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Repórter: Olá. Você tinha me chamado para falar em sua sala e estou aqui. Sobre o que é a conversa?

Capo: É sobre uma matéria que vai demandar mão-de-obra e que só você pode fazer?

Repórter: E sobre o que é o assunto?

Capo: Rapaz, o céu é vermelho e quero que você faça uma matéria a esse respeito para amanhã. Vai ser assunto de capa.

Repórter: Sim, o céu fica vermelho, mas só quando o sol está nascendo ou se pondo. No resto do dia ele é azul claro ou preto, quando é noite.

 

Capo: O que você está querendo dizer com isso?

Repórter: Ué, nada além da verdade dos fatos. De dia, o céu é azul porque a atmosfera terrestre absorve todos os outros comprimentos de onda e só deixa passar a luz azul. De dia, o céu é preto porque, obviamente, não há um Sol iluminando e o máximo que se tem é a luz da Lua…

Capo: Você está ousando duvidar de mim? Eu já disse: o céu é vermelho e quero uma matéria a respeito disso para amanhã.

Repórter: Em que você está se baseando para dizer isso? Qual a ciência que diz isso?

 

Capo: Não interessa. Quem vai fazer a reportagem é você e você é quem vai achar os cientistas. E ai de você se apurar mal…

Repórter: Os cientistas apenas irão me dizer o óbvio, que foi justamente aquilo que te falei lá atrás…

Capo: Isso você está falando no achismo. Não adianta vir aqui dizer o que o senso popular fala. Notícia é o extraordinário, meu chapa…

Repórter: E o que há exatamente de extraordinário em se querer afirmar que o céu é vermelho o dia todo?

 

Capo: Nada, pois o céu É vermelho!!!

Repórter: E por que raios eu iria fazer uma matéria sobre algo que não existe?

Capo: Não existe? Como você ousa me afrontar assim?

Repórter: Não estou te afrontando, mas sim dizendo a verdade.

Capo: A verdade, é? E o que é verdade para você pode não ser para os outros. Eu estou te dizendo: o céu é vermelho e acabou a conversa. Você é muito jovem ainda e pouco experiente.

Repórter: Mas… 

Capo: “Mas” o caralho! Precisa aprender que não pode ficar aceitando a versão que as fontes lhe passam, pois elas possuem interesses e tentam manipular o jornalista. E agora falo sério: ou me traz uma matéria até amanhã com três especialistas falando a respeito ou está demitido.

Repórter: Ei, alguma vez eu reclamei de trabalho? Apenas estou te falando que…

Capo: Cai fora daqui. Já te ouvi demais por hoje e quero essa matéria pronta amanhã com uma print na minha mesa!

Versão ligeiramente (e só ligeiramente mesmo) exagerada de coisas que acontecem nas redações deste país

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Abro aqui uma série que pretende mostrar algumas características típicas de meios de comunicação que subestimam o leitor. São pequenas dicas que de alguma forma, podem ajudá-los a identificar características. Sendo espaço democrático, obviamente contribuições são bem vindas.

O excesso de artigos é uma característica textual que denuncia bastante um veículo de comunicação que subestima a capacidade de seus leitores. Um exemplo simples: em vez de “pão e vinho”, teríamos “o pão e o vinho”, isso em trechos de texto em que os dois artigos seriam perfeitamente dispensáveis.

Outro exemplo simples é o que chamaria de apostismo, ou uso de apostos inúteis em doses cavalares. Algo como “fulano de tal foi fazer tal coisa em Tóquio, no Japão”, como se fosse mesmo preciso dizer que Tóquio fica lá. Claro que se houver outra Tóquio, essa é que terá de ser diferenciada, assim como se diferencia a Nova Iorque nordestina da homônima americana. O apostismo também pode se manifestar em outras situações, como querer explicar o que muitas vezes explica-se por si só, bastando apenas um pouco de atenção do leitor. Como os meios de comunicação não têm como controlar seu tipo de leitor (salvo publicações de circulação muito restrita, e ainda assim lembrando que o leitor restrito pode perfeitamente desrestringi-la ao levar para casa e ela ser lida por parentes e amigos), é pretensão demais achar que se é possuidor de todo o conhecimento do mundo e que a outra ponta é completamente desprovida de um determinado entendimento mínimo.

Aos parcos leitores deste blog, sintam-se à vontade para falar de outras modalidades textuais que denunciam que o meio subestima a capacidade de seus leitores.

Aos 35 anos, Fulana de Tal está preocupada com sua vida. Cansou de não ser reconhecida nos lugares onde trabalha. “Eu sou uma p… duma esforçada e nada de me dizerem ao menos um obrigado, reclama.
Seu filho, Beltrano, de 6 anos, não conhece o pai. “Ele tem fome de conhecer aquele traste“, conta a mãe, que reclama da situação.

Ela não tem uma casa exatamente em dia com a manutenção, mas moradia digna em seu geral. Mora em uma rua perto dos baixos de um viaduto. Tábuas do chão estão empenadas. Os lustres estão para cair sobre a cabeça. “E eu não tenho dinheiro para fazer essas reforminhas“, reclama a esforçada trabalhadora que fez o curso de economia da PUC na turma da noite.

 Representação ligeiramente (e só ligeiramente mesmo) do que se entrega para certos editores e do que sai publicado.

Pare um pouco para lembrar. Tomou Doril, o que aconteceu com a dor mesmo? É, gente, estamos falando de comerciais. Todos aqui lembram rapidinho de uma série de fatos jornalísticos relevantes, assim como lembram de uma série de comerciais. Mas e alguma matéria marcante sobre um determinado fato jornalístico importante, lembram?

OK, agora é a hora em que muitos param para pensar. E falo de matérias mesmo, não de colunas ou artigos. Falamos daquilo mesmo: ser isento, ouvir todos os lados e outros postulados do bom jornalismo. Pedirei ainda mais: que falem de uma matéria marcante que tenha saído em jornal ou revista, não valendo livro-reportagem. Piorou?

Não duvidarei que isso acontecesse. Em compensação, se perguntarmos de quantos comerciais marcantes as pessoas lembram, imediatamente virão uma série de filmes realmente geniais. E não é à toa. E o motivo é simples: comerciais precisam segurar a atenção do telespectador, pois este provavelmente aproveitará o intervalo para ir ao banheiro ou mesmo zapear. Se estiver lendo uma revista, tem de ser um anúncio que lhe atraia suficientemente a atenção para que não pule de página ou passe batido. Já meios de comunicação estão achando que serão lidos obrigatoriamente por aquele que os adquire.

E voltamos a apresentar X. Alguém aqui lembra mesmo de um texto imortal em uma matéria das mais ordinárias? Difícil, não é verdade? E não lhes tiro a razão.

Pegarei um exemplo recente de comercial que achei muito bom: aquela série da Unibanco-AIG em que a hiena Hardy contracena com o Miguel Falabella. Eis que o divertidamente pessimista personagem da Hanna-Barbera diz uma frase:

– E se aqui do lado morar um maluco que pensa que é Nero?

Precisa mesmo dizer quem foi Nero e o que significaria um maluco que pensa que é o imperador romano? Talvez, se fosse uma matéria sobre seguro de imóveis teríamos algo como “um dos maiores problemas do seguro de imóveis é haver a presença de um vizinho piromaníaco que tem surtos esquizofrênicos e se acha Nero, o imperador que mandou incendiar Roma para botar a culpa nos cristãos”. Burocrático, não é verdade? Textinho enfadonho? Concordam comigo?

E pior ainda que isso, vai completamente contra o poder de síntese que o jornalismo supostamente deveria ter. Se me perguntarem se o leitor (o leitor mesmo, não a pessoa com primeiro nome O e sobrenome Leitor procurado inutilmente na postagem anterior) leria isso, com certeza não. Talvez até pulasse essa frase. Mas é isso que o brasileiro tem visto em boa parte dos meios de comunicação: textos que, se fossem pessoas, teriam ido dormir de calça jeans e/ou meia-calça. Preciso mesmo dizer o que significa essa expressão?

E o pior é que, em alguns meios, quando você quer fazer algo um pouco diferente no jornalismo, logo dizem que você tem ego inflado, quer aparecer, que não se dá conta de que a informação tem de ser facilmente compreendida, entre outras. Isso se não te pedirem para reescrever a matéria, uma vez que com o computador, não faz mais efeito dramático algum rasgar o texto na frente de seu autor que tanto se esforçou. Será mesmo que por escrever de um determinado jeito e não de outro, queremos aparecer mais que o assunto?

Abaixo, um comercial que acho fantástico: