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 É, papito! Já distorceram o que você disse uma vez, man!

Se há algo que me enfurece no jornalismo é distorcer declarações. Já fui fonte de matéria e qual não foi minha raiva de ver que atribuíram a mim algo que nunca disse? OK, jornalistas são humanos, mas nossas fontes também o são, salvo se forem extraterrestres, mas não entrarei neste ramo, preferindo deixá-lo aos colegas da UFO, que são mais abalizados.

Esta postagem é, de certa forma, continuação da anterior. Relatarei um caso que pude testemunhar ao menos em parte. Em 2000, naquele fervo das eleições municipais, resolveram fazer no Programa do Jô uma entrevista com Marta Suplicy e no mesmo programa emendar uma entrevista com seu filho Supla.

Entra o papito em uma bela Harley com aquele seu visual de sempre. Recém-egresso de um bom tempo morando nos Estados Unidos, eis que o Rei dos Piores Clipes conta uma história pra lá de engraçada: a vez em que ele disputou campeonatos de futebol amador para um time de Nova York e a cada partida disputada, ganhava uma ajuda de custo. O time em questão era apadrinhado por um colombiano da pesada, mas que o músico nunca viu na vida. Para receber o dinheiro, ele ia a um determinado endereço e batia na porta. Disse o Charada Brasileiro: “eu batia na porta, e recebia o dinheiro em um envelope branco”. Era simplesmente hilário, dada o inusitado de tudo. 

E na Veja que saiu no sábado daquela semana, na seção de frases, pegam exatamente aquela frase que ouvi in loco e que milhões de brasileiros ouviram na televisão e editaram para algo como “recebia o dinheiro em sacos brancos”. Não é preciso dizer que associação se pode fazer entre um colombiano da pesada e sacos de cor alva. Porém, o papito, geração saúde como sempre foi naquele visual pesado, nunca pegou sacos de cor branca, mas envelope!

E essa é um exemplo extremo da distorção nossa de cada dia. Uma coisa é adequar uma declaração para um determinado espaço. Já outra é descaracterizá-la. E com isso, vão-se as nuances da fala do entrevistado. Uma vez, já me deparei com gente que implicava com uma fonte cuja declaração iniciava-se com “primeiramente”. Dizia a pessoa em questão: “ninguém fala assim”. Logo, leia-se, a fonte era ninguém e, como tal, indigna de estar naquela matéria. E com isso, perdemos aquelas coisas típicas de uma localidade ou de uma pessoa.

Claro que não é para chegar ao extremo de se tripudiar da fonte, como publicar palavras que revelem ela ser ignorante por falta de oportunidade de estudo (“nóis fumo”, “nóis vortemo” e por aí vai). Também não se pode ridicularizar algum estrangeiro com dificuldades de falar nosso idioma escrevendo no texto um ipsis literis do som que ele emite com as palavras (já vi isso com matérias falando a respeito de pessoas nascidas em países vizinhos). É tratar de ser justo com todos.

Há sempre o risco de ficar aquele algo padronizado. Será que o mesmo ninguém que não fala “primeiramente”, se for nordestino, não falará “aperrear”? E se for paraense, não soltará um “pai d´égua”? Isso porque estamos falando de regionalismos bem generalistas. Porém, temos também de levar em conta as especificidades da fala de cada um. É também uma forma de transportar o leitor para dentro de nossos textos, uma vez que as pessoas falam diferente e é essa diferença que atiça a curiosidade. Vide o sucesso que Pelé fazia na Suécia de 1958, uma época em que era mais difícil ainda que agora de ver um negro por aquelas bandas. Um amigo de meu irmão conta o caso de uma amiga de seus pais, filha de japoneses, que foi morar na Bahia há mais de 30 anos. O pessoal chegava a pará-la na rua, tirar fotos com ela, de tão diferente que era tal presença na mais africana das unidades federativas nacionais. Como podem ver, nada que envolva preconceito, mas a simples curiosidade.

Já vi também implicarem com construções textuais assemelhadas ao português de Portugal, e isso porque proferidas por descedentes de portugueses, mas perfeitamente inteligíveis a qualquer brasileiro sem origem lusitana, uma vez que eram construções textuais, mas usando palavras perfeitamente normais em qualquer parte do Brasil. É um valor cultural que faz parte de quem declara. E não é nada estereotipado…

Fico aqui pensando como seria se o Mestre Yoda existisse na vida real e fosse entrevistado e desse suas palavras de sabedoria. Talvez um “povo muito preocupado com picuinhas fica” iria se tornar um “povo fica muito preocupado com picuinhas”. Porém, a graça do Yoda é justamente a anástrofe soltada aos borbotões…

De Yoda declaração dada não distorcerão. Se distorcerem, feliz que do lado negro da Força Mestre não está. O mesmo com Anakin Skywalker impossível é fazer.