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O trabalho dos coveiros é isso. Imagine isso sendo feito em tudo aquilo que você usa para se informar.

Nesta semana, o repórter Geneton Moraes Neto escreveu um artigo pra lá de interessante em seu blog. Ao ler o dito cujo, realmente não pude deixar de me identificar, e muito, com o que ele diz, até porque é a tecla na qual bato neste blog desde o ano passado.

De fato, muito dos jornais e revistas que lemos por aí te forçam a se perguntar em que realmente te acrescentam na vida. Até acrescentam alguma coisa, como se pode ver na verve irônica do cara:

Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de “crise econômica”, eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.

De fato, certos jornais são sim mais baratos do que uma capa de chuva. Recentemente, fui a um show ao ar livre e caía um toró daqueles e pude ver que preço cobravam pelas ditas cujas.

Aquela sensação de que lemos um mesmo jornal, independente de onde estivermos e que jornal lemos, também foi esmiuçada pelo cara, como se pode ver aqui:

O jornal é de São Paulo. Poderia – perfeitamente – ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro. Eu disse “notícias interessantes”? Em nome da verdade, retiro o que disse.

Também admirei a sinceridade do Geneton ao falar que não é um desses que lê um trilhão de jornais por dia, como muitos jornalistas por aí dizem fazer e nos obrigar a fazer contas sobre quanto tempo demora para ler cada um dos jornais e ver qual a porcentagem do dia que foi ocupada para cada um.

Ele também fala sobre o clima de certos jornais tratarem as notícias ocorridas no ontem a que predominantemente se referem como se fosse uma novidade, bem como fazendo exatamente aquilo que a TV e a internet fizeram já naquele ontem.

E Geneton acaba por resvalar no assunto principal deste blog, mesmo que sequer saiba de sua existência: o tratar o leitor como se fosse alguém permamentemente em coma desde o dia em que nasceu. Geneton, aviso que já dei umas corrigidinhas bem de leve, mas que não alteram o sentido de seu texto. Cacoete de revisor:

Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pelo mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo? Em que planeta os editores de primeira página vivem? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página?

E já que grandes impérios não caem por causa de inimigos externos, mas por fraquezas internas, ele levantou uma boa lebre: a de que certos editores agem assim por na realidade terem medo do fim do jornal impresso, não por obsolescência do tipo de mídia, mas pela maneira como estão sendo feitos.

Em minhas andanças jornalísticas, vi gente exatamente deste jeito que o repórter descreve:

Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.

E que ninguém duvide de sua existência. Ao jornalista que duvidar, que escreva um titulinho mais interessante ou um texto mais envolvente para ver o tipo de resposta que terá invariavelmente termos como “o leitor”, “nosso leitor”, “nosso tipo de público” e assemelhados, sempre jogando a todos nós, que somos leitores, lá no chão, como pessoas plenamente incapazes das coisas mais simples da vida.

Geneton também falou uma legal sobre aquela sensação de vermos muitas pessoas, mas parecer que vemos a mesma pessoa em tudo que é lugar, tal qual um agente Smith de Matrix:

Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.

Sim, a Grande Marcha dos Fatos tem de ser mesmo referida dessa maneira, pois é épico sim fazer um produto de comunicação, que nem precisa ser grande ou dos mais famosos. E os fatos, queiramos ou não, acontecem, cabendo aos jornalistas abordarem da maneira que mais faça a pessoa ler e guardar em sua mente aquilo que está sendo noticiado.

E quando você chega com uma sugestão de matéria das mais interessantes e imediatamente jogam aquele balde de água fria usando das afirmações mais esdrúxulas possíveis? Sim, Geneton também fala e, pela quantidade de vezes que usa a expressão “chata” para se referir à imprensa, não é preciso dizer o quanto que essa mentalidade está entranhada no Brasil. E ele também lembra que a regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.

O jornalista, que como qualquer ser humano precisa ganhar seu sustento, sente-se tolhido de fazer o trabalho do jeito que gostaria de fazer e acaba aceitando ter sua criatividade reprimida e sugada justamente por muitas vezes reportar-se a um desses tais “coveiros” a que ele se refere.

E você, como tem consumido os produtos jornalísticos? Se é que vem consumindo. Se não vem, ninguém irá recriminá-lo por tal coisa. Realmente está muito maçante acompanhar boa parte da imprensa. O pior é que esses que a matam muitas vezes chegam aos melhores cargos. E Geneton mais uma vez faz uma troça desses:

O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco….Quá-quá-quá).

Muitas vezes, os jornais (acrescente aí revistas e por aí vai) só estão vendendo mesmo por causa de seu nome, ainda mais pensando que vivemos uma crise econômica causada por gente que quis pôr o nome como solitária garantida de alguma coisa. Pois se fosse pelo conteúdo, ficariam na banca, isso se já não ficam:

Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente.

Aviso ao colega que não concordo com essa história de que a Gretchen seria descerebrada, ainda mais pensando que ela fez curso de pedagogia, bem como é preciso ter cabeça para sustentar três décadas de carreira na crista da onda. Podemos fazer objeções à Rainha do Bumbum, mas burra é algo de que não podemos chamá-la.

E esse repórter a cujas matérias gosto tanto de assistir também versa no campo dos velhos tabus postos pelos coveiros da imprensa, como a proibição da voz passiva e outras. Aviso também que fiz pequeniníssimas correções ortográficas que não alteram o sentido do texto:

Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia, sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios. Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia “São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio”. Por que não algo como “TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO” ou “JOGADORES DO SÃO PAULO PROIBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV”? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável – um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas… o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.

Aliás, a exemplo da linguagem de fresta que os cantores e compositores usavam no tempo da ditadura militar, os jornalistas também estão fazendo uso da mesma para tentarem passar adiante as informações mais interessantes sem que elas sejam podadas pelos tais coveiros. É um tipo de expediente que ganhou vulto nos anos 90, mas por causa de certas preferências políticas enrustidas que certos meios tinham. Aliás, recomenda-se a todo jornalista que se reportar a um superior com experiência prévia no Araçá ou no Caju que façam isso, pois eles não merecem o que você escreve, mas o leitor sim.

E quem são esses que sepultam a imprensa?

Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.

Vi esse artigo republicado em outros lugares. Em um deles, quem mais descia a lenha no Geneton era uma pessoa cujo olhar e semblante muito me lembram os de famosos psicopatas, isso se não for um sociopata que transforma a vida de seus subordinados em um inferno quanto destes escrevem algo um pouco mais palatável e menos óbvio. E qual não foi a surpresa de ver que os arautos da obviedade na imprensa usaram de expedientes igualmente óbvios para desqualificar o texto? Afinal, não é preciso usar muito raciocínio para chamar de dono da verdade alguém que discorda com propriedade daquilo que você escreve. Tanto não precisa de raciocínio que sequer é necessário ler e decodificar o texto escrito, principalmente se ele for longo. Nessa de desqualificar, também desqualifiquem o cara dizendo que jornalismo diário não seria a do cara. Vale lembrar que Geneton trabalhou por cinco anos no Diário de Pernambuco, bem como na sucursal nordestina do Estadão e na Globo desde 1985, já tendo sido editor e repórter. Duvido aqui que a pessoa que quis desqualificar o texto do repórter especial da Globo tenha mais experiência em jornalismo diário que o Geneton. Em todo caso, a pessoa que comentou sequer versou de leve na contra-argumentação àquilo que o texto diz. Disse que que os exemplos citados pelo pernambucano são estapafúrdios. Mas por que seriam estapafúrdios? Essa resposta, creio que Godot chegará antes dela.

Recentemente, estou lendo A Sangue Frio, de Truman Capote. Será que o assassinato da família Clutter teria a repercussão que teve se fosse na base do “Família é assassinada a tiros no Kansas”? E isso se pensarmos que os chamados jornalistas literários usam desses expedientes desde um tempo em que as fontes disponíveis de notícia eram bem menores que as atuais. Se temos mais, por que a obviedade se multiplica e, pior, reage contra quem lhe faz objeção?

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