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“Hehehe, hehehe, Penélope vai morrer, mas antes vou mandar um e-mail para a revista que leio. Hehehehe, hehehe” 

“Hehehe, hehehe, Penélope vai morrer, mas antes mandarei um e-mail para a revista que leio…”

 Sim, sou totalmente contrário a tratar o leitor como idiota ou incapaz. Sou totalmente contrário ao jornalista que não põe coisas mais elaboradas achando que o leitor de determinado meio não vai sabê-las (como se vai ter noção de que ele não sabe se não se fala a ele?). Porém, sou totalmente contrário a um tipo de leitor: o que adora dar pitaco. Pitaco difere de opinião porque é algo não-abalizado e muitas vezes destrutivo.

Esse tipo de leitor era um que costumava ficar quietinho nos tempos da pré-internet. Afinal, se já não gostava de ler, não gostava também de escrever. Porém, hoje ele se sente muito à vontade para escrever, pois precisa:

1 – Ter a idéia

2 – Escrevê-la

3 – Matutar bem aquilo que está escrevendo e tomar cuidado para não se perder no caminho

4 – Imprimir a carta (pule para o passo seguinte se for manuscrita)

5 – Pegar o envelope

6 – Escrever o endereço para o qual quer mandar a correspondência

7 – Escrever o remetente

8 – Morrer em alguns centavos para colar o selo

9 – Fechar o envelope

10 – Ir a uma caixa de correio

11 – Postar a mensagem

Repararam quantos passos foram cortados? É uma situação de fazer esse tipo específico de leitor ficar bem à vontade para fazer aquilo para o qual em outros tempos não teria vontade e paciência para fazer. O resultado disso é que nós jornalistas recebemos coisas do tipo:

1 – E-mails escritos em caixa-alta desmerecendo nosso trabalho. O cara faz um belo esforço para receber de feedback um “quanto blablablá”.

2 – Gente reclamando que não lê um texto longo porque… é longo. Os mesmos que não lêem um texto sem figuras porque… não tem figuras.

3 – Argumentações ad hominem a dar com pau

4 – Gente dizendo que o cara disse uma coisa, quando nunca disse algo assim, mas sim a pessoa que não leu direito. São os famosos analfaburros funcionais

5 – Gente desmerecendo seu trabalho, sem se dar conta que entre a apuração a matéria publicada há um monte de trabalho em cima.

6 – Mal-educados em geral. E que normalmente esquecem o Caps Lock ligado.

7 – Gente que IxKlEvI aXiM e acha que ter moral para chamar o autor do texto de burro.

8 – Gente burra na mais pura acepção do termo, que faz comentários nada a ver.

Admiramos comentários educados, assim como também correções bem feitas a eventuais erros nossos. Porém, se há algo que não admiramos e repudiamos, como qualquer pessoa que trabalha, é alguém que você nunca viu na vida dando palpite em seu trabalho sem saber como é o tal ofício. E como o que aparece é só um endereço eletrônico, dificilmente você teria como ir até a casa do fulano, chegar e dizer algo como “já que reclama, por que não tenta fazer melhor?”. 

 

 “Prezado repórter. Não li sua matéria pois ela está muito longa e isso enche meu saco. Dá para resumir?” 

Caso alguém conheça o portal G1, onde trabalha gente que conheço pessoalmente, já deve ter notado que há vezes em que se passam longos períodos sem espaço para comentários das notícias. É muito comum haver comentários de cabeças-ocas por lá, cabeças-ocas esses que respondem pela maioria dos comentários na editoria de Ciência e Saúde (editoria essa que considero das melhores no assunto entre todos os meios de comunicação brasileiros que conheço, pois são notícias escritas por gente que manja muito do assunto). E geralmente são comentários que seguem um certo padrão:

1 – “Por que os cientistas perdem tempo pesquisando o mico-leão e não trabalham para cuidar dos problemas da fome da humanidade?”

2 – “Por que os governos não param de gastar dinheiro com a exploração de outros mundos e cuidam deste mundo, assolado pela fome e pela miséria?”

3 – “Olha, esse ratinho parece o Renan Calheiros”

4 – “De acordo com a Bíblia, livro tal, versículo tal, tal coisa é pecado e o homem está querendo brincar de Deus”

5 – “Esse jornalista escreve idiotices e não é um bom pesquisador porque blablablá…”

Perguntei para o pessoal que cuida do G1 se eles deixam longos períodos sem espaço para comentários como uma punição aos leitores. E eles acabaram me confirmando o que eu já suspeitava há muito. Dizem eles da incrível dificuldade que há para moderar muitos comentários ao mesmo tempo, algo de que não duvido.

E quando a gente vai ver quem são os tais idiotas, são sempre os mesmos. Podem mudar de nick, mas entregam-se em outros detalhes, como estilo de escrita e padrão de burrice. E escrevem muitas mensagens. E como escrevem! Parem textos como coelhos ou mesmo ratos (talvez esses últimos mais adequados para definir, pois saem da sujeira para atazanar o cidadão). Se você os risca, já bem p da vida, logo vêm brandindo que aqui é uma democracia, há liberdade de expressão e blablablá. Seus muitos textos inúteis feitos em série acabam por solapar os fóruns de debates, quase como se fosse um câncer tomando conta de um organismo. São leitores que fazem a festa principalmente quando a equipe é inepta (acha que todo mundo pode escrever, mesmo se mal-educado ou analfaburro de fazer com os dedos no teclado aquilo que deveria fazer sobre a privada) ou hipócrita (sim, há lugares em que há suspeita de que certos idiotas que não são banidos para todo o sempre na realidade não o são porque são amiguinhos de alguém lá dentro, enquanto gente justa é banida por simplesmente falar a verdade nua e crua).

Acharei lícito suspeitar em parte que hoje se esteja escrevendo com a presunção de idiotice no receptor pelo fato de justamente esses poucos idiotas serem muito, mas muito ativos em suas caixinhas de e-mail. E como sabemos, o triunfo dos maus é o silêncio dos bons. Também não se surpreendam se vocês virem alguém que conheçam e saibam que é burro dizendo que jornalista é tudo arrogante e nojento e que recebeu uma resposta atravessada do repórter de um meio do qual adquiria informação. Provavelmente essa pessoa é analfaburra, escreveu furiosinho soltando um rosário para cima do jornalista e o jornalista, ao constatar que respondia a um idiota, fez questão de ser sarcástico e esfregar na cara do cara aquilo que ele não leu, como se esfrega o focinho de um cachorro naquilo que ele soltou em lugar errado.

 

 “Olha, mano, tô com a última palavra em matéria de computador. Vou mandar um e-mail sobre essa matéria, pois achei esse repórter muito prepotente. Esse cara é um pé no saco, um grosseirão e pensa que é o dono da verdade. Quero ver ele ficar pianinho… Buá, buá, ele me respondeu. Nenê ficou magoado. Buá, buá…”

É um prazer sádico, eu sei. Mas como já me disse a pessoa do G1 em questão, cada vez mais ele tem a impressão de que é uma gente que sabe que está protegida por uma tela e boa distância da redação e que se acha no direito de ficar agindo tal qual agiria um bêbado que entra em um lugar arrumando treta e dizendo que de um canto para lá só tem corno e do outro, só tem viado, crendo que sua embriaguez lhe torna superior aos sóbrios lá presentes. Quem já viu bebum em coletivo tem uma noção do que quero dizer. Em todo caso, aquele leitormala (neologismo que costumo usar para esse tipo de gente, e só para esse tipo de gente, uma vez que há sim leitores gente boa, direi até boníssima) pensará uma, duas ou três vezes antes de falar algo para aquele jornalista que o fez perder uma oportunidade de ficar quieto. Talvez vá fazer isso com outro e pobre daquele colega de profissão que o suportar e não tiver mão firme e raciocínio ligeiro.

Por isso, meus caros leitores que se enquadram na categoria dos educados e que querem bons textos, se quiserem dar uma força para que os meios parem de subestimar suas capacidades intelectuais, usem exatamente as mesmas armas do leitormala: e-mail em doses cavalares. Expliquem, sempre com polidez, de que não é preciso ensinar pai-nosso ao vigário, comentem sempre se atendo ao assunto, mostrem-se interessados pelo assunto em questão e se possível, até tentem ver por si próprios o que é o assunto em questão, seja pesquisando, seja estando no lugar.

Sei de uma coisa: ainda que haja gente de pouca escolaridade que lê, a maioria delas entende direitinho aquilo que foi explicado e ainda faz comentários legais. Uma vez, lembro-me que comentei em um ônibus com um amigo sobre uma reportagem do Fantástico sobre o açor (ave de rapina que voa baixo e tem a incrível capacidade de passar por vãos estreitos em alta velocidade). Eis que um tiozinho bem simples no banco de trás logo falou sobre a tal reportagem, impressionado com a ave. Sim, o açor, aquela ave que não entra nos textos porque o leitor não sabe, assim como não sabe onde é o arquipélago dos Açores e o motivo de seu nome.

E também digo uma coisa: explique a coisa mais complicada para alguém atento, mesmo que de baixa escolaridade, sem subestimar sua capacidade, que ele logo entende o assunto, com o mesmo surgindo bem lógico em sua frente quase como passe de mágica. E com ele falando abalizadamente do mesmo depois disso.

“Querida, veja como este computador é fácil de operar. Até mesmo achei onde aquele jornalista prepotente mora. Vou mandar um e-mail bem desaforado para ele”

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Hervé Villechaize quando fazia o Tatoo 

Lembro-me de uma Car & Driver em que lia o teste de uma pick-up Subaru Baja. Eis que falavam dos contras do veículo em um box e aparecia o seguinte:

Cons: Hervé Villechaize Memorial cargo bed

Traduzindo para o português: caçamba do tamanho do Memorial Hervé Villechaize. Esse cara era o Tatoo do seriado Ilha da Fantasia. Era anão e preferia ser chamado de anão. E, pelo visto, não dava muita bola para o fato de não ter a altura de um Shaquille da vida. Logo, seria algo semelhante a dizer no Brasil que o banco traseiro de um carro é espaçoso o bastante para o Nelson Ned.

E quem lê matérias americanas vê sempre algumas jogadas dessas que abrem um sorriso. Em meu ramo predileto, o jornalismo automotivo, temos também o exemplo de Jeremy Clarkson, apresentador do programa de TV Top Gear, da BBC que sempre tem uns lances de humor, como comparar o tempo que um Ford Mustang faz um circuito com o tempo que um mustang de verdade (raça de cavalo selvagem) faz o mesmo traçado (e surpreendentemente, o cavalo fez o circuito em questão mais rápido que o carro). O mesmo vale para o concorrente do Channel 4, o Fifth Gear. Sempre há algo bem inusitado e que atrai a atenção da pessoa. E não é nada de jogar todas as informações no começo e deixar o fim vazio, como em uma pirâmide invertida, e como muitos jornalistas ainda insistem.

Já repararam no quão sisudas são as matérias brasileiras? Olhem com atenção e vejam isso. Raras são as vezes em que se usa um pouco de humor ou jogo de palavras. E isso atrai o leitor, sim. Quando muito, vemos brincadeiras meio óbvias. Quando o Enéas morreu, é claro que houve gente que pôs o título ou no texto algo como “seu nome era Enéas”. Isso para não falar dos que ficaram no “Morre Enéas Carneiro, tantos anos, vítima de leucemia”. Fica uma coisa tão fria que chega a ser desrespeito para com o personagem da matéria, independente de quem seja. É quase como descontextualizá-lo.

Voltando à descontração perdida em nossas redações, muitas das vezes em que tentamos ver algo que se aproxime um pouco mais do leitor, não é incomum uma aproximação que se assemelhe a alguém bem emburrado tentando quebrar o gelo de uma maneira um tanto forçada.

Porém, isso é coisa recente em nosso jornalismo. Até pouco, tínhamos esse ligeiro humor mais forte. Tem o caso mais famoso, o do Notícias Populares. Porém, se formos um pouco mais atrás, temos outros exemplos, mesmo de gente que não valia a fita da Olivetti ou Remington em que escrevia. Tem uma matéria de David Nasser que falava sobre um assassinato em uma casa que tinha um passarinho na gaiola. Ele encerrou a mesma com a seguinte frase: “E a partir daquele dia, o curió não mais cantou”. Foi coisa mais ou menos assim, tanto que nem sei se era curió, canário ou o que fosse. David Nasser acusava falsamente, criava matérias de sua cabeça, fora usar a profissão para enriquecer em outros negócios, mas não podemos negar que o tal fim da matéria foi interessante. Simples, direto e resumia bem o clima de luto do tal ocorrido, e sem desrespeitar a memória do morto. Talvez um ou outro mala sem alça fosse falar que sim, o passarinho ia cantar de novo, mas qualquer pessoa com entendimento mínimo de metáforas sacou o que se quis dizer.

Passa-me a impressão que foi por causa de maus jornalistas que escreviam bem que houve uma certa caça ao texto mais descontraído, que quase conversa com o leitor como em uma mesa de bar. Fica a impressão que o tal distanciamento obrigatório do jornalista em relação às fontes e até ao leitor está sendo levado de uma forma tão rígida que sente-se até uma proibição velada a qualquer coisa que tente transportar mentalmente a pessoa que lê à situação descrita lá naquelas linhas ou minutos de TV ou rádio. É como se estivessem com medo do vigarista, mas esquecendo que há gente de bem que consegue ter um papo verdadeiramente intimista na maior das naturalidades e sem querer passar alguém para trás.

E isso é mau, pois gera insensibilidade. O leitor começa a passar batido por muitas coisas, como chacinas, estupros e outras mazelas da humanidade. Ou mesmo em um assunto mais recente, como o aquecimento global. Desaba uma casa erguida no solo congelado da Sibéria por causa de erosão causada por descongelamento. Dependendo da abordagem, é muito capaz de se induzir um sentimento de “e eu com isso?”. E nessa, a pessoa esquece de coisas que vêm ocorrendo no Brasil, como as estações do ano destrambelhadas ou desertificação de solos. No caso dos crimes, agir com eles como se fossem estatísticas também gera uma certa indiferença nas potenciais vítimas. Fica parecendo um cinismo do próprio meio de comunicação, como que quisesse que seu próprio leitor também seja uma vítima em potencial para gerar audiência em curto prazo.

Não precisa chegar ao escracho ou esculacho como em alguns dos próprios meios que citei, mas como sabemos, quando as coisas são feitas com classe, o papo é outro.

Pare um pouco para lembrar. Tomou Doril, o que aconteceu com a dor mesmo? É, gente, estamos falando de comerciais. Todos aqui lembram rapidinho de uma série de fatos jornalísticos relevantes, assim como lembram de uma série de comerciais. Mas e alguma matéria marcante sobre um determinado fato jornalístico importante, lembram?

OK, agora é a hora em que muitos param para pensar. E falo de matérias mesmo, não de colunas ou artigos. Falamos daquilo mesmo: ser isento, ouvir todos os lados e outros postulados do bom jornalismo. Pedirei ainda mais: que falem de uma matéria marcante que tenha saído em jornal ou revista, não valendo livro-reportagem. Piorou?

Não duvidarei que isso acontecesse. Em compensação, se perguntarmos de quantos comerciais marcantes as pessoas lembram, imediatamente virão uma série de filmes realmente geniais. E não é à toa. E o motivo é simples: comerciais precisam segurar a atenção do telespectador, pois este provavelmente aproveitará o intervalo para ir ao banheiro ou mesmo zapear. Se estiver lendo uma revista, tem de ser um anúncio que lhe atraia suficientemente a atenção para que não pule de página ou passe batido. Já meios de comunicação estão achando que serão lidos obrigatoriamente por aquele que os adquire.

E voltamos a apresentar X. Alguém aqui lembra mesmo de um texto imortal em uma matéria das mais ordinárias? Difícil, não é verdade? E não lhes tiro a razão.

Pegarei um exemplo recente de comercial que achei muito bom: aquela série da Unibanco-AIG em que a hiena Hardy contracena com o Miguel Falabella. Eis que o divertidamente pessimista personagem da Hanna-Barbera diz uma frase:

– E se aqui do lado morar um maluco que pensa que é Nero?

Precisa mesmo dizer quem foi Nero e o que significaria um maluco que pensa que é o imperador romano? Talvez, se fosse uma matéria sobre seguro de imóveis teríamos algo como “um dos maiores problemas do seguro de imóveis é haver a presença de um vizinho piromaníaco que tem surtos esquizofrênicos e se acha Nero, o imperador que mandou incendiar Roma para botar a culpa nos cristãos”. Burocrático, não é verdade? Textinho enfadonho? Concordam comigo?

E pior ainda que isso, vai completamente contra o poder de síntese que o jornalismo supostamente deveria ter. Se me perguntarem se o leitor (o leitor mesmo, não a pessoa com primeiro nome O e sobrenome Leitor procurado inutilmente na postagem anterior) leria isso, com certeza não. Talvez até pulasse essa frase. Mas é isso que o brasileiro tem visto em boa parte dos meios de comunicação: textos que, se fossem pessoas, teriam ido dormir de calça jeans e/ou meia-calça. Preciso mesmo dizer o que significa essa expressão?

E o pior é que, em alguns meios, quando você quer fazer algo um pouco diferente no jornalismo, logo dizem que você tem ego inflado, quer aparecer, que não se dá conta de que a informação tem de ser facilmente compreendida, entre outras. Isso se não te pedirem para reescrever a matéria, uma vez que com o computador, não faz mais efeito dramático algum rasgar o texto na frente de seu autor que tanto se esforçou. Será mesmo que por escrever de um determinado jeito e não de outro, queremos aparecer mais que o assunto?

Abaixo, um comercial que acho fantástico: