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Como já disse aqui outras vezes, a imprensa de língua espanhola dá de mil a zero na brasileira no que tange a não ser careta e ousar. A capa em questão é do jornal colombiano El Tiempo e, como podem ver, é praticamente como se tivéssemos posto o periódico no espelho.
Porém, ela está toda ao contrário mesmo, com direito a todas as fotos serem de pessoas de costas. O motivo? Dar uma sacolejada na galera e solidarizar-se com os protestos contra as FARC. E para quem acha que uma determinada coisa deletéria à sociedade perde força se solenemente a ignorarmos, o jornal já disse: dar as costas ao problema não faz com que ele desapareça. E o pedido para que o povo saia para a marcha de protesto.

No Brasil, um dos poucos jornais que se aventurou a quebrar a caretice reinante em nossa imprensa foi o Correio Braziliense. Porém, o que El Tiempo fez é algo de uma elegância ímpar, uma vez que mantiveram exatamente a mesma diagramação sisuda de costume, espaços bem demarcados, apenas invertendo as letras e pondo só fotos de pessoas de costas.
Segue o link de onde se pode ler mais a respeito da tal capa que, creio, poderá ganhar lugar de destaque no panteão das melhores de todos os tempos. É capa que chama ao debate, dá um tapa na cara do leitor para que ele preste atenção ao problema e em momento algum cai na hipocrisia da imparcialidade ou do “você acha isso ruim, mas há gente que conheço que acha legal”.

“Super-homem, tenho uma missão muito importante para você… o universo todo está dependendo te ti. Poderia nos ajudar, como sempre fez?”. O Homem de Aço responde que não. Um tapa na cara dos que tentam ver o Super como símbolo de propaganda do governo americano, mas se esquecem de acompanhar a mitologia para ter melhor noção

A ficção glamouriza por demais o ofício jornalístico. Mas de certa forma, há coisas legais nesse glamour, pois dá uma levantada na auto-estima. Particularmente, adoro o Super-Homem. Recuso-me a falar Superman como a DC quer em todo o mundo, até porque ela não transformou a Mulher-Maravilha em Wonder Woman ou o Lanterna Verde em Green Lantern. Identifico-me com ele tanto por ser jornalista como também com sua correção enquanto pessoa (os que acham ser ele propaganda dos EUA deveriam ler um pouco as histórias para ver que ele se recusa a ligar sua imagem à do governo, fazendo questão de ser herói do povo).

Também não é preciso dizer que parte da glamourização aqui feita ao jornalista é quando vemos filmes americanos. De fato por lá os jornalistas são mais valorizados que por aqui. E não falo sobre repercussão de matérias ou coisa assemelhada, mas sim nas condições de trabalho. Pergunte a um colega de profissão de lá se ele trabalharia nas condições em que muitos daqui trabalham e teriam a resposta na ponta da língua. Sim, aos que não sabem, jornalistas no Brasil em geral ganham mal e muitos trabalham em redações com ambientes bem deletérios, daqueles que se você puser um vasinho em sua mesa de trabalho, a plantinha murcha por mais que a regue nos momentos certos e a adube nas horas necessárias.

Porém, estamos nos americanizando e não preciso dizer o sentido disso, uma vez que está no título. Um exemplo simples: já repararam na insistência que se vê em alguns meios em identificar homens pelo sobrenome? Isso é algo completamente alienígena à nossa cultura e muita gente boa já passou uns vexames em insistir em tal coisa. Em 1994, quando Fernando Henrique assumiu, foi um tal de “presidente Cardoso” pra lá e pra cá que todo mundo estranhou. Getúlio Vargas só é conhecido pelo sobrenome na famosa avenida do Rio de Janeiro, e olhe lá. Alguns dizem que essa sobrenomização de homens surgiu no Brasil por causa da posse de José Sarney. Sim, síndrome de vira-lata total: um Zé não podia assumir a presidência do País, mas um Tancredo poderia. E desde então foi uma imposição daquelas a nosso modo de vida. Se uma matéria tem um José da Silva e um João de Souza, eles serão conhecidos por Silva e Souza, e não por José e João, como a sociedade brasileira sempre chamou. E olha que pus dois sobrenomes comuns. Imagine como ficaria se um dos personagens fictícios tivesse um daqueles sobrenomes tchecos bem cheios de consoantes…

Fosse só isso, haveria apenas o problema de violência à nossa cultura, que conseguimos tirar de letra. Porém, agora, estamos querendo ser mais realistas que o rei e uma nova moda surge: a de não fotografar ninguém que tenha menos de 18 anos. Sim, isso mesmo que leram. E o Estatuto da Criança e do Adolescente é bem claro sobre o que pode e o que não pode ao fotografar menores. Seguem os artigos:

Art. 143. E vedada a divulgação de atos judiciais, policiais e administrativos que digam respeito a crianças e adolescentes a que se atribua autoria de ato infracional.

Parágrafo único. Qualquer notícia a respeito do fato não poderá identificar a criança ou adolescente, vedando-se fotografia, referência a nome, apelido, filiação, parentesco, residência e, inclusive, iniciais do nome e sobrenome. (Redação dada pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

Art. 240. Produzir ou dirigir representação teatral, televisiva, cinematográfica, atividade fotográfica ou de qualquer outro meio visual, utilizando-se de criança ou adolescente em cena pornográfica, de sexo explícito ou vexatória: (Redação dada pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

Art. 241. Apresentar, produzir, vender, fornecer, divulgar ou publicar, por qualquer meio de comunicação, inclusive rede mundial de computadores ou internet, fotografias ou imagens com pornografia ou cenas de sexo explícito envolvendo criança ou adolescente: (Redação dada pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

§ 1o Incorre na mesma pena quem: (Incluído pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

I – agencia, autoriza, facilita ou, de qualquer modo, intermedeia a participação de criança ou adolescente em produção referida neste artigo;

II – assegura os meios ou serviços para o armazenamento das fotografias, cenas ou imagens produzidas na forma do caput deste artigo;

III – assegura, por qualquer meio, o acesso, na rede mundial de computadores ou internet, das fotografias, cenas ou imagens produzidas na forma do caput deste artigo.

§ 2o A pena é de reclusão de 3 (três) a 8 (oito) anos: (Incluído pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003)

I – se o agente comete o crime prevalecendo-se do exercício de cargo ou função;

II – se o agente comete o crime com o fim de obter para si ou para outrem vantagem patrimonial.

Esta imagem correu o mundo em 1982. Caso um fotógrafo hoje tivesse captado algo parecido, perigaria de ser barrado pela chefia de certos meios de comunicação que não publicam fotos de crianças, independente do que seja

Como se lê, o que fala é que não se pode mostrar criança ou adolescente em situações vexatórias ou degradantes. Porém, há publicações que simplesmente não estão mais tirando fotos de adolescentes ou crianças, independente da situação retratada. E, caso um fotógrafo leve tal tipo de foto, cria-se uma incrível celeuma na redação. Será tão vexatório assim a uma criança mostrá-la brincando ou tendo reações normais de qualquer ser humano?

Fica a pergunta sobre quantos seres humanos são pedófilos em relação ao total da população. Com certeza, menos do que aparenta, ainda que a prostituição de menores e a pedofilia pela internet sejam problemas dos mais graves. Porém, será mesmo que pedófilos bateriam uma de ver uma criança ou um adolescente estáticos e em uma situação nada demais? Sinceramente, não consigo imaginar tal cena. E, já que é para ser assim mesmo, terei de cobrar que não exibam então atores e atrizes que sejam “de menor”, o mesmo valendo para modelos. Porém, não é o que vi quando mostravam as muitas fotos da belíssima Daniela Sarahyba quando ainda pelos seus 14 a 17 anos. OK, já foi há um certo tempo, mas muitos colegas mais novos podem lembrar de meios que proíbem fotos de menores de idade, independentemente da situação, mas que publicaram sem pudor algum foto de alguma estrela “de menor”. 

Alguém sabe me dizer quantas dessas modelos são menores de idade? Se houver alguma, é capaz de esta foto não ser publicada? Ou será? “Não, mas não é bem assim”, dirão uns. Porém, publicar um grupo de adolescentes conversando em uma lanchonete ou crianças brincando, em certos lugares é imediatamente vetado…

Sim, vejam o tamanho da paranóia. Vale lembrar que um americano quando vem para cá se assusta com a forma como brincamos com nossas crianças. Porém, nós brasileiros não nos assustamos, nem nossos brasileirinhos. Então, por que querer importar para cá essa paranóia? Boa parte de nossas crianças já está bem orientada sobre como não cair em garras de pedófilos e também sabe o que é situação vexatória. Mostrar a cara para um fotógrafo fazendo algo normal e saudável de criança não tem nada de contrário à lei.

“Rapaz, consegui uma foto fenomenal e comovente. Vi um homem voando sem motor nem nada, desceu as cataratas do Niágara e salvou um menino”, diz o fotógrafo. “Desculpe, mas não publicamos fotos de crianças aqui, pois o manual de redação, no parágrafo tal, blablablablá…”, diz o editor

OBS: Se o link direto ao Youtube que passei acima estiver dando pau, segue o direto.

Não, os blogs não substituirão a imprensa em papel, até pelo fato de dependerem de energia elétrica fornecida na hora para serem lidos, seja em um computador daqueles, seja em um smartphone qualquer dentro de um ônibus. Se a bateria acaba, o tiozinho do lado que está com um jornal tradicional continuará lendo, enquanto o moderninho vai ter de olhar sobre o ombro. Porém, é essa conexão direta que sinto falta na imprensa tradicional. Não a vemos se atrevendo a jogar as coisas ao crivo dos leitores para receber a resposta depois. É sempre “o leitor não isso”, “o leitor não aquilo”, “você acha que o leitor vai saber?” e por aí vai. OK, o retorno para a matéria na via tradicional nem de longe terá a rapidez que haveria em um site ou um blog. Porém, acaba por forçar que o leitor, que não há como ser controlado em seu perfil, escolha uma de duas: ignorar ou ler, nem que desconheça boa parte do que está lá escrito. E é justamente o ler sem saber a coisa que torna interessante, pois força a pessoa a pesquisar. E na base da pesquisa, talvez em vez de ver apenas uma coisa, irá ver outra. E não falamos de hyperlinks. Até mesmo um volume de enciclopédia física gera essa experiência e isso por ter lido em outra fonte igualmente feita de papel. Quantos aqui podem ter conhecido mais sobre os sumérios pelo simples fato de terem lido na Bíblia que Abraão era de Ur?

 

 É, papito! Já distorceram o que você disse uma vez, man!

Se há algo que me enfurece no jornalismo é distorcer declarações. Já fui fonte de matéria e qual não foi minha raiva de ver que atribuíram a mim algo que nunca disse? OK, jornalistas são humanos, mas nossas fontes também o são, salvo se forem extraterrestres, mas não entrarei neste ramo, preferindo deixá-lo aos colegas da UFO, que são mais abalizados.

Esta postagem é, de certa forma, continuação da anterior. Relatarei um caso que pude testemunhar ao menos em parte. Em 2000, naquele fervo das eleições municipais, resolveram fazer no Programa do Jô uma entrevista com Marta Suplicy e no mesmo programa emendar uma entrevista com seu filho Supla.

Entra o papito em uma bela Harley com aquele seu visual de sempre. Recém-egresso de um bom tempo morando nos Estados Unidos, eis que o Rei dos Piores Clipes conta uma história pra lá de engraçada: a vez em que ele disputou campeonatos de futebol amador para um time de Nova York e a cada partida disputada, ganhava uma ajuda de custo. O time em questão era apadrinhado por um colombiano da pesada, mas que o músico nunca viu na vida. Para receber o dinheiro, ele ia a um determinado endereço e batia na porta. Disse o Charada Brasileiro: “eu batia na porta, e recebia o dinheiro em um envelope branco”. Era simplesmente hilário, dada o inusitado de tudo. 

E na Veja que saiu no sábado daquela semana, na seção de frases, pegam exatamente aquela frase que ouvi in loco e que milhões de brasileiros ouviram na televisão e editaram para algo como “recebia o dinheiro em sacos brancos”. Não é preciso dizer que associação se pode fazer entre um colombiano da pesada e sacos de cor alva. Porém, o papito, geração saúde como sempre foi naquele visual pesado, nunca pegou sacos de cor branca, mas envelope!

E essa é um exemplo extremo da distorção nossa de cada dia. Uma coisa é adequar uma declaração para um determinado espaço. Já outra é descaracterizá-la. E com isso, vão-se as nuances da fala do entrevistado. Uma vez, já me deparei com gente que implicava com uma fonte cuja declaração iniciava-se com “primeiramente”. Dizia a pessoa em questão: “ninguém fala assim”. Logo, leia-se, a fonte era ninguém e, como tal, indigna de estar naquela matéria. E com isso, perdemos aquelas coisas típicas de uma localidade ou de uma pessoa.

Claro que não é para chegar ao extremo de se tripudiar da fonte, como publicar palavras que revelem ela ser ignorante por falta de oportunidade de estudo (“nóis fumo”, “nóis vortemo” e por aí vai). Também não se pode ridicularizar algum estrangeiro com dificuldades de falar nosso idioma escrevendo no texto um ipsis literis do som que ele emite com as palavras (já vi isso com matérias falando a respeito de pessoas nascidas em países vizinhos). É tratar de ser justo com todos.

Há sempre o risco de ficar aquele algo padronizado. Será que o mesmo ninguém que não fala “primeiramente”, se for nordestino, não falará “aperrear”? E se for paraense, não soltará um “pai d´égua”? Isso porque estamos falando de regionalismos bem generalistas. Porém, temos também de levar em conta as especificidades da fala de cada um. É também uma forma de transportar o leitor para dentro de nossos textos, uma vez que as pessoas falam diferente e é essa diferença que atiça a curiosidade. Vide o sucesso que Pelé fazia na Suécia de 1958, uma época em que era mais difícil ainda que agora de ver um negro por aquelas bandas. Um amigo de meu irmão conta o caso de uma amiga de seus pais, filha de japoneses, que foi morar na Bahia há mais de 30 anos. O pessoal chegava a pará-la na rua, tirar fotos com ela, de tão diferente que era tal presença na mais africana das unidades federativas nacionais. Como podem ver, nada que envolva preconceito, mas a simples curiosidade.

Já vi também implicarem com construções textuais assemelhadas ao português de Portugal, e isso porque proferidas por descedentes de portugueses, mas perfeitamente inteligíveis a qualquer brasileiro sem origem lusitana, uma vez que eram construções textuais, mas usando palavras perfeitamente normais em qualquer parte do Brasil. É um valor cultural que faz parte de quem declara. E não é nada estereotipado…

Fico aqui pensando como seria se o Mestre Yoda existisse na vida real e fosse entrevistado e desse suas palavras de sabedoria. Talvez um “povo muito preocupado com picuinhas fica” iria se tornar um “povo fica muito preocupado com picuinhas”. Porém, a graça do Yoda é justamente a anástrofe soltada aos borbotões…

De Yoda declaração dada não distorcerão. Se distorcerem, feliz que do lado negro da Força Mestre não está. O mesmo com Anakin Skywalker impossível é fazer.

A frase do título é das coisas que mais ouvimos em qualquer redação, pelo menos nas paulistanas. Se houver colegas de outras cidades que possam falar como é nos meios de comunicação de seus lugares, sintam-se à vontade para dizer.

Como até nossas avós nonagenárias sabem, to print significa em inglês o que conhecemos bem em português: imprimir. Porém, como filho feio não tem pai, sabe-se lá o motivo de ouvirmos sempre tal expressão quando há um conjunto de jornalistas reunidos.

E não é apenas a pomposa “tira uma print” que ouvimos. Temos também as variantes, como “printar” e o texto impresso ser chamado de “o/a print”. E esse troço se impregna no vocabulário. Até eu, que abomino tal expressão, soltei uma por acidente nesta quarta-feira, durante o batente da cobertura de férias que estou realizando. E olha que sempre faço questão de falar “imprime isso, por gentileza”.

Quem for católico fervoroso vai agradecer de o latim ser o idioma oficial no Vaticano e poder ler um chique imprimatur nas obras ou mesmo em uma simples edição da Bíblia Sagrada. Já pensaram se o português das redações fosse o idioma oficial da Santa Sé? Olharíamos uma encíclica papal e ela teria embaixo a autorização manuscrita com “tira um print”. E, claro, até um fervoroso de nível fanático cego a tudo ia dar uma de Batoré e dizer “ah, pára, ô!”.

O pior de tudo isso é que esses vícios de linguagem tiram toda e qualquer moral de um jornalista que queira combater gerundismo ou indagar o porquê de o povo falar “seje”, “nóis fumo”, “a gente véve a vida”, “tô cum pobrema no figo” e por aí vai.

Hervé Villechaize quando fazia o Tatoo 

Lembro-me de uma Car & Driver em que lia o teste de uma pick-up Subaru Baja. Eis que falavam dos contras do veículo em um box e aparecia o seguinte:

Cons: Hervé Villechaize Memorial cargo bed

Traduzindo para o português: caçamba do tamanho do Memorial Hervé Villechaize. Esse cara era o Tatoo do seriado Ilha da Fantasia. Era anão e preferia ser chamado de anão. E, pelo visto, não dava muita bola para o fato de não ter a altura de um Shaquille da vida. Logo, seria algo semelhante a dizer no Brasil que o banco traseiro de um carro é espaçoso o bastante para o Nelson Ned.

E quem lê matérias americanas vê sempre algumas jogadas dessas que abrem um sorriso. Em meu ramo predileto, o jornalismo automotivo, temos também o exemplo de Jeremy Clarkson, apresentador do programa de TV Top Gear, da BBC que sempre tem uns lances de humor, como comparar o tempo que um Ford Mustang faz um circuito com o tempo que um mustang de verdade (raça de cavalo selvagem) faz o mesmo traçado (e surpreendentemente, o cavalo fez o circuito em questão mais rápido que o carro). O mesmo vale para o concorrente do Channel 4, o Fifth Gear. Sempre há algo bem inusitado e que atrai a atenção da pessoa. E não é nada de jogar todas as informações no começo e deixar o fim vazio, como em uma pirâmide invertida, e como muitos jornalistas ainda insistem.

Já repararam no quão sisudas são as matérias brasileiras? Olhem com atenção e vejam isso. Raras são as vezes em que se usa um pouco de humor ou jogo de palavras. E isso atrai o leitor, sim. Quando muito, vemos brincadeiras meio óbvias. Quando o Enéas morreu, é claro que houve gente que pôs o título ou no texto algo como “seu nome era Enéas”. Isso para não falar dos que ficaram no “Morre Enéas Carneiro, tantos anos, vítima de leucemia”. Fica uma coisa tão fria que chega a ser desrespeito para com o personagem da matéria, independente de quem seja. É quase como descontextualizá-lo.

Voltando à descontração perdida em nossas redações, muitas das vezes em que tentamos ver algo que se aproxime um pouco mais do leitor, não é incomum uma aproximação que se assemelhe a alguém bem emburrado tentando quebrar o gelo de uma maneira um tanto forçada.

Porém, isso é coisa recente em nosso jornalismo. Até pouco, tínhamos esse ligeiro humor mais forte. Tem o caso mais famoso, o do Notícias Populares. Porém, se formos um pouco mais atrás, temos outros exemplos, mesmo de gente que não valia a fita da Olivetti ou Remington em que escrevia. Tem uma matéria de David Nasser que falava sobre um assassinato em uma casa que tinha um passarinho na gaiola. Ele encerrou a mesma com a seguinte frase: “E a partir daquele dia, o curió não mais cantou”. Foi coisa mais ou menos assim, tanto que nem sei se era curió, canário ou o que fosse. David Nasser acusava falsamente, criava matérias de sua cabeça, fora usar a profissão para enriquecer em outros negócios, mas não podemos negar que o tal fim da matéria foi interessante. Simples, direto e resumia bem o clima de luto do tal ocorrido, e sem desrespeitar a memória do morto. Talvez um ou outro mala sem alça fosse falar que sim, o passarinho ia cantar de novo, mas qualquer pessoa com entendimento mínimo de metáforas sacou o que se quis dizer.

Passa-me a impressão que foi por causa de maus jornalistas que escreviam bem que houve uma certa caça ao texto mais descontraído, que quase conversa com o leitor como em uma mesa de bar. Fica a impressão que o tal distanciamento obrigatório do jornalista em relação às fontes e até ao leitor está sendo levado de uma forma tão rígida que sente-se até uma proibição velada a qualquer coisa que tente transportar mentalmente a pessoa que lê à situação descrita lá naquelas linhas ou minutos de TV ou rádio. É como se estivessem com medo do vigarista, mas esquecendo que há gente de bem que consegue ter um papo verdadeiramente intimista na maior das naturalidades e sem querer passar alguém para trás.

E isso é mau, pois gera insensibilidade. O leitor começa a passar batido por muitas coisas, como chacinas, estupros e outras mazelas da humanidade. Ou mesmo em um assunto mais recente, como o aquecimento global. Desaba uma casa erguida no solo congelado da Sibéria por causa de erosão causada por descongelamento. Dependendo da abordagem, é muito capaz de se induzir um sentimento de “e eu com isso?”. E nessa, a pessoa esquece de coisas que vêm ocorrendo no Brasil, como as estações do ano destrambelhadas ou desertificação de solos. No caso dos crimes, agir com eles como se fossem estatísticas também gera uma certa indiferença nas potenciais vítimas. Fica parecendo um cinismo do próprio meio de comunicação, como que quisesse que seu próprio leitor também seja uma vítima em potencial para gerar audiência em curto prazo.

Não precisa chegar ao escracho ou esculacho como em alguns dos próprios meios que citei, mas como sabemos, quando as coisas são feitas com classe, o papo é outro.