, usaria pílula de nanicolina e tentaria reverter o efeito quando estivesse na grande área, para ser o fator-surpresa do time.

OK, pode haver algum torcedor mais fanático que o mais fanático dos integrantes da Al Qaeda (se bem que isso existe em tudo quanto é time) e este poderia roubar um teco-teco e espatifar contra a redação do Lance! só para fazer uma maquete daquilo que vimos em 11 de setembro de 2001. Assim sendo, que façamos um meio-de-campo com os caras e os façamos terminar o dia felizes:

Mas o Santos trabalha para que o clima neste ano seja de alegria, como o da vila em que o barril de Chaves se situa. Só que a Bruxa do 71 está na lateral direita, onde o Peixe só pode contar com Luizinho. Antes que o setor comece a assombrar, como faz a vizinha, a diretoria busca alternativas. A última foi o ala Vitor, do Goiás.

Quantos aqui devem ter imaginado o tal Luizinho caracterizado como a dona Clotilde? Olha, terei de procurar uma foto do cara para imaginá-lo com um chapéu antigo e um birote, mas já o estou imaginando previamente. E, claro, o cara que planejava o tal atentado já deve ter caído na gargalhada e desistido de tal atrocidade.

Pergunto-lhes: o fato de fazer um paralelo tirou a força do conteúdo informativo da matéria? Acho que não preciso responder o que acho. E vocês, o que acharam?

Em tempos: o Bolaños da LDU chama-se Luis. Ao ver o link da matéria, vi que tinha uns corneteiros de plantão xingando o cara. OK, há pessoas que são pessimamente humoradas mesmo, mas será que o jornalista quer mesmo esse tipo de leitor quando está falando de esportes? Já disseram que o futebol é, das coisas menos importantes, a mais importante. Fico aqui pensando com que cabeça vão esses que chiaram com o texto em questão.

Infelizmente, vi gente que é tão ou mais blasé que a jornalistada que os acha idiotas a princípio. OK, há um certo grau de fanatismo em alguns comentários, mas mesmo assim, a matéria conseguiu o mais importante de tudo: não deixar ninguém indiferente.

PS: Aceito comentários que discordem da tal matéria, contanto que sejam respeitosos e falem totalmente da matéria. Qualquer argumento ad hominem, seja contra o escriba deste blog, seja contra o cara que escreveu a matéria não será publicado. O mesmo vale para aqueles que vierem com alegaçõezinhas batidas de que o Lance! seria jornal deste ou daquele time, posto que desprovidas de bases e provas sólidas. A eventuais fanáticos quase al-qaedistas como uns que vi na lista de comentários do link da matéria, aviso que os comentários aqui são pré-moderados, seus IPs aparecem aqui e fica relativamente fácil para saber quem são, em qualquer coisa. Comentaristas que sejam minimamente gente, podem ficar à vontade neste espaço, que também é de vocês.

PPS aos corneteiros sem-humor de plantão: vocês ficarem reclamando de tudo quanto é matéria diferentinha que se faz é uma das causas dos textos enfadonhos que vemos em boa parte da imprensa brasileira. Parem de reclamar e verão outros textos interessantes ganharem espaço e o prazer de ler uma boa matéria retornar.

O trabalho dos coveiros é isso. Imagine isso sendo feito em tudo aquilo que você usa para se informar.

Nesta semana, o repórter Geneton Moraes Neto escreveu um artigo pra lá de interessante em seu blog. Ao ler o dito cujo, realmente não pude deixar de me identificar, e muito, com o que ele diz, até porque é a tecla na qual bato neste blog desde o ano passado.

De fato, muito dos jornais e revistas que lemos por aí te forçam a se perguntar em que realmente te acrescentam na vida. Até acrescentam alguma coisa, como se pode ver na verve irônica do cara:

Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de “crise econômica”, eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.

De fato, certos jornais são sim mais baratos do que uma capa de chuva. Recentemente, fui a um show ao ar livre e caía um toró daqueles e pude ver que preço cobravam pelas ditas cujas.

Aquela sensação de que lemos um mesmo jornal, independente de onde estivermos e que jornal lemos, também foi esmiuçada pelo cara, como se pode ver aqui:

O jornal é de São Paulo. Poderia – perfeitamente – ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro. Eu disse “notícias interessantes”? Em nome da verdade, retiro o que disse.

Também admirei a sinceridade do Geneton ao falar que não é um desses que lê um trilhão de jornais por dia, como muitos jornalistas por aí dizem fazer e nos obrigar a fazer contas sobre quanto tempo demora para ler cada um dos jornais e ver qual a porcentagem do dia que foi ocupada para cada um.

Ele também fala sobre o clima de certos jornais tratarem as notícias ocorridas no ontem a que predominantemente se referem como se fosse uma novidade, bem como fazendo exatamente aquilo que a TV e a internet fizeram já naquele ontem.

E Geneton acaba por resvalar no assunto principal deste blog, mesmo que sequer saiba de sua existência: o tratar o leitor como se fosse alguém permamentemente em coma desde o dia em que nasceu. Geneton, aviso que já dei umas corrigidinhas bem de leve, mas que não alteram o sentido de seu texto. Cacoete de revisor:

Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pelo mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo? Em que planeta os editores de primeira página vivem? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página?

E já que grandes impérios não caem por causa de inimigos externos, mas por fraquezas internas, ele levantou uma boa lebre: a de que certos editores agem assim por na realidade terem medo do fim do jornal impresso, não por obsolescência do tipo de mídia, mas pela maneira como estão sendo feitos.

Em minhas andanças jornalísticas, vi gente exatamente deste jeito que o repórter descreve:

Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.

E que ninguém duvide de sua existência. Ao jornalista que duvidar, que escreva um titulinho mais interessante ou um texto mais envolvente para ver o tipo de resposta que terá invariavelmente termos como “o leitor”, “nosso leitor”, “nosso tipo de público” e assemelhados, sempre jogando a todos nós, que somos leitores, lá no chão, como pessoas plenamente incapazes das coisas mais simples da vida.

Geneton também falou uma legal sobre aquela sensação de vermos muitas pessoas, mas parecer que vemos a mesma pessoa em tudo que é lugar, tal qual um agente Smith de Matrix:

Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.

Sim, a Grande Marcha dos Fatos tem de ser mesmo referida dessa maneira, pois é épico sim fazer um produto de comunicação, que nem precisa ser grande ou dos mais famosos. E os fatos, queiramos ou não, acontecem, cabendo aos jornalistas abordarem da maneira que mais faça a pessoa ler e guardar em sua mente aquilo que está sendo noticiado.

E quando você chega com uma sugestão de matéria das mais interessantes e imediatamente jogam aquele balde de água fria usando das afirmações mais esdrúxulas possíveis? Sim, Geneton também fala e, pela quantidade de vezes que usa a expressão “chata” para se referir à imprensa, não é preciso dizer o quanto que essa mentalidade está entranhada no Brasil. E ele também lembra que a regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.

O jornalista, que como qualquer ser humano precisa ganhar seu sustento, sente-se tolhido de fazer o trabalho do jeito que gostaria de fazer e acaba aceitando ter sua criatividade reprimida e sugada justamente por muitas vezes reportar-se a um desses tais “coveiros” a que ele se refere.

E você, como tem consumido os produtos jornalísticos? Se é que vem consumindo. Se não vem, ninguém irá recriminá-lo por tal coisa. Realmente está muito maçante acompanhar boa parte da imprensa. O pior é que esses que a matam muitas vezes chegam aos melhores cargos. E Geneton mais uma vez faz uma troça desses:

O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco….Quá-quá-quá).

Muitas vezes, os jornais (acrescente aí revistas e por aí vai) só estão vendendo mesmo por causa de seu nome, ainda mais pensando que vivemos uma crise econômica causada por gente que quis pôr o nome como solitária garantida de alguma coisa. Pois se fosse pelo conteúdo, ficariam na banca, isso se já não ficam:

Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente.

Aviso ao colega que não concordo com essa história de que a Gretchen seria descerebrada, ainda mais pensando que ela fez curso de pedagogia, bem como é preciso ter cabeça para sustentar três décadas de carreira na crista da onda. Podemos fazer objeções à Rainha do Bumbum, mas burra é algo de que não podemos chamá-la.

E esse repórter a cujas matérias gosto tanto de assistir também versa no campo dos velhos tabus postos pelos coveiros da imprensa, como a proibição da voz passiva e outras. Aviso também que fiz pequeniníssimas correções ortográficas que não alteram o sentido do texto:

Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia, sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios. Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia “São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio”. Por que não algo como “TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO” ou “JOGADORES DO SÃO PAULO PROIBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV”? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável – um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas… o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.

Aliás, a exemplo da linguagem de fresta que os cantores e compositores usavam no tempo da ditadura militar, os jornalistas também estão fazendo uso da mesma para tentarem passar adiante as informações mais interessantes sem que elas sejam podadas pelos tais coveiros. É um tipo de expediente que ganhou vulto nos anos 90, mas por causa de certas preferências políticas enrustidas que certos meios tinham. Aliás, recomenda-se a todo jornalista que se reportar a um superior com experiência prévia no Araçá ou no Caju que façam isso, pois eles não merecem o que você escreve, mas o leitor sim.

E quem são esses que sepultam a imprensa?

Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.

Vi esse artigo republicado em outros lugares. Em um deles, quem mais descia a lenha no Geneton era uma pessoa cujo olhar e semblante muito me lembram os de famosos psicopatas, isso se não for um sociopata que transforma a vida de seus subordinados em um inferno quanto destes escrevem algo um pouco mais palatável e menos óbvio. E qual não foi a surpresa de ver que os arautos da obviedade na imprensa usaram de expedientes igualmente óbvios para desqualificar o texto? Afinal, não é preciso usar muito raciocínio para chamar de dono da verdade alguém que discorda com propriedade daquilo que você escreve. Tanto não precisa de raciocínio que sequer é necessário ler e decodificar o texto escrito, principalmente se ele for longo. Nessa de desqualificar, também desqualifiquem o cara dizendo que jornalismo diário não seria a do cara. Vale lembrar que Geneton trabalhou por cinco anos no Diário de Pernambuco, bem como na sucursal nordestina do Estadão e na Globo desde 1985, já tendo sido editor e repórter. Duvido aqui que a pessoa que quis desqualificar o texto do repórter especial da Globo tenha mais experiência em jornalismo diário que o Geneton. Em todo caso, a pessoa que comentou sequer versou de leve na contra-argumentação àquilo que o texto diz. Disse que que os exemplos citados pelo pernambucano são estapafúrdios. Mas por que seriam estapafúrdios? Essa resposta, creio que Godot chegará antes dela.

Recentemente, estou lendo A Sangue Frio, de Truman Capote. Será que o assassinato da família Clutter teria a repercussão que teve se fosse na base do “Família é assassinada a tiros no Kansas”? E isso se pensarmos que os chamados jornalistas literários usam desses expedientes desde um tempo em que as fontes disponíveis de notícia eram bem menores que as atuais. Se temos mais, por que a obviedade se multiplica e, pior, reage contra quem lhe faz objeção?

Ando notando em alguns uma certa euforia para com a onda de blogs. Alguns dizem ser o futuro da notícia. Outros falam que a partir de agora, todo mundo é jornalista, entre outras.

Ouço essas coisas com o maior dos respeitos, até porque vem de gente com quem me dou bem. Porém, não posso deixar de achar que há aqui uma euforia equivalente àquela de quem achava que a TV iria acabar com o rádio e o cinema, entre outras assemelhadas.

Sinto muito, mas isso não vai acontecer. Assim como você continua indo ao cinema, ouve seu radinho e lê seu jornal, os jornalistas continuarão sendo jornalistas e para chegar longe, terão de comer muito feijão, estudar um bocado e agir jornalisticamente. E jornalistas poderão ser blogueiros, bem como a maioria absolutíssima dos blogueiros não é nem nunca será jornalista.

Um dos motivos é simples: o agir blogueiro difere do agir jornalístico. Por mais que se tente agir jornalisticamente, o grau de opinionismo por aqui é maior, porque blogs são mesmo opinativos por essência. Quem lê este blog o lê porque espera aqui ver aquilo que penso a respeito de algo. Mesmo que eu noticie algo aqui (como da vez em que cobri o Salão Nacional do Jornalista Escritor), já está subentendido que mesmo que se tente ser isento, é aquilo que penso e em um viés que no sentido jornalístico estrito, estaria mais para uma coluna do que para uma matéria.

Vejo a polêmica sobre o diploma, mas vejo também que um esquecimento do ciclo de vida das profissões, o quanto que elas evoluem e o quanto de saber específico elas passam a exigir. Olhem para os dentes de algum urbanóide pela casa dos 60 a 70 anos e vejam o que o dentista prático fez em sua arcada. Compare agora com a média dos dentes de quem foi cuidado por algum portador de número do CFO mais recente.

Concursos públicos vêm ganhando importância na absorção da mão-de-obra de nossa profissão. E para assumir o cargo neles disputado, é preciso ter diploma e registro. Diga “eu tenho um blog” na hora de assumir o cargo e verá as pessoas de lá contendo os risos para não ficar ridículo para seu lado. E olha que muitos dos cargos de concursos são bons cargos, dos mais construtivos e daqueles que você teria orgulho de desempenhar.

Recentemente, tivemos séries muito boas em blogs, como a que Luís Nassif vem conduzindo sobre a Veja e que antes da Satiagraha estourar, já havia cantado muitas bolas. Porém, nunca se esqueça que por lá está sim o jornalista Luís Nassif, mas também o blogueiro, que vai acabar em algum momento deixando algo que revela o tal viés opinativo mais forte dos blogs. Se bem que no caso dele, ele chega a separar o que é notícia puro-sangue do que é blogagem, permitindo que a pessoa vá com a cabeça já preparada para ver o que é o que, ainda que aquela ressalva mental tenha de ser acionada sempre que virmos algo que é blog.

Fala-se do tal “jornalismo cidadão”, mas alguns se esquecem que as tais contribuições são feitas por pessoas que não têm o jornalismo como atividade-fim. Portanto, é de se esperar que não haja o mesmo comprometimento com a qualidade da dita cuja, por mais bem apurada que seja. Comprometimento, no caso, entenda-se de estar permanentemente voltado para o ato de noticiar de maneira isenta, uma vez que disso se vive. Ou alguém aqui de sã consciência vai imaginar que um “jornalista cidadão” que por um acaso seja médico vai largar um paciente no meio de uma cirurgia para atender ao celular e anotar atentamente tudo que a fonte fala em um bloquinho? Com certeza não. Noto aqui, no máximo, um ligeiro paralelo com os cinegrafistas amadores. Vide a história da Favela Naval: o cara flagrou os PMs dando porrada em cidadãos, mas quem foi lá apurar a história foram os jornalistas. Lá foram eles ouvirem os muitos lados, lá foram eles se dedicar ao assunto. Já o cinegrafista amador, não é de se imaginar que extraia seu sustento de fazer imagens em contexto jornalístico, como faria um videorrepórter.

Blogs são fontes de informação? Sim, assim como placas de trânsito, jornais, vizinhas fofoqueiras e cães que te arrastam para ver algo que lhes chamou a atenção. A grande diferença é sobre o que é a informação jornalística. Essa tem cara bem definida e, assim como em qualquer outro ofício, temos os bons e os maus, com a diferença que os maus conseguem prejudicar alguém em espectro muito mais amplo que o da fofoca da vizinha. Alguns de cara irão se lembrar da Escola Base e o massacre a que foram submetidos os envolvidos. Porém, os mais antigos irão se lembrar de uma gama de casos muito mais ampla, daquelas que fará qualquer um agradecer aos céus de os tempos românticos do jornalismo não mais existirem, ao que sugerirei a leitura de Cobras Criadas, livro de Luiz Maklouf Carvalho que fala de David Nasser, mas também de certos aspectos daquele jornalismo.

Portanto, informe-se nos blogs, mas não ache que alguém que escreve um blog é jornalista pelo fato de escrever blog. Porém, lembre que o blog demanda paciência de quem o lê, não pode ser transportado para lá e para cá, não tem a infra-estrutura de uma empresa jornalística (quem nem grande precisa ser) e por aí vai. Não ache que isto aqui é presumivelmente isento até que se prove o contrário. Nem os blogueiros acham. E também não ache que os blogs balançarão a roseira a ponto de qualquer pessoa poder ser considerada jornalista.

Deixo-os com este link para que pensem um pouco. Link esse que já levantou uma bela polêmica na blogosfera.

Tarde de terça-feira, 15 de julho de 2008. O ônibus segue pela Rebouças rumo ao centro da cidade. Percorre o corredor e, em pé no degrau da porta traseira esquerda, o que vemos? Sim, ele, o leitor:

A foto está tremida e foi tirada com um celular, mas o escriba deste blog testifica e dá fé que o rapaz em questão tinha todo aquele jeito que só quem é das perifas paulistanas tem. Usava aquelas roupas chamativas e incrementadas que você precisa ser mesmo de lá para saber deixar tudo na maior das elegâncias. A camisa era de botão e preta, mas as costuras com um quê de desenhos tribais tiravam toda e qualquer sisudez da dita cuja. Isso para não falar da calça do mancebo, também bastante maneira. Um office-boy? Um auxiliar administrativo? Não saberemos ao certo.

E o que ele lia?

A) O Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, na edição da L&PM Pocket

B) Cigana do Amor. Trago seu (sua) amado(a) em três dias. Pagamento depois do resultado.

C) O Doce Veneno do Escorpião, de Bruna Surfistinha

D) Algum folheto de orientações sobre equipamentos de segurança

Já chegando perto do ponto final, ele pôs o que lia no bolso e desceu na altura da esquina da Paulista com a Consolação. Talvez trabalhe lá ou talvez fosse aproveitar o Bilhete Único.

Impressionou-me o quanto ele estava compenetrado no assunto. Passava longo tempo em uma mesma página, destrinchando aquilo que estava em suas mãos. Era cara bem atento mesmo.

E aí, já descobriu o que ele lia? Segue a resposta abaixo:

Opção A

Sim, isso mesmo. Ele lia uma obra histórica e de importância fundamental para entendermos o que ocorreu do século XIX em diante. Lia sem maiores problemas, prestando bastante atenção aos tão intrincados textos, ainda que feitos para uma massa proletária ignara do século retrasado.

Esqueceram de avisá-lo que não pode ler essas coisas, pois é “o leitor” e dele só se espera que leia e compreenda qualquer coisa até o tamanho do letreiro do ônibus em que estava. Já na imprensa, esqueceram de avisá-lo que ele só pode ler textos curtinhos, mastigados, anódinos ao extremo e que forrarão gaiola de passarinho quando o dia terminar. Avisem também que ele não poderá ler qualquer coisa que tenha ordem passiva e que terá de cantar o Virundum sem ter a menor idéia do que é anacoluto e outras figuras de linguagem. Obrigado.

Por acaso esta menina merece ser bucha de canhão para enriquecer cofres de gente que fatura sobre sua morte falando dela diuturnamente?

Ninguém aqui quer que as investigações sejam suspensas ou esquecidas, mas também não queremos a espetacularização que se promove em cima dessa menina cuja morte, de fato, foi bastante atroz.

De dia, de tarde, de noite e de madrugada, somos bombardeados com notícias desse caso. Porém, qual a relevância dessas notícias? “Alexandre Nardoni bebe água”, anuncia o meio X em letras garrafais. “Ana Carolina Jatobá pede uma pizza meio margherita, meio frango com catupiry”, diz o meio Y. E no canal de TV, uma manchete bombástica que você não pode perder: “Pai de Alexandre espirra compulsivamente perto de um jardim florido”.

Alguns dirão que é isso que o leitor, o ouvinte, o telespectador ou o internauta querem. Porém, querem fazer parecer crer que estão na sua prerrogativa de meio informarivo, escondendo, como alguém esconderia um elefante debaixo do tapete, que apelam para suas sensações com o simples intuito de ganhar mais audiência ou tiragem, ambas por sinal bastante voláteis.

Além disso, pensando no tempo de um programa de TV, no número de páginas de uma revista ou terminal ou em quantos gigabytes tem um servidor, já pararam para pensar o quanto de notícia de fato não se tornou de conhecimento público para dar espaço para detalhes sem importância do caso?

É natural que assassinato de criança gere comoções. Porém, quantas outras crianças foram assassinadas entre 29 de março e a data em que esta postagem foi publicada e que não tiveram sequer um minuto de notícia? Quando muito, viraram estatística de delegacia e olhe lá.

Isso me faz lembrar também as duas semanas que passei na Flórida no começo de 1995, quando ainda era um adolescente. Ligava a TV e o que mais se via era falarem do caso O.J Simpson. Ligasse a TV, passasse o canal e só se via o senhor Orenthal James e o assassinato de sua ex-esposa Nicole Brown. Em duas semanas por lá, sabe qual foi a única notícia que tive do Brasil? A contratação de Romário pelo Flamengo. E só. Isso para não falar de notícias que interessariam aos próprios americanos e estavam sendo deixadas de lado para falar que o ex-jogador de futebol americano fez o importante ato de pôr uma moedinha em uma máquina de refrigerante e pegar uma Coca-Cola, algo que, como sabemos, é de extrema importância para a vida de todos e ninguém conseguiria dormir sem tal coisa.

Ele também tomou um belo tempo do noticiário americano. E também indiretamente tomou um belo tempo daquelas notícias que de fato afetam a vida das pessoas

A exploração em cima do caso O.J Simpson chegou a tal ponto que houve hora em que as próprias emissoras de TV pararam voluntariamente de exibir notícias a respeito do caso, de tão saturado que o público e suas grades de programação estavam. Chegou um ponto em que se via como selo a ser exposto atrás dos apresentadores uma foto do cara e os dizeres “No More O.J”.

E, claro, nem é preciso parar para pensar se os ocorridos com O.J Simpson e Isabella Nardoni obrigatoriamente mudam de fato a vida de um entorno maior que o dos envolvidos. Aliás, tenho cá minhas suspeitas de por que a pequena acabou sendo a bola da vez e isso envolve muito mais que um caso de infanticídio. Envolve questões de classe social, lugar onde foi praticado o crime, bem como a relativa assepsia da coisa toda. Não foi um crime em que alguém teve a cabeça esmigalhada por um balaço e que a simples veiculação das imagens gera asco e comoção pela memória do morto sendo tão acintosamente desrespeitada.

Portanto, dá até para traçar um paralelo entre a maneira como vêm abordando o caso Isabella e aquela como a grande mídia vem abordando a guerra do Iraque. Por acaso se lembram de verem cadáveres em Bagdá depois de tantas bombas caídas do céu e milícias se enfrentando na rua? E por acaso se lembram de alguma parte do inquérito de Isabella ser mostrada mais explicitamente? Claro que não, afinal, isso faria com que a audiência se manifestasse negativamente e notasse que vem sendo continuamente explorada na comoção que de boa fé têm ao verem um caso desses.

Tudo bem que, tirando o sensacionalismo, parece que a mídia aprendeu bem com os erros do caso Escola Base, à exceção de uma ou outra coisa. Porém, continua o equívoco de se dar a um caso de homicídio desses uma repercussão que não tem se analisarmos mais na real. Mais uma vez, pergunto-lhes quantas crianças morrem assassinadas em São Paulo a cada mês e que nem de longe seus casos têm a mesma repercussão. Por que será isso? Porque aí teriam de falar mais aprofundadamente de coisas que vão além da simples psicologia ou investigação criminal? Teriam de chocar o público mostrando que nem todas essas crianças moravam em um imóvel decente como o apartamento da pequena? Afinal, como sabemos, a visão de um barraco mal-construído é muito mais assustadora que a de um prédio bem feitinho, assim como a rua de terra com esgoto aberto choca a vista enquanto um asfalto bem assentado nem de longe gera tal sensação.

Que cenário te prende mais a atenção para o assassinato em si? Este acima?

Ou este aqui?

Não duvidarei que parte da comoção artificialmente gerada sobre o caso Isabella venha também da mente de alguns capi dos meios de comunicação. Analisando friamente a notícia, vejamos que há muito menos elementos de desvio de atenção no assassinato da menina do que haveria no assassinato de outra menina de mesma idade em uma bocada qualquer. Diriam eles, ainda que não assumidamente, que um corpo caído em uma perifa qualquer não tem o impacto que vem tendo a pequena Isabella. Afinal, o cenário de fundo acaba tirando parte do destaque ao protagonista da história. Afinal, o que é aquele esgoto a céu aberto correndo do lado do cadáver? E aquela casa que está quase para cair? E aquela mãe lotada de filhos, todos eles bem desnutridos? E o que dizer daquele Gol estacionado na rua com um adesivo gigantesco nos vidros fumê? Muitos detalhes para prestar atenção, não é verdade?

E lhes garanto que essa análise fria não é tão fictícia assim quanto parece. Conheço casos de programas de TV estilo “essa é sua vida” em que o diretor ficava gritando no ponto eletrõnico para quem apresentava coisas como “mas e aí, essa vaca não vai chorar?”. Sim, isso mesmo que estão lendo: a mulher se emocionando, mas sem chorar, algo que pode acontecer com várias pessoas, sem que isso signifique que elas são frias sociopatas que falam de suas maldades como falariam onde é uma rua.

Aliás, já que falamos de padrões midiáticos, pararam para notar que na TV, mulher do povo sempre tem uma voz esganiçadinha, como se ao ouvir uma, tivéssemos ouvido todas as outras? Mas será mesmo que toda mulher do povo tem esse timbre de voz ou não existem aquelas que teriam uma voz mais ou menos parecida com a de Ivete Sangalo ou Zélia Duncan?

Portanto, meus caros parcos leitores, vou lhes sugerir que mudem de canal sempre que aparecer algo sobre Isabella. Sei que é difícil, até pelo apelo às sensações meio que compelir automaticamente a ficar vendo, mas parem para pensar se saber ou não disso irá mesmo mudar suas vidas. Aliás, o que de fato muda em sua vida a presença ou não de Isabella neste plano, caso você não seja amigo, parente, vizinho ou professor dela? Não quero aqui dar uma de pessoa fria, até porque já tive gente querida assassinada por um trio de assaltantes, sendo que o único sobrevivente dos meliantes, para variar, era dimenó. Chegou até a aparecer em alguns programas da TV no dia do ocorrido. Filmaram até a fachada da casa. Porém, a viúva não deu muita trela para a mídia. Recusou-se a emprestar uma foto para que jornais, revistas e televisão ilustrassem. O resultado é que provavelmente nenhum de vocês deve se lembrar do ocorrido, que foi em janeiro de 2004. E não duvidarei que em muitas emissoras e jornais, tenhamos ouvido certos superiores falando sobre a viúva palavras tão “abonadoras” quanto as do diretor do programa de TV no ponto eletrônico. Porém, ela e seus familiares conseguiram ter um pouco de paz em suas vidas, bem como o caso foi igualmente investigado e constatou-se que de fato, o trio era mesmo de assaltantes sem relação alguma com a vítima ou sua família. E o dimenó, garanto-lhes, não era nenhum coitadinho. Aliás, era até primeiro-anista de curso de Direito e, portanto, com 17, quase 18, quando do acontecido.

Enquanto gasta-se muito tempo para falar de insignificâncias sobre o crime em questão, gasta-se muito pouco tempo para se falar da carestia mundial dos alimentos. E o que me diz da questão das muitas mortes diárias do trânsito? Ah, isso não aparece, pois forçaria até mesmo os jornalistas a pensarem um pouco em cima. E pensar dói para alguns colegas de profissão.

Por fim, alguns virão aqui dizer que estou querendo faturar em cima do ocorrido, ao que respondo que este blog é apenas e tão somente sobre a imprensa e a maneira como ela trata o leitor. Pararam para pensar um pouco se não estão sendo tratados como incapazes que reagem com o fígado quando lhes bombardeiam com notícias sobre o tal caso? E a troco de que dão tanta audiência? Aliás, aviso que esta será a primeira, última e única vez em que abordarei este assunto por aqui. Afinal, se quero que parem de urubuzar tanto o cadáver de uma menina até por respeito a sua memória…

Outra vez saio da tônica habitual do blog, ainda que este assunto vá mais ao encontro da proposta de protesto contra uma mídia que insiste em achar que vocês, leitores, são incapazes de escolher as coisas, acham que textos bons não podem ser informativos, bem como não saberiam apontar o Afeganistão no mapa.

A blogosfera em geral já sabe da resolução do TSE gerando uma série de restrições à campanha política de 2008 na internet. Aliás, ela praticamente proíbe a campanha pela internet.

Diz o Tribunal Superior Eleitoral que cada candidato poderá ter apenas um site e que estão proibidos a publicação de blogs, o envio de spam, participação no Second Life, telemarketing, SMS e veiculação de vídeos no YouTube.

Ontem, assistia ao programa Opinião Nacional, da TV Cultura, em que foram convidados Marcelo Tas, os deputados federais Júlio Semeghini (PSDB-SP) e Manuela D´Ávila (PC do B-RS), bem como o vereador paulistano José Américo (PT), o professor universitário Sérgio Amadeu (Cásper Líbero) e Ana Flora França e Silva, especialista em direito eleitoral e secretária do TRE-PR. E realmente a opinião corrente foi a de quererem legislar sobre o que não há como ser legislado. Vale lembrar que não há legislação sobre campanha política pela internet, até porque ela é transnacional.

O absurdo do tal parecer chega a ponto de se uma pessoa física qualquer que não o candidato quiser fazer um blog, comunidade de Orkut, vídeo do YouTube ou qualquer outra coisa, o candidato seria punido por causa de seu eleitor. Sim, isso mesmo que estão lendo. E seria punido não por coisas condenáveis, como compra de voto ou transporte de eleitor, mas sim por simplesmente um eleitor querer externar seu apoio nesta mesma rede que eu e você usamos para nos comunicar, informar e travar debates. E nessa, até o político mais canalha não tem como ser punido por algo que não fez.

Claro que pode haver usos condenáveis da internet até mesmo em campanha eleitoral, como cooptar blogueiros para descer a lenha em adversários políticos (tal qual temos visto na disputa das teles). Porém, isso é coisa tão fácil de rastrear que logo faria água. Como o próprio Tas disse, um político mandar spam seria um tiro no pé daqueles. E os caras estão atentos a isso, tanto que em geral, você precisa assinar o informativo do político para recebê-lo em seu e-mail. E, como outros aqui, se me mandassem spam, esse político seria o primeiro em quem não votaria.

A tal resolução também acabaria por tornar as campanhas mais caras (disse Manuela D’Ávila que sua campanha para deputada foi barata justamente por usar fortemente a internet, seja por site, seja por blog, seja por YouTube). Vale lembrar que as restrições que há para noticiário em TV e rádio (aquele lance de ter de dar espaço igual para todos e outros quetais) devem-se ao fato de esses meios serem concessões públicas e nos quais o usuário assume papel passivo. Portanto, há sentido em se conter eventuais manobras nesses meios.

Porém, a internet é via de duas mãos. Primeiramente, alguém entra no site de um político justamente porque quer saber mais sobre esse político, e não quer saber dos outros. Portanto, é algo feito de livre e espontânea vontade, podendo ser feito a qualquer horário, e não nos horários predeterminados da propaganda eleitoral gratuita de rádio e TV. Quantos aqui não entraram em sites de políticos, seja por serem fãs deles, seja por quererem saber mais de suas propostas?

A tal via de duas mãos chega ao ponto de você poder mandar um e-mail para o político. Não é à toa que todo deputado e senador tem um e-mail individual e profissional, e que justamente serve para que qualquer um daqui mande sua mensagem. Já mandei e-mail para senador e o mesmo me respondeu, muito educadamente por sinal. E deu para ver no tal senador um certo receio de perder um voto por causa de minha indignação com certas atitudes dele (atitudes, frise-se, que nada têm a ver com corrupção, maracutaia e afins, uma vez que esse político é bastante honesto e põe toda a prestação de contas na internet). E isso é simplesmente ótimo.

Já pensaram também na perda da beleza da coisa que é poder debater mais diretamente com o político? Pensem no quão hermética vai ficar a coisa caso não se possa ter um blog ou uma comunidade do Orkut. Aliás, na eleição de 2006 o Orkut foi tão importante que tanto Lula quanto Alckmin, ao passarem para o segundo turno, veicularam no YouTube vídeos agradecendo pessoalmente aos membros do site azulzinho. E vídeos bem simplesinhos, sem muita produção, coisa daquelas feitas em um intervalo de gravações. Quanto isso custou a mais nas campanhas deles? Quando muito, um tempinho extra e olhe lá.

E como já disse antes, o parecer do TSE, que ainda precisa ser aprovado, presume que o eleitor é incapaz de saber o que é melhor para ele. Claro que ainda temos muita ignorância eleitoral (e falo isso transcendendo quaisquer espectros ideológicos), mas não esqueçamos que o poder emana do povo, que o faz elegendo representantes ou mesmo diretamente, via abaixo-assinados e outros recursos.

Muita coisa ruim de nossa democracia, como a salada de votos que faz com que quase nunca um político tenha maioria no Legislativo e que nosso presidencialismo funcione como um parlamentarismo imperfeito, são mais questão de educação do povo. Afinal, não adianta votar em A para o Executivo e B para o Legislativo e achar que tem alguma moral de exigir que ambos cumpram o programa de governo, uma vez que ambos estarão se digladiando até por razão de se oporem. É questão de o eleitor se ligar e ver que é preciso pensar em um programa amplo de nação, não em coisas pontuais. Aliás, é em programas, não em pessoas, que você vota. Claro que é importante que a pessoa que lhe apresenta o programa seja honesta e trabalhadora, até por questão de confiança, mas alguém pode ser honesto e trabalhador pondo em prática um programa com o qual você não concorda nem um pouco. E, claro, lembre-se de que, sem maioria na câmara, fica muito difícil o Executivo propor o programa maior. E é esse programa que vai afetar mais sua vida do que as coisas pontuais de um parlamentar.

Claro que na eleição municipal, a coisa muda um pouco de figura e um vereador pode e faz a diferença, uma vez que é campanha mais focada. E esses sofrerão ainda mais, pois terão suas parcas verbas tendo de ser investidas em meios mais caros, e nem de longe tendo a mesma efetividade de um meio de mão dupla.

Claro que ainda teremos algumas besteiras em nossos 5 mil e poucos municípios, como a eleição de pessoas que não valem o pão que comem, mas em 5 mil e poucos municípios, isso acaba sendo algo esperado, pois envolve universo estatístico grande. Porém, tudo isso reflete também quem é o eleitor. E o mesmo, garanto, é mais consciente daquilo que faz do que pode parecer. Vide os famosos votos na base do “rouba, mas faz”. Se alguém sabe que o tal realizador surrupia, mas mesmo assim vota nele, é sinal de estar ciente do ocorrido, não acham?

Portanto, se alguém do TSE vir estas linhas ou fizer parte da minha base de parcos leitores, que pense muitíssimo bem no absurdo que poderá aprovar, bem como no cerceamento que infligirá ao eleitor e no encarecimento das campanhas municipais, que por terem abrangência menor que as nacionais ou estaduais, naturalmente têm mais dificuldade de angariar fundos e, quando os angariam, poderiam muito bem usá-los com mais sabedoria, se assim for facultado.

Um senhor convalesce no hospital. Septuagenário, continua forte como um touro, mas teve problemas devido a seus muitos anos de cigarro e má dieta. Segue totalmente lúcido e tendo o humor como guia sempre. Chega até a fazer piadas de humor negro com o problema que teve, demonstrando que praticamente nada foi afetado.

Porém, precisa ficar em observação, pois o que o levou ao hospital é grave, ainda que seu estado de saúde esteja bom. Muitas retiradas de sangue são feitas por dia, para fins de análise, sempre por gente da mais simpática, uma raridade se pensarmos que até os melhores centros de saúde tendem a tratar as pessoas como gado. Colhe os frutos do tempo em que diploma superior garantia vida de nababo, fruto do esforço que teve para sair da pobreza em um tempo que o Brasil era país fundamentalmente de ascensão social.

Sem muito o que fazer, trata de ler. Em suas mãos, o livro A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini. É uma leitura sempre interrompida pelas muitas entradas de funcionários do hospital.

Chega a hora da coleta de sangue. O “vampirinho”, como são chamados os que fazem isso, é um auxiliar de enfermagem que provavelmente gramou muito para completar o curso técnico. Seus olhos transparecem o esforço que fez.

Vampirinho: E aí, vamos coletar o sangue?

Senhor: Claro. Apenas tome cuidado que minhas veias são difíceis de achar.

V: Puxa vida, mas o senhor já deve estar cansado disso tudo, não?

S: É a vida. O que importa é que fui atendido rápido e estou sendo bem acompanhado.

V: Verdade. Estica o braço. Espera só um pouco e… pronto, já consegui.

S: Ainda bem. Você foi dos poucos que conseguiu de primeira.

V: A Cidade do Sol? É do mesmo autor de O Caçador de Pipas. Preciso ler esse livro.

S: Leu O Caçador?

V: Li inteiro e assisti ao filme. Prefiro o livro, mas fui ao cinema umas duas vezes só para ver o filme. Adoro Khaled Hosseini. Minha mulher que o diga.

S: Gosto muito dos livros dele. Que coisa triste o Afeganistão. Muitas guerras, muita pobreza, fanáticos religiosos, ditaduras.

V: Pois é. E pensar que o Khaled conseguiu escapar de lá. Mas realmente adoro O Caçador de Pipas. Se bem que mudaram algumas coisas no filme em relação ao livro.

S: Eu também vi o filme e concordo contigo.

V: Bom, vai lendo o livro. Agora eu preciso sair.

S: Mas não esqueça de ler A Cidade do Sol.

V: E você acha que vou esquecer?

E o vampirinho segue para tirar mais sangue de outro paciente. Voltará para sua família depois do plantão. Khaled o espera.

Ontem, estava assistindo ao primeiro capítulo da nova minissérie da Globo e houve uma cena que, para mim, disse tudo: foi aquela hora em Tito, Ivan e Paulo estão juntos na redação.

Sendo a história ambientada em 1989, nada mais natural que a redação fosse tomada por máquinas de escrever, principalmente se pensarmos que o lugar em questão era o inferno na Terra. Porém, quem fosse jornalista via muitas coisas que não mudaram muito em quase 20 anos.

Tito é repórter e trabalha em uma revista masculina beeeeeem chinfrim. Além de repórter, acumula o cargo de produtor. Comunista roxo, odeia o trabalho de fazer triagem das mulheres que irão posar, algo previsível dentro do conjunto de crenças que o permeia. Nicola, o dono da revista diz que cem pessoas fariam o trabalho de selecionar as fotografadas de graça e pergunta se Tito é bicha. Ao que Tito responde ser comunista. Aqui, até como uma alegoria de impactos recentes do fim da ditadura, o tal dono da revista (chamada Sexus), que teoricamente estaria do lado da liberdade de imprensa e de expressão, tem uma foto do general Médici na sala. Assim como comunistas de raiz ficaram bem raros da queda do Muro para cá.

Chega o tal cara e conversa com Ivan, o editor, a respeito do especial de Natal da revista. Falam de fazer uma capa toda branca. Até aí, morreu Neves, mas o motivo é justamente lembrar da palavra do sobrenome que citei agora pouco, mas no singular. Ao que prontamente respondem que no Brasil não neva no Natal. Nicola diz que essa é uma imagem que os Estados Unidos popularizaram no imaginário do mundo. Ele logo é retrucado pelo fato de que Natal com neve é coisa normal no Hemisfério Norte, mas não no Sul. A resposta é bem típica: “e você acha que nosso leitor sabe onde ficam os Estados Unidos?”.

Tudo bem que revistas masculinas, ainda mais de cunho pornográfico como a tal publicação sugeriu ser, não são a fonte de consulta que uma pessoa usaria para ter informações. Em 1989, as mais prováveis seriam revistas informativas, jornal, atlas ou enciclopédia. E não é no Brasil onde as pessoas apontam para a Austrália quando lhes perguntam onde fica o Irã.

Provavelmente, quem viu Nicola falar sobre o leitor deve ter dado um riso, pois a cena de fato tem seu humor. Para quem for jornalista, é o famoso “seria cômico se não fosse trágico”, pois continuamos a ouvir exatamente isso, quase duas décadas depois, e em uma sociedade com internet, GPS, Google Earth e mais um monte de coisas. Também continuamos a ver um bocado de Nicolas dando as cartas. E também vários (e bota vários nisso) Ivans, Titos e Paulos.

Não precisa ser uma revistazinha chinfrim com cunho pornográfico, mas muitos daqueles tidos como “o leitor” são atraídos pelo apelo aos baixos instintos e vão ficando nas publicações que querem mais que ele se dane não sem antes dar seu dinheiro ou audiência. Muitas são as Sexus em que os colegas trabalham.

O mundo mudou muito de 1989 para cá. E o jornalismo, mais sua relação com o leitor? OK, tivemos uma porrada de danças de cadeiras, mas falo dos ambientes de trabalho. E também da postura dos colegas frente certas coisas. Quem é o jornalista hoje?

O repórter segue seu caminho. Está em um carro indo para entrevistar a fonte. Está animado, pois o assunto é muito interessante e vale mesmo passar uns minutos com a pessoa a ser indagada. Seus olhos verão ou não aquilo sobre o qual leu.

O trânsito está razoável. Muitos carros, mas eles andam em velocidade constante. O motorista habilmente desvia dos pés-de-breque e já está perto de um trecho mais veloz de pista. De lá até o destino, é só questão de minutos.

Toca o celular. Da redação, pedem que o repórter vá urgentemente, pois sua presença é necessária naquele momento. Faça a entrevista por telefone.

Pede o repórter para o motorista dar meia-volta. Porém, ele já desconfia que há algo estranho no pedido. Afinal, a maioria de suas pautas já foi cumprida. O que será que de tão necessário seu superior necessita para que seja descumprido um horário já marcado antes?

Chega o repórter desconfiado à redação e pergunta o que ocorre. Pedem-lhe que revise as provas de textos que serão publicados, mas enviados à gráfica apenas no fim do dia. Era algo que podia perfeitamente ser feito assim que ele voltasse da entrevista in loco. Chateado e soltando fogo pelas ventas, o repórter ainda diplomaticamente liga para a fonte passando um recibo qualquer de que não pôde ir lá, falando com a voz mais simpática possível. Nota-se na fonte também um ligeiro estranhamento.

Termina o expediente e volta o repórter para casa. Grita e esbraveja em um canto só seu tudo aquilo que não pode falar abertamente na redação. Xinga o editor obtuso. Não quer mais voltar àquele antro que o limita de todos os jeitos, tanto profissional quanto pessoalmente. Não quer mais ver aquela gente rasa e vazia a quem chama de colegas. Mas queria falar tudo isso e não o faz porque sabe que teria o bilhete azul e imediatamente alguém ocuparia sua vaga, talvez até fazendo mais conformistamente seu trabalho.

Profissional, ele faz a matéria com uma entrevistinha mixa por telefone. Ele sabe que sairá um lixo e não faz muito caso de melhorar esse lixo, pois já esteve com o diamante bruto próximo de suas mãos, mas o dono do garimpo o tirou de lá na hora em que via o brilho da pedra de alto quilate.

Sai a matéria publicada. Muitos leitores, sem se darem conta, pensarão que o repórter esteve mesmo lá. Mal sabem que estão sendo enganados. Porém, sabe o repórter que está a contragosto enganando aqueles por quem tem consideração.

Este é um texto que escrevi no ano passado para a seção Literário, do Comunique-se, em uma época em que a hipocrisia daquele portal não era tão manifesta quanto agora. Como verão, faz exatamente um ano que isso aconteceu, mas é uma história atemporal. Divirtam-se:

8 de dezembro de 2006. Como qualquer outro dia na capital paulista, pelas 20 horas uma multidão de pessoas apinha-se no 669A – Terminal Santo Amaro/Terminal Princesa Isabel. É a volta do trabalho com direito a um tapete de luzes, pois o Natal se avizinha.

Ela passa a catraca no trecho da Brigadeiro antes de cruzar a avenida Brasil. Morena clara, esguia, olhos oblíquos e cabelo chanel, veste camisa de cetim com motivos orientais, calça corsário azul-escura ligeiramente arroxeada e calça sapatos de salto acamurçados. Em seu braço esquerdo, leva uma bolsa pequena de alça rígida e arredondada.

“Não preciso de dinheiro, pois dinheiro é papel pintado com números”, diz ela sensualmente meneando as cadeiras. Uma sensualidade nada forçada, tão natural como alguém dizer onde fica uma rua a um transeunte. E são os transeuntes sentados naquele coletivo que irão ser platéia dela.

Logo puxa conversa com um rapaz, de nome Francisco e indo ou voltando de sua aula de jornalismo. Logo ela pergunta sobre sua camisa do Radiohead e puxa conversa falando de música, sempre se mexendo freneticamente, equilibrando-se no cano daquele transporte. A moça diz que ele deveria gostar de seu nome, até por lembrar de Francisco de Assis. Diz mais além: devemos gostar de nossos nomes pois eles dizem quem somos. Pergunta meu nome e também responde ser um nome bonito e logo pergunta se sei o que significa. Emendo dizendo que vem do grego “andros”, que significa “homem”. “Você é homem, mas também é macaco”. Brinco dizendo que talvez ancestrais muuuuuito distantes tenham sido mesmo. “Mas você também é macaco e sabe por quê? Porque você tem coração e o macaco também tem coração. Quando compreendermos que os animais têm coração entenderemos melhor a nós mesmos”, emenda. “Vocês ouvem os corações? Quantos corações há aqui? Conversa ela sobre Augusto Boal, Baal e James Joyce, em praticamente um monólogo. Sobre Joyce, diz que ninguém deve lê-lo, mas sim entranhá-lo em seu corpo.

“Porque eu sou o que vocês dizem”. E o que ela é? “Se você diz que sou mulher, logo eu sou mulher”. Ela, que alega ser atriz, logo fala também que todos os livros são o livro. Fala que os problemas do mundo são devido a não falarmos com o outro. “O que vocês querem ver?”, ela pergunta, logo emendando sobre a TV. Grita que o sangue de Jesus tem poder e logo muda de canal, fazendo cena de dramalhão mexicano e reproduzindo um “boa noite” de noticiário. “Nos vemos amanhã, no mesmo horário e no mesmo canal. E quem garante que terão isso”? Logo emenda com assuntos místicos, falando de mandalas.

“Vocês têm olhos bonitos” é o que diz para todas as mulheres do coletivo. “Todos os olhos das mulheres são bonitos. Os homens olham as mulheres nos olhos sabem por quê?”. Silêncio. “Porque eles vêem nelas a si mesmos”. Logo tergiversa sobre seus sonhos. “Meu sonho é pegar um avião e ir para um lugar onde não precisarei de papel”, diz ela sempre anotando coisas em um bloquinho.

Ágil e elástica, logo usa os balaústres do ônibus para sua performance. Agacha-se e diz que não precisa se segurar nos ferros do ônibus e que está surfando sobre salto alto. Dança esticando as pernas e deslocando-se como um açor por entre galhos fechados, impressionando pela facilidade com que se esgueira pelas mais estreitas brechas daquele Mercedão que bravamente sobe em direção à Paulista.

Triiim e o monólogo é interrompido. “Peraí que preciso atender ao celular. Senti a vibração dele”. Abre a bolsa e pega o tijolinho. Troca umas palavras com uma amiga. O número 155 e o apartamento 42 deixam todos em um suspense.

A iluminação da cidade logo lhe evoca sentimentos relacionados à época. “Sabe, eu gosto do Natal, mas não esse Natal de ter de dar presentes. Gosto do Natal por causa dos amigos. E o que é amigo? Amigos são amor. Logo, fazer amizades é fazer amor. E o que é fazer amor?”. Perdoem-me, mas não lembrarei qual foi a emenda que seu raciocínio rápido fez sobre o assunto e nada tem de moralismo nisso. Mas me lembro do que logo ela emendou: “o amor é o software”, sempre com um sorriso nos lábios.

Francisco desce na altura da Escola Paulista de Medicina, sendo saudado com um “até amanhã, neste mesmo horário e lugar”. Ela continua a conversar, desta vez comigo. Aproxima-se o prédio da Gazeta. “É hora de eu descer”. “Boa noite e vejo todos vocês amanhã, neste mesmo horário e lugar”, ela diz. Pouco antes de o ônibus parar no ponto, ela conversa um pouco com uma senhora próxima à porta traseira direita. Desce próximo à esquina com a Pamplona. Sua beleza é imediatamente escondida pela sombra dos prédios. Logo o ônibus anda e a vista perde-a de foco.

Quem é, não dá para saber. Logo, ironias são ouvidas no interior do coletivo. “Tem gente que chama os outros de insanos mas não olha para a própria insanidade”, fala a garota sentada no banco imediatamente atrás da porta traseira esquerda, que irá parar no último ponto antes de entrar na Consolação. Para mim, ela foi aquela que resolveu transformar o coletivo em um camarote para vermos um monólogo que me recorda os tempos universitários. Obrigado a você que fez nossa noite extraordinária. E para você, quem ela é?