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Será ele O Leitor, essa misteriosa pessoa falada nas redações?

Há vezes em que fico pensando quem seria essa misteriosa figura que assalta a cabeça de alguns jornalistas e faz com que escrevam textos bem chinfrins, ponham títulos bem óbvios e outras coisas que fazem qualquer um se enfastiar a cada página virada.

Imagino uma pessoa daquelas que só de olhar já dá pena. É alguém tão incapaz que tem de ler duas vezes um letreiro de ônibus para entender o significado. Isso se o coletivo não for embora. É alguém que valoriza mais a imagem que a informação e que prefere ver uma gostosa (talvez nem tão gostosa assim) a saber como pode investir seu dinheiro para ganhar mais ou como pode se informar melhor. É alguém incapaz de pôr o dedo na ponta do nariz de olhos fechados. É preciso sempre estar com o babador em posição, pois ele não é capaz de fechar a boca.

O Leitor que nunca entende nada e sequer se interessa por algo, conforme dizem alguns colegas de profissão, é um cara que se viaja para algum lugar congelado, leva neve na bagagem como lembrança de férias. É alguém que rasga nota de cem reais.

Quando lhe perguntam quem descobriu o Brasil, logo responde que foi Cristóvão Colombo. Ele tenta coçar o cotovelo com a mão do mesmo lado. Tenta lamber a própria testa.

Se lhe perguntam do que é feita a farinha de mandioca, é capaz de responder  errado. E sobre quantos eram os Doze Apóstolos de Cristo? É pedir para travar mentalmente. Pergunte algo mais fácil, sobre quantos eram os três Reis Magos.

O que é aquilo que brilha no céu de noite? Não, ele não sabe o que são estrelas. E você acha que O Leitor vai entender o que são estrelas? E qual a cor do céu de dia? Não, você tem de presumir que O Leitor não saiba nada desse assunto. O que são nuvens? Ô meu, O Leitor não entende esssas coisas. Você precisa deixar tudo muito explicadinho. Quis falar um pouco sobre a história do idioma que falamos, mas O Leitor não vai saber isso e sequer vai se interessar pelo assunto. Também quis falar aO Leitor sobre o porquê das cores da bandeira brasileira, mas me perguntaram com um tom de ironia: “você acha que O Leitor sabe disso?”.

Quem será essa pessoa tão obtusa cujo primeiro nome é O e o sobrenome é Leitor? Procuro-a pelas ruas, mas não encontro. Vejo até mesmo os vendedores de amendoim falando animadamente e com razoável grau de conhecimento sobre política, atualidades e música. Olho para o outro lado e vejo um humilde dono de bar conversando sobre tudo e se impressionando com a última foto do jipinho da Nasa em Marte. Ele até tece um comentário inspirado: “gostaria de ter um carro que se desatolasse sozinho como esse aí dos americanos”. Talvez o jovem de bombeta e moletom saiba me responder como faço para achar O Leitor. Tudo em vão: ele não conhece tal pessoa, mas papo vai, papo vem, ele me diz que está louco para arranjar MP3 do Tim Maia na fase racional para ouvir em seu iPobre. Recomendo-lhe o Soulseek.

Decepcionado, volto para casa, me sentindo o maior dos idiotas. Talvez mais que O Leitor.

 Ou será ele O Leitor?

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