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Esta notícia vem dando o que falar nos muitos grupos de discussão da internet. Hoje, eu a recebi por e-mail e sou obrigado a comentá-la, pois é de uma leveza total. Espero que quem escreveu a dita cuja esteja lendo esta postagem e venha comentar aqui, assim como fez o colega Geneton quando falei da dele.

Como já disse em outras ocasiões, o jornalista brasileiro tende a ser sisudo e chega a um ponto de se fechar exclusivamente no assunto do texto a ponto de boa parte das matérias serem extremamente enfadonhas. Não é o caso desta.

Eis que o Santos está para contratar o meia Bolaños, hoje na LDU, campeoníssima da última Libertadores. Um jornalista que olha o leitor como mentecapto presumido até lembraria que é o sobrenome do Roberto que nos deu ao mundo o Chaves e o Chapolin. Aliás, a história do criador do programa Chespirito é pra lá de interessante e muitos comparam o mexicano a nada mais nada menos que Charles Chaplin.

Mas voltemos ao equatoriano e à postura vigente em boa parte do jornalismo brasileiro. Diriam algo como “ah, mas você tem de lembrar que nem todo leitor gosta de Chaves ou Chapolin. Falar disso pode espantar muita gente do assunto tratado”. E lá iria o jornalista escrever algo como “o Santos quer contratar o meia Bolaños, da LDU e blablablá (bocejos)…”. Você noticiou direitinho, mas garantiu também que sua matéria vá embrulhar peixe ou forrar gaiola de passarinho no dia seguinte.

Já a do Lance! vai ser lembrada daqui a dezenas de anos, tal como até hoje são lembrados os episódios do Chaves e do Chapolin e tal qual vemos camisas e mais camisas com a estampa de Seu Madruga (eu tenho uma também). Vejam que sutileza na hora de comparar os dois Bolaños:

O mais novo reforço do parceiro do Santos, o Grupo Sonda, tentará ser o segundo Bolaños a fazer sucesso no Brasil. O jogador, contratado nesta sexta-feira junto à LDU, tem o mesmo nome do criador e ator dos seriados mexicanos Chaves e Chapolin, Roberto Bolaños.

As duas séries, apresentadas pelo SBT, tiveram o ator como protagonista, já o meia, liderou a LDU na conquista da Copa Libertadores e tentará o mesmo sucesso com a camisa do Santos, que já tem Madson e Lucio Flavio no meio-de-campo.

Claro que até santista fanático deve ter caído no riso e imaginado Madson e Lucio Flavio caracterizados como Seu Madruga, Kiko, Nhonho e outros personagens. E deve ter caído no riso que é uma beleza. Como corinthiano que sou, também caí no riso, ainda que confessadamente, tirando uma certa troça. Claro que o Timão também teve jogadores bizarros e é bem viva em minha memória a zaga de 93, com Baré e Embu, ruins que só, mas que não deixavam passar nem vento naquele Brasileirão que deveria ter ido para o Parque São Jorge.

Santos é cidade praiana e tem muitos turistas. Porém, o mais famoso dos Bolaños esteve na praia e é muito lembrado por causa disso. Será que o equatoriano também será? Vejamos qual o prognóstico do periódico esportivo:

Chaves foi a Acapulco, já Bolaños, está perto de se firmar no litoral paulista. A diretoria santista ainda não o confirmou como novo reforço, mas o jogador já está confiante de que poderá passar a temporada perto da praia.

E o que dizer do quase rebaixamento do time da Vila Belmiro no Brasileirão de 2008, bem como o drama que isso ocasionou?

O meia chegaria ao clube para apagar a má campanha do ano passado, coisa que nem o Chapolin conseguiria evitar. O time lutou contra o rebaixamento até a penúltima rodada do Campeonato Brasileiro e se livrou após dois empates por 0 a 0 seguidos, contra Atlético-MG e Náutico. Falta de astúcia parecida com a do herói de vermelho e marreta biônica.

Sim, mesmo quem odeia o Chaves e adora o time do Pelé em contexto fanático religioso caiu no riso ao ver a comparação das situações. Aliás, talvez o Chapolin, se jogador de futebol fosse, usaria pílula de nanicolina e tentaria reverter o efeito quando estivesse na grande área, para ser o fator-surpresa do time.

OK, pode haver algum torcedor mais fanático que o mais fanático dos integrantes da Al Qaeda (se bem que isso existe em tudo quanto é time) e este poderia roubar um teco-teco e espatifar contra a redação do Lance! só para fazer uma maquete daquilo que vimos em 11 de setembro de 2001. Assim sendo, que façamos um meio-de-campo com os caras e os façamos terminar o dia felizes:

Mas o Santos trabalha para que o clima neste ano seja de alegria, como o da vila em que o barril de Chaves se situa. Só que a Bruxa do 71 está na lateral direita, onde o Peixe só pode contar com Luizinho. Antes que o setor comece a assombrar, como faz a vizinha, a diretoria busca alternativas. A última foi o ala Vitor, do Goiás.

Quantos aqui devem ter imaginado o tal Luizinho caracterizado como a dona Clotilde? Olha, terei de procurar uma foto do cara para imaginá-lo com um chapéu antigo e um birote, mas já o estou imaginando previamente. E, claro, o cara que planejava o tal atentado já deve ter caído na gargalhada e desistido de tal atrocidade.

Pergunto-lhes: o fato de fazer um paralelo tirou a força do conteúdo informativo da matéria? Acho que não preciso responder o que acho. E vocês, o que acharam?

Em tempos: o Bolaños da LDU chama-se Luis. Ao ver o link da matéria, vi que tinha uns corneteiros de plantão xingando o cara. OK, há pessoas que são pessimamente humoradas mesmo, mas será que o jornalista quer mesmo esse tipo de leitor quando está falando de esportes? Já disseram que o futebol é, das coisas menos importantes, a mais importante. Fico aqui pensando com que cabeça vão esses que chiaram com o texto em questão.

Infelizmente, vi gente que é tão ou mais blasé que a jornalistada que os acha idiotas a princípio. OK, há um certo grau de fanatismo em alguns comentários, mas mesmo assim, a matéria conseguiu o mais importante de tudo: não deixar ninguém indiferente.

PS: Aceito comentários que discordem da tal matéria, contanto que sejam respeitosos e falem totalmente da matéria. Qualquer argumento ad hominem, seja contra o escriba deste blog, seja contra o cara que escreveu a matéria não será publicado. O mesmo vale para aqueles que vierem com alegaçõezinhas batidas de que o Lance! seria jornal deste ou daquele time, posto que desprovidas de bases e provas sólidas. A eventuais fanáticos quase al-qaedistas como uns que vi na lista de comentários do link da matéria, aviso que os comentários aqui são pré-moderados, seus IPs aparecem aqui e fica relativamente fácil para saber quem são, em qualquer coisa. Comentaristas que sejam minimamente gente, podem ficar à vontade neste espaço, que também é de vocês.

PPS aos corneteiros sem-humor de plantão: vocês ficarem reclamando de tudo quanto é matéria diferentinha que se faz é uma das causas dos textos enfadonhos que vemos em boa parte da imprensa brasileira. Parem de reclamar e verão outros textos interessantes ganharem espaço e o prazer de ler uma boa matéria retornar.

Esta postagem talvez fale mais alto para quem for jornalista ou estudante e, mais ainda, viva o cotidiano das redações.

Já pararam para pensar que o oleitorismo é uma das piores formas de preconceito que existe? Pior porque perversa, ao generalizar o conjunto do qual cada um de nós faz parte e criar uma figura que nenhum de nós é ou será. É também o mais democrático dos preconceitos, atingindo as pessoas independente de cor de pele, sexo, crença ou outras qualidades alvos de discriminação. Eu sou “o leitor”, você é “o leitor”, meus colegas de profissão são “o leitor”. E no caso dos jornalistas é ainda pior, pois quando dizem que o leitor não entende ou não se interessa por determinada coisa, acabam dizendo que eles também não se interessam por ela ou, pior ainda, dizendo subliminarmente que eles próprios, jornalistas, não se interessam por aquela coisa.

É forma de censura velada. Imaginem se você quisesse porque quisesse ver naquilo que lê uma matéria sobre um assunto que muito se interessa, por gostar daquele meio e da maneira como aborda um assunto. Você chega até a mandar uma mensagem para a redação falando do assunto. Porém, é muito provável que olhem para ela com desprezo e sequer abordem na reunião de pauta. Por quê? Porque, como sabemos o leitor não se interessa pelo assunto. Mas peraí, você não é o leitor? Então como ousou ter interesse? E por que quis romper isso? A punição não é pau-de-arara, nem choques nas partes íntimas ou empalamento. É a continuação dos textos que te tratam como criancinha, dos títulos óbvios e das fórmulas mais que batidas.

E pode acreditar que sofrimento não gera revolta, mas apatia. Sim, meu caro, para qualquer um aqui, jornalista ou leitor. Ao jornalista, quando se cansa de bater de frente e começa a ficar quietinho, uma vez que precisa manter o emprego e a sanidade mental fora do trabalho. Afinal, nessa lógica, não vale a pena ficar batendo de frente quando o assunto é levar comida para casa. Também não valerá a pena ficar discutindo com o colega obtuso na parte de cima da cadeia hierárquica, pois ele continuará obtuso e, se não o for, é muito provável que seja subordinado a um obtuso. E que poder tem esse alguém quando não é dono do meio e muito menos tem possibilidade de ascensão, uma vez que lhe falta obtusidade?

No caso do leitor, ele continua a adquirir informações por aquele meio sem questioná-las por saber que os outros também o tratarão de forma mais ou menos semelhante. E em certa parte, por haver dinâmica semelhante à do vício. Alguém já conversou com um fumante inveterado sobre os malefícios de seu hábito? Nem é preciso dizer que ele vai querer ou mudar de assunto ou brigar contigo. No caso do leitor, não chega a esse ponto, mas há o lance de a cabeça ser moldada por aquele meio, a ponto de ele ficar ligeiramente cego para o que há lá fora.

E vício também há nos jornalistas oleitoristas, uma vez que fecham para si que quem os lê é de um determinado jeito e qualquer coisa que significar uma mudança tem de ser punida sumariamente, isso se não significar soltar os cachorros para cima de quem a propôs. E garanto que os oleitoristas são muito, mas muito difíceis de serem convencidos do contrário. Tornaram-se algo tão orgânico dos meios que parecem viver em simbiose com eles.

Também noto uma certa ligação desse preconceito democrático com os preconceitos que atingem grupos específicos. Alberto Dines explica isso melhor do que ninguém:

A idéia de que leitoras só se interessam por superficialidades e mundanidades é terrivelmente injusta e preconceituosa, porém condenada à clandestinidade – tabu. Nenhuma jornalista ou colunista ousaria propor uma discussão sobre o assunto numa reunião de pauta. Nenhum jornal ou revista encomendaria uma sondagem a respeito. E, no entanto, quando as tiragens começam a cair a solução mais comum é apelar para a mulher e insistir na tal da “leveza”.

Sim, a apatia gerada pelas estruturas que insistem em ter uma visão de mundo gestada na redação e que o exterior só serve para que ela seja confirmada, independente se contestada na primeira esquina, chega a um ponto que se torna algo sobre o qual não se deve falar, sob pena de quem ousar fazer isso ficar marcado pelos outros. E é mancha praticamente indelével, pois poderá significar a inempregabilidade do jornalista no futuro próximo, caso queira uma determinada vaga. E como já dito antes, jornalista é um trabalhador como outro qualquer, que usa suas capacidades para conseguir uma remuneração que lhe garanta vida minimamente digna.

Diga diretamente que X é burro, idiota e cretino por ser X e ganharás um processo daqueles por preconceito. Porém, diga que o assunto Y não interessa a X porque ele enquanto leitor não quer saber dessas coisas e dirão que você é o melhor jornalista e preocupado com as demandas e necessidades de X. Porém, perguntaram mesmo para X?

Como já se falou aqui em outra ocasião, há horas em que impor ao brasileiro a maneira americana de se referir às pessoas pelo sobrenome acaba gerando problemas, como ocorre neste texto sobre a Mega-Sena:

 Concurso 898 da Mega Sena: advogado é preso em SC

A polícia prendeu na sexta-feira, 14, em Santa Catarina, um advogado acusado de tentar extorquir R$ 7 milhões do empresário Altamir José da Igreja, um dos ganhadores do concurso 898 da Mega Sena, que pagou R$ 27 milhões. Segundo a Agência Estadual de Notícias do Paraná, o delegado adjunto da cidade paranaense de Toledo, Pedro Fontoura Ribeiro, gravou uma conversa com o advogado e procurou a delegacia nesta semana para denunciar o caso.

“O advogado dizia que tinha influência com autoridades e que poderia conseguir a liberação da conta”, contou Ribeiro à agência. O advogado deve ser transferido para Toledo ainda neste fim de semana. Um dia antes da prisão, a 4ª Câmara de Direito Civil do Tribunal de Justiça liberou parte do prêmio, R$ 4 milhões, para Igreja. O resto do montante continua bloqueado desde setembro deste ano por conta da alegação do marceneiro Flávio Biassi, que defende ser o verdadeiro dono do bilhete premiado.

“Liberou parte do prêmio, R$ 4 milhões, para Igreja”? Se alguém olhar apressadamente, poderá achar que foi a Igreja Católica que ganhou o prêmio. E isso geraria uma contradição daquelas na cabeça do apressado, afinal, jogo de azar é algo que não coaduna com o que está escrito na Bíblia. Não seria mais fácil ter falado “Altamir”? Ou será que o orgulho de querer impor algo alienígena a nosso país falou mais alto?

A despeito das piadinhas que sempre são geradas quando falamos de nosso vizinho de fronteira, em alguns detalhes o Paraguai supera em muito o Brasil.

Um deles é o aprofundamento da mídia. E olha que falamos de um país tão pobre quanto o Brasil e talvez com gente tão ou mais maciçamente ignorante que a nossa.

Abra um caderno de esportes por lá e vai tomar um susto de ver que todas as divisões, sem exceção, têm cobertura pela imprensa de lá. E mais que isso, há tabelas e mais tabelas dos campeonatos. Ué, mas não é o leitor que não se interessa por essas coisas?

E olha que falamos de futebol, pois como sabemos, na política, as coisas são um tanto mais passionais na América que fala espanhol…

 

Alguns chamam o cantor Odair José de repórter musical. O motivo não é mais justo: o cara sabe dar voz em suas canções a pessoas que jamais a teriam ou a tiveram. E também desnudava uma realidade que a censura e o próprio povo insistia em esconder. Era useiro e vezeiro da linguagem de fresta, principalmente em uma época em que a censura era não só política como moral. Sim, para os milicos, não existia oficialmente aquele lance de o casal fazer “bobiça” atrás da igreja. E, claro, como bem sabemos, o ouvinte de suas canções nada sabia do que ele queria dizer com aquelas letras que não mencionavam o que ele queria dizer…

Depois de Gonçalves Dias, ele é o homenageado do blog para mostrar o que aconteceria se ele fosse jornalista na imprensa brasileira de hoje.

Olha… A primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair (aqui onde? Favor especificar aonde o declarante foi)
Eu vim em busca do amor (se ele veio para se distrair, como ele pôde ter vindo em busca do amor? O leitor não acredita em amor de balada…)
Olha..
Foi então que eu te conheci
Naquela noite fria
Em seus braços
meus problemas esqueci (abraçou? Consolou? Trepou? Favor especificar. Nosso leitor não tem como saber o que o personagem fez)

Olha…
A segunda vez que eu estive aqui (aqui onde? Caramba, é preciso responder direito ao “onde” das sete perguntas)
Já não foi pra distrair (eliminar o “distrair”, pois é repetição de palavra)
Eu senti saudade de você (“eu” é muito demonstrativo de arrogância. Pode ficar ofensivo ao leitor)
Olha…
Eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais lhe esquecer (esquecer a quem? Favor especificar, até para que o leitor saiba quem é a/o inesquecível em questão)

Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar? Da lanchonete, do frigorífico? Favor especificar)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“tirar você” e “levar você”. Favor corrigir para “tirá-lo/a” e “levá-lo/a”, isso antes de, é claro, dizer quem é o “você”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim. O leitor pode pensar as mais diversas coisas e temos de ser bem específicos)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa
O que os outros vão pensar (repetição desnecessária e que torna o texto ainda menos informativo)

Eu sei…
Que você tem medo de não dar certo (medo de que não dar certo?)
Pensa que o passado vai estar sempre perto (favor especificar que passado é esse)
E que um dia eu posso me arrepender (arrepender de quê?)
Eu quero
Que você não pense nada triste (o que é triste para uns é alegre para outros. Vamos respeitar a opinião do leitor)
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer (e os crimes passionais? Favor mudar este trecho)

Eu vou tirar você desse lugar (de que lugar, porra?!)
Eu vou levar você pra ficar comigo (“levar você” de novo? Você é o quê? Agora só falta dizer “mim faz”)
E não interessa
O que os outros vão pensar (arrogante o senhor, hein?)
Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo (leva este texto para ficar contigo)
E não interessa
O que os outros vão pensar (interessa sim o que penso. Fora daqui com esse troço)
Eu vou tirar você desse lugar (claro. Vai tirar da minha mesa para nunca mais eu o ver)

Realmente sou obrigado a concordar com o Luciano Martins Costa mais uma vez, como dá para ver neste artigo no Observatório. Seguem abaixo algumas frases importantes:

“Se os editores não movem seus corpinhos para fora das redações, em busca do conhecimento onde ele se manifesta, seguiremos tendo que encarar reportagens levianas, embasadas em crendices e preconceitos.”

“Limitados ao trajeto entre suas casas e as redações, os editores ficam longe dos lugares onde a inteligência se manifesta. Como se tivessem que carregar um fardo pesado nos glúteos, preferem o conforto de suas cadeiras às platéias dos eventos onde o Brasil ainda se pensa. Sempre se pode dizer que a agenda dos editores é complicada, que falta tempo até para conciliar a vida profissional com a necessidade de dar atenção à família. Mas a agenda se torna mais flexível em outras ocasiões, muito especialmente no final do ano, quando as grandes empresas promovem jantares e almoços regados a vinho de qualidade, com direito ao tradicional jabaculê na saída.

Na mesma semana em que se realizava o debate na Fiesp, muitos editores e colunistas foram vistos em alegres confraternizações com executivos de empresas anunciantes, onde tinham que suportar algumas maçantes apresentações sobre resultados financeiros e ações filantrópicas, em nome do bom relacionamento. Claro que relacionamento faz parte, mas não é tudo. Nem só de jabá viverá o jornalismo.”

E isso porque estamos falando de uma coisa importante, que são os mais de 40 milhões de processos para pouco mais de 14 mil juízes. E também as 2,6 milhões de leis que existem neste país e permitem interpretações das mais diversas. Costumo brincar com o pessoal dizendo que, dependendo de quanto um determinado advogado receber de seu cliente, ele consegue até mesmo provar que a Constituição é inconstitucional, baseado na própria Carta Magna.

Pois é, gente, quantas notícias capazes de mudar muita coisa para melhor estamos perdendo por causa dessa insistência em não querer deixar os jornalistas irem ao encontro da notícia sem um telefone criando dificuldades para vender facilidades? Apenas serei obrigado a discordar do Luciano em uma coisa: paira a espada de Dâmocles da demissão sobre o jornalista que quiser ir à rua. Aliás, é o perigo da demissão que emperra o jornalismo brasileiro, por melhor vontade que tenham os jornalistas. Sim, isso mesmo que lêem.

É algo de que se esquecem os jornalistas que consideram seu ofício algo assemelhado ao de escultores, filósofos e artistas em geral, e não uma profissão regulamentada. E é esse tipo de mentalidade que vai continuar estimulando o embutimento…

Antes de tudo, leia este texto antes de ler este. Leu? OK, podemos então começar a falar por aqui.

Como podem ver, Luciano Martins Costa desce a lenha na imprensa brasileira como um todo. Não fala nomes dos faltosos, até por saber que é fenômeno generalizado nas redações locais.

Observem um detalhe importante: o site de um movimento, que tem obrigatoriamente um viés mais tendencioso, uma vez que precisa defender uma tese, fala de um assunto com mais detalhes e profundidade do que a imprensa brasileira em geral. Sim, isso mesmo que estão lendo: se estão querendo ler algo interessante, terão de se dirigir a vieses teoricamente viciados na origem, pois estes são mais inteligentes que os supostamente isentos e que vêem os muitos lados da questão. E isso é problemático.

Assim como boa parte de nossos jornalistas têm cabecinha de linotipo e insiste em usar pirâmide invertida nos tempos da composição eletrõnica, a imprensa em si não avançou no debate dos assuntos mais corriqueiros, envolvendo ou não política.

O cara fala de coisas interessantes, como a obsolescência dos discursos direita X esquerda e do quão reféns ficam os leitores que querem debater e não conseguem aprofundar um assunto.

O cara versa sobre vários assuntos, como a caixa-preta do sistema bancário da Suíça e a ação de estado que transformou Espanha e Portugal em países de Primeiro Mundo e a não-comparação que a imprensa pratica quando o assunto é falar de ações parecidas na América do Sul. Não entrarei aqui em méritos políticos, até porque este blog fala sobre a postura da imprensa em relação às capacidades do leitor. Deixarei que os que analisam a imprensa sobre o viés político façam essa parte, pois creio que farão melhor que eu.

Analisando sob a ótica deste blog, posso falar sobre os tais textos superficiais, não só sobre assuntos do dia-a-dia, mas também na imprensa especializada. Na automotiva, quando se ouve de jornalistas que “o leitor nem sabe quais as rodas que tracionam determinado carro”, isso é ser superficial. E quem perde, se não o leitor, que não terá substratos adequados?

“Ah, mas o leitor não entende essas coisas. Imagina se eu vou pôr um professor da USP na minha matéria? O cara vai falar um monte de coisa complicada e a maioria não vai entender nada” cai na mesma esparrela. Dá para se falar do buraco na rua, sim, mas se você falar que buracos na rua são causados da base sobre a qual o asfalto é aplicado, você está aprofundando adequadamente. Se você mostra a comparação da vida média do asfalto na Europa (40 anos) com a do Brasil (10 anos) e que lá na Europa usam mais camadas de areia e brita antes de pôr o pretinho propriamente dito, você está se aprofundando no assunto. E todo mundo entende direitinho que mais camadas significam mais proteção contra intempéries. Senão, ninguém mais caprichoso daria duas ou três demãos de tinta em uma parede, pois seriam absolutamente desnecessárias.

Por isso, não duvido mesmo que o superficialismo na imprensa brasileira esteja ligado diretamente ao fato de ela não se aprofundar nos assuntos. Pare para pensar agora em quantos textos no seu jornal ou revista preferido te prendem realmente a atenção, uma vez que foram feitos de uma forma diferente e ao mesmo tempo envolvente. Quer um minuto para pensar? 60, 59, 58… Pensou agora? Agora diga-me um texto que você se lembra e que está escrito em pirâmide invertida ou efeito champanhe. É só ir no bate-pronto e pousar o dedo em qualquer página, seja física, seja de internet, pois é uma porrada deles.

E um texto bem escrito também estimula a inteligência do leitor. Ele pode até não entender em um primeiro momento, dependendo do assunto. Motivos para celeuma e falar que não se pode escrever nada por ele não entender? Não, até porque cada leitor é um, com um conjunto de fortes e fracos diferentes. Porém, se o assunto interessou ao cara por estar em um texto bem escrito, ele fará questão de ler de novo. E até reler mais outras tantas vezes no mesmo dia. Porém, o texto bem escrito o capturou. E não é uma isca industrializada que tem de ser criada de uma maneira padronizada porque é daquele jeito que uma determinada espécie de peixe vê. Estamos falando de gente. E gente gosta quando nota que se pôs um talento em cima. E é o talento em cima que também puxa gente para um determinado assunto.

Sim, o leitor entende até mesmo o que é a teoria das cordas espaciais e a matéria escura que domina o universo. E também se interessa muito sobre ela. Basta escrever de maneira que o prenda àquelas linhas em um espaço predeterminado. E durante essa prisão, você o vai informando de maneira a ele nunca mais esquecer…

 

Como outros aqui, acabo de assistir à inauguração das transmissões digitais de televisão no Brasil. Entre as novidades, teremos alta definição, multiprogramação, possibilidade de transmissão móvel sem perda de qualidade e interatividade. Por isso, já teço aqui meus comentários em como esses aspectos poderão combater o otelespectadorismo, essa variação eletrônica do oleitorismo, essa chaga que insiste em presumir que quem acompanha a mídia é incapaz, retardado, supostamente não gostaria de um capricho e um talento postos em cima, entre outras. Seguem meus comentários:

Alta definição: veremos mais detalhes na imagem, tanto que a teledramaturgia terá de mudar cenários e melhorar a maquiagem dos atores, pois o que hoje passa batido, agora será facilmente notado. No caso do jornalismo, a chance de ver mais detalhes na cena vai fazer as pessoas notarem mais coisas ainda. E muitas vezes, coisas que passariam batido. Sim, não será fácil para o telerrepórter e o editor do telejornal quererem dar passa-moleque no telespectador. E também será interessante para forçar as pessoas a notarem outros detalhes outrora edulcorados e eufemizados, como a feiúra das favelas.

Multiprogramação: tudo bem que há o risco de a programação mais levinha ter um monte de audiência quando comparada com a mais séria, mas mesmo assim, poderá ser o fim da ditadura de horários. E isso é bom, pois poderemos ver telejornal e programas jornalísticos a qualquer hora. Talvez também signifique mais empregos para os jornalistas e, assim também o combate aos lugares de trabalho que são o inferno na Terra.

Transmissão digital em movimento sem perda de qualidade de sinal: já pararam para pensar no quão exponencialmente crescerá a audiência da TV? Sim, além de aparelhos portáteis, mesmo um celular, o simples fato de o sinal não cair significará a chance de acompanhar atentamente a TV em qualquer lugar deste país. Também poderá significar uma ajuda muito mais efetiva em problemas das cidades, como congestionamentos. Imaginem o impacto de uma imagem mostrando um congestionamento-monstro em uma avenida ou em uma rodovia e no quanto que a imagem mostrará que é mesmo para ir por vias alternativas. E de alguma forma, vai acabar se associando com o próximo aspecto de que falarei aqui

Interatividade: sim, o Homer Simpson vai mostrar que entende. Mais ainda, as notícias que passam incógnitas à televisão terão de ser mostradas e levar em conta. Portanto, nada de fazer desaparecer um evento mundial de grande monta pelo simples fato de estar em Cuba ou no Irã. Mandar SMS, quem tem celular sabe perfeitamente fazer e provavelmente não terá dificuldade em fazer coisa parecida na TV digital.

Fora isso, passando para o contexto brasileiro, o telespectador interferiria na notícia. Poderá reclamar da qualidade das matérias, poderá acrescentar informações fresquinhas, poderá perguntar de bate-pronto aquilo que não entende. Fora isso, também a chance de o telespectador poder mostrar na cara de seus fornecedores quem ele é e mostrar que quer um bom texto. Fora isso, acontecimentos como as Diretas Já não poderão ser sistematicamente ocultados.

Claro que isso é tecendo um cenário otimista. Há sempre o cenário pessimista que vai ter (e como) de ser levado em conta. É grande, por exemplo, o risco de o trolling se expandir também para a TV…

 Ávido leitor de revistas para homens sofisticados, classe A/B, com nível superior, interessados nas coisas boas da vida

 

Leitora assídua de publicações femininas. Seu principal interesse são os editoriais de moda

Leitor de publicações sobre literatura. Sempre que passa pelas bancas, fica ansioso pelo mais recente número das revistas que acompanha

Extremamente fanático por muay-thai e tudo que sai sobre o assunto

Sim, essa é a proporção do curso mais concorrido do vestibular para a USP neste ano. E adivinha qual é o curso que conseguiu essa proporção? Sim, ele, jornalismo.

E o curso nos últimos dez anos esteve sempre entre os dez mais concorridos da USP. Sim, é de se estranhar algo assim. Por que raios uma carreira em geral mal paga, em que se trabalha muito e com mercado de trabalho saturado é tão concorrida?

Culparei muito a fetichização feita ao ofício. Há muita gente que acha que ser jornalista é ser William Bonner e Fátima Bernardes e que quando se fala a palavra “jornalismo”, imediatamente lembra de televisão, como se essa fosse a única forma de fazer jornalismo. Provavelmente nunca se darão conta que até por quadrinhos dá para fazer uma matéria, como prova Joe Sacco. Lendo alguns debates, vi que há gente que quer imediatamente jornalismo televisivo. E, aliás, as disciplinas de jornalismo televisivo são justamente o momento em que a turma perde aquela união que tinha até outros momentos e a real personalidade de alguns é revelada. Em meus tempos de estudante universitário, foi exatamente isso que ocorreu. Via gente jogando arrogantemente pauta no colo do outro e na única vez em que fui editor-chefe, eram tantos egos juntos que não consegui chefiar nada.

E lendo ainda mais alguns debates a respeito, vejo que muitos só vão cair na real depois que se formam e constatam que o mercado de trabalho está saturado, que por mais talentoso que se seja, não se consegue sequer ser chamado para entrevista e por aí vai. E aí, lá vão eles tentar outros cursos. E o pior de tudo isso é ver gente que conheço, talentosíssima, que está fazendo curso em outra área e que provavelmente jamais voltará a pôr os pés no jornalismo. Sim, estamos perdendo gente boa, que gosta de jornalismo, mas se cansou de ver tanto medíocre na área. Gente que já vi na minha frente chorar ao contar sobre o inferno que era o ambiente onde trabalhava. E olha que a pessoa em questão trabalhava em meio da grande imprensa, com uma infra-estrutura fenomenal e salário até que razoável.

Em que pensarão esses 41,63? Observem que não são 42, o que me faz crer que, sim, há alguém tão lesado, mas tão lesado, que pode ser considerado como 0,63 pessoa. Mas o que levará as outras 41 pessoas inteiras a procurarem uma vaga de jornalismo?

Ouvi primeiramente essa notícia nesta segunda-feira, em meu frila no Agora São Paulo, conversando com o motorista que me levava para um destino. A surpresa da quantidade de candidatos para a vaga logo me fez pensar alto um pouco. Porém, a surpresa do pensamento alto foi a de que a telepatia também foi alta e logo o motorista começou a conversar a respeito. Falava ele que tem visto uns jornalistas recém-formados bem dos nojentos, que se acham um monte e que querem os outros a sua disposição. Falou até de umas tretas que teve com esse tipo de gente.

Já em outros casos, é o clássico caso de criados a leite com pêra e ovomaltino que tanto se proliferam no ambiente profissional. Como moderador de fórum de jornalismo, sei muito bem do que os afrescalhados são capazes. Fale para eles tomarem um cu-de-jegue (cachaça com sal e limão, popular em Alagoas) e logo os verá dizendo que você é um mal-educado, grosseiro, indelicado e por aí vai. Em alguns momentos, chego a pensar até que a Roberta Close é mais macho que muito marmanjo reclamão que lá vejo. Peça para eles cumprirem as regras do fórum e, pior, vai vê-los dizendo que você está desrespeitando a democracia, as liberdades de imprensa e expressão e blablablá. Nada que uma boa descompostura no dito cujo não dê jeito. É gente que até sabe ler, mas não decodifica corretamente qualquer coisa mais longa que um letreiro de ônibus e que, quando fazem besteira decorrente dessa leitura diagonal, logo vêm querer brigar contigo.

E logo me pergunto se o oleitorismo poderá ser fortalecido, pois alguém que age arrogantemente com gente no convívio social pode muito bem agir assim com gente que nunca viu. E quem é que ele nunca viu? O leitor, é claro. E lá irá o cara escrevendo para na crença total e sincera de que quem lê é um idiota, incapaz, analfabeto, desinformado até das coisas mais elementares, portador de sinapses defeituosas e por aí vai. E estaremos reproduzindo também a mesma espiral que hoje vemos, talvez em versão piorada.

E aí, o que passa na cabeça de cada um dos 41,63 candidatos que disputam uma vaga de jornalismo na USP? Será mesmo que eles querem jornalismo de uma maneira sincera ou como trampolim para fama? Conseguem se imaginar pondo o pé na lama ou só querem um mundo de socialite? Estão para inovar o jornalismo ou só mesmo para ajudar fortemente na perpetuação das velhas fórmulas batidas? Com a palavra, eles.