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Ando notando em alguns uma certa euforia para com a onda de blogs. Alguns dizem ser o futuro da notícia. Outros falam que a partir de agora, todo mundo é jornalista, entre outras.

Ouço essas coisas com o maior dos respeitos, até porque vem de gente com quem me dou bem. Porém, não posso deixar de achar que há aqui uma euforia equivalente àquela de quem achava que a TV iria acabar com o rádio e o cinema, entre outras assemelhadas.

Sinto muito, mas isso não vai acontecer. Assim como você continua indo ao cinema, ouve seu radinho e lê seu jornal, os jornalistas continuarão sendo jornalistas e para chegar longe, terão de comer muito feijão, estudar um bocado e agir jornalisticamente. E jornalistas poderão ser blogueiros, bem como a maioria absolutíssima dos blogueiros não é nem nunca será jornalista.

Um dos motivos é simples: o agir blogueiro difere do agir jornalístico. Por mais que se tente agir jornalisticamente, o grau de opinionismo por aqui é maior, porque blogs são mesmo opinativos por essência. Quem lê este blog o lê porque espera aqui ver aquilo que penso a respeito de algo. Mesmo que eu noticie algo aqui (como da vez em que cobri o Salão Nacional do Jornalista Escritor), já está subentendido que mesmo que se tente ser isento, é aquilo que penso e em um viés que no sentido jornalístico estrito, estaria mais para uma coluna do que para uma matéria.

Vejo a polêmica sobre o diploma, mas vejo também que um esquecimento do ciclo de vida das profissões, o quanto que elas evoluem e o quanto de saber específico elas passam a exigir. Olhem para os dentes de algum urbanóide pela casa dos 60 a 70 anos e vejam o que o dentista prático fez em sua arcada. Compare agora com a média dos dentes de quem foi cuidado por algum portador de número do CFO mais recente.

Concursos públicos vêm ganhando importância na absorção da mão-de-obra de nossa profissão. E para assumir o cargo neles disputado, é preciso ter diploma e registro. Diga “eu tenho um blog” na hora de assumir o cargo e verá as pessoas de lá contendo os risos para não ficar ridículo para seu lado. E olha que muitos dos cargos de concursos são bons cargos, dos mais construtivos e daqueles que você teria orgulho de desempenhar.

Recentemente, tivemos séries muito boas em blogs, como a que Luís Nassif vem conduzindo sobre a Veja e que antes da Satiagraha estourar, já havia cantado muitas bolas. Porém, nunca se esqueça que por lá está sim o jornalista Luís Nassif, mas também o blogueiro, que vai acabar em algum momento deixando algo que revela o tal viés opinativo mais forte dos blogs. Se bem que no caso dele, ele chega a separar o que é notícia puro-sangue do que é blogagem, permitindo que a pessoa vá com a cabeça já preparada para ver o que é o que, ainda que aquela ressalva mental tenha de ser acionada sempre que virmos algo que é blog.

Fala-se do tal “jornalismo cidadão”, mas alguns se esquecem que as tais contribuições são feitas por pessoas que não têm o jornalismo como atividade-fim. Portanto, é de se esperar que não haja o mesmo comprometimento com a qualidade da dita cuja, por mais bem apurada que seja. Comprometimento, no caso, entenda-se de estar permanentemente voltado para o ato de noticiar de maneira isenta, uma vez que disso se vive. Ou alguém aqui de sã consciência vai imaginar que um “jornalista cidadão” que por um acaso seja médico vai largar um paciente no meio de uma cirurgia para atender ao celular e anotar atentamente tudo que a fonte fala em um bloquinho? Com certeza não. Noto aqui, no máximo, um ligeiro paralelo com os cinegrafistas amadores. Vide a história da Favela Naval: o cara flagrou os PMs dando porrada em cidadãos, mas quem foi lá apurar a história foram os jornalistas. Lá foram eles ouvirem os muitos lados, lá foram eles se dedicar ao assunto. Já o cinegrafista amador, não é de se imaginar que extraia seu sustento de fazer imagens em contexto jornalístico, como faria um videorrepórter.

Blogs são fontes de informação? Sim, assim como placas de trânsito, jornais, vizinhas fofoqueiras e cães que te arrastam para ver algo que lhes chamou a atenção. A grande diferença é sobre o que é a informação jornalística. Essa tem cara bem definida e, assim como em qualquer outro ofício, temos os bons e os maus, com a diferença que os maus conseguem prejudicar alguém em espectro muito mais amplo que o da fofoca da vizinha. Alguns de cara irão se lembrar da Escola Base e o massacre a que foram submetidos os envolvidos. Porém, os mais antigos irão se lembrar de uma gama de casos muito mais ampla, daquelas que fará qualquer um agradecer aos céus de os tempos românticos do jornalismo não mais existirem, ao que sugerirei a leitura de Cobras Criadas, livro de Luiz Maklouf Carvalho que fala de David Nasser, mas também de certos aspectos daquele jornalismo.

Portanto, informe-se nos blogs, mas não ache que alguém que escreve um blog é jornalista pelo fato de escrever blog. Porém, lembre que o blog demanda paciência de quem o lê, não pode ser transportado para lá e para cá, não tem a infra-estrutura de uma empresa jornalística (quem nem grande precisa ser) e por aí vai. Não ache que isto aqui é presumivelmente isento até que se prove o contrário. Nem os blogueiros acham. E também não ache que os blogs balançarão a roseira a ponto de qualquer pessoa poder ser considerada jornalista.

Deixo-os com este link para que pensem um pouco. Link esse que já levantou uma bela polêmica na blogosfera.